Estávamos na frente da chácara onde seria a festa que Soraia nos prometeu. Por ter amizade com o organizador, ela conseguiu uns convites para a gente. Mas é claro que tentamos pagar, mas ela não aceitou nosso dinheiro. Eu vim toda basiquinha, de calça jeans e blusinha, uma bota e chapinha no cabelo, já que ele acordou todo rebelde. Soraia veio de saia e uma blusinha bem confortável. Bom, era o que parecia. Carla veio ao ataque. Ela veio com estampa de onça.

—Criatura, volte para a floresta e traga o bom senso que você esqueceu lá!

—Deise, não enche! – Gritou ela no banheiro enquanto passava o batom. A festa mal tinha começado e ela me fez questão de borrar o bendito vermelho no rosto. Parecia uma palhaça. Milena não veio, estava em mais um retiro. Ela esperava não encontrar nenhum escorpião ou serpente misteriosa. – Amiga, está exagerado?

—O único exagero aqui é o tempo que você usou para passar isso. Vamos dançar criatura! – Quando voltei para nosso grupo, estavam Carlos e Zé Antônio, que chegaram logo que a gente saiu. E, pessoas do meu coração, o que dizer de roupa de homem? Eles nunca inovam: é uma camiseta, uma jeans justa que amassa tudo e um sapatênis bem brega.

—Eu já esperava esse padrãozinho do Carlos, mas você Zé? Cadê a representatividade do vale?

—Você queria que eu viesse do quê? Saia de samambaia e camiseta de palmeira?

—Eu que vou dar uns tapas nessa sua cara de pau.

—Minha nossa senhora, temos a onça e a samambaia, será que eu posso te chamar de flor? – Um cara chegou perto de mim. Só não sabia o que era pior: o bafo de álcool que ele já tinha ou essa cantada horrorosa.

—Isso, me chama de flor e me enterra para eu ficar longe de você! – Abanei a mão para ele ir embora. – É cada uma que me aparece.

—Nossa, aquilo foi uma cantada?

—Olha para a minha cara de quem ficaria com aquele embuste. A festa começou que horas? Ele já está cheirando muito álcool! – Precisei gritar porque a música estava muito alta.

—Deve ter ido a um bar antes de vir para cá!

—Mas não é open bar? Por que ir a um esquenta? Fica mais caro. O bom é que a gente não tem a pulseirinha que valida o bar. Vamos ter que ficar na água. – Precisamos dar exemplo para os menores. – Falando em água, estou com sede! E cadê a Soraia que não aparece?!

—Deise! – Pulei quase no colo do Zé por causa do susto.

—Vai assustar a avó! Assombração!

—Estão gostando? Se tiver sucesso, haverá uma segunda edição. – Olha, eu não vou ficar dando ênfase na voz desse povo, já que estão todos gritando. É só imaginar estar em uma festa com o som nas alturas que você entenderá como estamos nos comunicando.

—Deixa essa acabar primeiro e vamos ver o que achamos dessa festa. Esse DJ poderia mudar um pouco essas músicas. Estão uó esses eletrônicos repetitivos.

—Nossa, será que hoje vamos ver o Zé descer até o chão escutando uns "Aplausos", ou será que será com "Isso é para mim?".

—Deise, se acalme. Não crie muitas expectativas.

—Ai fofo, queria você todo jogado no brilho. Será que é pedir muito?

—Numa festa onde só tem macho chato? Acho que sim.

—Querido, deve ter uns boys para você dar uns beijos.

—Deise!

—Aff, não quero te empurrar para ninguém, mas se precisar, a tia ajuda.

—Uau, você se chamando de tia? Será que é hoje que o mundo entra em colapso?

—Ué, sou quase uma tia para vocês. Sem mim, uma estaria chorando por um boy tonto, a outra ainda estaria correndo atrás do boy atual e esse aqui estaria a quilômetros do glitter.

—Ela bebeu, não bebeu? Nunca a vi desse jeito!

—Efeito "Party". Ela solta a adolescente louca quando vai a uma festa. É daqui para pior.

—Carla, minha amiguxa, nem vem acabar com minha imagem.

A festa continuava rolando e a música estourando em nossos ouvidos. Zé Antônio se rendeu e começou a fazer umas coreografias comigo e com Carla. Ele arrasava naquele tênis branco com tiras azuis. Do nada, os dois desaparecem e eu fico sozinha em um canto. Soraia e Carlos estavam aos beijos mais ao longe, não me aproximei porque não tenho cara de castiçal para segurar vela. Eu via as pessoas indo e vindo, vez ou outra uma pessoa conhecida parava e me perguntavam como eu estava, como o pessoal estava. Fiquei triste um momento. Nisso, outro garoto apareceu em minha frente.

—Nossa, gatinha, por que está triste? – Ele foi aproximando a boca da minha. Por sorte, consegui empurrá-lo para longe.

—Isso são lágrimas e isso são unhas, as mesmas que eu vou usar para amassar essa sua cara!

—Nossa, que mina doida!

—Isso, me chama de doida! Vou para o hospício, mas te deixo antes no hospital!

—Deise, se acalme! – Zé se aproximou de mim. Ao aparecer, ele e o amigo se afastaram, levemente preocupados. – Tome um pouco de água. Vai te fazer bem.

—Nossa, obrigada Zé. Cada macho chato, caramba.

—E você está triste por quê? – Ele se afastou um pouco e manteve os olhos em mim, somente em meus olhos. É difícil? Ser homem desse jeito? Não é porque choramos que somos frágeis, não é porque ficamos irritadas que somos doidas, loucas. Sou assim, forte. Se não, esse mundo nos massacra.

—Sei lá, a falta que ele faz...

—Eu sei, também sinto o mesmo e viemos aqui para relaxar, descontrair. Ficar com essa cara de morta-viva só vai trazer mais tristeza.

—Tudo bem. Vamos achar a Carla e vamos voltar a dançar! – Ela estava na fila do bar para pegar uma água com gás. Um garoto parou com ela e ficou conversando. Eles mantinham certa distância, assim como Zé ficou de mim. Eles ficaram conversando por um bom tempo. Ele tinha a mesma altura que Carla, mas era bem mais fortinho. Os cabelos lambidos tinham um pouco de gel de cabelo e os olhos variavam de cor com as cores das luzes da festa. – Acho que perdemos a nossa amiga. Vamos achar Soraia e Carlos e ficar perto deles. Não estou afim de ficar de vela deles.

Ao acharmos o casal, ainda estavam nos muitos beijos. – Nossa, vão ficar com a boca assada desse jeito.

—Deise, deixe os dois. Nunca os vi desse jeito.

—Eu já. Veja o vídeo de dois animais se atacando. Aquilo é o resultado.

—Você não presta!

—Eu vim ao mundo para causar, se fosse para ser modelo eu tirava uma foto e colava na sua testa.

—Eu preciso ir ao banheiro. Você fica aqui?

—Nossa, quer me pôr na coleira e me amarrar nas cadeiras também?

—Nossa, Deise, que dramática!

—Eu sei que você me ama! – E ele se foi ao banheiro. Cinco minutos depois, estava ele de volta. – Foi rápido!

—E o que você esperava? Que sacrifício para lavar as mãos. Como tem homem porco.

—É que você não viu algumas mulheres. O banheiro feminino está um chiqueiro. Quando vi aquilo, a vontade passou. – Ficamos naquele canto conversando e dançando. Do nada, escuto uma gritaria enorme. Vejo uns adolescentes correrem para o fundo do lugar.

—Nossa, o que aconteceu?

—Parece que tem polícia aí em frente. – Soraia apareceu toda com o rosto amassado, mas o cabelo e as roupas estavam impecáveis. Nossa, até parece que acabou de sair da passadeira.

—Por isso que você veio sem batom, né linda? – Eu não diria o mesmo de Carlos. A calça nem se moveu, mas a camiseta parecia que a vaca tinha mascado.

—Deise, agora não é hora para brincar. Precisamos ir embora.

—Ué, por quê? Não estamos consumindo nada alcoólico.

—Mas a festa não pode menor de idade! – Crianças e adolescentes, ou seja, todos menores de 18 anos: NÃO VÃO A UMA FESTA COM BEBIBA ALCOÓLICA! É UMA ORDEM! E se você já tiver idade, LEVE O DOCUMENTO DE IDENTIDADE, por favorzinho.

—E você nos trouxe para essa armadilha?! Eu quero amassar a sua cara com as minhas unhas postiças!

—Deise, vamos!

—Soraia, o que aconteceu? – Um amigo dela apareceu. Nossa, que homem lindo! Ele tinha um rosto delicado e desenhado, sem barba, cabelos loiros cortados e uma franja presa em um topete lotado de gel. Ele tinha olhos verdes e um corpo todo malhado, bem forte. – Por que aqueles estavam gritando?

—Criatura, tem menor de idade aqui!

—Mas e as pulseirinhas para apontar quem pode beber?

—Ah, é só para provar que vocês pagaram para entrar. – Olhei para Zé Antônio e para Carlos. Ambos conheciam a cara que eu fazia. Meu bico de emburrada fazia curva nesses momentos.

—Fala que tem uma placa em cima do bar que a venda de bebidas alcoólicas é proibida para menores de 18 anos? E que eles estão pedindo o RG desse povo?

—E precisa fazer isso?

—Nossa, o que tem de bonito tem de trouxa! – Eu já estava muito irritada. Meu estômago começou a revirar tanto que achei que vomitaria o que comi no início do ano. – Se meu pai for me buscar na delegacia, eu vou fazer questão de visita-los no IML!

—Nossa, esqueci meu documento! – O garoto que falava com Carla gritou atrás de mim. A boca dele estava toda manchada de vermelho e a de Carla também, mas com uma cor bem mais viva.

Do nada, tudo se acalmou e as luzes da polícia desapareceram. Uma garota conhecida nossa do curso pré-vestibular veio avisar o garoto.

—A polícia só veio pedir para que abaixemos o som. Sorte que o conselho tutelar estava em outra festa do outro lado da cidade.

Aquilo me aliviou muito, mas quase enfartei naquele momento.

—Que bom que você lembrou de pedir ao dono do lugar um documento que mostrava o motivo do uso da chácara!

—Pelo menos isso ele fez direito.

—Deise! – Soraia gritou comigo, mas o garoto pareceu não ter escutado. Sorte a minha. Será que tenho chance? Minhas esperanças morrem até olhar o dedo dele e ver uma aliança enorme no dedo direito. Resultado: ele namora. Dica para a vida: não crie muitas esperanças. Moral disso tudo: se você tiver menos de 18 anos, vá a uma pizzaria. Tenha uma diarreia, não uma cirrose. Não preciso dizer, novamente, o que acontece com quem exagera na bebida; Jonas sabe muito bem disso.

—Nossa, esse caos todo me deu sede. Deise, vem comigo pegar algum refrigerante?

—Vou sim. Ficar aqui vai me fazer virar castiçal desse povo.

Eu estava com sede, mas queria água. Nos fundos do lugar, havia um enorme bebedouro lá. Quando reparo mais ao longe, noto que Carlos e Soraia se dirigiam ao bebedouro. Iriamos para lá depois. Enquanto esperava Zé chegar até o barman e pedir o que queria, dois garotos trombam em mim como se eu fosse um toco qualquer no meio do caminho.

—Nossa, que linda que você é! – Sorri como forma de agradecimento. – Está sozinha?

—Estou com uns amigos. – Um ficou conversando comigo, para não falar que me comia com os olhos, que não se moviam da altura dos meus peitos; o outro falava com Zé Antônio. Eu reparava Zé ficando irritado. Ele tremia as mãos quando estava com raiva. O homem, pois já devia ter mais de 18, se aproximava de mim e começou a me segurar pela cintura. O cheiro de álcool me incomodava muito e aquilo me dava nojo.

—Deise, vem comigo. – Zé colocou a mão em minhas costas e me guiou para longe deles. Antes de irmos, os dois pediram desculpas para o Zé. Não entendi o motivo. No caminho para o lado de fora, aquele garoto do início da festa me puxou pelo braço e tentou forçar um beijo. Senti que um amigo dele ia para atrás de mim para impedir que eu fosse embora. Do nada, vejo uma mão em minha frente e ela empurra a criatura para longe de mim, senti que atrás de mim acontecia o mesmo. – Deise, vamos lá para fora.

Eu me sentia indefesa, não me sentia livre, me sentia presa em uma prisão. Nossa, que raiva! Por que eles fizeram isso?! Eu queria chorar, ainda mais do que antes. Soraia e Carlos, mais uma vez, se beijavam como dois leões em uma briga. Do nada, escuto um soco em algo metálico. Zé Antônio socou o bebedouro. Por causa da música, poucos escutaram.

—Zé, o que aconteceu?

—Nossa, quero voltar lá e socar a cara daqueles caras! Você viu o que eles fizeram! Que bando de estúpidos, escrotos do inferno!

—Zé, se acalma. Só essas palavras aumentaram a classificação indicativa da bagunça toda. – Entreguei a ele um copo com água e um para mim. Precisava muito daquele líquido incolor e puro. – Por que eles pediram desculpa para você?

—Quer mesmo saber? O cara que veio falar comigo disse: "Ou, trombei na sua namorada, me desculpa? Olha, meu amigo está dando em cima dela. Cuidado, ele é bem safado.". Nossa, que raiva! Quero bater nele até voltar para o colo da mãe!

Nunca tinha visto ele daquele jeito. O garoto gentil e simpático se transformou em uma fera raivosa e indomável.

—Nossa! Zé, já passou. Tem homem que é assim. – Eu passei mão na cabeça dele. – Na verdade, eles eram machos babacas que acham que uma mulher gosta de seres daquele tipo.

—Nossa, nem parece que você acabou de passar por um assédio.

Eu ainda estava em choque, era como se tudo o que eu tinha fosse tirado de mim em um único puxão. A vontade de chorar não passou por um longo tempo e ele soube disso. No chão, nós sentamos e ele ficou fazendo cafuné em mim. Nisso, aquele garoto que Carla havia ficado estava conversando com um garoto. Esse era miúdo e magrinho, tinha cabelos bem longos e encaracolados, quase angelicais.

—Amiga, o que aconteceu? – Carla se aproximou. Soraia e Carlos chegaram em seguida e me viram naquela situação. Eu ainda chorava um pouco, mas estava com um sorriso no rosto enquanto Carla surtava. – Está doente? Está bêbada? Está sem noção? Ah, isso você já é.

—Avacalhando bem na minha frente? Quer conhecer papai do céu?

—Só quando eu estiver bem velha e junto do meu amor. – Nossa, quase vomitei com aquele açúcar todo. – Lógico, ele virá em segundo lugar, pois em primeiro em a minha grande amiga. – Passou o enjoo do açúcar. – Esquecendo o choro, preciso falar com o Zé.

Com um empurro, ela me fez ficar em pé e tirou o Zé Antônio de lá. Ao longe, eu a via o apresentando ao garoto mirrado que conversava com o novo ficante de Carla. O que mais me surpreendeu foi os dois indo para um canto levemente escuro. Somente os dois.

—Ninguém me segura, eu preciso tirar essa foto! Meu lindinho vai perder o BV!

—Deise, Zé Antônio já beijou um garoto antes.

—E você chama aquele bitoquinha que seu irmão deu nele de beijo?

—Verdade, tem esse também.

—Eu não chamo aquilo de selinho, eu chamava de azar deles. Não foi com uma frigideira que você acertou a cabeça do seu irmão?

—Nossa, e você lembra disso?

—Fofa, se eu puder, escrevo isso em sua lápide!

—Que horror, Deise! – O DJ mudou de música nesse mesmo instante.

—Não acredito que essa música está tocando! Vão às favas essa foto! Eu quero é dançar! – Não esqueci pelo o que passei, mas me remoer por isso não era a solução. Havia um pouco de pesar em minha mente por não conseguir me defender, mas sempre precisaremos de amigos para isso, amigos que não deixarão nada acontecer conosco, nada de ruim, somente coisas boas. Puxei Carla e Soraia pelo braço que, por sua vez, puxaram o namorado e o ficante. – "Olha lá quem vem virando a esquina..." – E, juntos, nós cinco coreografamos a música toda.