Carla estava solteira há quase uma semana. Eu e ela conseguimos fazer tudo o que não conseguíamos enquanto ela ficava naquele romance "água com açúcar", desde ir ao cinema até ficarmos em casa, vendo filme, enchendo o bucho de sorvete e pipoca enquanto fazíamos as unhas. O problema maior foi na semana seguinte. Estávamos no colégio no instante em que os pais dela mandam a seguinte mensagem: "Como você pode?", o que resultou certo estranhamento por nós, pois não entendemos o que aconteceu. Isso foi logo na primeira aula. As duas próximas, antes do intervalo, foram bem calmas e produtivas, pois Carla começou a estudar de uma forma que eu nunca vi.

Marcelo e Soraia, os inteligentes e esforçados da turma, ficaram de queixo caído com ela anotando e perguntando as dúvidas com os professores, até os alguns ficaram espantados com a quantidade de vezes que ela levantava a mão. Tudo ia bem, nada de ruim poderia acontecer. Mas, como em séries, livros e mangas, nunca diga isso! O intervalo foi estranho, todos nos encaravam e mexiam em seus celulares com tanto afinco e com tanta curiosidade que até nós quase entramos nesse meio.

Estávamos sem mexer no celular durante o nosso tempo na escola para conversarmos mais. Carla que deu a ideia e eu, Carlos, Zé Antônio, Milena e Soraia aceitamos. Carlos e Soraia foram os que mais adoraram, pois eles brigavam muito por celular e por causa dele. Quando o nosso pequeno recesso de vinte minutos estava quase no fim, a diretora apareceu e chamou Carla e ambas seguiram pelo pátio até o final, onde ficava as salas delas. Nossa sala de aula ficava no andar de cima, chegávamos pela escada que havia ao lado da sala da diretora.

Eu, sem ninguém para conversar, peguei o meu celular e liguei a internet. Em segundos, recebo milhões de mensagens e vídeos da Carla nua. Aquilo me chocou tanto que derrubei meu celular. Corri e contei para o pessoal. Aquilo explicava os olhares maliciosos para Carla e as risadas estranhas. Soraia tomou o celular da minha mão e começou a ver tudo. As fotos caíram em todas as redes sociais e nos aplicativos de busca. Provavelmente, minha amiga não sabia o que acontecia.

—Deise, quem fez isso?

—Só pode ter sido o escroto do Rogério! – Era o ex-namorado de Carla que não aceitou o término do namoro, mesmo sendo ele que terminou. Ela não quis voltar, lógico. – Se eu pegar aquele desalmado, arranco o rim com as minhas mãos.

—Calma, não precisamos dessa violência!

—Isso, violência é desnecessária. – Respirei fundo e me acalmei, até o instante que um garoto passou do nosso lado e dizer que arrasaria com Carla na cama. – Quer saber? Vá para os quintos a minha gentileza. – Com raiva, levantei a mão e dei um tapa forte no rosto do garoto, que olhou com olhar chocado e irritado. – Se falar assim da minha amiga de novo, faço sua cara ficar mais amassada do que já é!

—Nossa, que garota louca.

—Calma, cara, é hormônio.

—E vocês vão ver o que é hormônio se ficarem resmungando! – O trio de garotos se afastou. – Ai meu santo. – Sentei no chão, chorando, com raiva dos garotos e do Rogério, com raiva de mim por ser impulsiva. Não precisava daquilo, não podia ter feito isso.

—Deise, fique calma. Não precisa ficar irritada com isso. Eu sei que está com raiva do Rogério, mas não precisa descontar no primeiro garoto que aparecer.

—Ah, mas ele pediu.

—Sim, eu teria feito o mesmo que você fez se falassem aquilo de Soraia. – Carlos se aproximou de mim e de Zé Antônio. Nossa amizade cresceu tanto que fico feliz só de ver aquele garoto. Ele me ajuda tanto, me socorre em tantos detalhes que faltam palavras para descrevê-lo. – Acho que você deveria ir atrás de Carla. Como será que ela está?

—Se soube da história inteira, deve estar arrasada. Os pais dela, provavelmente, a culpam pelo o que aconteceu. – E falei da mensagem que chegou pela manhã, a qual não entendemos nada. – E como ele conseguiu essas fotos? Muitas ela mandou para mim para me mostrar sutiã ou calcinhas que ela queria comprar e eu juro que não mandei para ninguém, até apaguei do meu celular.

—O seu celular ou dela deve ter sido hackeado.

—Se sim, não foi o Rogério. Ele era bonito, mas não inteligente para tal ato.

—Ele deve ter contratado alguém.

—E como vamos descobrir quem foi?

—Olha, eu sei que você não quer vê-lo nem pintado de ouro, mas eu posso conversar com o Lúcio...

—Ah, pode ir falar com ele. Eu super aceito que o ser que tentou me beijar, que espalhou fofocas de mim e sabe sei lá mais o que, nos ajude a descobrir quem hackeou o celular da Carla.

—E você conhece outro gênio da tecnologia que pode nos ajudar?

—Pergunte ao Mark, ele deve ser mais humano que essa criatura.

—Deise, sem zoeiras nesse momento. – Nisso, o sinal soou e o pessoal começou a subir para o andar superior. Carla não saiu ainda e isso me preocupava. Claro, nem eu iria sair em um momento desses.

—Tudo bem, veja com ele, mas sem comentários sobre mim ou qualquer contato que estamos tendo.

Subimos e ficamos apreensivo durante a quarta aula. Felizmente, não demorou muito para Carla aparecer, porém, com o rosto inchado de choro e com a maquiagem toda retirada pelas lágrimas. Ela não disse nada, apenas se sentou e ficou calada e chorando muito. Sem cabeça para estudar, fiquei em meu celular e fuçava em algumas redes sociais. Nisso, me pego stalkeando as páginas de Rogério. Ele ainda manteve a amizade comigo, além de curtir uma foto ou outra. Se tem interesse, pode tirar o cavalinho da chuva!

Do nada, acho uma foto dele e de uns garotos, com a seguinte legenda: "Primos são eternos amigos!". Primeiro, discordo dessa frase porque tenho uns primos que são uó; segundo, um desses primos me chamou atenção. Tirei uma captura de tela para conseguir dar zoom. Pronto, via com alguns pixels a mostra a imagem daquele que havia me colocado em dúvida. Contudo, agora eu tinha a resposta.

—Deise, ele conseguiu descobrir quem foi o hacker.

—E o que ele disse? – Eu me segurava, mas saiu. – Foi ele!? – A voz uníssona minha e de Zé Antônio chamou a atenção de todos, até do professor, que veio averiguar o que acontecia. A minha voz foi de certeza, mas a de Antônio foi de surpresa, assim como Soraia e Carlos, que pegaram o celular para ver a troca de mensagens.

—O que está acontecendo aqui? E guardem os celulares.

—Desculpa professor, mas preciso falar com a diretora. – Puxei Carla pelo punho e corri para a diretora. – Quem sabe a polícia também. – Na saleta pequena, contei tudo o que havíamos descoberto.

—Meninas, eu segurei a Carla aqui para que o pessoal não ficasse em cima dela, mas esse problema tem que ser resolvido na delegacia.

Carla ainda estava inconsolável e nada eu conseguia fazer nada para acalmá-la. Em um tempo desses, nada me faria também. Depois que a aula terminou, saíamos da escola quando um garoto parou minha amiga e a colocou contra a parede, já passando as mãos pelo corpo dela. Eu, ao ver a cena, fiquei com tanta raiva que eu soltei a minha bolsa e pulei em cima do garoto que, assustado, se afastou. Ele tentou partir para cima de mim, mas Carlos e Zé Antônio se colocaram diante de mim.

—O nível de babaquice nesse colégio extrapolou hoje. – Ao pegar minha bolsa, o carro dos pais de Carla estacionou em nossa frente. A mãe dela desceu e foi abraçar a filha, ambas choravam muito. O pai dela já ficou no carro com aquela cara de tonto que sempre tinha, mas de tonto não tinha nada. Provavelmente, culpava a filha pelo vazamento das fotos, como se ela quisesse aquilo.

—Deise, você vai conosco até a delegacia? – Aceitei o pedido da mãe dela e fomos para lá. Liguei para minha mãe ir também, pois ainda era menor de idade.

Tudo ocorreu conforme era o protocolo e a polícia da informática começou a requerer que as fotos e vídeos fossem retirados do ar. Alguns sites responderam na hora, outros demoraram dias, semanas. No final, as fotos foram retiradas ao ar, mas, e os culpados? E aqueles que fizeram o download das fotos? O que serão deles? Terão bom senso de apagá-las?

Bom, somente a foto de Lúcio com Rogério não resultou em nada, ainda mais que não conseguiram provas de que Rogério mandou Lúcio fazer isso.

—E o que será de Lúcio? Ele será deportado?

—Ainda não. O país em que ele está não pode deportar. Portanto, ele ainda não sabe o que aconteceu. Quando chegar aqui, terá uma grande surpresa.

—E ele sofrerá as penalizações corretas? Não quero um showzinho igual ao do caso da prima da Soraia.

—Sim, ele não tem dinheiro com o Alfredo. Ele ficará atrás das grades por um tempo, ou até juntar o dinheiro da fiança.

—O que os pais dele não farão. – A gente se encontrava na escola, era quase sim de junho, semana de provas a vista e um caos de ansiedade e energético para conseguirmos estudar. – Os pais de Carla tem amizade com eles e me disseram isso.

—Nem parece que faz tudo isso de tempo que isso aconteceu.

—Sim, faz tempo, mas ainda Carla tem cicatrizes abertas. Quantos garotos deram em cima dela, ainda mais que eu não estava perto, pois sabiam que eu os atacaria.

—Quer melhor guarda-costas que Deise?

—Carla não merecia esse escândalo na vida dela, só fiz meu papel de amiga, assim como vocês fizeram para nos ajudar e dar apoio moral para ela.

—A diretora falou que entrará um aluno novo na escola em agosto.

—Escutei rumores também. Parece que ele teve sérios problemas na outra escola.

—Ah, mudou para escola errada então. Nunca vi escola ter tanta negatividade como essa.

—Bom, pelo menos, temos amigos e faremos ele se sentir em casa. – Eu me deitei no colo de Antônio, Soraia e Carlos. – Afinal, quem melhor que a gente para fazer o mundo ficar menos pior?