Fazia quase um mês que eu não tirava Marcos de minha cabeça. Eu ia ao cemitério todos os dias para visitar o túmulo dele e dos avós; poucas vezes, eu me encontrava com a mãe dele, mas não trocávamos nada, nem palavras, nem choros nem suspiros. Precisava seguir em frente, assim como ele seguiria caso tivesse acontecido comigo.

Nesse meu desespero de viver sem ele – nem vivemos muito juntos, mas vivemos algo – Carla, minha amiga, me causou um problema que precisei de certa ajuda e vocês vão reconhecer quem foi a mulher que me ajudou.

Quando completou a segunda semana, eu recebi a seguinte mensagem dela: "Socorro! Terminanos!". Claro que ela falava do relacionamento dela e do atual namorado, mas era uma espécie de ioiô, um vai e vem sem parar que até cansa a minha beleza. No domingo, recebo outra mensagem "Voltamos! Não se preocupe!". – Não disse?

Na segunda-feira, o mundo despencou de tal forma que nem Atlas segurava essa. Carla desceu do carro com a cara toda inchada de choro, passou por todos e não cumprimentou ninguém, o que era seu costume de todas as manhãs. Ela seguiu em minha direção. Junto de Zé Antônio e Soraia, conversávamos sobre tudo, ainda mais que na noite anterior ocorreu a transmissão de um show que sonhávamos ir, mas faltou dinheiro.

—Amiga, me ajuda! – Ela deu um grito agudo que atraiu a atenção de todos para nós. Zé Antônio, que não gostava de muitos olhares sobre ele, se escondeu atrás de nós duas. Apesar de ser mais velho, tinha a mesma altura. – Ele terminou comigo!

—De novo? – Não consegui me segurar, saiu sem querer, o que resultou em mais grito e mais choro em cima de mim. Zé Antônio e Soraia, inteligentemente, saíram dali e me deixaram cuidando daquela bomba. – Amiga, me desculpa por ter falado aquilo, mas não deixa de ser verdade. Vocês vão e voltam que eu fico totalmente confusa, fico sem saber quando vocês estão juntos ou não.

—Mas dessa vez é definitivo!

—Assim como a vez do natal? E a do ano novo? Eu falei do carnaval? Tem também a da pascoa, a do domingo de ramos, o do dia do trabalho, tem a vez do dia de São João, Santo Antônio.

—Soraia, não dificulta a situação. – Ela apareceu ali do nosso lado. – E resolveu voltar por quê?

—Luz divina. – Carla sorriu, felizmente. – Mentira, luz de Zezé. O garoto achou melhor eu ajudar também. Afinal, a uruca sua pode passar para nós, pessoas bem resolvidas em relacionamento.

—E eu não sou? – Carla segurou o choro, mas a raiva não.

—E precisa de resposta?

—Soraia, sossega; Carla, larga de sofrência e se livra desse garoto. Ele não presta, ele é um trouxa, um sem noção, um babaca...

—Eu entendi, ele não presta, e eu presto?

—Você eu não sei, não faz o meu tipo por sinal. Eu quero que escute uma música e siga tudo o que ela aconselha, pois ninguém manda na gente.

—E o que essa música fala?

—Só escutando para saber. – A garota não prestava atenção na aula, assim como eu. Depois de um tempo, vocês sabem qual, passei a prestar atenção. Para quem achava que tudo era a mesma coisa, menina, caí do cavalo tão bem que me machuquei muito. Comecei a entender as matérias, passei a estudar, afinal, ter um amigo nerd pode nos fazer mudar muito, me escutou Zé Antônio?

Na hora do intervalo, ela chegou cantando a música em alto e bom tom para todo mundo ouvir. Nem parecia aquela gralha chorosa que vimos naquela manhã.

—Um, não pegue o telefone, você sabe que ele está só quando liga... – Ela dançava no meio do pátio e nem ligava para aqueles que a filmavam. Apontou vários dedos do meio para eles, o que alegrou muito os espectadores que riam da situação. – Dois, não deixe ele entrar, você deve chutá-lo novamente.

Riamos muito, eu gravava também, eu me divertia muito mais. Amém, Santa Dua.

—Três, não seja amiga dele, você vai acordar na cama dele.

Nisso, o portão se abriu e me deparei com aquele monte de fezes ambulante: ele era loiro, assim como Carla, tinha olhos azuis e rosto perfeitamente desenhado, como se saísse de uma revista de padrõezinhos. Carla se divertia tanto que nem reparou que o ex-namorado entrou com um enorme buquê de rosas vermelhas, que pegava todo o seu braço musculoso. Junto dele, a diretora estava, ele tinha estudado na escola por uns anos, até que saiu para completar o terceiro ano em uma escola mais perto de sua casa. Zé Antônio e Carlos se colocaram entre ele, Soraia se aproximou de Carla e tentou a leva-la até a sala de aula. Como não conhecia nenhum dos três, ele desviou e se dirigiu até mim.

—Deise, o que esses loucos estão fazendo?

—Eu não os chamaria de loucos, talvez lixeiros. – Ficaram boquiabertos quando falei aquilo. — Afinal, o trabalho deles é tirar o lixo, não é?

A diretora tentou intervir, mas Milena se aproximou e contou do que aquilo se tratava, além de tentar evita que ela se aproximasse. Sim, parecíamos uma máfia. Por mim, a diretora teria falado para ele sair do colégio, mas ela não era eu.

—Por isso eu nunca gostei de você, é um fofoqueira, intrometida, quer acabar com o amor dela por mim.

—Nossa, como descobriu? – Debochei dele. – Era um plano tão secreto, tão bem bolado. Nem sei como isso aconteceu.

—Carla, escutou isso, ela confessou.

—A criatura é tão lerda que nem reparou que é ironia o que ela disse.

—Carla, termina com ele.

—Tonta, você não tem chance com ele.

—Ela é mais bonita que ele.

—Só se for no dedinho esquerdo do pé.

A plateia começou a cochichar sobre a situação que se passava, e eu adorava aquilo com tanta força que eu queria gravar e colocar aquilo para o mundo ver e ouvir. Carla se aproximou da gente e me afastou do namorado. Zé Antônio, Carlos e Soraia se aproximaram também, ficando a postos caso algo saísse do controle.

—Bom, acho que o nosso término ficará bem escancarado com essas prova. – Ela puxou Zé Antônio e o beijou fortemente. Ele, no susto, retribuiu o beijo. Com meu celular, gravei a cena toda. O mais engraçado era a cara de bobo que o ex da Carla fazia. Na verdade, a cena mais engraçada era ver os homofóbicos vendo um gay beijar a garota mais linda do colégio e os deixando de queixo caído e babando, ou uns três professores e inspetores adorando a novela toda. – Meu lindo, coloca essa música no som da cantina.

Antônio correu e pediu para a inspetora da cantina colocar a música. "Novas Regras" tocava altamente no alto-falante. Ela foi empurrando o antigo namorado até a saída e foi cantando:

— Um, não pegue o telefone, você sabe que ele está só quando liga; dois, não deixe ele entrar, você deve chutá-lo novamente; três, não seja amiga dele, você vai acordar na cama dele. – E o colocou para fora da escola.

—Carla, por favor, repense nisso. Você vai querer me perder?

—Quem perde, acha. Nesse caso, perdi você, mas achei meu amor próprio. – E a plateia foi ao delírio, minha gente!

—Aceite as rosas, pelo menos.

—Claro que não, flores me lembram cemitério! – E fechou o portão na cara dele. Todos deliravam na atitude dela, mas o silêncio reinou quando abriu novamente o portão.

—Eu sabia que ia se arrepender de ter terminado comigo.

—Eu me arrependi mesmo, mas não de você, mas das flores. Acho que Marcos vai amá-las. – Ao pegar o buquê, fechou o portão. – Não se rejeita presente, não é minha gente!

Corri até ela, me dava tanto orgulho essa mulher, tão viva, alegre, cheia de si, de amor próprio.

—Nossa, gostei de ver hein! Arrasou garota!

—E o que falei é verdade. Acho que Marcos gostará das flores para ele. – E me entregou o buque. – As histórias de amor não são contos de fadas, mas o Cupido não erra em quem atira a flecha.

—Nossa, me abraça! – E quase eu que chorei agora. – Só você consegue estragar esse momento tão lindo.

—E nada do que uma festa para alegrar! – Soraia se aproximou da gente. – E aproveitem muito porque Zé Antônio vai.

—Eu vou? – O garoto ficou com cara de tonto.

—Vai sim. A festa vai nos alegrar. Eu sei que será muito para você, mas dará conta do recado.

—Acho que não captei a mensagem.

—Bom, você verá na hora. E o que faremos agora?

—Vão voltar para a sala de aula, pois o sinal já soará. – A diretora nos mandou para a sala de aula. – Ainda não sei como tanta coisa acontece nesse colégio. Acho que preciso de férias.

—Não quer antecipar as nossas também?

—Deise, por favor, não brinca com fogo.