Notas iniciais
Esse capítulo é não é indicado para menores de 16 anos: contém assuntos como alcoolismo e traição.

A manhã estava mais quente. A rua estava muito calma, mais calma do que o normal. Era uma segunda-feira, o que significava que deveria ter uma movimentação muito grande lá. Mais um quarteirão de caminhada, eu chegaria ao quarteirão da minha escola. A fachada era simples, apenas uma placa com o nome e uma imensa parede pintada de amarelo "gema de ovo". Não me apresentei, pois sou muito esquecido para isso. Meu nome é José Antônio. Tenho apenas 16 anos, cabelos negros e levemente lisos. Eu me aproximei do portão e já podia ouvir o meu pior pesadelo.

Não, não era um valentão querendo me bater, ou um inspetor que me odiava a ponto de querer me matar. Para mim, era pior que isso. Era sempre o mesmo aglomerado de pessoas e aquilo me incomodava terrivelmente. Eu não era uma pessoa de muitos amigos, apenas três pessoas, que nem sei como eu consegui fazer amizade com eles. O primeiro era um menino da minha sala, porém, ele não viria naquela semana. Estava viajando. Outra era uma garota da sala seguinte. Mesmo tendo um ano a mais que eu, parecia que tinha dois anos, era manhosa, mas eu a adorava. Além de divertida, era bonita.

Agora, o terceiro amigo era o mais diferente. Perdemos um pouco o contato, pois havia três meses que ele começara a namorar uma garota da nossa sala. Naquela garota, a simpatia passava longe. Não gostava de mim, por achar que minha amizade com ele era por interesse. E duvido que esse namoro não seja por interesse da parte dela. Na verdade, o interesse é dele. A garota costuma levar os namorados em viagens caras. Eu o culpo, mas não discuto. O nome dele é Carlos.

Falando nele, eu notei os seus cabelos encaracolados, mais negros que carvão, no meio da multidão que impedia a entrada de pessoas. Ele parecia desesperado. Sua face, normalmente pálida, estava mais vermelha, como se tivesse corrido uma maratona. As olheiras embaixo de seus olhos estavam fortes.

—Zé, preciso conversar com você. – E puxou meu braço para o banheiro. Lógico que os maus olhos e as más línguas adoraram isso para espalhar mais fofocas.

Ah, detalhe. Sou gay e isso não é problema nem para mim, nem para ninguém, porém, toda vez que algum menino vem conversar comigo, acaba saindo com a fama de ser gay por ter conversado com um gay. É chato? Sim. É insuportável? Muito. Quero que parem? Por favor. Eles vão? Duvido. Mas, voltemos à história.

Enquanto ele me puxava até o banheiro, passamos pela entrada da nossa sala e, como a minha carteira é a última, eu já a deixei lá. Nós seguimos até um dos banheiros menos usados, pois havia um boato de que aquele banheiro era assombrado. Outro detalhe, nossa escola é religiosa e antigamente foi um seminário de padres. E havia um cemitério no fim da propriedade. Dessa forma, alguns medrosos espalhavam a fofoca de que viram um dos antigos padres andando pela escola.

—Carlos, o que aconteceu? – Ele me empurrou para dentro do banheiro e fechou a porta.

—Eu traí a Soraia. – Ele estava preocupado. Seus olhos revelavam isso. Com certeza fazia dias que ele não dormia.

—Você traiu a sua namorada?

—Eu estada bêbado.

—Você traiu a sua namorada?

—E com um garoto.

—Você traiu a sua namorada?

—Tem eco aqui?

—Se levar em consideração que esse banheiro é imenso e estamos nós dois aqui...

—Zé, o assunto é sério. – Ele se sentou no chão e começou a chorar. – Eu amo a Soraia. Não quero terminar com ela.

—Assunto bem delicado. Não sei se é o mais sensato a se fazer, mas eu acho que você deveria contar para ela.

—E você acha que ela vai acreditar que eu me arrependi?

—Outra dúvida minha: como é que você lembra que beijou um garoto?

—Eu tinha acabado de vomitar e me lembrava de tudo. Uma garota, amiga dela, estava na festa e disse que eu deveria terminar com ela para que isso não venha a público e eu passe vergonha.

—Olha, eu sei que fazemos ou falamos o que não deveríamos enquanto estamos bêbados.

—E você entende o quê sobre ficar bêbado?

—Você acha que alguém que toma cerveja e vodka pura, tudo ao mesmo tempo e sem água nunca ficou bêbado?

O rosto surpreso dele foi um motivo para eu rir. Nunca havia bebido perto dele, ou dos outros dois. Aquilo foi em um almoço de família, onde eu e meus primos exageramos. Lógico, fingimos um sono inexistente e ficamos trancados em um dos quartos para não pagarmos mico.

E um conselho: se forem beber bebidas alcoólicas, sejam conscientes em que vocês fazem. Como dizia a minha avó, "O que é feito bêbado, é pensado sóbrio.". Portanto, pense mais que duas vezes antes de fazer qualquer coisa enquanto está bêbado.

—Mais alguém da escola sabe sobre isso?

—Acho que eu, você e a menina. Mas ela disse que espalharia se eu não terminar o namoro.

—Bem intrometida a querida aí, hein? Bom, apenas conte que você, enquanto estava bêbado, beijou alguém. Não tem necessidade de revelar que foi um menino.

—Mas o menino foi o irmão dela.

—Você não ajuda desse jeito, meu caro colega. – Eu me sentei em frente dele. Meu pescoço doía de ficar olhando para baixo. – E eu nem imaginava que o irmão dela gostava de homens.

—Eu soube disso na festa, quando na "Verdade ou Desafio", perguntaram se ele era gay ou bissexual.

A conversa não estava produtiva. O sinal soara ao longe e ainda não tínhamos solução para o pequeno problema. Enquanto saíamos do banheiro, não conversamos e nem nos encaramos. Seguimos para a sala de aula e qualquer conversa paralela entre aqueles que poderiam saber da história amedrontava o Carlos.

Estava muito desconfortável, isso eu não podia negar. Ele tinha culpa da traição, sendo com um homem ou uma mulher, porém, aquela taxação, se é que havia alguma, o estava matando. No intervalo, ele não comia, ele sequer abriu a bolsa para pegar dinheiro ou o lanche que trouxera de casa. Ele estava muito mal. Às vezes, ele pegava meu lanche. Hoje, precisei oferecer o meu para que ele comesse um pouco.

Para piorar a situação, todos conversavam sobre a tal festa, de como estava louca, de como todos curtiram. Com certeza Carlos curtiu, porém, as consequências foram catastróficas.

Eu fora convidado, mas não estava com paciência para ir. Nosso grupinho era pequeno e ainda iria apenas Soraia, Carlos e eu, para ficar de vela do casal.

Depois que eu me assumi, logo após árduos desafios, eu deixei de ir a algumas festas. Não que tenham ficado chatas, mas as pessoas se tornaram insuportáveis.

—Nossa! Você é gay? Mas já ficou com mulher?

—Sim, eu já fiquei com mulher, mas não gostei. – Mentira. Apenas disse isso para eles calarem a boca, mas não resolveu.

—Mas você deve ter ficado com a mulher errada. – E o que é "uma mulher errada"? Eu perdi a paciência depois dessa e me distanciei daquele grupo, contudo, as perguntas continuaram a me seguir, ou pior, as afirmações dolorosas.

—Ah, eu já sabia que você era gay. Sempre deu pinta. – A vontade de responder "Ah, você também sempre deu pinta de vaso sanitário para comportar tanta merda!" foi grande, mas me segurei. Eu me arrependo? Muito.

Então, voltando ao caso de Carlos, que já estava se contorcendo em sua carteira. Era a última aula e parecia que o tempo havia parado. Fiquei com pena dele, mas fazer o quê? Aquela espera estava cruel. Ele havia encontrado Soraia na hora do intervalo, mas ela veio apenas fazer umas provas atrasadas e ir embora.

—Eu falei para ela me encontrar em sua casa hoje à tarde. Tem problema?

—Carlos, se minha casa virar um campo de guerra, eu arranco os seus cabelos.

—Eu sei que você gosta de mim, por isso faz essas brincadeiras.

—Nem negar eu posso mais.

A gente ficou esperando o pai dele vir buscá-lo para depois eu ir embora a pé. Ele me ofereceu carona, mas eu precisava pensar. O problema nem era meu, mas eu tomei as dores dele. Eu estava pronto para ajudá-lo e enfrentar a Soraia em minha casa. Aquilo parecia me matar. Se eu estava assim, imagina como Carlos estava se sentindo.

Assim que cheguei à minha casa, que estava toda silenciosa, eu almocei. Tomei um banho para refrescar a cabeça e fiquei na sala, esperando a chegada do casal do ano, que não duraria mais de um minuto depois da conversa.

Enquanto eu fiquei sentado no sofá de couro, fiquei analisando os riscos nas paredes, o desenho do quadro acima de mim. Analisava os desenhos que a natureza fez nas madeiras que compunham a mobília. Depois de uns minutos nesse transe de detalhes, eu escuto a campainha tocando.

Pelo interfone, perguntei quem era e a voz esganiçada de Soraia respondeu, ecoando pela cozinha. Eu apertei o botão e a trava se abriu. Ao abrir a porta, me deparei com um cheiro forte de lavanda, que vinha de suas roupas banhadas com os perfumes importados dela. Seu rosto nada angelical tinha um reboco pesado. Ela havia exagerado na maquiagem, com certeza proposital, visto que havia um morrinho acentuado em sua testa. Era uma espinha.

—Cadê o Carlos? Ele me disse para eu encontrá-lo aqui.

—Eu recebi esse memorando. – Estava sem jeito. Será que eu veria aquele casal se desfazer em minha frente?

Quando ela se sentou onde eu estava deitado, escuto a voz grossa de Carlos me chamando. Eu corro para avisar que ela já estava lá. Sorte que fiz isso, pois ele estava aos prantos, quase tendo um ataque. Assim que eu abri o portão, eu o abracei. Ele estava mole, estava fraco.

Minha audição era bem aguçada, talvez pelo fato de eu ter um tato péssimo. Talvez as sensações se balanceiem, o que é bom. Soraia se aproximava da porta e, ao ver Carlos daquele jeito, ela correu até mim. Lógico que eu o soltaria, mas ela fez questão de me empurrar também.

—Meu amor, o que aconteceu? – Ela estava desesperada. Eu podia sentir o medo na voz dela, não um medo medroso, mas um medo amoroso. O amor por ela exalado, que balanceava com a simpatia, era imenso. – Se foi por causa do meu irmão, não se preocupe. Ele me contou tudo.

Sim, aquilo eu não esperava. Não queria ela gritando, mas não achei que o irmão dela assumiria as dores de Carlos.

—O que ele te disse?

—Ele me avisou que vocês se beijaram. Você estava bêbado e ele forçou. Ele também estava bêbado, mas tinha consciência de seus atos.

—Eu achei que tinha forçado. Achei que eu era o culpado.

—Você não estava são. E eu não o culpo. Já tive meus momentos humilhantes quando bebi demais. Todos temos, menos o seu amiguinho ali.

—Demorou para a zoação vir.

—Sabe que eu também gosto de você, mas vai demorar para eu te engolir.

—Podemos dizer que estamos no mesmo barco.

Os dois deram aquele beijo de cinema. Fiquei com inveja, não dele, mas deles. Claro que eu queria namorar, claro que eu queria ter um relacionamento estável, com meus três filhos e diversos cachorros. Alguns sonham isso, outros não. É o mundo.

Eles saíram pelo portão aberto e, antes de fechá-lo, Carlos correu e me deu um abraço.

—Valeu amigão. Duvido que eu teria chegado vivo hoje se eu não tivesse você como amigo. – E eu, surpreso, apenas o abracei. – Mesmo sem ser o seu problema, quase tomou as minhas dores, quase apanhou por mim. Eu notei aquele empurrão. – E rimos.

Ele seguiu até Soraia. Os dois deram as mãos e seguiram pela rua abaixo.

Notas finais
Que bom que você terminou essa leitura. Espero que tenha aproveitado. Mas há um aviso que precisa saber: apesar do livro ter uma classificação alta (Não aconselhável para menores de 16 anos), ele é dividido em capítulos, com classificação etária diferente dependendo do tema abordado. Se você acredita que tem maturidade para encarar textos com indicação etária maior do que a sua idade atual, é de sua responsabilidade a permanência na leitura.