Relatos do Cotidiano - Parte 1
2 A Bebida
Notas iniciais
Sou eu mais uma vez, contando mais um dia da minha vida. Para aqueles que acham que minha vida é agitada, podem tirar esse pensamento das ideias. O que vou contar hoje aconteceu duas semanas depois do problema da Traição.
Para aqueles que não leram, irei fazer um breve resumo: meu amigo, Carlos, foi em uma festa e ficou bêbado. Sem noção de suas atitudes, ele beijou um menino, que é irmão da namorada dele. Apesar de ter se corroído por dentro, pois não queria terminar o relacionamento, a namorada o perdoou. Pelo que entendi, parece que o beijo foi forçado e, na verdade, ele que foi beijado pelo garoto.
Como eu disse naquele momento, nunca beba mais do que aguenta para não perder a consciência do que você está fazendo. Sempre há consequências, e essa foi uma dessas consequências.
Depois de duas semanas daquele incidente, era um domingo e eu estava em meu quarto, comendo chocolates enquanto jogava vídeo game. Fazia meses que eu não ligava nem a televisão nem o aparelho. Enquanto eu me empanturrava com aquelas guloseimas, meu celular ficava tocando a todo o momento. Era Soraia, namorada de Carlos. Das vezes em que ela me telefonou, foi para brigar comigo sobre Carlos. Para ela, nossa amizade era abusiva e interesseira e eu era a pessoa que abusava da bondade de Carlos.
Bom, evitei atender ao telefone nas primeiras dez ligações, porém, aquele número foi aumentando. Minha paciência esgotou quando o número atingiu trinta ligações. Eu iria colocar no silencioso para não ter que aguentar a garota, contudo, havia mensagens em TODAS as minhas redes sociais, ou seja, o negócio era sério.
Assim que eu atendi ao telefone, escutei gritos ao fundo. Não era de Carlos, pois ele foi pescar com o tio naquele final de semana.
—Zé, me ajuda! Meu irmão está maluco!
Fiquei com peso na consciência por não ter atendido a ligação antes. Corri para a garagem da minha casa e peguei minha bicicleta. Não sei se serviria, já que havia anos que eu não a pegava. Meu desespero aumentou quando Carlos começou a me ligar, porém, não seria agora que eu iria atender.
Minha bicicleta, além de parada, estava velha e bem enferrujada. Com certeza, ela desmontaria no meio do caminho. Minha sorte era que Soraia morava perto de casa. Assim que cheguei, eu a vi na janela, gritando como uma condenada. Assim que me notou, jogou uma chave e eu abri o portão.
A casa dela era grande, bem de boneca. As paredes rosadas tinham detalhes de riscos azuis. A porta estava escancarada. A sala de visitas tinha um sofá pequeno e as janelas de madeira eram vestidas de cortinas amarelas. A decoração antiquada de madeira pura estava com um pouco de pó.
A escada, que dava para os quartos, estava bem em minha frente. Quando fui subir, um vaso apareceu e quase me acertou.
—Quem for, pode ir embora. – Era a voz do irmão dela.
Ele tinha os cabelos bem pequenos, pois os raspava todo o mês. Seu olhar maléfico me encarava do alto, seus braços e pernas tinham tatuagens tribais. Ele tinha um olhar levemente psicopata e, não vou mentir, gosto muito. Ainda no andar de baixo, pude sentir o cheiro de álcool que exalava pelos seus poros.
—Zé, me ajuda! – A voz de Soraia foi a distração perfeita. Assim que ele se virou e tentou derrubar a porta do quarto dela, eu subi as escadas com muita pressa e o empurrei para o chão.
Ele, muito mais velho, mais alto e mais forte, me empurrou para o corredor que levava para seu quarto. Eu, sem ideia do que fazer, o empurrei para um dos quartos, que pude notar ser o quarto dele. Seu nome, Jonas, era gritado por Soraia e por alguma vizinha curiosa. Ele bateu a cabeça na cama, porém, foi no macio. Eu puxei a porta e a tranquei. Ele havia deixado a chave para o lado de fora.
Ele socava a porta incessantemente, o que me amedrontava um pouco. Soraia saiu de seu quarto e foi até a minha direção.
Isso nunca havia acontecido antes. Ela me deu um forte abraço e, em meio às lágrimas, sua voz saiu.
—Obrigado por ter vindo me salvar.
Os socos e pancadas cessaram também e ouvi um leve gemido vindo de lá de dentro. Soraia me puxou para o quarto dela. Lá dentro era mais rosa do que o lado de fora. Os unicórnios de pelúcia enfeitavam uma estante que ia do chão até o teto. Ela se sentou na cama e pegou os dois celulares. Um era o seu antigo. Como tinha dois números e eu tinha os dois números registrados, ela me ligou dos dois. Nem consigo imaginar o desespero que ela passou.
—O que aconteceu?
—Depois do almoço, meus pais foram até a casa do meu avô. Meu irmão foi dormir na casa de um amigo, porém, ele chegou mais cedo e daquele jeito, fedendo a álcool. Fui conversar com ele, mas não quis me ouvir. Começou a jogar as garrafas de whisky dele em minha porta, chutava diversas vezes. – Ela voltou a chorar, um choro singelo e fino. – Nem sei como não caiu na escada. A porta é quase em cima do primeiro degrau.
—Talvez ele não esteja tão bêbado assim.
Jonas tinha uns 20 anos e cursava engenharia elétrica em uma universidade próxima daqui. Eu, com muito medo, fui até o quarto dele, de onde saía aquele leve gemido. Antes de abrir a porta, vi Soraia descendo e indo à cozinha.
—Jonas, está tudo bem? – Não houve resposta. Abri a porta com calma e o vi, deitado em um canto, segurando uma garrafa de vodka em suas mãos suadas.
Ele retirara a camiseta e mostrou o corpo branco com mais algumas tatuagens. Ele virou a cabeça em minha direção. Não disse nada e voltou a beber a vodka.
—Quer conversar um pouco?
—Conversar sobre o quê? – A resposta foi ríspida. Eu sentei perto dele, distante o suficiente caso tivesse que fugir e o suficiente para termos um diálogo decente. – Zezinho, foi mal. Não estou com a cabeça no lugar. – Nem sei como ele sabia que meu nome era "José", mas me chamar de "Zezinho" era o cúmulo.
—Aconteceu alguma coisa ontem que está te atormentando?
—Foi semana retrasada e você sabe o que foi.
Bem lembrado. Ele estava no meio do beijo. Com certeza, ele ainda estava com peso na consciência por quase ter acabado com o namoro da irmã, porém, já deu tempo para superar. A não ser que...
—Você está gostando do Carlos? – Essa foi a pergunta mais inesperada que eu poderia fazer, mas fiz.
Ele, com a cabeça, afirmou.
Houve um pequeno choque na minha cabeça. Não sabia como reagir, ou o que falar para ele.
—Eu te entendo. – Isso foi a única coisa em que pensei. – Já me apaixonei por muitos que namoravam.
—E o que você fez?
—Como eu disse, "já me apaixonei". Não era amor. Eu sofri um pouco, ainda mais que uns me ignoravam, ou me excluíam da vida. – Ele me encarava, com um afinco que me incomodava um pouco. – Uma hora, você supera.
Ele se levantou, abriu uma gaveta de onde tirou uma cueca e um short. Ele seguiu até o banheiro e foi tomar banho. Fiquei sentado na cama dele, "aproveitando" o cheiro forte de álcool. Eu pude ouvir passos do lado de fora. Provavelmente era Soraia para saber se eu estava vivo.
Ele demorou para sair, com certeza estava retirando aquela uruca que estava presa nele. Depois de uns minutos, ele saiu. O cheiro estava mais fraco, mas Jonas parecia não se importar. Eu não tinha nada a mais para falar e, pelo visto, ele também não.
—Acho que já vou. – Mas ele parou em minha frente, segurou o meu pescoço e me beijou. Foi um beijo úmido e rápido. Suas mãos desceram para meus ombros. Em seguida, um barulho de pancada e ele desmaiou.
Soraia estava parada atrás dele, com uma frigideira em mãos.
—Não ouvi mais barulhos. Ele te machucou? Ele estava te estrangulando?
—Não. – Eu ainda estava sem reação. – Ele apenas estava me agradecendo. – Desculpa mais mentirosa do dia.
Ele havia me beijado. Eu estava em choque. Por que ele fez isso? A campainha tocou e nós dois descemos, deixando Jonas roncando em seu quarto. Era Carlos lá fora. Estava com falta de ar, pois mal falava conosco pelo interfone. Quando entrou pela porta da casa, nos abraçou fortemente. Soraia foi explicar tudo o que havia acontecido e eu, aproveitando aquela frigideira, fui fazer umas panquecas. Estava com muita vontade de comer algumas várias e Carlos estava morrendo de fome também. Depois de uns minutos, eles foram me ajudar.
Quando estava tudo pronto, depois de muita bagunça, ovos quebrados e farinha no chão, sentamos no sofá para ver um filme. Jonas, lá de cima, ficou nos encarando. Eu notei essa espionagem, mas nem me virei, continuei me deliciando com as panquecas. Quando a tarde estava caindo e a noite chegando, eu e Carlos fomos embora.
Toda vez que ele ia pescar, tinha diversas histórias para contar, portanto, deixei que elas rolassem. Ele só parou de falar quando paramos em frente da casa dele, que era dois quarteirões antes da minha. A gente se despediu e eu, com passos lentos, voltava para minha casa, com aquela cena na mente: Jonas e eu, nós dois nos beijando, bem rápido.
Entrei em casa. Queria jogar mais vídeo game, mas minha mente não deixava. Fui dormir. Com certeza, amanhã, já estaria com a mente no lugar.
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