Relatos do Cotidiano - Parte 1
15 A Sentença
Notas iniciais
Eu estava do outro lado do tribunal, enquanto meu irmão estava ao lado de Rogério, que quis acompanhar de perto os caminhos que tomariam aquele julgamento. Creio que não apenas eu fiquei assustada, mas como todos da minha família – e quem está nos acompanhando – pelo fato de que o júri popular (Fiquei impressionada com a velocidade com que organizaram isso aqui. Acho que nem duas semanas passaram direito) era todo composto por homens.
Sim, em meio a um sorteio para dez pessoas, todas foram homens. O mais engraçado era a amizade que eles tinham com o réu. Notei vários sorrisos e vários acenos entre Alfredo, seu pai e o júri.
—Soraia, por favor, poderia sossegar e parar de se mexer em seu lugar? A cadeira está rangendo muito. – Minha mãe estava ao meu lado, assim como meu pai e meus tios. Nunca vi a família tão unida quanto naquele momento. Acho que precisava de um choque desse para as atitudes de criança desaparecerem.
—Estou tentando. – Mentira. Eu estava muito incomodada. Apesar de ser meu tio quem ajudou a montar o caso, eu não estou com muita confiança. Parecia que o mundo cairia embaixo de mim. – E eu estou bem irritada com esses acenos entre o júri e aquele ser. – Eu não conseguia, também, dizer o nome dele. A minha revolta era tanta que eu preferiria comer um pedaço de carvão quente a ter que falar o nome dele (Só ignorem o meu drama e exagero).
—Filha, vai dar tudo certo. Ele irá pagar por tudo o que fez. – Eu sabia que a realidade seria diferente, que ele tinha muitas chances de sair dali sem sofrer nada.
Conforme os segundos, minutos e horas iam passando e a troca de farpas, de provas, de perguntas a todos persistia. Juliana, amiga dela, foi chamada para depor, assim como Miranda, meu irmão, Rogério, outro médico e muitos daqueles que afirmavam estar na festa.
Meu irmão se culpou por ter confiado nele, por não ter imaginado que aquilo aconteceria. Ele, mesmo que com muita vontade, não ameaçou de morte Alfredo, pois o problema poderia virar para a gente. Os médicos, incluindo o Rogério, traziam provas médicas e concretas contra Alfredo, afirmando que ele havia abusado de Miranda.
Ela transmitiu os detalhes com tanta veracidade que muitas mulheres sentiam a dor que ela sofreu e sofria. Muitas vezes ela precisou parar por causa do mal-estar, vômito, tontura e afins. Por sorte, não ocorreu nenhum tipo de sangramento, fato que ocorreu por alguns dias antes. Estava claro a gravidez, porém, não era "certeza" que Alfredo era o pai.
Acho que uma prova crucial seria a gravação do ocorrido, mas parece que o lugar era muito escuro e não havia câmera por ser um terreno abandonado. Por fim, nada foi resolvido. Haveria outros julgamentos e outras "investigações". Eu sabia que não levaria a lugar nenhum. Tudo isso seria para enrolar.
A única decisão do juiz foi impedir que Alfredo saísse do país até que isso fosse revogado. Contudo, a decisão de liberar aborto à minha prima foi negada. Ela teria que aguentar por mais tempo, e era o que não tínhamos. Dois meses. Era o tempo que ela tinha para realizar um aborto com eficácia e que não causasse danos nem a ela nem ao embrião, que já seria um feto.
E assim, os dias correram, rastejaram e tudo o que nós podíamos fazer para ajudar minha prima fora feito. Os sangramentos aumentavam ainda mais, os enjoos e as cólicas eram tão dolorosas que a garota chorava. Rogério procurou alguns remédios que ela pudesse tomar para que não sofresse tanto.
Um dia, ela me disse que esse sofrimento era terrível, mas a espera pela decisão do juiz machucava ainda mais. Meu tio e alguns amigos dele corriam para acelerar o processo e a sentença ser dada o mais rápido possível. Para nosso desespero, o terceiro mês estava quase completo. Mais uma semana e alguns dias, o aborto seria arriscado e ela teria que enfrentar tudo aquilo sozinha, toda a gravidez de sangramento, de dores e de lacerações pelo corpo e pela alma.
Meu avô já disse que não aceitaria um neto sem pai, minha avó brigou muito com ele por causa dessa decisão. Minha tia e minha mãe voltaram a se falar um pouco, mas era porque minha tia chorava minuto sim, minuto também. Minha prima precisou parar de trabalhar, o que permitiu descanso total, porém, uma completa dependência das finanças de meu tio, que não recusava nada a ela.
Outro dia, Carlos me disse que estranhava a presença contínua de Rogério e que desconfiava de que os dois poderiam estar tendo um caso. Eu não achei que seria um caso, mas apenas uma amizade. Entretanto, daquele dia até hoje, notei que os olhares deles eram diferentes. Ela via nele um homem bondoso, carinhoso e respeitoso; e ela via nela uma mulher que precisava de ajuda e que alguns amigos e familiares se recusaram a isso. Além de Juliana, ela possuía poucas amigas e, as que tinha, faziam faculdade muito longe daqui. Já os meninos, decidiram abraçar a causa para o lado de Alfredo, porém, não atormentavam a minha prima. Sorte deles, pois eu iria acabar com eles se tocassem nela.
Sim, se aquilo evoluísse para um namoro, eu tinha a certeza absoluta de que seria um casal magnífico. Se a paixão evoluísse para amor, creio que as dores dela seriam menos intensas, mas haveria dor e ferida, e uma que demoraria anos, talvez uma vida completa, para que conseguisse cicatrizar por inteiro, sem nenhuma evidência do pesadelo total.
Depois de dois ou três dias, fomos todos chamados. O juiz, com a graça do bom Deus, decidiu dar a sentença final. Todos os nossos estômagos se reviravam. Aquilo era tão intenso, tão árduo que ninguém conseguia sossegar naquela hora.
—Eu declaro que, por falta de provas e por decisão do júri, que o réu seja liberado de todas as acusações.
Aquilo socou todos nós. Falta de provas? Era excesso de palhaçada o que eles estavam fazendo com a minha prima. Tão injusto, tão revoltante que eu quase pulei sobre Alfredo e o pai dele, porém, minha mãe me segurou. Ela chorava, minha tia chorava e eu também. A raiva não passou, mas se acumulou. Minha prima, ao lado do advogado, estava estática. Não conseguia se mover, não conseguia nem respirar.
Parece que aquilo foi o estopim final e a fez levantar da cadeira e avançar sobre Alfredo, que comemorava com o pai e o advogado. Ela se perdera em meio a lágrimas, ofensas e súplicas. No final, o corpo dela desligou e ela apagou, desmaiou e caiu no chão. Parecia ser o fim dela e da criança, pois muito sangue começou a escorrer de suas pernas.
Nenhum daqueles que estavam próximos a socorreram. Rogério correu de onde estava e a acudiu enquanto o outro médico ligava para a ambulância. Lógico, Alfredo ria da cara de minha prima, afirmando que aquilo era excesso de hormônios e as mulheres não conseguiam controlar isso.
Aquilo fez meu sangue ferver. Eu, por respeito a minha prima, não pulei sobre ele para dar-lhe os devidos castigos, pois o juiz já gritava com o advogado e com meu tio, que imploravam para que tudo fosse revisto. Em minutos, enfermeiros adentraram o lugar e colocaram Miranda em uma maca. Minha tia e minha mãe foram com ela. Eu fiquei com Carlos e Jonas, que estavam mais calmos; mas eu sabia que, por dentro, eles queriam socar a cara de Alfredo com tanta força que fariam a cara dele rachar.
Rogério seguiu a ambulância de carro até o hospital. Parecia que o caos ocorria ao nosso redor. Carlos e eu segurávamos o Jonas para que ele não acabasse com Alfredo. Os policiais notaram isso e nos expulsaram do lugar. Ficamos na frente do lugar esperando meu tio sair, porém, demorava muito. Aquilo me angustiava ainda mais.
—Adeus, seus babacas! – Era Alfredo, que entrou em seu carro extremamente caro e colocou uns óculos de sol do mesmo nível.
—É bom você ir antes que eu arranque o seu couro de monstro! – Carlos segurou Jonas enquanto víamos o cidadão rindo alto. – Ele tem sérios problemas para nos tratar desse jeito.
—Azar o nosso que eles têm dinheiro, compraram o júri e o juiz, e ele estará indo para Grécia nos próximos dias. Sumirá das nossas vidas e nada poderemos fazer.
—Podemos é esquecer esse monstro.
Nossos celulares tocaram ao mesmo tempo, tanto o meu quanto o do meu irmão. Nossas roupas amarrotadas eram vasculhadas em buscas dos aparelhos. Minha tia para meu irmão; e minha mãe para mim. As duas choravam horrores no telefone. Pedimos que ficassem calmas e que já estávamos a caminho do hospital.
Meu tio, acompanhado de meu pai e do advogado, saiu espumando de dentro do lugar.
—Eu não acredito que perdemos!
—Tio, por favor, mantenha a calma. Precisamos ir para o hospital. Mamãe e a tia ligaram desesperadas. Elas choravam sem parar.
Meu tio se despediu do amigo e todos nós, os cinco, fomos ao hospital. Assim que chegamos, Rogério estava lá na frente, junto de uma médica e uma enfermeira, os três acudindo a minha tia e minha mãe, que não paravam de chorar.
—O que aconteceu?
—Miranda teve um aborto espontâneo. Creio que todo esse estresse desregulou seus hormônios e o corpo rejeitou o feto. Ela teve muito sangramento, mas muito mesmo.
—Por favor, salvem a minha filha! – Minha tia gritou em meio aos choros e soluços. Todos encaram-na e não entendíamos o que ocorria. Olhei para Rogério, que entendeu minha face de interrogação.
—Sua prima está quase morta. Ela perdeu muito sangue. – Ele parecia que iria chorar também. – Nossos estoques de sangue estão muito baixos. Sem alguma doação, ela não resistirá...
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