Relatos do Cotidiano - Parte 1
16 O Futuro
Notas iniciais
Todos nós chorávamos. Era tudo tão triste, tão avassalador esse sentimento de perda que tínhamos com a possível morte de Miranda. Poderia ser um processo simples a doação de sangue, contudo, as pessoas não têm a empatia para com as outras. Doar sangue é tão simples e tão bom, pois você sai tão bem do lugar só de imaginar que seu sangue será usado para um fim bom.
—Tia, qual é o tipo sanguíneo da Miranda? – Ela não conseguia responder à Soraia e meu tio foi embora por um tempo. – Jonas, você pode ir atrás do tio? – Confirmei com a cabeça e corria atrás dele. Liguei várias vezes pelo telefone, mas nada de ele atender. Ao voltar, Soraia já não mais segurava o choro.
—Rogério, eu tenho sangue O negativo. Eu não posso doar para Miranda?
—Até pode, mas não poderá ser muito sangue, pois o aconselhado é usar o mesmo tipo de sangue. Em alguns exames que ela ainda não pegou está o tipo sanguíneo. – Ele saiu andando e eu o acompanhei. – Eu devia ter imaginado que isso ocorreria, que ela poderia perder o bebê e quase morrer. Estava tão claro nos exames dela.
—Rogério, não adianta você ficar abalado agora. Todos nós, inclusive você, estávamos pensando somente no julgamento e focamos nosso ódio em Alfredo.
Ele começou a chorar, o que estranhei. Era um choro diferente. Um choro que eu passei nesses dias, depois eu beijei o Zé Antônio. Eu sabia o que eu sentia e sabia o que ele sentia: era paixão, talvez já amor, por Miranda. Sua preocupação era mais profunda do que apenas trabalho médico. Por isso que ele também decidiu ficar de fora de alguns exames de Miranda, apesar de ela o preferir.
—Rogério, por favor, venha aqui. – Ele parou de chorar e foi até uma enfermeira, que carregava em suas mãos uns papéis. Na pressa, ele deixou alguns caírem, mas os mais importantes ele segurou e olhava com muita pressa.
—Que droga! – Ele se voltou para nós. – Sua prima é do tipo sanguíneo O positivo. Além do Jonas, mais alguém é do tipo O?
Ninguém respondeu. Soraia era do tipo A positivo, pois meus pais eram do tipo A positivo e negativo. Meus tios eram do tipo A e B, ambos positivos. Carlos disse que era do tipo B.
—Eu acho que o Zé Antônio tem sangue O positivo. – Carlos pegou seu celular e ligou ao amigo. – Enquanto isso, acho que Jonas poderia doar um pouco para ela? – Rogério concordou e chamou a enfermeira de antes para me levar para doar sangue. Alguns pequenos exames foram feitos, e muito rápido, afinal, Miranda estava em estado crítico.
Todo o processo, apesar de apressado, correu tudo bem. Outra médica, amiga de Rogério, nos ajudou também. Minha tia e minha mãe estavam secando de tanto chorar, diferente de Soraia que tentava parar de chorar. Aquela bagunça, com o tempo, pareceu diminuir assim que Zé Antônio chegou e confirmou o tipo sanguíneo. Os mesmos exames que eu fiz, ele também fez.
Nós dois doamos meio litro cada, o que já foi uma grande ajuda para Miranda.
—Porém, acho que precisaremos de mais. – Rogério nos comunicou. – Ela saiu do estado mais crítico, portanto, está fora de risco, só que a quantidade de sangue ainda é baixa para os níveis aceitáveis. Além disso, com a perda, a chance de uma menstruação é possível. Se isso ocorrer, ela perderá mais sangue e voltará tudo novamente.
Rogério não conseguia nos tranquilizar muito, mesmo que ele apenas tenha dito isso a mim e ao Carlos. Zé Antônio apareceu e ficou um pouco longe da gente. Ele foi consolar Soraia, que estava em um canto, mais solitária que todos nós.
—Nunca vi o Zé e a Soraia tão bem. Acho que eu deveria te agradecer por isso, Jonas. Se não fosse aquele seu pequeno desastre, creio que nunca veríamos uma amizade entre esses dois.
Eu não respondi, pois sabia que era verdade. Além do mais, a presença dele me abalava muito. Ele era pequeno para a idade, era... Nem sabia como descrever, já que ele não me fazia bem. Na verdade, fazia muito bem, só que eu não sabia se seria ou não recíproco. Com certeza, ainda tem certo receio do que eu fiz, apesar de fazer quase dois meses que isso aconteceu.
Outro médico veio nos dizer que Miranda estava bem e havia um carregamento de doações de sangue para chegar. Ela estaria bem, só precisaria ficar uma semana no hospital para uma melhora mais segura. Todos fomos para casa e o dia já havia dado lugar à noite. Todos cansados, quase nem nos despedimos. Todos para as suas casas, para as suas respectivas vidas.
Eu, com todo esse problema, tranquei a faculdade. Foi uma decisão difícil, mas eu faria uma nova aqui em minha cidade. O curso era bom, até melhor em alguns casos, e eu aproveitaria bem mais do que na outra cidade. Esses dois meses parado me fez pensar sobre isso e eu sabia que seria bom para mim. Meus pais me apoiaram nessa decisão, visto que era o que eles mais queriam nesse momento: manter a família perto e unida.
Uma semana se passou quando nos ligaram para avisar que Miranda teria alta. Fomos todos para o hospital: meus tios, meus pais, Soraia, Carlos e eu. Lá, Rogério estava nos esperando com um enorme sorriso no rosto.
—Ela está bem. – E quando se moveu, Miranda estava em pé. Ela correu e nos abraçou. Agora, foram lágrimas de alegria e de alívio. Todos estavam bem, apesar de muitos obstáculos e feridas que demorarão para cicatrizar.
Depois de muita conversa, ali mesmo na recepção do hospital, Rogério chamou Miranda para perto dele. Eles ficaram conversando por muito tempo. Meus pais e tios estranharam muito. Meu pai quis intervir na conversa demorada, porém, eu e Soraia não deixamos. Lógico, houve indagações, que não foram respondidas de imediato.
Ouvimos um grito de Miranda. Assim que viramos, eles estavam abraçados. Eu pude imaginar o sorriso enorme de Rogério em seu rosto. Soraia correu até os dois e deu um pulo sobre ele, pois ela sabia o que eu imaginava.
—Então? – Meus tios se viraram para mim. – O que está acontecendo?
—Um pouco de felicidade em um mar de tristeza. – Eu e Carlos fomos até os três.
—Alguém pode nos atualizar do que está acontecendo?
—Não é nada mãe, pode ficar sossegada. – Minha tia não acreditou no que a filha disse, mas eu acho que ela entendeu, assim como a minha mãe, pois as duas tiraram meu pai e meu tio de dentro, afirmando que nós precisávamos de espaço. – Ele me chamou para sair. – Ouvi Miranda cochichar para minha irmã. Fiquei feliz também, porque ele seria um namorado incrível para minha prima.
—Jonas, o Zé Antônio quer conversar com você. – Carlos falou um pouco alto e mostrou a mensagem dele para mim.
—Ele disse o motivo? – Soraia estava mais curiosa do que eu. Bom, eu sabia o motivo e espero que não seja isso. – E, Jonas, eu sei que isso faz quase dois meses, mas o que vocês conversaram em seu quarto naquele dia em que você bebeu muito? – Essas palavras bambearam a perna de Carlos, que sabia o que a bebida fazia comigo. – Jonas, o que você fez?
Eu não conseguia responder. Era uma mistura de sensações dentro de mim: vergonha de revelar meu medo para eles, medo de me acharem estranho, amor pelo pequeno Zé Antônio, que me fez ter sensações estranhas. Já não bastava o que eu me fiz passar quando foi com Carlos, agora, era com ele. Apesar de ser meio indefeso, eu não sabia o que sentir ou falar.
Eu nunca senti tanto medo assim, nem nas brigas mais ridículas, ou nas atitudes mais drásticas.
—Não me diga que... – Carlos me encarou e ficou estático. – Você o beijou?
—Jonas, isso está se tornando um vício, hein? – Soraia pegou a minha mão e me encarou. Eu não conseguia mais esconder as minhas lágrimas e ela notou isso. Como minha irmã, ela conseguiu notar o que eu sentia.
Ela se virou e meio que expulsou o namorado, a prima e Rogério, que já estava de saída por ter terminado seu turno e precisava descansar para as aulas do dia seguinte.
—Jonas, você está gostando do Zé Antônio? – Essa pergunta me fez desabar. Eu chorava muito, mas era de desespero. Não sabia qual seria a reação dele, ou o que meus pais ou os pais dele diriam.
—Sô, o que eu faço? – Ela me abraçou fortemente, o que eu não tive coragem de fazer para não a machucar, uma vez que não tenho muita consciência da minha força.
—Converse com ele. E, se esse for mesmo o seu sentimento, corra atrás dele.
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