Notas iniciais
Esse capítulo não é indicado para menores de 14 anos: há relatos de abuso sexual.

Eu não sabia o que mais sentia, não sabia o que eu precisava fazer, minha vida estava uma bagunça que eu me perdia em meus pensamentos. Eu sei como aconteceu, mas não a ficha ainda não caiu. Era sábado à tarde quando meu telefone tocou. Um número desconhecido aparecia na tela enquanto meu celular apitava altamente para todos da minha casa o escutarem. Eu precisei tomar banho, pois acabara de chegar do centro da cidade, onde eu fiquei o dia todo com a minha mãe, ajudando a comprar o que levaríamos à noite à casa de minha avó.

—Alô?

—Por favor, a senhorita Miranda se encontra? – Eu me apresentei para a mulher do outro lado da linha. – Aqui é do posto de saúde do seu bairro. Os seus exames estão prontos. Você virá busca-los?

—Estou indo para aí agora! – Eu me despedi e desliguei. Coloquei uma calça legging preta, uma blusinha branca e um moletom por cima. Apesar da alta temperatura do lado de fora, meu corpo tremia muito de frio. Acho que era preocupação sobre os resultados. Meus cabelos castanhos estavam um pouco bagunçados, mas nem me importei.

Sem me despedir de ninguém, já que eu gostaria de retornar o mais breve possível, corri o mais rápido que consegui ao postinho. Lá, eu me encontrei com Rogério, que não esboçava emoção nenhuma em seu semblante. Mais ao fundo do lugar, eu vi aquele monstro ali. Estava todo de branco e conversando com um homem, que acho que era paciente. – "Não acredito que ele é médico e trabalha aqui." – Pensei nisso enquanto eu caminhava até a sala que me apontaram. Por sorte, não me viu.

—Miranda, por favor, sente-se. – Rogério estava sério e trocava olhares comigo e com os papéis. – Aqui estão os seus resultados.

—Por favor, me diga, eu peguei alguma doença?

—Não, felizmente, mas... – Aquele "mas" me pegou de surpresa. Se nada de doença eu tinha, então...

Nisso, um forte enjoo apertou o meu estômago e me fez correr ao banheiro para vomitar. Não, tudo menos isso. O que ele fez comigo? Por que eu vomitava? Eu não acredito!

—Enfermeira, por favor, traga um copo com água.

—A garota está aí? – Era a voz do demônio, do meu pesadelo.

—Não se intrometa! – Rogério gritou e bateu a porta. – Mi, beba um pouco.

Antes de beber água, lavei o meu rosto e minha boca. Novamente, sentei na cadeira e encarei aqueles papeis.

—Miranda, apesar dos exames não derem nada, acho melhor você tomar por mais um tempo os remédios. Depois de um tempo, ligarão para você e fará mais exames. E há outro detalhe... – ele arrastou um envelope até mim e não disse mais nada. Eu, com as mãos trêmulas, o peguei e rasguei a lateral, visto que estava lacrado. Lá, com letras bem nítidas, grande e em negrito, estava escrito "POSITIVO" e eu vi para que: "Beta HCG Qualitativo". Li mais abaixo, contudo, parei quando eu li "O diagnóstico de gravidez...".

Não consegui mais segurar o papel, que voou da minha mão. Chorar não revolveria nada, mas eu queria, e assim fiz. Chorei muito, ainda mais do que das outras vezes. Rogério tentou me acalmar, mas eu não conseguia, era mais forte que eu.

—Miranda, eu não sei o que dizer... – Eu apenas o abracei e ele retribuiu. Era um abraço diferente, eu me senti confortável, eu me senti protegida. Não sabia descrever. Eu deixei o uniforme dele um pouco manchado de lágrimas. – Você quer que eu a leve para casa?

—Sim, por favor. Não acho que terei forças para chegar até lá sozinha. – No caminho até a recepção – onde ele passou o cartão, mostrando que estava deixando o local – eu vi aquele cidadão, que me encarou com um olhar cruel e perverso, o que me fez ficar mais perto de Rogério. Já no carro, tentei descobrir quem era ele. – Aquele médico que você expulsou outro dia da sala...

—Nem se preocupe com ele. Ele é um rico mimado que comprou a vaga em uma faculdade e agora acha que é o melhor médico do mundo.

—Ele é amigo do meu primo.

—Sim, eu me lembro de você e da sua prima juntas quando Jonas juntava todos os amigos na casa dele.

—Eu ia para fazer companhia à minha prima. Ela detestava esses encontros.

—Eu também, mas eu ia por não ter nada o que fazer em casa. Na verdade, nunca fui aquele amigo de Jonas. Ele era um patife e um otário. – Ele parou e me encarou. – Ah, me perdoe por falar mal do seu primo.

—Se você estivesse mentindo, eu até ficaria nervosa ou irritada. Mas é a pura verdade... – nesse momento, lembrei dele me cumprimentando na festa e permitindo que seu amigo, se pudesse ser chamado assim, me estuprasse do lado de fora, em um terreno vazio. Ele parou o carro em frente da minha casa, onde eu podia ouvir minha mãe gritando com meu pai. – Muito obrigada por me trazer, Rogério. Eu não tenho como agradecer.

—Miranda, se você precisar de alguma coisa, por favor, me mande uma mensagem. Eu estarei no Hospital do Centro. – Ele estendeu a mão e me entregou um papel. – Vai ser uma longa caminhada para você e para o bebê. Agora, se você quiser abortar, eu tenho alguns contatos.

—Rogério, eu ainda não sei... – nem terminei de falar, porque iria chorar novamente. Eu saí do carro e acenei para ele. Adentrando o campo de guerra que eu chamo de casa, minha mãe gritava com meu pai por ele não estar pronto, sendo que era apenas colocar uma calça jeans, uma camiseta e um tênis; eu apenas tomaria outro banho, mesmo que o anterior foi em menos de duas horas. Só não mudaria de roupa.

—Miranda, por favor, vá se arrumar.

—Já estou pronta!

—Minha filha, o que é isso? O que sua tia dirá de sua roupa?

—Ela não dirá nada, porque ela não cuida da vida alheia como você faz. – Voltei ao meu quarto, onde larguei aqueles papéis longe do alcance da minha mãe. Ela surtaria.

—Filha, posso entrar? – Era meu pai. Ele entrou sem eu responder. – Acho que você deveria ter mais paciência com sua mãe.

—Lógico. Super-recomendável fazer isso já que ela surta comigo todas as vezes que eu saio com a Soraia.

—Eu não posso fazer nada.

—Pode sim. Converse com ela e a faça enxergar a razão, pois essa rixa que ela criou é coisa de criança.

—Filha, não há rixa nenhuma entre sua mãe e sua tia.

—Não tem mesmo? – Mas ele não me respondeu, somente saiu do quarto. Eu penteei meus cabelos e fui esperar na sala até irmos. Minha mãe não me olhava. Acho que apenas por evitar olhar meu modelito.

Na casa de minha avó havia dois amigos deles e eu não via a hora de minha prima chegar, parecia que a hora não passava. Quando ela chegou, estava no banheiro. Fiquei parte do tempo lá, evitando vomitar nos pés de alguns convidados. Não passavam de dois casais, na verdade.

Minha prima veio me abraçar depois que cumprimentou todos, menos a minha mãe.

—Minha irmã, que lindona que você está! – Meu pai exclamou bem alto. Eu olhava o olhar odioso da minha mãe, que olhava para o teto.

Minha prima veio me dar um abraço e foi muito forte, até soltei um leve gemido de dor. Fazia alguns meses que não nos víamos. Conversávamos sobre nossa vida enquanto íamos até a cozinha para ela cumprimentar meus avós e seus amigos.

—Soraia, o que você fez com a sua mãe? Ela está maravilhosa.

—Obrigada. Coloquei em prática aquelas aulas de maquiagem e de cabeleireiro que eu fiz ano passado. O vestido foi pensado de última hora.

—Ainda bem que você está certa em seguir moda. Você manda muito bem com isso.

—Pena que nem todos gostam. – Eu virei meu olhar e o guiei até minha mãe, que exalava chamas de raiva pelas íris castanhas.

—Minha mãe está bem temperamental desde o dia em que você deu aquela resposta para ela.

—Se ela não quisesse cuidar da minha vida, eu até seria mais respeitosa.

Minha avó nos chamou e seguimos da sala para a cozinha. A sala era pequena, pois era pouco usada, diferente da cozinha, que tinha uma mesa retangular de quase vinte lugares, retangular, que pegava apenas uma parte da cozinha. Meu primo Jonas não veio, pois tinha uma festa. Ainda bem, pois eu iria socá-lo muito.

Meu tio começou a distribuir as pizzas para o pessoal enquanto meu pai, que comprou várias tortas, as cortava em pedaços e distribuía em pratos pela mesa toda. Meu avô serviu vinho a ele, à minha avó e aos amigos. Minha tia fez para ela, para mim e para minha prima algumas caipirinhas. Meu tio e meu pai ficaram na cerveja e minha mãe, na água com gás. Apenas tive que rejeitar a caipirinha por causa da gravidez. Ainda estava na cabeça o que Rogério me perguntou se eu queria abortar.

Comemos muito, como se não fosse ter o amanhã. Depois de um tempo, eu e minha prima fomos para o quarto de hóspedes – que ficava no fundo da casa, junto de um banheiro – pois lá iríamos conversar sobre qualquer coisa sem sermos interrompidas e nem ficaríamos ouvindo as conversas dos adultos.

Falamos de tudo, desde seu namoro, até a minha saúde. Ela notou que eu estava abatida, estava com fortes olheiras, mesmo com a maquiagem ajudando a esconder. De repente, precisei correr até o banheiro, pois tive vontade de vomitar. Eu não fechei a porta, pois acreditava que ninguém viria até o banheiro do fundo da casa, ainda mais um dia em que a Soraia jogou um antigo vaso da minha avó na cabeça de Jonas quando ele veio nos atazanar.

Eu voltei para o quarto e Soraia estava sentada, me encarando. Eu deitei em seu colo e ela começou a fazer cafuné em meus cabelos. Para amenizar a situação, eu falei que era virose, mas meus olhos já se encheram de água. Apesar de ela não notar, o passar de seus dedos em meus cabelos traziam tudo o que passei com aquele monstro.

—Se teve uma virose, por que comeu tanto?

E comecei a chorar, não consegui mais me segurar. Notei que ela não tinha reação, apenas me abraçou.

—Sô, eu estou grávida. – Falei para ela, mesmo com um grande medo dentro de mim.

— Mi, mas, e o namorado? Você tem? – Chorei ainda mais, não conseguia mais segurar nenhuma lágrima.

O calor era tanto que eu precisei tirar o meu moletom e, sem querer, mostrei como estava magra – apesar de estar comendo muito nos últimos dias – e meus ferimentos.

—Soraia, por favor, me ajuda!

—Miranda, você foi estuprada? – Eu apenas confirmei e ela começou a chorar comigo. Ela retirou as mãos do meu cabelo. – Mi, o que eu posso fazer?

—Nada. Somente nada.

—Não, eu quero fazer alguma coisa, quero acabar com quem te fez isso.

—Sô, por favor, esqueça isso... Não te fará bem...

—Miranda, eu vou te ajudar. Eu quero te ajudar.

—Ele vai atrás de você! – Gritei e parei assim que não ouvi mais nenhuma conversa na cozinha. Pude ouvir alguém se aproximando, mas liguei uma música muito alta. Por fim, os passos se distanciaram. – Foi a ameaça dele.

—Mi, apesar de você não querer, eu vou atrás dele. Não sozinha, mas com Carlos e o Zé Antônio. Sei que ele me ajudará.

—Mas não era ele que você falava que tinha amizade por interesse?

—Sim, mas farei Carlos me ajudar com isso. Além do mais, ele gostará de ficar um pouco longe dos pais dele.

—Eles ainda não aceitaram o fato dele ser gay?

—Não, e pelo visto nem aceitarão. Eles já começaram a exilá-lo dentro de casa. Mas é problema dele e Carlos o ajudará. Agora, eu a ajudarei, nem que seja a última coisa que eu faça.