Notas iniciais
Esse capítulo não é indicado para menores de 12 anos: há cenas com intrigas familiares.

Eu ainda estava no hospital.

Para aqueles que não me conhecem ainda, sou Jonas. E, para aqueles que não sabem do porquê eu estar aqui, relatarei um breve resumo agora e outro mais à frente. Bom, em uma festa, fui desafiado a tomar, de uma única vez, mais da metade de uma garrafa de vodka, o que resultou em um leve coma alcoólico. Portanto, eu estava no hospital, naquela sala branca que me atordoava.

Agora, a outra parte do meu resumo: antes de eu tomar aquela quantidade absurda de álcool, fui desafiado a dar um beijo em meu cunhado, que se encontrava naquela festa sem a namorada, que é a minha irmã. Apesar de estar bêbado, eu sabia das consequências, sabia o que isso poderia acarretar e nada justifica o que eu fiz. – "Mas você estava bêbado!" — Vá à merda quem falar isso para mim. Além de quase morrer, o que causaria uma dor irreparável; eu, sem dúvidas, acabei com o namoro de minha irmã e isso estava me matando por dentro.

Além do mal-estar causado pela bebida, minha mente pregava peças em mim: dormira mal na noite passada e na retrasada; não comi direito, pois fome nenhuma eu sentia; estava um caos o meu intestino, estava tudo acabado. Contudo, um sentimento estranho estava se manifestando dentro de mim, um que eu não sentira antes. Não era culpa, muito menos remorso, pois já havia sentido diversas vezes.

Se não era isso, o que poderia ser? Meu celular, contrariando os pedidos médicos, estava do meu lado. Era uma segunda-feira, quase dez da manhã. Minha irmã estava na escola, encarando o namorado que eu havia beijado, que eu havia forçado a me beijar. O que eu fiz? O que eu sou? Um monstro? Um sem coração? Eu precisava falar com ela, contar o que ocorreu. Dessa forma, eu poderia salvar o relacionamento deles. Porém, algo dentro de mim me impedia. O que era? O que eu sentia?

Tentei dormir por um tempo, mas um médico entrou em meu quarto, era um amigo que estudou no ensino médio comigo. Muito estudioso, um pouco demais para o meu gosto, que não deveria ser levado em conta, lógico.

—Jonas, Jonas. É claro que eu queria reencontrar alguém da velha turma, mas não em um hospital, deitado em uma maca, quase em coma.

—Rogério... – Eu apenas consegui dizer o seu nome. Não tinha nada contra ele, mas eu caçoava muito dele, aquela infantilidade de adolescente inconsequente. Então, eu me sentia envergonhado de vê-lo ali, em uma posição melhor que eu, já independente, já trabalhando. Ele poderia não me atender, mas fez diferente. Foi cuidadoso comigo, foi cauteloso. Entregou os remédios junto com um copo bem grande e lotado com água, diferente dos outros enfermeiros que iam me analisar. Ele me fez algumas perguntas do tipo "Como eu me sentia?", "Sentia alguma dor ou algum desconforto?" e afins. – Por quê?

—Por que o quê?

—Você está me ajudando, totalmente diferente do que havia dito quando nos encontramos pela última vez.

—Isso faz três anos e nós éramos infantis. Claro, ainda somos, mas eu não guardo rancor. Você acha que eu sou aquela cantora que joga shade (indireta) nas pessoas?

—Bom, você jogou um copo de vodka em minha cabeça.

—E você tentou abaixar minha calça no meio da formatura.

—Aí foi golpe baixo. – Nós nos encaramos por um tempo, mas depois rimos. – É melhor deixar o passado no passado.

—Em falando em passado, você sabe quem está trabalhando aqui? – Não respondi, pois estava com os remédios na boca. – O Alfredo.

Apesar de ter esse nome de mordomo, o moleque era rico, mas muito rico. O pai, dono de fazendas no Mato Grosso e de fábricas em São Paulo, dava tudo ao filho. E é amigo meu. Ainda nos encontrávamos algumas vezes, principalmente em festas.

—Ele está trabalhando em que? Na recepção?

—Ele está cursando medicina. Segundo ano.

—E ele passou como?

—Não passou. Ele comprou a vaga. Conseguiu convencer o pai a fazer isso.

—E como você sabe?

—Uma vez, ele deslocou o braço e eu coloquei no lugar, porém, foi necessário aplicar uma anestesia, o que fez ele responder tudo o que eu perguntasse. Nem preciso dizer o que eu perguntei.

Ele terminou de aplicar uma injeção e saiu do quarto. Minutos depois, minha irmã entrou, com uma cara de preocupação estampada em seu semblante jovial.

—Jonas, eu preciso conversar com você. É urgente.

—Eu também preciso conversar com você e, pelo que vejo, você já sabe.

—Você já sabe da Miranda?

—Ah, eu achei que era outro assunto. Você deixa eu falar primeiro. – Ela afirmou com a cabeça e eu apontei a cadeira para ela sentar.

—Antes de você falar, aconteceu alguma coisa na festa? Eu vi o Carlos essa manhã, mas ele não quis falar comigo.

—É sobre ele que eu gostaria de falar. Na festa, me desafiaram a... – Eu não conseguia dizer. Havia uma trava em minha língua. Aquilo era a minha memória do momento. Apesar de ser um desafio, para mim, era mais que isso, era algo mais real, muito mais sentimental. Eu não sabia o que explicar, nem ao certo o que eu sentia. Porém, larguei isso de lado e soltei tudo de uma vez. – O pessoal me desafiou a beijar o Carlos e fui lá e o beijei.

Fechei os olhos em seguida e me recusei a abrir.

—O quanto você já havia bebido naquela festa? – Foi a única pergunta que ouvi.

—Mais de vinte garrafas de litro.

—Então foi de cerveja e não de vodka.

—Vodka foi em seguida, o que me causou esse problema.

—Por isso que ele não quer falar comigo. Ele está com vergonha.

—E com razão! Eu fiz o garoto passar vergonha! Nem sei como ele foi à escola! Que estúpido eu sou! Olha o que eu fiz! Olha toda a merda que eu causei!

—Jonas, por favor, se acalme. Eu conversarei com o Carlos, a pedido dele, na casa do Zé Antônio. Eu verei o que ele está sentindo.

—Você não está brava comigo?

—Eu estou possessa com você, mas não é hora para isso. – Os olhos dela se encheram de água. Eu nunca a tinha visto chorando de raiva como agora. – Eu preciso de sua ajuda com a Miranda.

—O que aconteceu com ela?

—Ela foi estuprada e eu quero saber quem foi o desgraçado.

—Ela foi o quê?! Mas como?! Quando?!

—Ela não conseguiu me falar. Eu a convenci a ir dormir lá em casa desde sábado, quando ela me contou. Assim, eu tento fazê-la falar mais. Pelo visto, o cara nos conhece, pois ele ameaçou a fazer o mesmo comigo.

—O desgraçado falou o quê?! – Eu me exaltei um pouco e quase pulei da cama de tanta raiva que sentia. Minha irmã segurou as minhas mãos e respirou junto comigo. – Ela não expôs para os tios?

—Ainda não e quero que ela faça isso hoje. Sozinhos, não faremos nada.

—Ela foi à escola? Ou trabalhar?

—Ela está de férias do salão, graças à chefa que entendeu o caso. A escola também entendeu.

—Soraia, não se preocupe, eu te ajudarei em tudo o que precisar.

—Bom, hoje à noite, eu, Miranda, você, Carlos e Zé Antônio dormiremos em casa. Não conheço muitas pessoas, diferente de vocês, que conhecem a cidade inteira.

—Você acha mesmo necessário reunir todos em casa? O pai e a mãe já sabem disso?

—Ainda não conversei com eles. Agora, preciso conversar com o Carlos antes para resolver a sua merda.

—Esquecendo isso, o que você quer que façamos?

—Quero que conversem com o mundo e descubram quem foi o desalmado que destruiu a vida da minha prima!

—Se ela contar quando foi, ajudará ainda mais.

—Foi duas semanas atrás, naquela festa que teve no centro, na "Fire and Ice".

Gelei completamente. Eu estava lá e desconfiava já de alguém. Soraia se despediu e foi embora, arrumar o caos que eu criei. Por sorte, teria alta dentro de algumas horas.