Notas iniciais
Esse capítulo não é indicado para menores de 12 anos: há cenas com intrigas familiares.

Eu estou um caos. Nem imagino como a minha prima está, sentindo dores em seus hematomas, em seu corpo, em sua alma. Era segunda-feira, dois dias depois que ela me contou do ocorrido, duas semanas depois da tragédia, quase umas seis da tarde. Já havia comentado com meus pais que uns amigos meus dormiriam em casa.

Dentre eles, estava o Zé Antônio. Apesar de ser grande amigo de Carlos, o santo dele não batia com o meu. Eu poderia agradecê-lo um pouco por ter consolado o Carlos, mas não seria hoje. Eu estava na cozinha preparando alguma coisa para eles comerem enquanto conversávamos. Meu irmão, depois que contei sobre Miranda, decidiu ajuda-la. Ele a levaria até a casa de meus avós e lá, até onde eu sabia, estavam meus tios e minha prima, que contaria a todos o que ocorreu com ela.

Como meu irmão já sabia, ele daria força para que ninguém caísse sobre os ombros dela com muitas indagações. Meu celular tocou e vi que era Carlos, que provavelmente estava com Zé Antônio. Eu abri o portão e os dois entraram me mostrando umas sacolas com comida. Apontei para a cozinha, onde estava a geladeira e o forno já ligado, pois havia um bolo lá dentro. Depois que os dois organizaram tudo, meu namorado me cumprimentou com um selinho.

—Então, Soraia, o que a fez me convidar para dormir em sua casa?

—E tem motivo para ela fazer isso? – Carlos, que perguntou, recebeu dois olhares de "Jura mesmo que precisa de resposta?". Um meu e um do Zé. – Tudo bem então.

—Eu preciso de vocês para ajudar minha prima.

—O que aconteceu?

—Ela foi estuprada. – Eu precisava aprender a me comunicar melhor, ainda mais quando se trata de um assunto delicado como esse. Simplesmente joguei o ocorrido em cima deles e deixei que filtrassem por conta própria. – E eu quero saber quem foi.

—A polícia sabe disso?

—Não sabe ainda. O cara está ameaçando-a.

—Pelo menos a sua família sabe?

—Ela vai contar a eles hoje, graças ao meu irmão que conseguiu convencê-la.

—Sô, há quanto tempo isso aconteceu?

—Duas semanas. Por enquanto, ela só descobriu uma gravidez.

—Ela está grávida? E como assim "Por enquanto"?

—Vai saber se ela não pegou uma DST. Ela fará mais testes.

O clima fechou do nada. Nenhum de nós dizia nada, apenas aproveitávamos o silêncio que nos cercava e perturbava. Os segundos seguintes permaneceram iguais, apenas mudando quando se ouviu o barulho do portão se abrindo. Meu irmão adentrou pela porta com minha prima em seus braços. Ela estava com uma calça de moletom e uma blusa super folgada. Ela tremia, como se sentisse um frio intenso. Nesse tempo, o dia foi caindo e a sala onde nos encontrávamos escurecia e pesava ainda mais o ambiente.

Minha prima chorava muito. Eu ia perguntar alguma coisa, mas meu irmão levantou a mão para eu me calar. Ele a trouxe para dentro e a deitou no sofá.

—O que aconteceu?

—Ela só está mal. Deu um forte enjoo nela e ela vomitou muito. Além de não conseguir comer nada, ela está com muita dor abdominal e um pouco de sangramento.

Ela não escovava mais os longos cabelos, que iam até o fim das suas costas, sua pele estava seca, além das feridas que formavam em seus braços e pernas. Olheiras grossas e profundas manchavam a pele branca.

—Quero água. – Meu namorado correu à cozinha e trouxe um copo com água fresca, uma mistura da água quase congelada com aquela que saía do filtro de barro. – Obrigada. – Ao tomar toda a água, Miranda deitou no sofá e desmaiou. Meu irmão não deixou que chegássemos perto dela e colocou um travesseiro em sua cabeça para mantê-la confortável.

—Não foi nada fácil para ela contar. Além dos tios não a deixarem falar direito, o Vô começou a culpá-la.

—Você sabe que, com o Vô, é necessário mais cuidado, mais cautela em determinados assuntos.

—E quem teve a ideia de levá-la para a casa de seus avós? – Carlos estava atrás de mim, com as mãos em meus ombros e os apertava com força, o que demonstrava certo nervosismo, talvez pelo fato de meu irmão estar perto da gente.

—Quando eu conversei com ela hoje, depois que saí do hospital, pedi que ela falasse com os pais dela.

—Ela nos quis ao seu lado. Além de sermos padrinhos, a confiança dela por nós é maior. – Minha mãe estava atrás de todos com a bolsa da minha prima, com as roupas dela.

—Por fim, ela achou melhor contar na casa dos seus avós. – Resmungou meu pai. – Agora, vão para a cozinha e a deixem dormir por um tempo.

Meus pais, depois que nos passaram alguns avisos, saíram para irem à delegacia e fazer o boletim de ocorrência.

—Ela não falou mais nada sobre quem foi?

—Ela se recusa. Sua suspeita de que a pessoa nos conhece está certa. Toda vez que olha para mim, o que a faz lembrar de você e sua segurança, ela para de falar e chora.

Eu me lembrava das únicas palavras que dissemos depois que ela me expôs sobre o abuso:

—Soraia, esqueça isso.

—Miranda, quem foi?

—Eu não posso dizer! Ele vai me matar! Ele vai atrás de você!

E meu irmão estava muito estranho. Ele não saía de perto dela, como se fosse um cão-guarda. Ele estava me escondendo alguma coisa e eu vou arrancar dele na marra. Enquanto Carlos e Zé Antônio brincavam com um joguinho em seus celulares – um tal de monstrinhos de bolso – fui até meu quarto tomar um rápido banho. Assim que passei pela porta, ouvi o meu irmão brigando no celular.

—Se eu te achar, eu juro que acabo com a sua raça! Você nunca mais verá a luz do dia! Vai dormir com os peixes! – Depois que desligou, jogou o telefone na parede, que quebrou em vários pedaços. – Ainda bem que usei essa velharia! – Era um celular que ele tinha há uns seis anos. Mal carregava direito.

—O que aconteceu?

—Eu tenho uma suspeita de quem seja o desgraçado.

—Se fosse uma suspeita, não teria gritado desse jeito no telefone. – Ele silenciou e tentou me fechar para fora do quarto, porém, coloquei o pé na abertura que ficou. – O que você tem para me dizer?

—Não é nada. Eu só preciso descansar para cuidar da Miranda.

—Você não me engana Jonas. Tem dedo seu nessa história.

—Eu juro por Deus que não tenho nada a ver com isso. – Ele nunca "jurava por Deus". Talvez eu devesse acreditar nele... Só que não.

—Então está bem. Vá dormir. Não é todo o dia que quase morremos. – Ele deu um sorrisinho, porém, não creio que era de alegria, mas sim de insatisfação. Eu pegaria o telefone dele e descobriria com quem ele estava conversando.

Fiquei esperando do lado de fora do quarto enquanto ouvia os roncos dele, que cessaram meia hora depois. Em seguida, ouvi o barulho do chuveiro e a música em um volume muito alto. Era a minha chance, porém, a porta estava trancada. Para o azar dele, meus pais tinham uma cópia de todas as chaves e eu sabia onde estavam. Corri até o quarto deles, que ficava no final daquele corredor, e comecei a buscar entre as gavetas de cuecas e calcinhas.

Eu a achei dentro de uma caixinha no fundo de uma das gavetas. Corri para o quarto de meu irmão, porém, já não mais ouvia o barulho do chuveiro, apenas da música. Encostei a orelha na porta e pude ouvi-lo cantando e se questionando onde estaria a máquina de cortar cabelos. Novamente, escutei o chuveiro sendo ligado.

Agora, seria o momento para entrar. Testando chave por chave, quase na última do molho com dez chaves, eu abri a porta e entrei naquele quarto fedorento e bagunçado. Eu, mexendo nas coisas dele, achei o celular em um amontoado de roupas sujas perto da porta do banheiro.

Havia algumas mensagens para meu irmão ler, mas havia apenas uma que estava na pasta de SMSs e o telefone não estava cadastrado:

"Você vai mesmo me entregar?"

"Cara, você feriu a minha prima! É claro que eu vou te entregar!"

"Bom saber que você está trocando a nossa amizade por aquela garota..."

"Aquela garota é minha prima e você a estuprou!"

"Mas foi você que me apresentou a ela."

"Eu fui apenas educado, já que eu não esperava que ela fosse estar na mesma festa que eu. E, mesmo se eu tivesse a arranjado para vocês ficarem, não te dava o direito de fazer aquilo."

"Mano, isso não foi nada. Ela vai ficar bem."

"Ela está grávida! Você engravidou a minha prima!"

"E você quer que eu faça o que? Assuma a criança?"

"Se não fizer isso, irá pagar por tudo o que você fez com ela! Minha família inteira te processará e arrancaremos tudo de você!"

Depois disso, não teve mais nenhuma mensagem. Eu peguei meu celular e tirei fotos daquela conversa. Sabia que meu irmão escondia algo de mim, mas não algo tão grave. Se ele presenciou a cena e não ajudou Miranda, eu farei com que ele pague junto desse garoto.