Notas iniciais
Esse capítulo não é indicado para menores de 12 anos: há cenas de corrupção e injustiça.

Na delegacia, eu fui ajudado por Rogério. Ele cuidou dos meus ferimentos e fez os curativos necessários. Ele estava como ajudante do médico que faria os exames em Miranda. Caso ela quisesse abortar, seria necessário a permissão de um médico. Assim, ela faria em uma clínica segura. Meus tios e meus pais faziam o boletim de ocorrência contra Alfredo, o pai dele fazia contra mim. Apesar de seu dinheiro, ele não conseguiu, pois era evidente quem saiu prejudicado da briga.

Durante a discussão entre os adultos mais responsáveis, minha prima era submetida aos exames na clínica perto da delegacia. Os exames demorariam cerca de algumas horas para ficarem prontos, já que todos estavam com pressa.

—Jonas, você sabe que, contra Alfredo e o pai dele, não haverá nada que possamos fazer?

—Eu sei Rogério, mas eu preciso ir até o final disso tudo. Ele feriu minha prima e quase feriu a minha irmã também. – Meu rosto ainda doía muito. – Mesmo com todo o dinheiro dele, há provas contra o garoto.

—Eu falei lá no postinho e a gerência decidiu ceder aquela filmagem para os policiais, que apenas verificaram a veracidade das gravações. Depois, com os meus exames e os exames de agora, ele será processado e preso, além de ter que bancar o aborto da sua prima. Se a justiça foi certa... – Ele parou de falar e eu sabia o que ele pensava.

Justiça: uma palavra tão bem procurada, mas pouco usada. Quantas mulheres abusadas sofrem com isso, não tem apoio da família, nem de amigos e muito menos do Estado. Quantas mulheres são obrigadas a terem um filho indesejado, o filho de um estuprador, de um criminoso que feriu a alma dela.

Soraia, do meu lado, chorava muito. Eram lágrimas de tristeza, desespero e raiva. Em seguida, todos foram chamados para depor. Eram perguntas longas, demoradas e respostas maiores ainda. Contei tudo o que eu lembrei da festa. Soraia contou tudo o que Miranda disse a ela e o que ocorreu naquele dia. Carlos, como namorado, apenas referiu o que Soraia contara. O outro garoto, Zé Antônio, e a garota Milena não estavam. Foram deixados fora da história.

Depois de um tempo, Miranda apareceu e foi interrogada também e o depoimento dela demorou mais que o de todos nós. Diferente do de Alfredo, que foi extremamente rápido. Os interrogadores, dois homens, faziam algumas anotações em nossa frente após quase tudo feito.

Restava apenas o resultado dos exames e de algumas provas.

Dentro de duas horas, tudo estava nas mãos do delegado, que enviou tudo a um juiz. Agora, era esperar as duas semanas para o julgamento formal. O processo até que foi rápido. Meu tio e meu pai correram para apressar o caso, mesmo com alguns tentando evitar tal continuação. Nesse meio tempo, comecei a trabalhar como garçom e entregador.

O pior foi começar a jogar minha culpa na bebida e usá-la como remédio. Eu bebia incontrolavelmente. Não aparentava, mas minha cabeça latejava de ressaca todas as manhãs. Por causa disso, fiz uma besteira enorme e quase ataquei a minha irmã em casa.

Por sorte, fora durante um dia em que meus pais não estavam e aquele amigo dela, Zé Antônio, veio para ajudar. Que mania a minha de querer tudo para mim. Sabia da sexualidade do garoto e eu o beijei. Ridículo da minha parte. Nesse caos que estava a nossa vida e eu faço isso.

Por fim, me fechei ainda mais e me excluí do mundo. Não ajudava mais minha família, muito menos a minha prima. Com Alfredo solto, meus pais e tios decidiram ficar de olho 24 horas por dia nas duas. E os dias foram voando cada vez mais e o dia do julgamento foi se aproximando. Então, precisava sair daquilo, daquele meu espírito hipnotizado.

Cinco dias depois, todos nós estávamos no fórum da cidade, prontos para enfrentar o julgamento da minha prima. Lá, haveria uma batalha entre os advogados. Todos apontavam provas e mais provas para inocentar ou condenar o réu, o Alfredo, que estava muito relaxado. Era como se ele soubesse que sairia ileso dali.

—Jonas, você está bem? – Era Rogério, o médico da minha prima. – Você está bem abatido.

Sim, eu estava. Minha pele branca estava mais pálida, meus cabelos eu não mais raspava toda semana, meus dentes eu cuidava pouco e minhas roupas estavam em péssimo estado.

—Eu fiz uma merda algum tempo atrás e acho que eu me ferrei ainda mais.

—Você está falando do incidente da festa?

—Não, esse já foi amenizado. Um dia, eu fiquei bêbado em casa e comecei a atacar a minha irmã. Se não fosse o amigo dela, não sei o que teria feito, contudo, eu beijei o garoto e isso me fez mal. Eu estou com alguma coisa aqui dentro e nem imagino o que seja.

—É tipo um frio na barriga? Uma mistura de sensações que não consegue explicar? É uma espécie de dança maluca que faz você ficar diferente perto dele? – Ele descreveu tudo o que eu sentia. Foi estranho.

—Você já passou por isso?

—Já passei, e estou passando. E acho que eu sei o que é o seu caso, pois eu sei o que é o meu. – Ele fazia aquele maldito mistério que me incomodava. – Acho que você está gostando do garoto.

—Você deve estar ficando maluco. Por que eu me apaixonaria pelo Zé Antônio?

—Quando a paixão vem, ela vem com força e, se persistir, pode se transformar em amor. Agora, só não deixe isso mexer com a sua cabeça.

—Todos em pé para recebermos o juiz.

O julgamento começaria e eu não entendi o nome da pessoa. O juiz entrou, seguido pelo júri e eu fiquei totalmente espantado. Rogério, meus pais, meus tios e os amigos de minha irmã também ficaram. Todo o júri era composto por homens, não havia nenhuma mulher. Como, por meio de sorteio, nenhuma mulher foi escolhida? E eu conhecia muitos daqueles homens, todos filhos ou pais que abandonaram alguma esposa, ou várias esposas. Eram pessoas ligadas ao dinheiro e à família de Alfredo, amigos muito íntimos.

—Rogério, você acha que isso é sabotagem?

—Talvez sim, talvez não. O que apenas posso apontar é que Alfredo molhou a mão de todos com dinheiro. Esse sorteio para escolher o júri foi forjado.

—Iremos perder, então?

—Eu não sei, só nos resta esperar.