Relatos de 11 de Setembro
14 Liz - capítulo final.
Notas iniciais
Morrer para mim nunca foi um medo. Afinal, todos morrem. O que eu não quero é sofrer e agonizar em uma morte horrível, como deve ter sido para todos os mais de mil que morreram com esses atentados de uma semana atrás. Minha irmã foi uma pessoa forte e corajosa em todos os momentos da vida dela, eu devo admitir. Apesar de tudo, como por exemplo o fato de ela abandonar a família para ser rica, ninguém pode discordar da sua coragem para enfrentar tudo que aparece á sua frente de forma madura, até a própria morte. Todos os suicidas tem meu total respeito, pois, nessa uma semana de cama e chorando a cada dois minutos, percebi que a morte não é fácil de ser lidada, não é algo banal nem algo que pode ser brincado. A morte é uma parte do ciclo da vida crucial para que nós possamos seguir em frente, ir por outros caminhos, e se desprender do mundo a sua volta da forma mais radical possível, onde nenhuma lei se aplica e podemos ter nosso livre arbítrio. De todas as fases do ciclo da vida, a morte é a mais fácil de se ocorrer, se for parar para pensar direito. Todos podemos escolher a hora de morrer, é um direito nosso. Todas as pessoas que se jogaram das Torres Gêmeas em New York tiveram plena consciência e adquiriram a maturidade para a morte naqueles poucos minutos de agonia e tensão passados. Eu não provei nem metade do que esse ato terrorista se mostrou capais. Apenas ouvi o barulho da explosão, e fiquei nessa cama o tempo todo por uma semana. Eu, na verdade, não sei nada sobre a morte. Não sei nada sobre como é a sensação de saber que você vai morrer. Não sei nada sobre tirar sua própria vida.
Mas agora terei.
Josh saiu para o enterro da minha irmã, que insistiu em seu testamento em ser enterrada no cemitério de Washington. Não quis ir, não vou. Tenho que me encontrar com ela.
Estou agora sentada na frente da escrivaninha do quarto do meu filho. A corda amarrada pendurada está no corredor. O banco já está abaixo dela. Não sei como escrever uma carta suicida. Toda vez que penso em como vou escrevê-la, uma outra maneira me surge á cabeça. Estou a meia hora aqui sentada com essa folha ofício em branco escolhida aleatoriamente e essa caneta preta á minha frente. Uma carta suicida, na verdade, deveria mostrar tudo que a pessoa tem a cabeça no momento de sua morte, não para ela ficar pensando. Não tem outra maneira, eu tenho que escrever da forma que eu achar possível, antes que minhas lágrimas rasguem o papel em branco á minha frente.
Querido Josh,
Espero que entenda que não fiz o que fiz por sua culpa. Não. Fiz o que fiz por que cheguei a uma maturidade na minha vida que a morte é algo que se precisa ter maturidade para enfrentar. Pode parecer que não, meu filho, mas eu adquiri conhecimento e maturidade nessa última semana. Você, foi uma parte importante para que eu visse que sem mim você vai mais longe. Você tem suas asas, só precisa voar. Se eu continuasse ao seu lado, os pesos de suas asas nunca ficariam leves o suficiente para você voar longe. Estou do seu lado, acredite nisso. Onde quer que esteja, sempre estarei ao seu lado. Eu te amo, e espero que a cada momento de sua vida se lembre de mim como a mulher que te libertou para poder ser a pessoa que sempre sonhou, sem pressão, sem expectativas. Você é especial, Josh, e não só para mim que sou sua mãe, mas também para seu pai, o homem que mais amei no mundo, e que mais lhe amou também. Muitos desafios aparecerão na sua frente, e quero que lute-os com toda sua sabedoria que eu passei para você nesses tempos, apesar de você não ter dado valor. Não peço nada de você, Josh. Seja a pessoa que quiser, seja o homem que quiser. Seja quem você achar que é o melhor. Minha irmã teve sua vida difícil, e escolheu o pior caminho para mim, mas não para ela, e agora ela pode sair da vida em paz, assim como eu. Siga seus sonhos, Josh. Não exijo nada de você, nem de ninguém. Mas espero que você somente realize meu último desejo dentro de você.
Nunca se esqueça.
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