Relatos de 11 de Setembro
5 Jones - 5
Notas iniciais
Outro pra vcssss, hoje teve dois por que teve um dia aí que eu não postei. Outro amanhã!
Chego no mesmo bar em que Ashley se embebedou comigo no Happy Hour, e o vejo vazio, tirando a inesquecível aparência de Juliana McPhee, sentada no balcão com um vestido preto. Atrás do balcão, vejo o barman colocando um drink azul em sua frente.
Ando pela madeira vintage do bar em direção ao balcão alto com vários bancos ao redor, e me sento junto a irmã da mulher mais forte que já conheci.– Juliana McPhee — falo, colocando um sorriso no rosto. Sei que sou bonito, e que o ponto fraco das mulheres sempre é meu sorriso. Imagino que Juliana McPhee queira sair um pouco da zona do luto. A vida continua, temos que nascer e morrer. Eu só quero fazê-la se sentir melhor.E consegui.Vejo o olhar distante dela para mim. Assim como todas as mulheres, ela se derreteu ao olhar para meu sorriso.– Só July, por favor, Jones. — fala ela, pegando o drink no balcão e levando aos seus lábios nem finos nem grossos.– Ok, July, eu queria lhe fazer uma pergunta, se não se incomoda. — digo. Tento desvencilhar do assunto do World Trade Center o máximo possível.– Diga.– Por que convidar um mero funcionário de sua irmã para tomar drinks?Ela para um pouco. Vejo que está pensando, enquanto olha bem fundo nos meus olhos. Se tem algo que eu valorizo em uma pessoa, é ela olhar nos olhos de quem está falando. Para mim, mesmo sendo clichê, mas como todos os clichês, é verdade: os olhos são as janelas da alma. Ela simplesmente, olhando nos meus olhos, diz:– Por que não?Sinto uma pitada de filosofia na sua pergunta. Não sei se foi Sócrates ou Aristoteles ou Platão que criou esse sistema de dialética, que responde uma pergunta com outra, sucessivamente. Mas acho melhor quebrar o ciclo.– Porque você não me conhece, e não sabe das minhas manias nem se eu sou perigoso.– Cala a boca! — ela fala, irônica.E toma mais do drink á sua frente, até esvazia-lo. Por que sinto que ela quer desabafar comigo? Ela continua, depois de estender o dedo e pedir outro drink ao barman: — Você com certeza não é ladrão. Quer dizer, olha o apartamento em que você mora! Você era um dos melhores advogados da minha irmã! E não é um estuprador, por que as mulheres devem implorar para que transe com elas, quer dizer, seu corpo é perfeito! Eu te vi sem camisa e posso dizer que sim!Meu drink chega, o mesmo de July. Tomo um gole como uma desculpa para pensar em uma resposta tentando desvencilhar o máximo do assunto que é sua irmã. Nesse meio tempo, July chega a virar outra e pedir outra taça. Nem brindamos.– Eu malho, é verdade. — digo. — mas você nunca poderia ter certeza se...– Minha irmã nunca faria isso — diz ela, me interrompendo. — Chamar você aqui. Ela sempre tinha um pé atrás. Não sei como ela se jogou daquela torre. — ela se aproxima de mim, ao pé do meu ouvido com a taça na mão — cá entre nós, acho que ela foi empurrada.Não acredito que ela esteja falando assim da própria irmã. Posso não gostar de discursos fúnebres, mas nada do que eu falei em meu discurso foi mentira. Ashley realmente enfrentava tudo a sua frente, sem medo. Mas tento mudar de assunto novamente.– E você mora aonde, July?– New Jersey — diz ela. — Mas estou tentando me mudar para New York faz um ano, mas os apartamentos estão uma loucura para serem vendidos aqui. Todos querem New York!– É, é uma cidade maravilhosa mesmo...– Sim, maravilhosa e agora aterrorizada. Olha! — ela está olhando para a TV no canto do bar, que mostra um vídeo das duas torres soltando fumaça. — Moço, aumenta o volume!O barman pega o controle e coloca o volume para o máximo, e o som da voz da repórter ecoa no bar vazio:– Estima-se que mais de mil pessoas morreram, e mais de cinco mil feridos nos dois atentados.– July — tento atrair a atenção dela para mim. Mas ela ainda olha para a televisão. Algo me diz que essa não é a terceira taça dela, e que ela está mais que bêbada. — July, como vai a procura por apartamentos em New York?– Cala a boca, Jones! — grita ela, se levantando para mim e quebrando a taça no balcão, esparramando o drink sobre meu terno. — Você acha que eu não sei que você está querendo mudar o assunto sobre o atentado? Acha que não sei que Ashley era uma porca com você, assim como era com todos que a cercavam? Eu não sou burra, Jones, mas pelo visto você é. Você é por querer fazer que os outros acreditem realmente que você sente falta de Ashley quando na verdade, se você pudesse, estaria dançando em cima do caixão vazio dela, já que, segundo você mesmo, seu corpo se estraçalhou no chão. Para de ser hipócrita e dizer para os outros que você não é bonito nem gostoso, por que você é e sabe que é, e se eu pudesse, lhe levaria para meu quarto de hotel agora mesmo. Mas os bons costumes que minha irmã tanto me ensinou não deixam. Ela só foi um peso nas nossas vidas, e agora que ela se foi você vem dizer que ela merecia uma vida longa? Por favor! Estou indo embora.July sai da minha frente. Fico parado. Sei que ela está bêbada, mas uma pessoa bêbada sempre fala as verdades. E, infelizmente, a grosso modo, tudo que ela disse é verdade.
Coloco três notas de cem dólares no balcão em que o barman paralisado com a cena está atrás e saio correndo atrás de July na rua, chovendo nessa noite. Ela está na entrada do Central Park, que fica bem a frente do bar. Nenhum carro na rua. O clima de luto ainda reina por New York.Atravesso a rua encharcada e vejo July na entrada do Central Park, olhando fixamente para a fonte d'agua da abertura de "Friends".– July, por favor, eu te levo em casa. — digo, virando-a para mim e vedo seu rosto choroso.– Sabe — ela começa — todos os funcionários da minha irmã eram piores ou iguais a ela. Mas acho que se tem uma coisa que ela fez bem, foi contratar você.Não consigo pensar em nada no momento, por que meus pensamentos são bloqueados pelos lábios de July beijando os meus, enquanto a água da chuva escorre pelos nossos corpos na entrada do Central Park.
Notas finais
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