Relatos de 11 de Setembro
4 Jones - 4
Notas iniciais
Qualquer que seja meu problema com cemitérios, acho que começou quando fui ao enterro da minha avó com dez anos de idade. Não gosto de cemitérios, me dão calafrios. Mas com o tempo aprendi a controla-los e a não deixar de ir a enterros por essa simples "fobia" minha. Porém, quando posso, evito. Como quando fui a Paris e não visitei o famoso cemitério que esqueci o nome. Todos meus amigos acharam que eu fui idiota a não entrar no enorme cemitério de Paris, mas eu não ligo. Odeio cemitérios. Ainda por cima hoje, uma semana após o maior atentado terrorista da história dos Estados Unidos.
O cemitério é enorme, mas a cada cinco lápides, uma está com um grupo de pessoas vestidas de preto em volta e alguém enterrando um caixão nesse local.
Vejo a mulher que me chamou, Juliana McPhee, ao lado de um monte de pessoas vestidas de preto e junto a um caixão perto de uma lápide com os dizeres:
Ashley McPhee
19/03/1965. 11/09/2001.
Me aproximo da Juliana, enquanto ela chora. Ela olha para o lado, imagino por que ouviu meus passos ao som do estalo dos meus passos em cima das folhas secas do outono nova-iorquino.
– Você veio! — fala ela, me abraçando enquanto enxuga as lágrimas com um lenço.
– Vim — falo, saindo do abraço.
Um tempo se passa, o pastor diz algumas palavras, as mesmas palavras clichês de todos os enterros. Não conheço ninguém aqui. Cumprimento os pais de Ashley por educação, mas nunca os vi na vida. Me sinto um estranho no ninho. Mas é por uma boa causa, ainda me lembro do dia que vi minha chefe bêbada na minha frente.
– Quem quiser prestar suas homenagens, fale agora por favor. — fala o pastor.
A mãe de Ashley, soluçando, fala das vezes em que ela foi aos recitais da filha, quando Ashely de formou em direito, e em breve lideraria uma cadeia de advogados na qual eu estou incluído, num dos andares mais altos da torre norte do World Trade Center em New York. Seu pai, fala sobre a filha maravilhosa e educada, amada por todos, elogiAda, trabalhadora, boa filha, amiga e mãe. Sim, Ashley tem uma filha, que não está aqui hoje.
Chegou a vez de Juliana.
Ela para um pouco, de cabeça baixa e as lágrimas escorrendo pelo seu rosto bonito, pingam no discurso que ela deveria ler. Mas percebo que não lê.
– Minha irmã não era uma pessoa muito amada ou querida, ela simplesmente era odiada pelos funcionários. Mas, ninguém a via como ela realmente era. Uma pessoa forte, batalhadora, sonhadora, sem medo de ser feliz, e sem medo de correr riscos. Nunca vou esquecer da menina que eu brincava com cavalinhos de cabos de vassoura no jardim de New Jersey, e sempre vou lembrar da minha irmã que me ajudou a passar em Harvard. Nunca nos esqueceremos de você, Ash.
Juliana sai de trás da lápide, e volta para meu lado.
– Podia falar alguma coisa, querido? — pergunta a mãe de Ashley. — Ela com certeza gostaria que você falasse algo.
Ah, tá. Até parece, Ashley odiava quando eu me metia nas suas estatísticas e me fazia de palhaço na primeira chance que via. Mas isso é uma ocasião especial, acabou de ocorrer o maior atentado terrorista da história.
– Ok. — falo.
Me dirijo até atrás da lápide. Tento pensar em algo bom para falar sobre Ashley, buscar nas minhas mais profundas memórias algum momento que talvez me faça sentir saudades dela. Mas eu simplesmente deixo que minha consciência fale por mim.
– Eu conhecendo bem a Ashley, sei que se ela estivesse aqui, provavelmente iria arranjar uma desculpa e sair de fininho. — falo. Vejo que seus pais estão estranhando, mas acho que vou melhorar esse discurso um pouco. — Mas a Ashley era assim, e sua liderança era maravilhosa. Uma firma de advogados num dos andares mais altos da Torre Norte, uma mulher forte e que não se deixava abater. Me lembro de um Happy Hour que fomos juntos, em que ela havia bebido um pouco demais, e desabafou comigo que seu jeito durão era para ajudar as pessoas a enfrentar um mundo real, um mundo de tristezas, pessoas ruins, e injustiças. Foi com essa filosofia que Ashley tomou a decisão mais sensata e difícil de sua vida de cabeça erguida, enfrentando tudo a sua frente com a maturidade que ela sempre prezou no trabalho, até na hora de sua morte.
Não consigo pensar em mais nada. Os pais dela estão chorando, e Juliana também. Acho que meu discurso tocou cada um deles, não sei como, por que nunca fui bom em discursos, quanto mais discursos fúnebres.
Vou andando até Juliana, enquanto o caixão vai descendo terra abaixo.
– Belo discurso — disse ela, ao pé do meu ouvido.
– Obrigado. Eu não sou muito bom com essas coisas.
Quando estamos saindo do cemitério, Juliana me aborda antes de eu entrar no meu carro.
– Jones! — fala ela, não muito alto.
– Oi — falo, frio.
Ela olha para mim com seus olhos azuis por trás do cabelo cor de caramelo na sua face que caiu com sua corrida para mim.
– Quer sair? Hoje de noite, podemos tomar uns drinks... Eu preciso sair dessa rotina de luto. Eu não sirvo para isso. Tenho que me desvencilhar um pouco.
Não sei se aceito ou não, por um lado, tenho a irmã da minha chefe morta aqui que precisa de um amigo num momento difícil. Por outro, tenho a mulher que me irritou depois do pior atentado da história e me dez falar no funeral da minha chefe que me odiava, me fazendo fingir que gostava dela. Mas acho que é bom dar uma chance.
– Claro — falo. — Onde?
– No bar perto do Central Park, o mesmo que você e Ashley fizeram o Happy Hour. Sabe onde fica?
– Claro.
– Ás 22:00, pode ser?
– Ótimo.
– Até lá, então.
E é assim que se quebra um luto.
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