Relíquias de Guerra- A Adaga de Rubi
7 Agatha- Enjaulada
Notas iniciais
Ando em voltas por um bom tempo, finalmente paro e me sento no canto, o chão é áspero, as paredes também, mas tem uma parte que é grade ou algo parecido, provavelmente estou em uma cela, não posso ter certeza, está muito escuro.
Não sei o que está acontecendo, não sei onde estou. A última coisa de que me lembro, foi que me prenderam em algum tipo de rede e depois me raptaram, o resto é um buraco negro enorme, posso ter sido sequestrada, essa é uma das opções, talvez a única. Ainda sinto um pouco de dor, mas nada que me impeça de fugir quando for à hora. O medo já se esvaiu de mim há algum tempo, agora não sinto mais nada, só um vazio enorme, estou sozinha com meus pensamentos, e isso está me matando aos poucos, os pensamentos machucam mais que qualquer faca.
Estou encolhida no canto quando ouço passos, uma luz entra no meu campo de visão e poucos segundos depois, um homem esta segurando uma tocha à minha frente, não sei se posso chamar essa “coisa” de homem, deve ter cerca de 2 metros, a pele esverdeada, e muitos olhos, sinto um arrepio, e o medo ressurge como um navio há muito tempo naufragado, ele me olha com todos aqueles olhos, piscando, parece que está me analisando, depois vai embora.
—Ei tem alguém ai? – Ouço uma voz feminina vindo de algum lugar – Alguém? Por favor, fale comigo.
—Olá? Onde você está? – Não reconheço minha própria voz.
—Estou na cela ao lado, até agora achava que a sua cela estava vazia, mas vi o guardião ir ai.
—Guardião?
—Sim, os guardiões, o cara que acabou de passar ai, mas você já sabia... Certo?
—Não... Eu não sabia, onde a gente tá? Eu estava indo para a casa e esses bichos me pegaram, eu só quero ir pra casa e abraçar minha mãe! – Minha voz sai desesperada e mais alta do que eu queria.
—Calma. A gente tá em Hillstrom, isto é uma fortaleza que foi construída no topo de uma colina, existe faz quase um milênio, eles prendiam os guerreiros de Anger aqui, depois que a guerra acabou, começaram a utilizar para prender os piores criminosos.
Demorou um pouco pra responder, assimilando tudo freneticamente.
—Hã? Isso é alguma brincadeira?
—Seria ótimo se fosse. Afinal você veio de onde? – ela pergunta.
—Sério? Eu sou da Terra – Falo como se isso fosse à coisa mais óbvia do mundo.
—O quê? Terra? Já ouvi falar desse planeta, ele é enorme, tem mais água que terra, se não me engano. Ah! E tem uma civilização, são poucos planetas que tem civilizações – Ela fala como se estivesse em uma aula de geografia. – Mas o que você tá fazendo aqui? Guardiões não pegam ninguém de outro planeta.
—Se eu soubesse, não estaria te perguntando. Se hipoteticamente eu não estou na Terra onde é que eu tô?
—Em Nifion – Já prevendo minha pergunta ela diz: – É um planeta muito distante dos outros, o mais próximo é Anger.
— Ok... Ok... Gostaria muito de saber mais coisas sobre onde estou e curiosidades sobre Nifion, mas tenho que sair daqui – Ainda não acredito nas besteiras que a voz disse, possivelmente é uma drogada.
—Posso ir com você?
—Hmm... – Não sei se devo confiar numa pessoa que nem vejo, mas ela sabe mais do que eu desse lugar – Sim. Qual o seu nome?
—Samantha, mas pode me chamar de Sam.
.........
Consegui dormir por algumas horas, mas não sei se é de dia ou noite, isso dificulta muito a elaboração de um plano de fuga. Sam ficou acordada vendo a movimentação dos guardas, ela disse que eles trocam de posto a cada meia hora, tenho que confiar nela, afinal ela já está aqui há muito tempo. Agora que já descansei parece meio impossível fugir daqui, não tenho nada comigo e duvido muito que Sam tenha. Os guardas com certeza nos impediriam antes mesmo de virarmos o corredor.
Um guardião passa olhando fixamente para mim, por um instante ele volta, para e me observa, depois segue reto, nesse instante ouço o som de alguma coisa se chocando contra o chão, me encolho mais ainda na parede, tentando me camuflar, por um segundo fica tudo nas trevas, mas a luz volta rapidamente, vejo a sombra de alguém se aproximar, fico olhando hipnotizada para o corredor, um garoto aparece, talvez um pouco mais velho do que eu, alto, cabelo castanho, os olhos cor âmbar, segurando em uma mão a tocha e na outra uma arma, logo em seguida aparece uma garota, baixa, loira com mechas azuis, vestida toda de preto, parece que vai a um funeral.
—Alice! – O garoto fala. – Finalmente achamos você.
—Você está bem? – Pergunta a garota.
Fico quieta, não sei o que responder. Quem é Alice? Eles percebem que fico em silêncio e falam:
—Ok. Você não deve estar muito bem, vamos te tirar dai.
Ainda não sei quem é Alice, mas acho melhor eu começar a atuar, porque pode ser a única forma de sair daqui.
—Por favor, me tirem daqui! – Falo, soando angustiada.
O menino sai por alguns segundos e volta com a chave, acontece um estralo e a porta é aberta. Ele vem em minha direção, enquanto a menina fica parada onde esta, me abraça forte, ajudando-me a se levantar.
— Você consegue andar? – Faço que sim com a cabeça – Ok, temos que ser rápidos.
O corredor é estreito e longo, ele aponta para a esquerda, começo a andar.
—Socorro!
Paro imediatamente quando ouço essa voz.
Volto meus passos e paro em frente a uma cela, vejo apenas sombras e chamo:
—Sam?
Uma menina, que deve ter quase a minha idade vem rastejando até as barras, suja e muito magra, seu cabelo ultrapassando a cintura.
—Ah! Meu deus, temos que tirar ela daqui – Olho para o garoto que está imóvel – O que? Temos que tirar ela daqui!
Como se tivesse em um transe ele desperta e abre a porta. Sam se levanta e vou em sua ajuda.
—Obrigada Alice – Ela diz.
Ela se apoia em mim, e seguimos o rapaz, a menina que estava com ele sumiu, eu poderia perguntar, a Alice perguntaria. Como se lesse minha mente o garoto fala:
— Cloe foi na frente, já deve ter chegado na picape.
Viramos a esquerda, e saímos em um vestíbulo, há muitas portas, tantas que começo a ficar perdida, mas só uma está aberta, passamos por ela, e a luz do sol ofusca minha visão, o ar puro invade meu pulmão, meus olhos logo se acostumam, e posso ver onde eu estou, enquanto corro, descendo as escadas apressadamente, contemplo pinheiros tão altos que chegam nas nuvens, um lago em forma de meia lua, a água escura, como o céu em uma noite sem estrelas. Olho por cima do ombro e vejo guardiões disparados atrás de nós, já avisto a picape, Cloe está no volante, mexendo as mãos freneticamente para nós, o garoto chega primeiro que a gente, e depois de alguns segundos eu e Sam entramos na picape, em seguida a garota chamada Cloe acelera.
—Por que demorou tanto Asher? Achei que tinha acontecido alguma coisa.
Asher direciona o olhar para Sam como resposta. Estamos tão rápidos quanto o vento, pela janela vejo os guardiões serem deixados para trás e toda aquela beleza incomum, me recosto no banco e finalmente respiro em paz.
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