Relíquias de Guerra- A Adaga de Rubi
8 Agatha- Finalmente a verdade
Notas iniciais
Começa a chuviscar, fazendo com que eu não consiga ver a paisagem. Viro para o outro lado, Sam está dormindo, pelo menos é o que eu acho.
—Alice você está bem mesmo? – Cloe pergunta, olhando pelo retrovisor.
—Ficaria melhor se parassem de me perguntar isso – compreendo que fui muito grossa – Desculpe, tudo isso foi demais, ainda estou tentando entender.
—Sim... Claro. Perfeitamente normal.
—Você quer meu casaco? – Asher indaga, vendo que estou tremendo.
Aceito. Fica enorme em mim, mas assim é melhor, agora que estou aquecida e posso pensar melhor. Eu poderia fugir, mas seria muito arriscado, não sei para onde estão me levando e nem quem são, aparentemente estou ferrada. Cloe liga o rádio e uma música eletrônica horrível começa a tocar, ela dança loucamente, jogando a cabeça para todos os lados. É, tenho que fugir, assim que pararmos em algum lugar vou correr como se estivesse em uma maratona, só que no lugar de ganhar um troféu e alguns vales-compras no minúsculo shopping da cidade eu estaria ganhando minha vida.
Aos poucos o verde das florestas e campos se esvai e casas e prédios aparecem, a chuva parou e agora já posso ver pela janela, parece que estamos entrando em uma metrópole ou algo do tipo. Cada minuto nós adentramos mais, tem prédios que chegam a alcançar as nuvens, muitas lojas, todas com letreiros neon. Passamos por uma ponte que não consegui ver o final de tão extensa, ao nosso lado observo os carros, tantos que fico surpresa por a ponte aguentar, nenhum é igual, modelos diferentes, cores, o nosso é o mais velho, os outros são estilosos e modernos, não reconheço nenhum.
Depois de séculos, saímos daquela ponte, esse lado é o contrario do outro, muitas casas aglomeradas, prédios caindo aos pedaços, pichações, postes quebrados e uma excessiva população, nas calçadas nem deve dar para andar, pessoas de todos os tipos desde mulheres vestidas de preto com um chapéu pontiagudo até mendigos pedindo esmola. Vamos mais rápidos aqui, já que pelo visto poucas pessoas tem carro. Seguimos por uma avenida até chegar a um local totalmente deserto, paramos em frente de um galpão. Cloe e Asher saltão do carro, enquanto eu e Sam ficamos paradas. Mexo em seus abraços até que acorde e descemos. Asher já entrou, Cloe está nos chamando, ajudo Sam a andar, chegamos a uma porta de ferro, Cloe faz sinal com as mãos para entrarmos. Fico admirada, o lugar é imenso, mesmo não aparentando. Tem alguns pilares, mas nada de paredes.
—Chegamos, Alice pode ir para o seu quarto descansar, quando Nate chegar você vai ter que responder algumas perguntas. Já você – Ela aponta para Sam – Pode dormir no meu quarto por enquanto, é lá em cima, o último do corredor.
Estamos subindo quando me lembro de uma coisa.
—Cloe... Qual é meu quarto?
—Que? Uau você realmente não está bem. É o primeiro.
Subimos a escada, lá em cima nos separamos, entro no primeiro quarto, que não tem quase nada, só uma cama, uma escrivaninha e uma caixa com poucas roupas, o quarto é cinza com toques de bege, nem parece que uma pessoa dormia aqui. Totalmente sem vida. Me jogo na cama, meus olhos ardem de cansaço, mas não posso dormir, tenho que fugir ou pelo menos tentar entender tudo isso. Fico olhando o teto por horas, até desistir de tentar entender. Vou até a escrivaninha e vasculho as duas únicas gavetas, nada, só um monte de papéis, não tem nada que eu possa fazer. Me sinto uma inútil, jogo as gavetas no chão, fazendo com que um forro falso fosse revelado, me ajoelho ao lado e acabo de arrancar o forro, um simples lenço escrito Alice é o que encontro. Sério? Por que alguém esconderia um lenço.
Decido fugir, não preciso de um plano, vou correr o mais rápido que conseguir. Abro a porta o suficiente para ver se a alguém no corredor. Já anoiteceu e só vejo luzes no andar de baixo, saio sorrateiramente, e começo a descer as escadas, paro abruptamente ao ouvir vozes, desço mais uns degraus, vejo a TV ligada, no noticiário, uma mulher com um casaco vermelho e um microfone fala:
—Ontem, dia 12 de março o banco de Nifion foi assaltado por um grupo de jovens. Foram roubadas moedas de prata e de ouro e dois itens de extrema importância. Só um dos bandidos foi reconhecido: Alice Brooks, 16 anos, 1,63 de altura, cabelos castanhos longos, olhos verdes escuros. Alice foi vista pela última vez de roupas pretas. Os guardiões a capturaram, mas seus parceiros a soltaram. Se você ver essa menina nos contate imediatamente. Uma foto minha aparece no canto esquerdo.
Aos poucos compreendo que não é minha e sim de Alice. Alguém desliga a TV.
—O que foi isso? Precisamos falar com ela agora!
—Calma Nate, ela está descansando – Asher fala.
—Calma? Vocês foram imprudentes de tirarem ela de lá sem um plano.
—Mas deu certo não deu? – Cloe grita.
—É, mas agora todos estão atrás de nós. Todos!
Dou meia volta, mas a escada solta um rangido.
—Alice é você? Venha até aqui.
Se eu não for só vai piorar as coisas, então eu desço rapidamente. Na sala o ar está pesado. Cloe está sentada no braço de uma poltrona, Asher está em pé de frente para TV enquanto outro garoto que parece ter cerca de 19 anos está sentado no sofá.
—Ai está você, que longo cochilo hein? Agora seria ótimo se você explicasse o que aconteceu – Ele diz.
As palavras somem da minha boca, falo o que vem em minha mente.
—Eu não me lembro de nada, eles devem ter me drogado.
—Tente se lembrar. Você roubou algo mais do que as moedas?
— Já falei que não me lembro! – Explodo.
—Ok, vá dormir vamos ver de novo amanhã... Espere, venha até aqui – Ele me olha desconfiado, pega meu braço e levanta a manga. – Cadê? Onde está?
—Cadê o quê?
—A sua cicatriz, você tinha uma, de quando a gente roubou uma das primeiras mercearias.
—O-o quê?... Eu não tinha cicatriz nenhuma.
—Tinha sim, eu me lembro – Cloe intervém.
Todos olham para mim, fico imóvel, talvez seja a hora de contar a verdade e torcer para correr tudo certo.
—Eu não tenho cicatriz porque eu não sou a Alice.
—O quê? Você está brincando com a gente? – O garoto fala.
—Por que eu brincaria? Se você me deixasse explicar...
—Você pode estar escondendo algo da gente ou...
—Nate, deixa ela falar. – Cloe o interrompe.
—Muito obrigada, vou ser sincera, eu nem sei onde estou, muito menos quem são vocês. Estava voltando para casa, como um dia normal, mas dois bichos que eu nem sequer sabia que existiam me raptaram e me levaram para aquela cadeia, então vocês foram me resgatar, por que eu reclamaria? Aproveitei a oportunidade, me desculpe por ter fingido ser a amiga de vocês.
—Se você não é a Alice quem é? – Asher pergunta.
—Me chamo Agatha – E antes deles perguntarem, respondo – E eu não sei como somos tão parecidas, mas podemos descobrir, é só vocês acreditarem em mim.
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