Reinos de Eaffih

1 I A torre do norte e o Mago de gelo


O alojamento dos magos era um lugar grande com paredes grossas e portas reforçadas, como se quem as construiu quisesse manter todos presos lá. Quase todas as paredes eram cobertas com estantes de livros sobre os mais variados assuntos, desde livros sobre agricultura a tomos de encantamentos e maldições.

Alec passava a maior parte do seu tempo livre lendo sobre as aventuras de cavaleiros que ele nem mesmo sabia se eram reais ou não já que nunca tinha saído do castelo onde aprendia magia. Circulavam historias terríveis de que o mundo estava a beira da ruina e que não restava nem mesmo um herói capaz de salva-los. Ninguém sabia ao certo do que precisavam ser salvos, uns diziam que os dragões tentavam dominar as cidades e outros diziam que uma peste havia dizimado mais da metade da população de Eaffih , alguns poucos pregavam ainda que um enorme cometa se aproximava e mataria a todos longe dos escudos dos magos.

Numa tarde fria e chuvosa de inverno um homem grande de barba e cabelos brancos bateu na porta do quarto de Alec. O senhor da torre do norte o convocava para uma reunião, seu coração disparou. Não sabia o porquê daquilo, não havia feito nada de errado nem nada notável a que mereceria elogio de um dos Senhores do Conselho. Disse ao homem que esperasse cinco minutos e vestiu sua melhor roupa, treinou uma apresentação rápida em frente ao espelho e correu novamente para dizer que já estava pronto.

O ultimo andar da torre do norte era bem diferente do restante do castelo, as paredes eram todas brancas e o chão de mármore, quadros preenchiam o espaço entre uma coluna e outra e chegando perto da sala principal, um tapete vermelho cobria parte do chão. Alec tremia e suava, em parte por medo, em parte felicidade por conhecer um de seus ídolos, é verdade que moravam no mesmo castelo, mas pouquíssima gente tinha permissão para entrar na torre, somente os discípulos diretos de Denagor, esse era o nome do mago branco, e os empregados que cuidavam da limpeza e da alimentação. Será que era isso? Talvez estivesse sendo chamado para ser um dos discípulos, tremeu de excitação.

A porta estava aberta, o homem parou e disse que a ordem era pra que Denagor e Alec ficassem sozinhos. A sala era completamente branca, todos os móveis, o chão, a parede, o teto, e até mesmo as flores que ficavam num canto, as pétalas e o caule, completamente pálidos.

Isso de certa forma intimidava, mas o homem sentado na cadeira que mais se parecia com um trono intimidava mais ainda, tinha barba até na cintura e dois anéis de prata em cada dedo, no seu ombro havia o símbolo da torre branca, uma torre e um cavalo. Parecia ter no mínimo cem anos, mas seu corpo era tão forte como o de um jovem de vinte.

Denagor deu sorriso gentil e apontou para a cadeira na frente da mesa.

– Sente-se – ele começou a dizer e a atmosfera começou a ficar mais fria, e Alec começou a tremer, dessa vez de frio.

– O que deseja de mim? E porque está tão frio aqui dentro? – perguntou o menino, com uma voz surpreendentemente calma.

– Esse frio é a minha mana, minha magia tem a forma de gelo, por isso me chamam de mago branco. – o mago suspirou, e uma névoa brilhante saiu de sua boca. – Te chamei aqui porque preciso de sua ajuda. Você sempre quis sair desse castelo, tens aqui sua oportunidade, necessito de alguém com coragem suficiente para ir até a capital dos anões, o subterrâneo. Pode fazer isso por mim, ou melhor, pela cidade dos magos?

– Mas é claro que eu posso – exclamou o rapaz com alegria, mas sua felicidade logo deu lugar a desconfiança – Porque eu? Certamente existem magos mais experientes e dignos de confiança que eu, e oque tenho que fazer na cidade dos anões? Nem mesmo sei onde isso fica.

– Não se subestime rapaz. Você é um dos melhores magos daqui, o que te falta em experiência é compensado com coragem, e o escolhi justamente por causa do seu desejo de ver o mundo exterior. Preciso que pegue uma coisa com o rei Ohrim, mas não posso te dar todos os detalhes antes que aceite. É uma missão difícil, que pode por sua vida em risco e a de quem o acompanhar, porém te garanto que valerá a pena, seu nome será lembrado, e poderá se tornar o salvador de todos os reinos de Eaffih.

– Essa missão pode salvar o mundo? – perguntou Alec com entusiasmo, ignorando completamente o risco de morte mencionado por Denagor.

– Pode, se for bem sucedida, como deve saber, o mundo está um caos lá fora, mas aposto que desconhece o porquê. Pouquíssimas pessoas sabem, inventam boatos completamente infundados pra justificar todos os desaparecimentos e catástrofes. A verdade é que os deuses se zangaram conosco, condenaram nosso desleixo com a natureza e pretendem reiniciar o mundo.

– Se zangaram conosco pelo desleixo com a natureza? E quanto aos druidas, e as fadas, e todos os animais? – o jovem revoltou-se, algumas das raças que habitavam Eaffih podiam mesmo ser negligentes, mas nem todas, muitas viviam em harmonia com a natureza, as fadas, por exemplo, ajudam as árvores a crescer e os faunos protegem as florestas.

Denagor suspirou outra vez, parecia ter algum tipo de dificuldade para respirar.

– Os Deuses podem ser injustos e cruéis, mas acalme-se rapaz, diga-me : você aceita ou não a missão?

– Eu aceito, tem minha palavra, mas não quero ir sozinho.

– E não irá. Somente até a cidade dos anões, e lá arranjará companhia, tenho certeza. O rei mandará alguém acompanhar-lhe, talvez queira também levar junto alguém que encontre pelo caminho, não há problema nenhum – Ele pegou alguma coisa embaixo da mesa que Alec não pôde ver oque era – não poderá ir desarmado, como eu disse, é uma viajem perigosa, isso o ajudará. – disse enquanto entregando uma espada com punho de prata e um pequeno rubi no cabo.

– É linda – disse o jovem admirado com a beleza da arma.

– Não é só bonita, é uma espada mágica, se estiver em perigo grite seu nome, Drisdhra, e ela cegará todos a sua volta por tempo o suficiente para que fuja. É uma ótima arma, cuide bem dela. Tome também este mapa, te ajudará a achar o caminho, embora a localização exata da entrada da cidade dos anões seja desconhecida até por mim. Entendeu tudo o que tem que fazer? – o mago usou o mesmo tom com o qual se fala com uma criança.

– Ir até a cidade dos anões, pegar o que o rei Ohrim tem pra mim, e depois?

– Ohrim dirá o que terá que fazer depois, eu mesmo não sei, mas creio que tenha que viajar a mais lugares.

– Mas porque isso? – o garoto iria de qualquer jeito, mas queria saber de todos os detalhes possíveis.

– Um profeta previu o fim do mundo, e um meio de detê-lo, mas você não deve saber ainda, confie em mim.

– Confio, bem, se terminamos, eu deveria juntar meus pertences, quando devo partir? – perguntou Alec, mal contendo a empolgação.

– Jante, tenha uma boa noite de sono e quando acordar, vá. Tente não chamar a atenção de ninguém. Essa profecia só é conhecida pelos reis de cada povo, as pessoas podem não concordar em te deixar sair. Agora, vá rapaz, não te verei mais, então, tenha uma boa viagem, boa sorte em sua jornada.

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