Reinos de Eaffih

2 Jaemalth e Mohal


Mohal corria pela floresta densa de Thrar atrás de um enorme javali cinzento, enquanto seu irmão mais velho Jaemalth ficava na sombra de um imponente carvalho lendo um de seus vários livros sobre técnicas e aplicações da caça. Existiam poucas coisas no mundo que trouxessem mais felicidade a um elfo selvagem do que a arte da caça, mas pra Jaemalth era bem mais relaxante se sentar embaixo da copa de uma grande árvore em um dia quente e sentir a fraca brisa da floresta, escutando ao longe o barulho do pequeno rio que cortava a floresta.

Nunca gostara de correr atrás de animais, mas se seu irmão gostava tanto, não havia problema em deixa-lo se divertir. Para ele a melhor parte era a preparação do animal, depois de ser pego, e cozinha-lo a noite na fogueira.

Voltaram da floresta no fim da tarde, Mohal com o javali, já sem pelos, pendurado nas costas e Jaemalth carregando as armas e equipamentos dos dois além de uma grande bolsa de couro. Decidiram então fazer uma pausa, no rio, para reabastecer seus cantis e talvez achar alguns cogumelos para cozinhar junto à carne no jantar.

Quando lavava o rosto Jaemalth teve uma sensação estranha, a água do rio esquentou de repente, não ficou escaldante, mas foi uma mudança notável. Isso acontece as vezes, como um rastro de magia —pensou ele— a mana dos magos altera o espaço e matéria em torno dele, plantas crescem, ou queimam, lagos congelam, e até alguns efeitos mais estranhos, as vezes também os animais se afastam do lugar onde um mago está, e era isso que acontecia agora, os pássaros pararam de cantar e todos os outros pequenos animais, como sapos e coelhos, os quais infestavam essa floresta, corriam para longe.

– Temos que ir embora daqui – disse Jaemalth com um tom de voz ligeiramente alterado.

– Por quê? – Perguntou Mohal, que estava um pouco mais a frente procurando cogumelos comestíveis perto do tronco das árvores.

– Tem um mago aqui perto.

– Como você sabe Jaemalth?

– Você não está sentindo isso? Essa mana, é de um mago bem poderoso, não podemos lutar contra ele – Jaemalth já terminara de juntar as coisas que espalhara pelo chão quando terminou de falar, levantou-se, botou novamente a bolsa presa as costas e agarrou o braço de Mohal.

Mohal não era muito atento a detalhes e, por isso, não havia percebido nenhum sinal, foi arrastado sem entender bem o porquê por alguns metros até sentir seu corpo ser totalmente paralisado e aparentemente Jaemalth se encontrava na mesma situação pois havia parado repentinamente e não soltara seu braço.

Um homem magro, de cabelos pretos, vestido com um tipo estranho de túnica avermelhada se aproximava com uma espada na mão. Esse deve ser o tal mago, pensou Jaemalth.

– Vocês são inimigos? – perguntou o mago com uma voz seca e apática.

– Isso depende, o que quer de nós? – disse Jaemalth que só conseguia mexer os olhos e a boca.

– Me perdi na floresta faz dois dias, estou com fome e cansado e pensei que, por serem elfos, talvez pudessem me mostrar como sair daqui. Desculpem-me pela paralização, de outra forma certamente fugiriam, vou desfaze-la agora, por favor não corram.

Nenhum dos dois elfos nunca tinha visto um mago, um verdadeiro, nem de perto, nem de longe, Jaemalth só conhecia os rastros de um mago por causa dos vários livros que lera sobre esse assunto, a magia era um assunto agradável, como era uma arma tão bela, nas mãos de tão poucos. Desde o inicio deste século as crianças que nasciam mágicas eram mandadas imediatamente para o castelo dos magos e raramente saiam de lá, por isso era tão difícil encontrar um deles. Quando pôde se mexer novamente Mohal instintivamente pegou sua faca e apontou para o mago.

– Não nos engana com suas mentiras, o que faz fora do castelo? Afaste-se e diga-me a verdade ou eu te mato! – Mohal suava e tremia nitidamente ao segurar a pequena faca com cabo de madeira, estava com medo, com razão, pois corriam boatos por todos os cantos de Eaffih de que os magos usavam o sangue de outras criaturas para sustentar sua mana.

– Acalme-se – Disse o mago, recuando alguns passos – Estou dizendo a verdade, não tenho a intenção de feri-los. Só quero sua ajuda!

– Mohal, abaixe essa faca! Ele está dizendo a verdade. – Gritou Jaemalth se colocando entre Mohal e o mago.

— Não! Ele vai nos atacar, se afaste e deixe que eu cuido dele – disse Mohal avançando sobre o mago, que o paralisou novamente, chegou bem perto e o tocou na testa com dois de seus dedos. O elfo desmaiou e foi segurado pelo mago que sorriu meio desajeitado e pediu desculpas a Jaemalth.

– Foi pra me defender, você entende não é?

– Tudo bem, mas também o entenda, ele estava assustado, ouviu histórias terríveis sobre os magos durante toda a sua vida, não é de se admirar sua reação. – Jaemalth levou o irmão até o tronco de uma árvore caída que estava próxima e deitou-o nela com a barriga virada para o lado de cima. – Mas também tenho a dúvida de meu irmão. O que você faz fora do castelo dos magos?

– Melhor eu me apresentar, meu nome é Alec, e estou fora do castelo porque Denagor, o mago branco, me mandou em uma missão até a cidade do rei Ohrim. Perdi-me procurando o caminho porque o local exato da entrada da cidade, que fica no subterrâneo, é um mistério, não aparece nos mapas e pouquíssimas pessoas sabem onde fica. A única coisa que sei é que fica no Oeste, perto das montanhas.

O rosto de Jaemalth se iluminou em um enorme sorriso – Eu e Mohal também estamos indo para lá, vender nossas mercadorias na cidade dos anões, com um mago junto conosco não precisaríamos temer nada, nem ataques de saqueadores, nem monstros. O que acha Alec, podemos ir juntos? Eu sei exatamente onde fica.

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