Reinos Do Coração - A Primeira Jornada

13 13 - Cidade do Halloween (Halloween Town) - Parte 1


Riku trouxe Hikari nos braços até onde Tico e Teco estavam posicionados. Cid se assustou com a imagem da líder desacordada, mas manteve a calma e ajudou os esquilos com os preparativos. Eles deitaram o corpo de Hikari sobre uma maca em forma de cápsula. Um vidro fechou o compartimento, deixando Hikari intocável.

— Ela estará a salvo aqui, criamos essa máquina para este tipo de situação – explicou o piloto – o vidro é feito de um material especial anti-trevas. A fumaça verde que circula internamente mantém as funções vitais dela sob controle. Deve ajudar até voltarmos para a Cidade da Travessia.

Riku permaneceu calado diante do corpo adormecido de Hikari. Cid engoliu em seco, aquele garoto podia ser forte, mas não era tão amigável como os outros membros do grupo.

— Entendo… — o jovem de cabelos prateados disse em um tom baixo – mas acredito que seguiremos o curso para o próximo mundo.

— Como é?! — alguém exclamou atrás deles.

Ambos se viraram, Sora e Kairi haviam chegado de Atlantica. Os amigos já vestiam suas roupas normais, porém seus semblantes não eram animados como usualmente. Aparentemente, eles ouviram a conversa entre Cid e Riku.

— Você não está pensando que vamos continuar a missão sem a Hikari né?! — Sora perguntou sem acreditar.

— Muitas vidas dependem disso, Sora, não podemos perder tempo esperando ela acordar. — Riku explicou desviando do olhar do melhor amigo.

— Esperar nossa amiga se recuperar é perda de tempo pra você?! — Sora continuou, seu tom de voz era cada vez mais alto. Kairi nunca tinha visto seu amigo tão indignado.

— Nós não temos previsão de quando ela acordará, foi um dano grave. Pode demorar dias, meses… até anos – Riku cruzou os braços – E mesmo se ela acordar, não podemos garantir que ela possa lutar assim que ela abrir os olhos. Seria covardia nossa colocá-la em situação de risco de novo. — ele voltou a olhar para Sora – Eu sei o quanto você está preocupado, eu também estou. — ele foi em direção ao garoto de cabelos espetados e colocou a mão sobre o ombro do amigo — Mas, conhecendo a Hikari como conheço, sei que ela não gostaria nem um pouco que ficássemos de mãos atadas em vez de prosseguirmos.

Sora ficou calado por alguns instantes. Soltou um breve suspiro e cruzou os braços atrás da cabeça.

—Droga… odeio quando você está certo – ele admitiu com uma expressão carrancuda no rosto.

—Mas não podemos deixá-la aqui, o compartimento é apenas para emergências – Kairi lembrou — o que você sugere que façamos, Riku?

—Cid, há tempo para nos deixar no próximo mundo antes do compartimento parar de funcionar? — Riku se virou para o piloto.

—Eu posso dar um jeito. O gummi já está em rota – respondeu ele.

—Então logo após pisarmos em terra firme, leve Hikari pra base na Cidade da Travessia – Riku ordenou, voltando a ficar do lado do compartimento.

—Mas e se vocês precisarem de uma saída de emergência? — Cid indagou com preocupação.

—Não se preocupe, eu vou dar um jeito. Não vou falhar com ela mais uma vez. — Riku decidiu observando tristemente o corpo inconsciente de Hikari.

Depois disso, ninguém sabia o que dizer, Riku estava tomando toda a responsabilidade do ocorrido, como se ele fosse o culpado. Nenhum deles concordava com aquele sentimento, ainda sim, sabiam que tentar fazê-lo mudar de ideia seria um esforço em vão.

Sora saiu da sala, junto com Cid, já que Hikari não estava ali para ajudar com a nave, deixando Riku e Kairi sozinhos com o compartimento.

Kairi observou o amigo de infância em silêncio. Mesmo com aquele semblante sereno no rosto, como se estivesse analisando o pôr do sol nas Ilhas do Destino, ela sabia de toda a preocupação e sofrimento pelo qual ele estava passando. Riku não era do tipo de desabafar como Sora era. Ele sempre coloca a lógica antes da emoção. Sempre prezando o bem maior.

—Eu estou bem – ele disse de repente, alarmando Kairi.

—Eu não disse nada… — ela respondeu.

—Vocês três são iguais, fáceis de ler. — ele esboçou um sorriso triste – Admito que não sei se isso é bom ou ruim.

—Riku… — a ruiva não sabia encontrar as palavras certas.

—Eu só estou triste.

Kairi não conteve sua surpresa.

—Tudo bem estar triste, afinal, sua amiga de infância foi gravemente ferida. — Kairi lhe mostrou um sorriso delicado – É incrível como ela faz falta – ela riu – acho que ela sabe dar vida e esperança a qualquer lugar.

—Kairi…

—Uhm?

—Você sabe, não sabe?

Kairi olhou para Riku sem entender.

—O que eu sinto por ela – ele disse sem qualquer emoção no rosto, com um leve tom avermelhado abaixo dos olhos.

Kairi não soube o que dizer. Ela sempre soube do sentimento que existia entre Riku e Hikari desde o momento que viu a primeira troca de olhares entre eles em Agrabah. Ela torcia para que eles se acertassem, mas não queria se intrometer.

—Você entende porque eu não posso falhar com ela – Riku continuou – preciso da sua ajuda.

Kairi sorriu.

—Eu estarei lá quando você precisar de mim, Riku.

O novo mundo exigia roupas especiais da mesma forma que Atlantica. Essas, entretanto, eram milhares de vezes mais confortáveis que as anteriores. Como a cidade acompanhava a temática de dia das bruxas, Sora estava fantasiado de vampiro: sua roupa era quase completamente preta, usava luvas brancas com garras nas pontas dos dedos, em suas costas havia asas pequenas de morcego, e ele utilizava, sobre o olho esquerdo, uma máscara laranja, na qual estava desenhado um rosto com boca dentada e olhos triangulares.

Kairi estava vestida de bruxa, com um chapéu pontiagudo preto característico na cabeça, usava um vestido roxo que ia até acima dos joelhos, calçava meias-calças listradas preto e branco em conjunto com botas de plataforma pretas.

Riku lembrava um lobisomem: na parte superior do corpo vestia apenas um colete preto de gola V, a qual era adornada por uma pele branca de lobo. Em seu pescoço havia uma gargantilha cujo pingente era um cadeado. Usava calças compridas pretas, nas quais a barra ficava dentro de uma bota branca e preta, além de vestir luvas da mesma cor. Seu cabelo estava mais comprido do que o normal, cobrindo seus olhos.

Além das vestimentas, as keyblades também estavam em tons mais escuros, para não criar um contraste com as roupas.

—Tico e Teco capricharam dessa vez – disse Kairi impressionada com as próprias vestimentas.

—Está deserto por aqui... – observou Sora.

O ambiente era, no mínimo, inquietante. Era noite, havia lampiões em forma de abóboras para todos os lados, a frente do trio havia um portão grande que dava caminho para uma praça. Ao se aproximarem, o portão abriu por conta própria.

Na praça, havia uma fonte, cuja estrutura lembrava uma cabeça de dragão, de sua boca saía um líquido verde brilhante. Kairi se aproximou para analisar melhor o lugar, quando de repente Heartless, cuja aparência se assemelhavam a fantasmas, apareceram em bando. Sora e Kairi invocaram suas keyblades, porém Riku levantou o braço pedindo para que eles abaixassem as armas.

— Parece que eles não são inimigos – ele explicou o motivo por trás de suas ordens.

E, de fato, não eram, pois o grupo continuou explorando a cidade e os Heartless continuavam surgindo, mas não indicavam qualquer tipo de ação de ataque.

— Agora, permitam-me lhes apresentar o mestre do terror, o rei dos pesadelos… Jack Skellington! — aclamou através de um megafone um homem baixinho de rosto horripilante, posicionado atrás da fonte. Ele usava um chapéu preto, um terno, e uma gravata que na verdade era uma aranha. No peito dele, Riku percebeu um broche que indicava que aquele “homem” seria o prefeito da cidade em que eles estavam.

Os Heartless fantasmas levantaram os braços, dando passagem para a tal figura mencionada. Um esqueleto alto, vestindo um terno antigo, emergiu do líquido verde que era jorrado da fonte, suas mãos estavam cruzadas sobre seu peito. Após seu corpo estar inteiramente exposto para o público, ele abriu os braços de uma forma assustadora. O grupo não sabia o que fazer, então apenas bateram palmas junto com o prefeito.

—Bravo, Jack! Bravo! — disse o prefeito, indo com os braços levantados de orgulho até o tal de Jack Skellington – Esses fantasmas vão ser um fenômeno nesse dia das bruxas!

—Obrigado, muito obrigado! — respondeu o esqueleto se aproximando do prefeito – Entretanto, os movimentos deles ainda precisam de algum trabalho. Não são assustadores o suficiente. — ele murmurou cabisbaixo – Eu quero um terror de arrepiar a espinha… Eu vou consultar o doutor sobre isso. — ele acenou para o prefeito, deixando a praça.

— Então eu vou auxiliar com as decorações – o prefeito também se retirou.

O grupo se entreolhou.

—Mas o que diabos foi isso? — indagou Sora extremamente confuso.

Kairi riu da reação do amigo.

—Bom, se aquele esqueleto está controlando os Heartless, ele não pode ser boa coisa, vamos segui-lo – ordenou Riku.

Ao seguirem Jack, o grupo encontrou um laboratório de pesquisa. Jack conversava com alguém:

—Eu não entendo. Talvez o sistema de orientação foi danificado na explosão.

—Que bobagem – dizia uma voz anciã, a qual pertencia a um senhor cadeirante, que aparentava ser uma criatura que fora construída artificialmente – meus dispositivos são sempre perfeitos!

O trio decidiu espiar pela fresta da porta o que estava acontecendo. O doutor estava de frente para uma maca de metal, sobre a qual estava um dos Heartless fantasmas que o grupo havia visto na praça. Enquanto isso, Jack analisava um livro gigantesco no fundo do laboratório.

—Ah, eu entendi! Mas é claro! Os heartless precisam de um coração! — ele se expressava como se tivesse descoberto um novo mundo. — Doutor, você acha que podemos adicionar um coração ao dispositivo?

—Certamente, um coração não é tão complicado assim – ele andou com a cadeira de rodas até ficar de frente com as pernas do fantasma – vamos pôr a mão na massa!

—Para fazer um coração, o compartimento precisa de uma fechadura… — Jack lia o livro com cuidado.

O doutor tirou de debaixo da mesa um saco pulsante em forma de coração, ele era em volto por um metal que formava a fechadura mencionada.

—Nós precisamos de uma chave pra essa coisa primeiro!

Riku ficou inquieto.

—O que vamos fazer? — Sora perguntou.

—Não podemos simplesmente usar nossas keyblades para ajudá-los – Riku respondeu.

—Por que não? Se eles tiverem sucesso, nós não teremos mais que lutar contra os Heartless não é? — Sora argumentou – Além do mais, ia ser engraçado vê-los dançar – ele riu.

—Não seria não – Kairi discordou — mas o que o Sora falou faz sentido. Podemos tentar. Se as intenções deles forem ruins basta trancar o coração-teste de novo.

Riku suspirou, ele estava em menor número na discussão.

—Tudo bem, vamos lá.

—Uau, isso foi incrível! — disse Jack, impressionado com a abertura da fechadura que Sora providenciou – Uh… como você se chama mesmo?

—Sora! — respondeu o garoto de cabelos espetados com um sorriso no rosto – Esses são meus amigos, Riku e Kairi – ele apontou para os dois que estavam assistindo a cena atrás dele – eles também têm essa chave – contou, apontando para a própria keyblade.

—Muito bem, Sora! — Jack agradeceu – Eu gostaria que você e seus amigos fizessem parte do dia das bruxas esse ano.

—Por que esse Heartless está aqui? — perguntou Kairi, apontando para o fantasma sobre a maca.

—Os Heartless apareceram recentemente por aqui – ele explicou – mas não conseguimos fazê-los participarem dos eventos de forma assustadora. Então, eu e o doutor estamos tentando melhorar o sistema de orientação deles. — ele foi até o doutor, o qual estava lendo o livro – Ele é um gênio e tanto! — ele se virou para o senhor na cadeira de rodas – Pronto, doutor, vamos continuar!

O doutor e Jack começaram a ler os ingredientes:

—Pulso e emoção – o qual era representado por um sapo prestes a ser dissecado – terror – uma aranha — medo – um vidro quebrado — esperança e desespero – duas cobras enroladas uma na outra — misture todos e teremos um coração!

Eles colocaram os ingredientes sobre a maca, em conjunto com o protótipo de coração, o qual Sora tinha destrancado. O doutor puxou uma alavanca, raios saíam do aparelho. Riku não pode deixar de ficar apreensivo, talvez a resposta para todos os seus problemas estivessem ali, se eles não precisassem mais lutar contra os Heartless, Hikari estaria a salvo, e era só para isso que ele se importava àquela altura.

O fantasma de repente se sentou com os braços estendidos pra frente. O coração de Riku parou por um instante. Será?

Entretanto, ele voltou a cair como um boneco sobre a maca.

—FALHAMOS! — gritou Jack com frustração. Riku e Kairi se seguraram para não rir da falha patética do experimento, enquanto Sora estava claramente tão decepcionado quanto o rei do terror.

O doutor voltou a ler o livro:

—Talvez estejam faltando alguns ingredientes... Vamos tentar adicionar memória! — ele abriu o tampo de sua cabeça e coçou o próprio cérebro – Sally! Sally! — gritou para a cidade inteira ouvir – Mas que garota insolente! Não sei porque me importei em criá-la! — ele fechou o tampo da cabeça e se virou para o grupo – Sally tem a memória que precisamos, veja se você pode encontrá-la.

—Sem problema – disse Jack – vocês gostariam de vir junto? — perguntou ele ao grupo de Sora.

Sora e Kairi olharam para Riku. O garoto de cabelos prateados já sabia que aquilo não ia dar em nada, mas ele não podia negar aqueles olhares esperançosos nos rostos dos colegas.

—Tudo bem.