Reino da Angústia
3 Os raios caem sobre os montes.
Os raios caem sobre os montes mais elevados, e onde encontram mais resistência é onde provocam o maior dano.
Miguel de Cervantes
O ar da noite atinge meu rosto com violência, me fazendo tremer. Faziam apenas alguns minutos que estávamos andando, mas já pareciam horas. O vento castigava meus olhos, não me deixando abri-los por completo. Olho para meu irmão, aguentando firme ao meu lado. Já perguntei diversas vezes se estava bem ou com muito frio, mas ele sempre negava. Provavelmente tinha medo que eu o fizesse voltar para nosso abrigo.
— Falta muito para chegarmos? Está ficando realmente escuro.
Chris tinha razão. A lua normalmente fazia bem seu papel iluminando as ruas de nossa odiada Northwinter, mas hoje não era uma noite boa. Estava nublado, o que deixava difícil enxergar muito a frente.
— Já estamos chegando. Aguenta aí.
Andamos pelo o que parecia uma eternidade até começarmos a ver sinais de movimento. A Rua do Comércio era enorme. Normalmente eu não tinha tempo para reparar, já que estava sempre com pressa para roubar e ir embora. Mas hoje a rua tinha uma certa beleza fúnebre. Era o único local iluminado naquela noite escura e fria, o que emanava uma certa segurança de que tudo daria certo ali. No entanto, quando eu olhava para trás, contemplava a visão da miséria.
Pessoas jogadas nos cantos, se espremendo umas contra as outras para tentar resistir ao frio. Algumas crianças descalças corriam de um lado para o outro, o que me fez pensar que estavam brincando. Mas bastou uma olhada mais atenta para perceber que não era esse o caso. Um menino pequeno, loiro e de olhos azuis, corria na frente, fugindo das crianças que estavam atrás. Levava metade de um pão na mão e gritava desesperadamente, mas ninguém parecia dar atenção. As outras crianças o alcançaram e tomaram o pequeno pedaço de pão. Antes de saírem correndo deram um empurrão no menino, tentando ter vantagem. A pequena criança se levantou, secando as lágrimas, e foi em direção a um homem com o cabelo idêntico ao seu, que o recepcionou com um tapa na cara.
Desviei rapidamente o olhar, farta de ter que ver esse tipo de injustiça, apenas para encontrar o corpo de uma mulher repousando em uma valeta, com uma expressão calma o suficiente para me fazer acreditar que estava somente dormindo. Mas era só olhar para o sangue em suas roupas para perceber que o corpo havia sido descartado, e extremamente usado, seja por soldados da Ordem em suas orgias ou somente por algum maníaco. Eu seria capaz de apostar na primeira opção. Provavelmente o corpo ficaria ali por semanas, até que alguém sentisse falta, ou simplesmente até que começasse a decompor.
As lágrimas ameaçavam cair, o medo e a indignação tomando a maior parte do meu coração, me fazendo querer gritar, bater no responsável até que a mulher voltasse à vida. Mas isso não iria acontecer. Não até que o verdadeiro responsável fosse encontrado e aniquilado, para que esse tipo de coisa não fosse mais comum. Para minha infelicidade, isso não aconteceria. Não agora, pelo menos. Então fiz a única coisa que me pareceu justa: tomei uma atitude. Impensada e impulsiva, mas era o que eu iria querer que fizessem comigo se fosse ao contrário. Com certeza essa menina tinha uma casa, uma família. Ou já teve algum dia.
Peço para meu irmão ficar onde eu possa vê-lo e começo a me aproximar daquela pequena menina. Qual deveria ser o nome dela? Chego perto o suficiente para enxergar a cor de seus olhos e gentilmente os fecho. Algo faz cócegas em meu rosto, e percebo que estou chorando. Se eu não tivesse achado o abrigo por acidente, poderia ser eu no lugar dessa menina. Provavelmente ela tinha minha idade. Vejo um papelão jogado no chão. Não é o ideal, mas é o melhor que posso fazer agora. A arrasto e tiro da valeta nojenta em que havia sido descartada. Arrumo seus cabelos e tento tirar um pouco do sangue com os trapos que ainda sobraram da roupa que ela usava. Não é um bom trabalho, mas espero ao menos conseguir que no fim ela tenha paz. Pego o papelão e o coloco suavemente sobre seu corpo gelado, até que um puxão me faz voltar à realidade.
— Que droga você está fazendo?
Fico cara a cara com Jonathan, meu amigo de toda a vida. Sorrio involuntariamente e o abraço.
— Alguma estupidez, aposto. – digo, tirando um grande sorriso e um revirar de olhos maior ainda dele
Jonathan está na minha vida desde que consigo me lembrar. Ele foi minha constante durante todos esses anos. Quando meu pai morreu, ele passou 2 meses cuidando de mim e de meu irmão como se fosse da família. Não passamos fome ou frio durante esse tempo. Ainda hoje, depois de tantos anos e mesmo eu sabendo me virar sozinha, Jonathan ainda insiste em estar presente e trazer pequenas coisas que encontra jogadas pela rua, nas curtas viagens que faz. Eu nunca soube exatamente o que o impulsiona nessas viagens. Já perguntei diversas vezes o que ele procura, mas a resposta menos vaga que obtive era que ele estava atrás da grande cura, coisa que eu não fazia ideia do que poderia ser.
Sou arrastada para junto de meu irmão, preparada para ouvir um sermão.
— O que você está fazendo aqui, nesse fim de mundo, junto com o seu irmão.— Respiro fundo antes de contar, entre sussurros, o que aconteceu para nos levar de volta àquele lugar.
A expressão de Jonathan é a mesma de meu irmão quando viu as sopas. Seus olhos, mais escuros que o normal, caminham para uma compreensão que não consigo acompanhar. Com a testa franzida, ele pergunta:
— Mas por que teve que trazer seu irmão junto? – Não existia acusação em sua voz, apenas dúvida.
— Porque é difícil estar sozinha, Jonathan. Fazem meses desde a última vez em que tivemos notícias suas. Eu sabia que você estava na cidade, mas não sabia por quanto tempo, nem se iria nos visitar. Está sendo cada vez mais difícil conseguir comida. – Posso ver a dor em seus olhos por escutar isso – Sei que está realmente ocupado esses dias, e você não tem obrigação nenhuma com a gente. Mas eu precisava saber por que alguém simplesmente me deu tanta comida, do nada.
— É claro que você iria atrás. – Suas mãos estão na frente de seu rosto, tampando minha visão de sua expressão. Ele se inclina para trás, olhando para o céu.
— É claro que eu iria atrás. – Rebato.
Todo seu corpo se alivia diante da tensão em que estava, e ele começa a rir baixinho, mal conseguindo se controlar para não chamar atenção.
— Você é hilária, Ayla. Hilária. – Ele continua rindo – Eu te deixo por algumas semanas, e você acha que seria uma boa ideia vir para a Rua do Comércio, a área mais movimentada da cidade, onde todos os soldados te conhecem por causa do seu pai e de seu histórico recente de furtos malfeitos. Ah, ainda pior! Com certeza você achou completamente plausível ajudar um cadáver.
— Poderia ser eu, Jonathan. – As palavras se embolam em minha garganta. Tenho tanto para falar, tanto para explicar. Essa mulher desencadeou todos os sentimentos que eu tentava guardar todos os dias, sobre meus pais, meu irmão... Um passo em falso, e facilmente eu acabaria dessa forma. A dor dessa realidade era palpável, e me consumia a cada dia que passava.
— Eu sei que poderia, eu sei. – Jonathan me abraça, e minhas lágrimas silenciosas se tornam rios, que se confundem com pequenos flocos de neve que começam a cair. Ele me abraça forte, sem nenhum indício de que me soltaria. Sempre foi assim, e continuaria dessa forma. Minha constante.
Chris pigarreia, me trazendo de volta à realidade. Jonathan me solta e diz:
— Certo, vamos tirar vocês dois daqui. Se tomarmos bastante cuidado, ninguém vai...
— Não — O interrompo – Eu já disse o que vim fazer aqui, e vou fazer.
— Ayla, por favor, pare com isso. Eu consigo essa informação para você. Consigo dar um jeito, se é tão importante. Mas por favor, você precisa ir embora. – Começo a negar com a cabeça, mostrando que essa discussão está encerrada
— Não nasci para ficar trancada, Jonathan. Muito menos para viver com medo. Você sabe, as coisas que precisam acontecer...
— ...vão acontecer. – Ele completa a frase de meu pai antes de mim, bufando e expressando sua indignação. – Pelo menos me deixe ir com você.
Começo a negar, mas penso no assunto. Seria ótimo ter alguém que pudesse me ajudar e proteger, além de que... eu estava com saudades. Balanço a cabeça para afastar esse último pensamento e assinto, fazendo com que Jonathan abra um grande sorriso.
— Ótimo! Mas vamos pelo meu caminho.
Explico onde é a barraca de compostagem daquela mulher, e começamos a caminhar até uma pequena escada que dá no subsolo.
— Ir pelos trilhos? Esse é seu caminho? Você sabe que pode vir um trem e nos matar, ou então algum guarda fazendo ronda.
Sem dar a mínima para o que eu estou dizendo, ele pula nos trilhos do trem e abre uma pequena porta no chão, da mesma maneira que meu abrigo.
— Seu problema, querida Ayla, — Jonathan pega meu irmão e o ajuda a descer – é sua falta de fé.
Estou extasiada demais para responder. Desço pela escada e espero até que a porta seja fechada. Mesmo sendo tão parecido com onde moramos, não chega a ser um abrigo. A parede não tem pintura, somente tijolos, dando àquele lugar um toque rústico. Não tem nada ali além de uma mesa e duas cadeiras. Uma pequena lousa repousa na parede oposta, com números dos quais não entendo nada.
No lado contrário de onde descemos Jonathan abre uma porta, nos convidando a atravessá-la. Do outro lado existem muitos canos que vão para cima e para frente, deixando somente uma pequena passagem no centro para nós. Continuamos em frente, nunca parando ou diminuindo o ritmo.
Jonathan vê a interrogação em meus olhos.
— É um sistema de dutos subterrâneos. Era usado para transportar petróleo, quando ainda tínhamos. Se tornou inútil depois da Guerra, já que não tinham mais quem extraísse, muito menos quem comprasse. – Fazemos uma pequena curva antes de voltar ao percurso reto e constante que estávamos fazendo. É possível escutar passos logo acima de nós. – O abrigo de vocês provavelmente era ligado a dutos subterrâneos também, o que não o faz mais tão seguro assim. Os dutos foram desativados há muitos anos, então acredito que a Ordem não suspeita que transformaram alguns desses lugares em abrigos. Mas o simples fato de ser algo que antes era usado, faz com que o seu abrigo não seja mais seguro.
— Como assim “alguns desses lugares”? Você encontrou mais?
— Sim. Espalhados debaixo de nós, nos lugares mais variados. Meu palpite é que quando os boatos da Guerra começaram a se espalhar, quem tinha mais dinheiro fez essas ante salas serem como bunkers. Muito inteligente, por sinal. Mas não foi o suficiente, aparentemente, já que não encontramos ninguém vivo. Em cada um desses que entrávamos, encontrávamos muita comida, mas nenhum sinal de que alguém viveu ali por mais de alguns dias.
Paramos logo antes de entrarmos em outra sala, e Jonathan se vira para mim, ficando com uma expressão séria.
— Ayla, em todas as viagens que fiz, cada vez mais temos encontrado pessoas que se revoltaram contra a Ordem. Todos os que não são controlados por eles, a grande maioria está pronta para uma retaliação. Eles estão como pólvora, só está faltando quem crie o fogo. Eu tenho procurado um lugar para que você e o Chris possam viver, porque não sei o dia nem a hora, mas sei que algo grande está para acontecer. Consegui encontrar uma pequena casa — Jonathan contém um sorriso, como se tivesse medo de não ser o suficiente — É no alto das colinas, e faz bastante frio. Não é muito grande, mas creio ser o suficiente. Caberia eu, você e o Chris. Tem uma lareira maravilhosa lá. Sei que vai amar. Podemos ir amanhã. Eu te deixo lá com seu irmão, e volto para o que quer que seja que irão fazer.
As promessas de uma vida calma são maravilhosas demais para que eu acredite tão fácil. Ainda estou digerindo tudo o que acabei de ouvir. Existe esperança, afinal. A Guerra não foi o final. Quando pensamos que todos nós estávamos destinados a uma vida sem futuro, estávamos errados. Não consigo conter o sorriso e a felicidade que se espalha por todo o meu corpo. Minha vontade é abraçá-lo, expressar a gratidão que sinto por poder visualizar um futuro.
— Jon… — Coloco suavemente minha mão em seu rosto — Obrigada. De verdade. Não sei se um dia serei capaz de expressar o que eu realmente sinto por tudo que fez e ainda faz por nós.
— Não quero nada de vocês, Ayla. Faço porque são minha família. — Vejo uma ruga se formar entre seus olhos — Você não vai, não é?
— Você sabe que não posso. — Sinto as lágrimas se formando em meus olhos e luto contra. — Se existe qualquer forma de derrubar a Ordem, eu quero fazer parte, e quero estar presente para ver todos os que destruíram minha família morrer. Não me prive disso.
— Ayla, por favor... Você tem a chance de viver uma vida calma com seu irmão...
O interrompo antes que ele possa terminar.
— E isso me alegra mais que tudo! Mas não posso ficar sentada em segurança enquanto todos arriscam a vida para poderem ter um futuro. Por que você não vai para essa casa e fica em segurança?
— Porque isso iria contra tudo o que acredito. – Ele abaixa a cabeça, entendendo onde quero chegar, mas não sei definir se está feliz ou triste. Ou apenas decepcionado. – Certo. Vamos falar logo com essa mulher, e depois voltamos para o abrigo e conversamos sobre o que a gente vai fazer. Você precisa ser rápida.
Ele abre a porta e sai antes de nós. Pego a mão de meu irmão e saio também. Mais uma daquelas salas subterrâneas. Exatamente como a última em que estivemos, mas a saída era diferente. Não é uma porta em um trilho de trem. O que está acima de nós é a tampa de um bueiro.
— Se minhas coordenadas estiverem certas, a barraca está na esquina de onde iremos sair. Eu vou ficar aqui com o seu irmão, segurando a tampa. Você precisa ser rápida Ayla. Não consigo cuidar de vocês dois aqui fora.
A expressão no rosto dele era de dor, como se eu sair de perto dele o partisse em milhões de pedacinhos. Era assim que eu me sentia todas as vezes que ele ia embora também. Como se sua ausência me causasse pânico e desespero, como se uma parte de mim estivesse faltando todas as vezes que Jonathan tinha que se afastar. E hoje, mais do que qualquer dia, eu queria ficar ao seu lado e o abraçar, e dizer o quanto ele me fazia falta todos os dias em que não estava lá.
Mas eu jamais poderia fazer isso, porque não éramos assim. Ele não precisava saber o que eu sentia, porque os sentimentos só atrapalhavam a guerra que precisávamos travar no dia a dia. Por maior que fosse a dor, seria dessa forma que eu iria viver. Perder meus pais foi um golpe do qual eu não penso que um dia me recuperarei. Perder Jonathan é algo impensável para mim. Evoluir um relacionamento além do que ele era, simples e único, era causar problemas dentro de mim.
Ele já segurava uma pequena fresta aberta, espiando a ronda dos guardas.
— Eles saíram. Provavelmente irão trocar de turno. Eles trocam de quinze em quinze minutos. Você precisa sair agora. Eu te dou dez minutos, e aí vou causar uma distração. Você corre pra cá, abre a tampa e volta pro abrigo com seu irmão. Fique lá e não saia até que eu apareça. Me entendeu?
Assenti, sem tempo de assimilar muita coisa. Só sabia que teria dez minutos para uma boa explicação. Seu rosto se contorceu, como se fosse falar algo importante, mas não sabia se valia a pena.
— Ayla, preciso que você saiba de algo… Algo sobre mim. — Olho fixo para ele, esperando o que viria a seguir. — Você não sabe a verdade sobre seus pais. Não sabe o que realmente aconteceu quando…
Jonathan é interrompido com o barulho de Guardas do lado de fora. Ele sussura um “droga”, me dá um beijo na testa e me impulsiona para fora.
— Dez minutos. Faça valer a pena.
Ainda atordoada com tanta informação dentro de tão pouco tempo, tento ver onde estou. É o final da Rua do Comércio, e a barraca da mulher é visível de onde estou. Corro a fim de me misturar com a multidão, pensando em meus pais. O que Jonathan ia me contar? O que eu não sabia? E o mais importante: como ele poderia saber de algo que eu não sabia?
Tento me manter alerta enquanto meus pensamentos voam, formulando as hipóteses mais absurdas. Ele teria que me explicar o que sabia, e porque não me contou antes o que descobriu. Alguém esbarra em mim, me fazendo tropeçar e quase cair. Quando levanto minha cabeça, vejo que estou em cima da barraca de quem eu estava procurando. Ela me reconhece na hora. Me puxa para dentro de sua barraca, onde uma tenda está estendida e me coloca abaixada atrás de algumas caixas empilhadas. O cheiro dentro das caixas é ótimo. O que guardava ali? Com certeza não era aquela gororoba que vendia.
— O que está fazendo aqui? — Sua voz não passa de um sussurro, e seus olhos estão fixos em mim. Eu sinto a raiva através da pergunta, só não entendo o porquê.
— Você me mandou fugir, e eu preciso saber…
— E isso não basta? O que mais você queria que eu fizesse? Te pegasse pela mão e ensinasse o significado da palavra? — Agora a mulher andava em círculos. Se eu me concentrasse bastante, talvez pudesse ver fumaça saindo de seus ouvidos. — Não bastou eu te alimentar durante todas essas semanas? Não bastou, é claro que não. Você precisa de mais. Sempre precisou.
— Sempre precisei? — Interrompo. — O que você quer dizer com sempre?
Isso não fazia sentido nenhum. Eu nunca tinha visto essa mulher em toda a minha vida. Como ela poderia saber do que eu precisava ou deixava de precisar?
— Você realmente não se lembra de nada? — Sua expressão mudou de indignada para curiosa. — Interessante…
— Olha, moça, eu só preciso que…
— Há! Moça! — A indignação volta para sua voz, mas parece mais conformada. Depois de dar mais algumas voltas pelo chão, sua atenção se volta para mim. — Certo, criança, eu vou te explicar o que você precisa saber, mas depois disso você vai embora e nunca mais vai voltar aqui, e isso é tudo o que posso fazer por você.
— Mas como você se chama?
— Não importa! Agora fique quieta e escute. — Ela se agacha ao meu lado, pega meus ombros e continua. — Tudo o que você sabe sobre seus pais é uma grande mentira. Eles maquiaram tudo o que realmente aconteceu para que parecesse um grande acidente. Você pode achar que sabe o que está por trás disso, mas vai além do que você imagina. Pare de procurar! Se você não se lembra de nada, se você não se lembra de mim… Então eles estão mais presentes na sua vida do que imagina. Fuja assim que tiver uma oportunidade. Não existe nada para você aqui. Fuja, leve seu irmão e comece uma vida nova. O outro menino, Jonathan. Ele é bom, sempre esteve ao seu lado. Você pode confiar nele. Mas não confie em mais ninguém, entendeu? Com o tempo as respostas virão, e você saberá de tudo no tempo certo. Mas até lá, tudo o que precisa acontecer, vai acontecer. Não confie em ninguém!
A mulher me solta, e caio de joelhos no chão. Ela me deu mais informações do que eu tive em anos, e ainda assim tudo parece confuso. Tudo parece igual, ao mesmo tempo que tudo mudou dentro de mim. Eu quero perguntar mais coisas, quero saber como ela sabe tanto sobre mim. E o mais importante de tudo, como ela sabe que tudo que precisa acontecer, vai acontecer? Somente quem conhecia meu pai sabe sobre essa frase, sobre como ele a criou e motivou e ensinou a todos nós através disso, e ele morreu há anos. E porquê ela diz que eu deveria me lembrar dela?
— Peguem ele agora! — Escuto do lado de fora da barraca, na direção de onde vim.
— Venha garota, está na sua hora! — Saio correndo de onde estou. Provavelmente o barulho é Jonathan criando a distração. A mulher está desesperada, seus olhos vão de um lado para o outro procurando alguém que possa entregar o que estávamos fazendo ali. — Fuja, mas não desista. Somos poucos, mas estamos vivos e prontos.
Ela me empurra para fora da barraca, e saio correndo para onde preciso ir, sem olhar para os lados e sem esperar que meus sentimentos e pensamentos façam sentido, porque agora nada faz sentido. Estou prestes a entrar no bueiro quando escuto um grito. Um grito de homem. Jonathan.
Me viro em direção ao grito e o vejo esticado no chão, com o rosto sangrando. Sei que ainda está vivo porque noto seus braços se mexendo, tentando se colocar de pé. O guarda mais próximo nota o mesmo que eu, o que o faz pisar nas mãos de Jonathan. Eles riem à sua volta, o que só faz com que eu me apresse para chegar onde estão. Um dos outros homens arranca o que parece uma espada e bate com o cabo na cabeça de Jonathan, o apagando de vez. Grito sem pensar, esperando que eles tirem a atenção de meu amigo.
— Soltem ele! Covardes!
Toda a atenção se volta para mim. Os guardas que cercam Jonathan o deixam lá, estirado no chão, e começam a caminhar em minha direção. Tento fugir, mas estou mais próxima do que me lembrava.
— Ora ora, se não é a filha do carpinteiro. — Eles me cercam, e o mais alto se aproxima de mim. Olho fundo nos olhos dele, mas sua humanidade está perdida. Onde deveria existir sentimentos e empatia, existe somente o vazio. Sinto nojo de cada um deles, e cuspo no rosto do homem que estava na minha frente. Sua feição muda para um ódio incendiário, e por um momento vejo a íris de seus olhos piscarem em vermelho. Tão rápido que me pergunto se alucinei. Ele olha para alguém atrás de mim e assente. O mundo se apaga na minha frente com a pancada que tomo na cabeça, mas não antes de perceber que Jonathan não está mais onde estava.
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