Reino da Angústia

4 4 - Façamos das antigas memórias as grandes armas.


Notas iniciais
Capítulo curto, mas logo o 5 sai, prometo.

Façamos das antigas memórias

As grandes armas da esperança

E tiremos das doces lembranças

A matéria-prima para novas histórias

Lucas Ferreira

As mãos de meu pai me apertavam com firmeza enquanto ele corria, fugindo de alguma coisa que eu não podia ver.

— Feche os olhos querida — sussurrou em meus ouvidos, com a voz serena de sempre — Está tudo bem, tudo vai ficar bem.

E eu sabia que iria. Tudo sempre ficava bem com ele. Talvez não fosse nada importante. Talvez ele estivesse correndo somente para brincar comigo, como sempre brincávamos.

Mas… No colo do meu pai eu ainda era uma criança. Pra sempre na segurança dos braços dele. Então mamãe ainda estava viva, não estava? Olhei para seus olhos, colocando minha mão minúscula em seu rosto.

— Papai, cadê a mamãe? Papai, eu quero…

Acordei com um solavanco e abri os olhos, mas tudo continuou escuro. Não fazia ideia de onde estava, mas tudo balançava ao meu redor. Provavelmente dentro de algum carro. A lembrança de tudo o que aconteceu voltou como um tiro, me trazendo à realidade.

Tentei levar minhas mãos aos olhos, mas estavam amarradas atrás do meu corpo. Levantei, somente para ser puxada para baixo novamente.

— É melhor você ficar bem quietinha. — sussurrou alguém ao meu lado.

Não tentei escapar pois não sabia onde estava.

O carro parou bruscamente, me jogando para frente. Ouvi portas abrindo e alguém puxando meu braço. Pisei em pedras enquanto era guiada para algum lugar, mas não conseguia ouvir nada dos soldados, o que não me deixava saber quantas pessoas estavam ao meu redor. Tentei decorar as curvas mas me perdi no meio do caminho — meu senso de direção era horrível. Decidi simplesmente me concentrar em não tropeçar para não tornar o que era ruim em algo ainda pior.

— Pode abrir — disse o homem ao meu lado. Um momento se passou antes que eu pudesse ouvir o barulho de algo se abrindo. Fui empurrada para frente, tropeçando e caindo. Bati a boca no chão nesse processo e senti o gosto metálico. Alguém me levantou e arrancou o que tampava minha visão.

A luz fraca machucou meus olhos e levou um tempo para me acostumar ao novo cenário.

Eu estava em algum tipo de cela, com uma porta toda branca na minha frente. Ao meu lado havia uma cama sem colchão e uma cadeira velha de metal. À minha frente, um homem com aparência jovem me olhava com o olhar frio, típico de todos dA Ordem.

— A Ordem te saúda — disse, com a voz tão fria quanto os olhos — Vire.

Desconfiada, virei calmamente, tentando controlar a vontade de sair correndo daquele lugar horrível.

Ouvi um clique e meus braços caíram ao lado do corpo.

Antes que eu pudesse me virar, a porta se abriu e se fechou, me deixando sozinha na cela.

Tirei um tempo para poder realmente ver onde estava. As paredes do lugar eram cimento puro, sujas e nojentas. Tudo ali fedia. Sentei na cadeira velha para poder respirar e pensar. Eu estava tremendo. As memórias de tudo o que aconteceu nas últimas horas voltou como uma bomba, arrancando o ar de dentro de mim. Precisava colocar minha cabeça no lugar.

Não importava o que aconteceria comigo. Ao menos Jonathan e Christopher estavam a salvo. Não tinha pessoa melhor para Chris ficar do que Jonathan. Eu sabia que ele ficaria bem. Provavelmente eu não conseguiria mais sair desse lugar, mas meu irmão ficaria bem e aprenderia tudo o que não tive tempo de ensinar. Jonathan o ensinaria a roubar o que precisasse para comer e também a pegar roupas novas quando as que ele estava usando já não servissem mais. Ele aprenderia a ser um homem de verdade.

Uma lágrima escorreu pela minha bochecha. Eu não veria Chris crescer. Não veria ele se tornar um homem tão extraordinário quanto nosso pai tinha sido. Minha respiração estava ofegante e eu não conseguia me concentrar em mais nada. Levantei, tentando trazer ar aos meus pulmões.

Eu não veria Chris crescer, mas ele estaria bem. E protegido. Repeti essas palavras mil vezes dentro de mim, até que fizessem sentido. Até que a dor no meu peito se liquefizesse para o restante do meu corpo. Repeti que Chris ficaria bem e protegido. Repeti até que meu corpo ficasse dormente e eu caísse no chão sujo. Ele ficaria bem e protegido. Ele cresceria e teria um futuro.

Mas eu não.

Mais uma vez a realidade me atingiu, fazendo com eu colocasse pra fora tudo o que havia comido, o que não era muita coisa. Eu vomitava e chorava e nada parecia ser o suficiente para me acalmar.

Focar em meu irmão parecia domar meu coração, então foi o que fiz. Pensei nele e em todas as nossas memórias. Não importava se só teríamos lembranças e jamais um futuro. Lembrei de como ele amava ver a neve cair, mesmo que todos que moravam em Northwinter odiavam o que predizia mais frio. Ele amava os pequenos flocos que caíam em sua mão quando podíamos sair por algum tempo de nosso abrigo. Fechei os olhos e fui capaz de ver meu irmão colocando a língua para fora e rindo quando os flocos começaram a congelá-la. Concentrei e me apeguei com força a esse momento. Minha respiração se acalmou até que eu pudesse puxar o ar sem sentir dor.

Com uma respiração profunda e os sentimentos sob controle, me levantei.

Não sei o que aconteceria comigo, mas eu estaria preparada.

Comecei a rodear o pequeno cubículo, que seria minha cela pelo que parecia algum tempo. Procurei por rachaduras, alguma entrada de ar que poderia servir de fuga, mas não encontrei nada. Chutei a parede tentando encontrar qualquer fraqueza, mas não encontrei nenhuma. O lugar cumpria bem seu papel de cela, intransponível.

Me sentei na cama, esperando o que quer que fosse acontecer dali para frente. Depois do que pareceram horas, um copo com água surgiu na pequena comporta que havia no meio da porta. Levantei rápido para tentar ver algo do lado de fora, mas tão rápido quanto se abriu ela também se fechou. Bati na pequena portinha, gritando, esperando que alguém tivesse compaixão. Porém isso não aconteceu. Sufoquei qualquer esperança que surgira dentro de mim.

Bebi a água e tentei deitar nas madeiras da cama, que cutucava minhas costas.

E foi assim por muitos dias. Tinham vezes que me davam um pequeno pedaço de pão duro, e outros dias que a única coisa que eu tinha durante todo o dia era um copo d’água.

Quando cheguei ao ponto em que eu passei a mão na barriga e senti somente os ossos, comecei a ver meu pai. Lindo e com os braços estendidos na minha frente. Seu rosto brilhava e seu corpo inteiro estava coberto de um brilho que me lembrava a eternidade. Nesse ponto eu já não sabia mais se estava delirando, mas senti um cheiro que me lembrava lavanda — as mesmas flores que mamãe cultivava — e isso aqueceu meu coração no mesmo momento, me lembrando de casa. Um sorriso se abriu, rachando minha pele com a boca ressecada. Estendi minha mão em sua direção, desejando segui-lo para onde quer que ele fosse. Papai pegou minha mão e deu um beijo, falando tão suavemente que pensei ter imaginado qualquer som que tivesse saído de sua boca.

— Ainda não está na hora, filha. Estou cuidando de tudo.

Ouvi um clique na porta e me virei em direção a ela. Um homem vestido com o uniforme dA Ordem, preto dos pés a cabeça, segurando o que parecia um cassetete em sua mão, levava um sorriso no rosto tão perverso quanto a insígnia que carregava em seu uniforme. O homem me puxou pelos pés, me jogando no chão. Bati a cabeça na borda da cama e tentei me proteger do próximo golpe, mas eu estava fraca demais. Mal aguentava me sustentar, tampouco segurar um golpe. A dor que sentia na cabeça reverberou em meu ventre e percebi que o homem tinha acertado um golpe em minhas costelas. Me dobrei, tentando proteger minha cabeça do que quer que fosse vir em seguida, mas não foi o suficiente para evitar a dor que explodiu em meu abdômen.

Tão rápido quanto entrou, o guarda saiu. Fiquei largada naquele chão nojento tentando me lembrar do cheiro das lavandas de meu pai enquanto perdia a consciência no mar de dor que me atingiu.

Os próximos dias se passaram em um borrão. Eu já não lembrava mais o porquê de estar ali. Na verdade, nunca soube se realmente houve um motivo. Os homens revezavam os dias que iam me encontrar para me bater, mas sem nunca encostar a mão em mim. Usavam chutes e cassetetes, mas nunca encostavam em mim com suas mãos repulsivas. Em algum momento de dias que pareciam uma eternidade, vi Chris. Sabia que estava alucinando quando o vi cruzando a parede.

Nunca mais vi meu pai.

Depois de mais alguns dias eu já não tinha mais forças para abrir os olhos. Os soldados também não vinham mais. Não conseguia mais levantar da cama para pegar a água que deixavam para mim. No fundo eu sabia que a morte havia vindo me buscar, só estava esperando o momento oportuno para isso. E eu a receberia de braços abertos. Não aguentava mais um minuto sequer dessa tortura.

Interrompendo meus pensamentos, aquela maldita porta abriu de novo, revelando um soldado tão bonito quanto qualquer homem que eu já tivesse visto. Seu cabelo, tão preto quanto seu uniforme, estava grudado em sua testa e sua respiração estava ofegante.

Seria essa a aparência da morte? Ou eu só estava alucinando de novo?

— O que fizeram com você? — seus olhos estavam arregalados quando chegou perto de mim e colocou a mão em minha cabeça. Ficou bem próximo, encostando a testa na minha. — Vou cuidar de você. Prometo.

O homem me pegou no colo como se eu fosse uma criança recém nascida, tomando cuidado para não pegar em lugares já machucados. Tentei me afastar, mas percebi que ele não oferecia perigo. Eu não sentia aquela atmosfera horrível que sentia com os outros soldados, quando sabia que iriam me agredir. E seus olhos… Tinham vida. Certamente não eram os olhos da morte. Eu nunca tinha visto olhos assim em nenhum soldado. Tão azuis…

Ele me levou para fora da cela, mas não consegui ver muita coisa ou acompanhar para onde ele estava me levando, mas demorou. Demorou muito.

Finalmente chegamos em algum lugar, em um quarto bem iluminado onde as luzes intensas machucavam meus olhos. O homem me colocou deitada delicadamente em uma cama, me cobrindo com um cobertor suave. Levei a mão aos olhos e ele percebeu.

— Ah, me perdoe! — O vi correndo até um canto e a luz se apagou. Um abajur ao lado da cama foi aceso, lançando uma luz suave sobre o ambiente. — Você tem que comer.

Ele me trouxe algum tipo de líquido quente que confortou meu estômago e me fez lembrar de casa mais uma vez. Era como se tudo que ele fizesse gritasse lar.

— Pode dormir agora, princesa. Vai ficar tudo bem.

O fato de ele me chamar de princesa me incomodou, mas não liguei. Teria tempo para reclamar sobre isso depois, porque agora realmente parecia que haveria um depois.

Confortada por esse pensamento de esperança mas sem conseguir muito a respeito, fechei os olhos e dormi por muito, muito tempo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.