Reino da Angústia

2 O Amor não força nada.


O Amor não força nada, ao contrário, ele abre caminho.

William P. Young

Eu não conseguia achar uma palavra para descrever o quanto eu me sentia quebrada. Era como se todos os meus ossos tivessem sido partidos, e alguém tivesse tentado colar. Só que mal colado.

— Tá bem?

Meu irmão. Meu pequeno, corajoso e maravilhoso irmão. Que cuida de mim desde quando eu consigo me lembrar. Meu irmãozinho, que já sofreu tanto mesmo tendo só 12 anos. Como eu queria que ele pudesse ter sido poupado de todas essas coisas horríveis que tinham acontecido e que ainda aconteciam. Ninguém precisava ter que passar por isso. Papai costumava dizer que as pessoas vinham ao mundo no momento em que deveriam vir, e que elas iriam passar pelo que precisavam passar.

Ainda não decidi se consigo acreditar, ou talvez somente aceitar, totalmente isso. Era um pensamento doloroso demais na época. Havíamos acabado de perder nossa mãe para um dos desgraçados da Ordem, que a encontrou desprotegida enquanto ela esperava nosso pai na frente da própria casa. Eles a pegaram e drenaram todo o seu sangue, depois a devolveram no mesmo lugar que a tinham pego. Só a encontrei porque estava procurando meu irmão, que estava tentando acordá-la. Ele era tão pequeno naquela época. Eu soube na hora quem tinha feito aquilo, mas eles resolveram criar toda uma história, dizendo que deveria ter sido algum tipo de gangue criminosa, que estava em alta naquele tempo.

Ainda não entendo. Foi há anos atrás, época em que a guerra era só um rumor. Uma época em que todas as coisas serviam para a ciência. Um tempo em que eu era nova demais para entender que tudo o que diziam. Minha mãe foi a primeira de uma série de mortes que começaram a aparecer, e em todas as mortes diziam as mesmas coisas. Gangues. Ainda assim, nunca conseguiram pegar uma única pessoa dessa gangue.

Desde então tento acreditar que eu estava só passando pelo o que eu precisava passar, naquela época e agora, mas é difícil demais colocar minha fé nisso.

— Ayla? – meu irmão me balançava pelos ombros, tentando chamar minha atenção.

— Estou ótima, Christopher – eu digo, forçando um sorriso. Tento me levantar, mas cada movimento dói demais, então me contento em ficar sentada no sofá.

— Dessa vez eles realmente acabaram com você – diz Chris, com uma carranca aparente em seu rosto – Não sei nem como chegou aqui. Da próxima vez me deixe ir junto, eu consigo ajudar.

Christopher era tão valente e corajoso quanto meu pai um dia fora, mas talvez eu não fosse valente e corajosa o suficiente para deixá-lo sair do nosso abrigo seguro.

— Quem sabe da próxima – ele revira os olhos enquanto se levanta para pegar algo na cozinha.

Nosso pequeno abrigo não era espaçoso o suficiente, mas era aconchegante o bastante para ter um quarto e uma pequena cozinha, onde ficava nosso sofá, do qual eu tentava me levantar de toda forma, sem sucesso.

— Aqui, toma – Christopher se sentava ao meu lado novamente, colocando algum líquido quente na minha boca. Chá, eu acho. – Agora conta. O que você aprontou?

— Você sabe que continuo sendo a mais velha aqui, né? – brinco, o que me rende uma revirada de olho. Me ajeito da maneira que consigo e conto tudo o que aconteceu. Antes que eu pudesse terminar, Chris já estava de pé, andando em círculos. Ele coçava a cabeça, indignado com o que quer que seja que eu tivesse falado de errado.

— Você disse que a mulher simplesmente te entregou a sacola? – assinto devagar, tentando descobrir onde ele quer chegar.

Chris se levanta e vai até a pequena mesa de madeira antiga, bamba pela falta de um pé. A mesa chacoalha conforme ele começa a tirar as coisas de dentro da sacola, revelando três generosas porções de sopa.

— Essa sacola? Uma desconhecida simplesmente te deu três porções de comida?

Levanto de súbito, sentindo o peso do dia sobre minhas pernas que não se firmam. Chego nas sopas antes que Christopher possa me ajudar, e começo a cheirar cada uma delas. Já estão geladas, devido ao tempo frio. Mas tem pedaços de comida de verdade. Não era só água, era sopa de verdade. Provavelmente nos sustentaria por semanas, se soubéssemos dividir.

Indignada, pego a sacola e a balanço, esperando que caia mais sopa ou qualquer coisa que explique o porquê daquilo. Ao invés disso, um papel balança até a mesa, deixando um silêncio sepulcral entre mim e meu irmão. Fico sem palavras por alguns minutos, enquanto Chris troca os olhares entre mim e o papel. Impaciente, Chris resmunga alguma coisa e alcança aquele pequeno papel surrado. Espero alguma reação, mas tudo o que ele diz é “hum”.

— Hum? – perco a paciência e pego o bilhete – Oras, me dê logo essa porcaria.

Quando o abro, não existe nada além de um grande “FUJA LOGO. PERIGO!”. Reviro aquele pequeno pedaço de papel, procurando qualquer coisa que possa me dar algum tipo de informação, que ao menos me explique por quê estou correndo perigo. Tento reviver o que passei na noite passada, me lembrando de qualquer detalhe que eu possa ter deixado passar sobre a moça que me ajudou. Ela nunca disse uma única palavra, nunca nem mesmo me viu. Sempre fui muito cuidadosa em relação a tudo que eu roubava dela.

Eu preciso saber o que ela quis dizer. Sempre corri perigo, principalmente por ser filha de quem eu era. Eu levaria comigo o peso do que meus pais fizeram para o resto de minha vida, mas sempre estive ciente disso. Entretanto, ninguém estava seguro. Ainda assim, ela se importou o suficiente para tentar me avisar de algo. Será que havia algo mudando? Se eu ou minha família estávamos em perigo, eu precisava saber o porquê.

— Vou ter que voltar lá. – digo, sem rodeios.

— Você está louca! Acabou de levar a maior surra da sua vida, mal consegue ficar de pé. Nem vai conseguir chegar lá. De jeito nenhum que você...

— Chris – interrompo – Eu preciso.

Seus olhos tentam entender minha determinação, mas vejo a dúvida de me deixar ir e o medo de ter que ficar sozinho mais uma vez.

— Não faz sentido que ela simplesmente tenha dado comida suficiente para alimentar 5 famílias para mim. Eu preciso saber o que ela quis dizer com isso. E ainda tem esse bilhete. Pode ser que esteja querendo dizer alguma coisa. E se ela estiver tentando nos ajudar?

Meu irmão começa a derramar lágrimas silenciosas, me lembrando o quanto é jovem.

— Eu só não quero ficar sozinho de novo. Por favor. Você sabe que eu consigo ajudar em alguma coisa. Por favor, por favor, por favor Ayla! – Chris começa a perder o fôlego, atropelando palavras com o choro descontrolado – Você não sabe os barulhos que escuto aqui! Todas as vezes eu penso que vão nos achar e que eu vou ficar sem você.

Eu sei o que ele quer dizer. Todas as vezes que escutamos o barulho ensurdecedor dos trilhos, sabemos que iremos escutar soldados da Ordem. E onde existem soldados da Ordem, existem problemas, dor e gritos.

Começo a me indagar o quanto deixar ele ali é realmente seguro. Bastaria um único soldado suspeitar ou, ainda pior, descobrir o abrigo da mesma forma que eu: por puro acaso. Vou até meu irmão e o abraço o mais firme que consigo. Ele saiu comigo poucas vezes, de dia, onde o perigo de sermos descobertos é menor.

— Certo, me escute. – Chris me encara, secando as lágrimas de seu pequeno rosto, tentando parecer firme. Vou até a pequena porta e abro uma fresta, evidenciando que estava escurecendo mais uma vez. Volto e o seguro pelos ombros. – Precisa entender que lá fora é muito, muito perigoso. Você entende isso, certo? Entende que vou fazer meu melhor para te proteger fora daqui, mas que se eu disser para correr, é isso que irá fazer. Não vai questionar nada que eu disser, não vai me desobedecer de maneira nenhuma. Se alguma coisa acontecer, você volta pra cá e se esconde por pelo menos 3 dias. Se eu não voltar, então irá em busca de abrigo com Jonathan. Entendeu?

Os olhos de meu irmão estão arregalados, não sei se de medo ou surpresa, mas ele acaba abrindo um sorriso, contente por finalmente me acompanhar. Chris afirma com a cabeça e me abraça.

Respiro fundo e vou até a pequena porta, espiando para ter certeza de que não tem ninguém nos esperando. Saio rápido e ajudo meu irmão a fazer o mesmo.

— E agora, pra onde nós vamos? – diz, com um sorriso imenso no rosto, como se não estivéssemos prestes a fazer algo perigoso.

Coloco o capuz e puxo o dele também. Se alguém quiser nos interrogar, ao menos não seremos reconhecidos e teremos tempo para correr. Suspirando, digo:

— Em busca de respostas.