Reino da Angústia
1 Recomeça...
Notas iniciais
Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.
Miguel Torga
Fazia frio em Northwinter. Todos. Os. Malditos. Dias. Frio de causar dor e arrepiar a espinha. Era como se o frio estivesse competindo quem ele iria fazer sofrer mais, ou de quem iria morrer antes. Por enquanto, entre os menos afortunados, se encontravam os pobres, indigentes, ou aqueles que não tiveram a sorte de trabalhar em famílias abastadas. Infelizmente para mim, o dinheiro se encontrava tão longe ao ponto de eu não me lembrar mais de sua textura.
E cá estava eu. Roubando. De novo. Para garantir minha existência e a de meu irmão. Nesse frio que congelava os ossos.
Enquanto divagava pela Justiça que eu jamais obteria, avistei a barraca de compostagem. Era nojenta. Todo o bairro era nojento, constituído por todo o tipo de vendas absurdas e desonestas que o dinheiro pudesse pagar. “A Ordem saúda e guarda todos aqueles que puderem comprar e vender”. Que tipo de slogan ridículo era esse? O certo deveria ser “A Ordem deixa viver como lixo todos aqueles que puderem beneficiar A Ordem. Ao resto, que morra”. A Ordem era um meio ridículo de governo que haviam implementado depois da Guerra da Angústia, que durou míseros 3 anos. Tempo o suficiente para que todos aqueles que não tinham trabalho próprio se juntassem à Ordem, ou se matassem por desespero. E foi daí que surgiu o nome. Uma Guerra que matou mais por suicídio do que por armas. Aqueles que sobraram e não tinham se juntado a essa nova organização arrumaram seus jeitos de viverem. A maioria trabalhava escondido, escolhendo as pessoas certas para suas vendas. Outras pagavam a taxa abusiva que A Ordem exigia, e podiam trabalhar na rua ganhando somente o suficiente para comerem. As vezes nem isso.
Para mim, menor de idade e sozinha, não sobravam muitas opções. Era horrível ter que roubar de pessoas que trabalhavam para manter o pouco que tinham, mas eu realmente precisava comer. E precisava alimentar meu irmão.
Continuei meu caminho silencioso pela rua estreita e sombria. Mesmo sendo tarde da noite, muitas pessoas circulavam pelo pequeno espaço, que já era lotado pelas barracas que se abarrotavam uma em cima da outra, sendo difícil distinguir qual vendia o quê. Um pequeno caminho era visível no meio das barracas, por onde as pessoas se empurravam e se apertavam, dando seus lances em peças únicas daquele mercado, esperando conseguir algo digno de seu pouco dinheiro.
As pessoas se esbarravam, gritando, tentando conseguir as coisas mais variadas. Uma barraca bem a minha direita vendia pratos quentes de comida, com porções contadas. Os preços eram altíssimos e, caso conseguisse comprar, você seria presenteado com uma tigela de água quente com gosto de vegetais.
Me esquivei de uma mulher que saiu correndo com uma sacola pequena, sorrindo de orelha a orelha. Pelo menos alguém ficaria feliz essa noite. Continuei meu rumo, esbarrando em alguns negociantes, mas sem tirar os olhos da barraca de compostagem, que se encontrava no final da rua. Era meu terceiro roubo em três dias. Eu realmente estava abusando da sorte, mas essa era a única barraca em que consegui encontrar mantimentos minimamente comestíveis, o que era estranho, se tratando de compostagem. Ela só juntava tudo o que os ricos e nobres descartavam, e separava o que poderia ser vendido daquilo que serviria somente como adubo.
Com mais alguns passos, passei para detrás das barracas, saindo da loucura das negociações. A praticamente meio passo de chegar onde eu queria, estendi discretamente meu braço, me juntando novamente a multidão louca, quando percebi alguém parado ao meu lado.
— Precisa de ajuda?
A voz reverberou dentro de mim e minhas pernas tremularam. Me virei.
A falta de iluminação não ajudava a enxergar as feições, mas o homem era alto e carregava em seu peito direito a insígnia da Ordem. Droga.
Eu já sabia o que vinha a seguir, então tinha que agir rápido. Droga. Droga, droga, droga. Meu irmão precisava comer. Girei os olhos por aquela rua escura, procurando por qualquer desculpa que parecesse plausível.
— Imagina, é claro que não! Fazia tempo que não vinha para a Cidade. Quis dar uma volta, ver o movimento.
A gargalhada que ele deu em seguida mostrou que o meu plano estava indo por água abaixo.
— Já te vi antes garota. Você anda perdida todas as noites por aqui. Você não é filha daquele antigo carpinteiro?
Os olhos dele se acenderam. Eu já sabia o que iria acontecer. Precisava agir rápido. Dei as costas para o homem e estendi novamente minha mão em direção a barraca de compostagem. Se eu pegasse qualquer um daqueles sacos, poderia ter suprimentos para uma semana pelo menos.
Peguei a sacola e me virei para correr, mas algo se colocou na minha frente, me fazendo cambalear para trás. Outro homem. Menor que o outro, porém com muito mais músculos.
— Eu não... – e minha visão ficou turva. Alcancei o chão com um baque depois de ter levado um soco, enquanto os dois homens me chutavam na costela, no rosto, nas costas, onde o pé deles encontrasse primeiro.
— Parem! Parem agora! Isso é desumano! – era um grito feminino.
Ambos pararam enquanto o mais musculoso acertava um tapa no rosto da mulher magricela que ousara ter misericórdia da minha vida. Como se nada tivesse acontecido, os dois se retiraram. Sem desculpas, sem explicações. Só foram embora. E me deixaram ali. Sangrando, com o pouco do orgulho que me restara ferido.
A rua já havia parado em volta daquela comoção, se apertando uns aos outros para tentarem enxergar quem era a sortuda da vez. Eu conseguia ver que as pessoas estavam falando algo, mas não fazia ideia de quem falava. Crianças corriam de um lado ao outro da roda, gritando algo que não me pareceu fazer sentido. Por um momento, achei ter ficado surda. Até começar a escutar novamente, como se um zumbido estivesse sumindo de dentro de mim.
— Não vale a pena mesmo. Uma vagabunda nessa idade...
— Pobre coitada. Os pais devem estar decepcionados... – seria tão bom ter pais para que eles se decepcionassem!
A mulher que gritou para que os guardas ajudassem se aproximou de mim, tentando me ajudar a levantar, mas me afastei de seu toque e me levantei o mais rápido que pude, gemendo de dor. Ela levantou uma mão até mim, onde vi uma sacola branca que parecia pesada, pela maneira como ela a carregava. Olhei fixamente o conteúdo branco em sua mão, percebendo do que se tratava.
— Não posso pagar por isso.
— Não estou pedindo que pague.
Olhei desconfiada. Estaria ela me dando o adubo ao invés dos restos de comida?
— Pegue logo e vá embora.
Peguei a sacola lentamente, desacreditada, e saí mancando, me afastando o mais rápido possível da aglomeração de barracas de vendas, adentrando ainda mais nas sombras.
Não fazia a mínima ideia do porquê essa mulher teria ajudado alguém como eu. Muito menos sabia o porquê. Mas como meu pai insistia sempre em dizer, a gente não contesta o milagre. A gente só aceita.
Apertei o passo, com medo de mais algum guarda miserável me alcançar. Quanto mais rápido eu andava, mais tonta eu ficava. Eu tinha que encontrar meu irmão logo. Depois de virar mais três esquinas, finalmente avistei as escadas que desciam para a estação de metrô. Desci mancando, mal aguentando com o meu próprio peso. Parei no meio para recuperar o fôlego e continuei descendo.
Essa estação estava abandonada desde a Guerra. O único metrô que ainda circulava era o que transportava os empregados dos Nobres de uma cidade à outra, para pegar o que quer que pedissem. Ou ordenassem. O que fazia um ótimo lugar para se morar, já que os empregados não precisavam ser monitorados, pois se caso fugissem tinham os miolos estourados pelo chip que os Nobres tão “bondosamente” haviam colocado.
Quando a Guerra acabou, os que não eram tão ricos ao ponto de se matarem quando ficaram sem nada, nem tão pobres ao ponto de aceitarem viver nas ruas, se entregaram para A Ordem, que os marcou como propriedade, separou as famílias para que não houvessem laços afetivos e os distribuiu para servir a nobreza. Não foi preciso muito, já que todos estavam com a vida destruída e essa era a única opção para se ter a vida um pouco digna. Mas depois de um tempo, o serviço começou a ficar pesado e eles começaram a fugir, procurando seus familiares para tentar qualquer outro tipo de vida, qualquer que fosse a consequência. E foi aí que os Nobres começaram a marcar seus empregados. Colocaram chips tão pequenos que não seria possível distinguir quem tinha e quem não tinha. A não ser pelo desespero nos olhos.
Seus comportamentos começaram a mudar. Todos trabalhavam sorrindo. Não havia tristeza, não havia saudade da família, não havia nada. Os empregados se tornaram pessoas felizes e satisfeitas com o que quer que acontecesse a eles. Até que um dia tive a infelicidade de me encontrar com um deles na estação enquanto aguardava o trem. Tentei me esconder, correndo para detrás de uma das grandes colunas daquele lugar, com medo de que pudesse ser entregue pelo homem, mas ele nem mesmo pareceu me notar. Então fui até ele vagarosamente, contando cada passo, por pura curiosidade e teimosia. Era um homem jovem, não passava de 20 anos. Talvez tivesse minha idade. Ele não me percebeu até que eu estivesse bem na sua frente. Era lindo, e quando sorria as covinhas iluminavam seu rosto. Certamente eu teria me apaixonado em um passado não tão distante. Não era qualquer beleza. Era uma beleza única, daquelas que te conquista, mesmo que você não troque uma única palavra. Sorri de volta, mas quando olhei para seus olhos, era como se tivesse um pedido de socorro estampado ali. Pareciam mortos.
Não tive a chance de dizer nada na época, pois ouvi o som dos trilhos. Corri para me esconder, e tão rápido quanto o sorriso do menino havia se mostrado, sumiu. E foi ali que percebi o que o chip fazia. Ele não só impedia que as pessoas fugissem dos nobres. Ele os escravizava. Mudava quem eram.
Moramos ali desde então. Era a maior estação da Cidade, o que tornava mais fácil de se esconder, considerando que somente os empregados passavam por ali. Não tinha nada. Era um pavilhão enorme, com absolutamente nada ali além dos trilhos que passavam dos dois lados do chão e as colunas que cruzavam todo aquele lugar.
Finalmente terminando de descer as escadas, desci até os trilhos e puxei um dos ferros, que revelou a entrada para a minha casa. Encontrei aquele lugar semanas depois de ter encontrado o empregado, e só achei porque meu pé ficou preso justamente no ferro que dava acesso a entrada. Quando entrei pela primeira vez, o lugar estava cheio de comida, aparentando ter sido deixado às pressas. Acredito que tenha sido usado como esconderijo durante a Guerra, mas nunca encontrei algo que me desse qualquer pista de quem poderia ter ficado ali.
— Ayla! – meu irmão veio correndo até mim, me apoiando em seus ombros quando viu meu estado. Assim que o avistei, minhas forças foram embora e eu despenquei.
Ele me apoiou até o sofá, onde apaguei, escutando somente suas últimas palavras.
— Pode dormir que eu vou cuidar de você.
Eu tentava cuidar dele. Mas no fim, era ele quem cuidava de mim.
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