Reila
21 Preparando-se
:: CAPÍTULO 21 — Preparando-se ::
– Takanori... Você tem certeza disso? – Ruki nunca vira Kouyou falar tão seriamente em sua vida. A única vez que se lembrou de ter visto o amigo com uma face semelhante foi no dia que lhe pediu abrigo há tantos anos atrás.
Suas vidas, se comparadas com àquela época, eram simplesmente constrastantes. Haviam fugido de casa para alcançar seus sonhos, que naquele momento, eram realidade. Matsumoto estava, entretanto, perto de fazê-lo se tornar um pesadelo.
A imagem de Uruha curvado sobre uma guitarra negra de forma irregular propícia para fazer solos o trouxe muitas lembranças, fazendo-o ressentir; mas ele havia passado a noite inteira pensando sobre os prós e os contras, decidindo que era isso mesmo que iria fazer. E o destino que o guiasse dali em diante. Talvez seguisse carreira solo... Os fãs de GazettE provavelmente o apoiariam. Quanto aos outros, eles eram talentosos. A gravadora logo arrumaria outro vocalista de igual valia, talvez até melhor que si.
– Estou, Kou. – Por mais que não tivesse motivos para se envergonhar, ele mantinha a cabeça baixa e não a conseguia levantar. Não queria olhar nas orbes ocres suplicantes de Takashima nem mais uma vez.
– E você vai ser feliz com isso? – Pareceu o tipo de pergunta irônica. Por mais que uma sutil vontade de gritar com o guitarrista o acometesse, ele apenas continuou de cabeça baixa.
– Sim, isso me faria muito feliz, Shima. Me desculpe...
– Ei... – Seu rosto foi delicadamente levantado por dedos compridos que ele conhecia. Foi obrigado a olhar para aquele que evitava. – Não precisa se desculpar. Está tudo certo, você tem mesmo é que ser feliz. Mas você tem que me prometer uma coisa.
– O quê? – Questionou, temeroso.
– Você fará a Reila feliz. – No fim das contas, o maior ainda era amigo da morena. Esquecera-se disso.
– Com toda certeza.
– Então eu espero que vocês sejam muito felizes. Sabe onde me encontrar e conte comigo para qualquer coisa. – Tirou a mão que ostentava o rosto do vocalista e colocou-a no braço da guitarra de qualquer forma, sem realmente ligar para o que fazia. Estava triste e era aparente. O engraçado é que Ruki percebera essa tristeza antes mesmo de lhe contar a notícia. Já tinha uma noção do que era, vendo a posição em que o mais velho se encontrava.
– Mas Kouyou... Você está bem? – Falando isso, levantou-se.
– Sim, não há por que não estar.
– Neste caso... Acho que você deveria saber que essa é a guitarra do Aoi. E que ele não gosta quando pegam as coisas dele sem permissão. Ainda mais essa guitarra... Ele gosta muito dela. – Sorriu de leve e caminhou até a porta a passadas suaves e lentas, esperando que o outro dissesse mais alguma coisa. Mas ele não disse.
Uruha ainda ouviu Takanori murmurar um “Se precisar conversar...” antes de sair do recinto. Mas ignorou.
Talvez ele precisasse conversar. Mas tudo que preenchia sua mente agora era Shiroyama. Aquilo já estava ficando estranho. Passara a noite quase toda acordado. Trancou-se no quarto e fingiu dor de cabeça para evitar Yutaka. Por que tudo acontecia ao mesmo tempo? Por que seus planos estavam todos falhando agora? Onde estava o Takashima confiante de semanas atrás?
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Agora o vocalista caminhava até a cozinha, onde viu Kai preparado o almoço. Não sabia por qual motivo havia escolhido falar com Uruha primeiro. Talvez por que depois de Reita, ele foi quem mais o ajudou desde que começaram a banda. Na verdade, a banda começou com Kouyou e Akira, logo depois ele se agregou. Talvez fosse um pequeno sentimento de dívida com o loiro. E tinha esse mesmo sentimento pelo baixista, mas como eles não estavam se falando, o próximo da lista de “com quem falar” era seu amável líder.
– Kai-chi... Você se lembra do número do telefone da empresa que mandou os caminhões quando a gente se mudou para cá? – Foi o melhor jeito de puxar o assunto, mesmo sabendo que não levaria as coisas dele em um caminhão por dois motivos: raras eram as barcas que atravessavam caminhões pelos mares e porque suas coisas não dariam pra encher um caminhão. Não ia precisar levar móveis.
– Eu tenho um cartão, Ruki... – Não havia um sorriso. Naquele dia, o sorriso de Uke estava apagado desde a hora que acordara no sofá da sala, pois fora obrigado a dormir lá. Ficou trancado para o lado de fora e perguntava-se porque não mantinha uma chave consigo.
– Você sabe onde este cartão tá?
– Você planeja mesmo ir embora? – O moreno largou tudo o que fazia para fitar o mais baixo, a face muito séria. Kai era uma pessoa sorridente e muito simpática, mas não era assim o tempo todo. Ele sabia tratar das coisas seriamente como ninguém.
– Sim, eu planejo. – O ímpeto de abaixar a cabeça se fez presente, mas ele se manteve forte e lutou contra a vontade. Fitou insistentemente o olhar duro do mais velho.
– Eu não vou te impedir... – Falou, simplesmente. O olhar duro foi trocado por um olhar duplamente mais triste do que já estava de manhã, e logo ele olhava para a panela de novo.
O silêncio se fez presente. Matsumoto não sabia se a conversa havia mesmo acabado por ali e permaneceu em pé, até que resolveu perguntar. Afinal, mesmo que fosse embora, tinha um carinho especial pelas pessoas que o cercaram por tanto tempo.
– Aconteceu alguma coisa, Yukkun?
A resposta demorou tanto que o loiro pensou que não fosse obtê-la. Mas ela veio.
Yutaka desligou o forno e recostou-se ao balcão, olhando para Takanori. Não faria mal conversar sobre.
– É o Uruha...
– Você gosta dele também, não é? – Takanori não sabia muito, mas todas as informações que tinha eram suficientes para deduzir o óbvio.
– Não tenho tanta certeza. Desde que nós... Hm... Bem, o que importa é que ele está me evitando.
– Vocês..?
– É sim, é sim. Mas hoje de manhã ele mal me falou bom dia e... Eu acho que fiz algo errado... – Era notável que o baterista segurava algumas lágrimas por puro orgulho.
– Sabe... Eu acho que não foi nada que você fez. É só um palpite, mas espera um tempinho e tudo vai se resolver. Fique calmo. – O maior apenas acenou com a cabeça.
De fato, tudo se resolveria, mas não sem um pequeno-grande empurrão de sua parte.
Sorriu levemente e abandonou a cozinha direcionando-se para a varanda onde sabia que iria encontrar Yuu.
Como já esperava, ele estava fumando, distraído. Resolveu ser direto.
– Aoi, precisamos conversar.
– Você vai sair da banda, não é mesmo? – O guitarrista soltou uma baforada de fumaça e nem se dera ao trabalho de mover-se. Apenas ouvia os ruídos ininteligíveis que Takanori produzia com os lábios, imaginando a face perplexa.
– Como você sabe...?
– A conversa de ontem, oras. Eu sou lento, não sou burro. – Completou, voltando a tragar o tabaco.
– É, eu nunca subestimei seu poder de dedução. Sempre quieto e observando tudo...
– A vida é um jogo de xadrez. – Completou com a metáfora aparentemente sem sentido. E foi então que Takanori resolveu que era hora do cheque-mate.
– Sabe, já que você está indo para a sala de música, poderia pedir pro Kou avisar isso para o Reita?
– Eu não estou indo para a sala de música.
– Eu acho que está sim... Porque tem um certo loiro mexendo nas suas coisas sem permissão prévia.
– O QUÊ? – Shiroyama virou-se, os olhos de repente cheios de vida e audácia. Realmente odiava que pegassem suas coisas, mas nesse caso era ainda pior. Era Kouyou. E não sabia o motivo, mas a repentina vontade de gritar com o loiro pervertido o tomou e ele adentrou a casa como um trovão, deixando para trás um Ruki sorrindo maldosamente.
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Uruha continuava dedilhando aleatoriamente a guitarra que não lhe pertencia, mesmo sabendo em que isso poderia acarretar. Tudo aquilo que sentia o parecia simplesmente incontrolável e errado. Mas não chegava a ser de todo ruim.
Sua mente vagueava, mas os devaneios foram interrompidos pelos passos frenéticos que se aproximavam após um estrondo que reconhecera como alguém fechando a porta do cômodo com força.
– O QUÊ VOCÊ ESTÁ FAZENDO, TAKASHIMA KOUYOU?
– Yuu... – Foi tudo o que conseguiu falar, com um tom demasiado baixo. Tornou a face para cima para observar o moreno, percorrendo todo o seu corpo esguio com os olhos confusos. Ele estava esbravejando, gritando e dizendo coisas que não tinham importância. Não notou o teor da bronca, só conseguia acompanhar o movimento que os lábios grossos faziam para formar as palavras incógnitas. Não importava, nada importava.
Não conteve-se. Jogou a guitarra que segurava em qualquer canto, vendo o rosto de Aoi contorcer-se ao ver o amado instrumento chocar-se contra o chão. Mas não importava. Assim ele se calou e distraiu por um momento, momento suficiente para que Takashima se aproximasse e tomasse seus lábios, inicialmente num beijo calmo e não correspondido.
Fechou seus olhos e agarrou o moreno sem força para tal movimento, passando a língua sobre o piercing apelativo na boca do maior. E ele continuava estático.
Enlaçou-o com a perna direita, trazendo para mais perto de si e apoiando parte de seu peso em Aoi. Somente então o mesmo deu algum sinal de vida, inclinando a cabeça para o lado e dando a permissão que Kouyou o pedia mentalmente. O ósculo aprofundou-se aos poucos, e dentro de alguns segundos, Shiroyama correspondeu à altura, segurando a coxa de Uruha que rodeava seu corpo e levando-o à parede mais próxima, prensando-o ao lado da entrada do local. O único ato mecânico de Takashima foi trancar a porta com a chave que permanecia na fechadura e colocar a outra perna mais para cima, movimento aprovado pelo moreno, que logo segurou ambas as coxas graúdas de Uruha e passou-as em volta da própria cintura.
Aoi pensava em dizer algo. Pensava em dizer muitas coisas, mas não havia mais espaço para palavras nem razão em sua mente que o fizesse esquecer que estava com as mãos nas coxas que tanto pensara ultimamente, que tinha na boca os lábios infantis com os quais tanto sonhara.
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
– Yukkun, você pode pegar aqui pra mim? Tá aaaalto... – Falou Takanori em tom manhoso, chamando a atenção do moreno que estava próximo. Este não conseguiu deixar de sorrir: o vocalista sempre teria problemas com a altura. Reila também era pequena, não poderiam haver prateleiras altas no apartamento deles. Riu-se do pensamento e chegou perto do mais baixo.
– O que você quer, chibi? – Sorriu, amável como sempre. Aparentemente o desabafo o havia deixado melhor.
– Aqueles CDs ali em cima...
– Todos eles? – Apontou-os com um gesto abrangente. Deviam ser uns quinze.
– Sim, por favor. Estou procurando algo...
– Certo, certo. – Pegou as coisas que Ruki lhe pedira e jogou no sofá, observando capas variadas. Ao ver o mais novo sentar, sentou-se junto. Tinha que esperar o frango assar: não faria mal se ocupar até lá, de qualquer forma.
Assistiu Takanori arrumar os CDs em duas pilhas, pegando uma para si e colocando a outra de lado. Mas havia um elemento que não se encaixava ali... Era uma fita cassete. Algo tão velho fazia o que ali...?
– Deve ser da câmera. – Disse Kai ao ver o olhar indagador de Ruki para o objeto. – Sabe aquela câmera antiga?
– Ah sim... Deve ser um daqueles vídeos medonhos de quando você ainda não estava com a gente...
– Hm, o Yune era engraçado... Vocês todos eram. Eu tinha medo do Yuu quando ele era loiro. – Sorriu.
– É sim... Ele parecia estar sempre com a mesma camisa.
– E o Kou com aquela saia também... – Ambos explodiram de gargalhadas.
Uns segundos se passaram até que as respirações de acalmassem.
– Coloca a fita aí pra gente poder ver então, Kai-chi... – Um sorriso sincero lhe tomou o rosto. Eram vídeos engraçados os de antigamente.
O moreno levantou-se e fez o que lhe foi pedido, ligando o televisor e colocando no canal certo, levando o controle do antigo vídeo cassete consigo. Ao sentar-se, apertou o “play”, os olhinhos já brilhando em expectativa. Esperava ver o logotipo da gravadora anterior dos garotos, entretanto, o que viu foi uma filmagem mal feita de uma parte daquela mesma casa. Logo a câmera se moveu e focalizou uma cena que o chocou, e que conseguiu lembrar-se bem ao ver.
Ele próprio estava na tela, cantando e dançando animadamente... Com uma vassoura.
As risadas que irromperam ambos os lábios desta vez foram fortes demais para ser contidas. A cena era hilária, as lágrimas saiam dos cantos dos olhos do baterista aos montes. Simplesmente chorava de rir. Era muito engraçado! As coisas que fazemos quando limpamos a casa, pensou, deveriam sempre ser filmadas e mandadas para programas de TV. Daria a maior audiência.
Por uma eventualidade, ele mal sabia, mas foi aquele vídeo que causara tanta intriga entre Aoi e Uruha. E se os guitarristas soubessem que essa seria a reação de Yutaka, nada daquilo teria acontecido. Não haveria briga e discórdia entre os dois, e provavelmente eles não estariam na posição que se encontravam naquele momento, mesmo que ninguém soubesse o que se passava na sala de música.
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Parte das roupas já não estava mais nos corpos quentes e suados. Cada novo pedaço de pele que era descoberto parecia fantástico para cada um dos dois. Entretanto, havia em ambos tanto desejo que as carícias eram bruscas, deixavam marcas, faziam-nos gemer um pelo outro atrás de mais. Por que eles eram meninos maus e estavam se punindo mutuamente.
Agora quem estava prensado contra a parede era Yuu, de costas para o loiro que puxava várias madeixas de seus cabelos negros, sem se importar se o machucava.
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Acabaram de ver o vídeo, rebobinaram e assistiram de novo. Quando o ar lhes faltou, tiraram a fita do vídeo e demoraram bons cinco minutos para preencher os pulmões outra vez. Mas rapidamente a atmosfera alegre se foi: Kai voltou à cozinha e Ruki pegou os CDs que havia separado, encaminhando-se para seu quarto. Lá, em cima da cama de Akira, uma caixa o esperava aberta, com algumas coisas dentro.
Colocou os objetos que carregava lá e abriu a gaveta da mesa de cabeceira de sua cama: era lá que guardava a maioria das “tralhas” dele. Aos poucos foi colocando tudo na caixa. Fotos, papéis, fragmentos de possíveis músicas, objetos pequenos... E achou no meio um envelope do qual não se lembrava.
Fitou-o por uns instantes. Abriu, já prevendo que não era algo bom. Talvez se sentisse assim porque sabia que cada objeto que retirava do quarto era uma dor enorme.
E as lágrimas saíram de seus olhos sem que permitisse quando encontrou um ingresso esquecido pelo tempo. E nem fazia tanto tempo que estava ali.
-
– Sabe, Ru-chan... Dia 24 de abril vai haver um show dos Sex Pistols aqui no Japão.
– Sério?! – Todos sabiam como o loiro maior os admirava. – Você certamente irá... Não é?
– Bem... – Ele levantou-se e foi até a cômoda, abrindo a última de suas gavetas, e tirando do fundo dela um envelope. Após fechar a gaveta novamente, tornou a sentar na cama e continuou. – Eu tenho aqui comigo dois ingressos. – Dizendo isso, tirou um deles e colocou sobre a cama, deixando o outro dentro do envelope. – Gostaria de ir comigo?
– Mas... Que honra! É claro que gostaria... Adoraria! – O maior então lhe entregou o envelope que continha o segundo convite.
-
Agora nem tentava mais conter as lágrimas, mas deixou os ingressos em cima da cômoda: não mais os levaria. Akira teria que arrumar outra pessoa para ir consigo. Cada vez mais, seu choro ficava copioso. Doía muito deixar tudo para trás.
E foi em meio as lágrimas que lembrou-se que ainda teria que ligar para Reila para dizer que iria. Como diria isso a ela? Nem ao menos conseguia parar de soluçar agora... Provavelmente desabaria em lágrimas ao telefone.
Fale com o autor