Reila
22 Mais mudança...
:: CAPÍTULO 22 — Mais mudança... ::
O almoço já estava pronto e Kai terminava de colocar os copos sobre a mesa. Não fizera um almoço tão caprichado quanto queria em função de seu humor, mas esforçou-se o suficiente para fazer algo que Kouyou apreciaria. Realmente parecia haver algo errado com o loiro.
Uma vez que estava tudo pronto, resolveu chamá-los para comer. Vira Yuu pela última vez na varanda, mas agora não estava lá. Devia estar no quarto com Reita, encarando o teto. Pelo menos Shiroyama ainda saia do quarto às vezes... Fazia um tempo que não via Akira.
Por ser o local mais próximo, o próximo cômodo por onde passou foi a sala de música. Tentou abrir a porta, mas estava trancada. Ia bater nela quando subitamente ouviu um baque forte contra a mesma, o som intenso o bastante para acreditar que fosse uma cabeça. Já estava ficando preocupado quando ouviu algo que o petrificou.
“Kouyou! Ah...” – Era a voz de Aoi saindo em gemidos suplicantes. E estava exatamente encostado na porta agora. O que batera ali fora, de fato, sua cabeça.
Os gemidos de ambos podiam ser ouvidos. Eram contidos, provavelmente em função de não causar alarde. Mas agora Yutaka sabia o que havia de errado. Colocou a mão sobre os lábios para evitar um soluço, e logo seus dedos foram molhados pelas lágrimas que saiam silenciosas, mas aos montes. Seu único ímpeto foi o de correr para o quarto de Uruha, bater a porta e deitar-se na cama do guitarrista, para finalmente chorar o quando pudesse.
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Akira abriu a porta com cuidado e saiu do quarto. Já devia ser mais de meio dia e ele estava ficando com fome. Geralmente alguém ia chamá-lo para o almoço... Estava começando a ficar acomodado com a ideia de passar o resto das férias na cama. Era melhor. Mas mesmo enquanto estava lá, era capaz de ouvir cada barulho da casa. E sempre que via alguém sabia o que estava acontecendo.
E agora que saiu, ele via coisas muito estranhas. A mesa estava posta e Kai não estava lá. Estaria com Uruha, provavelmente... Mas a sala de música estava trancada e nem ele nem Aoi estavam na cozinha. Yutaka não arrumaria a mesa e a abandonaria.
O cheiro de frango assado tomava o ar. Notou que Ruki estava sozinho no quarto e logo desviou sua mente disso. Não demorou para entender o que se passava e resolveu esperar mais uns quinze minutos antes de voltar a sair do quarto.
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Os dois corpos agora estavam estirados no chão, ofegantes e satisfeitos. Nem se passou pela cabeça do mais alto que aquilo fora errado depois que beijou Yuu pela primeira vez. Era tudo tão bom que não tinha como ser errado.
O moreno aproximou-se mais de Uruha e jogou-lhe todas as roupas que conseguiu alcançar, então se levantou, não obstante ao aparente cansaço, e começou a vestir a si próprio. O mais novo ficou apenas observando a bela visão.
Ao terminar, destrancou a porta, apesar de o outro ainda estar nu no chão, e a abriu.
– Eu vim te dar um recado. Takanori pediu pra você avisar Suzuki sobre a saída dele da banda. – Terminando de dizer isso, sem emoção, abandonou o recinto, fechando a porta de novo. Isso era algum tipo de brincadeira...?
Demorou uns bons segundos até criar coragem de colocar a roupa, mas finalmente o fez. Saiu da sala e trancou a porta, levando a chave consigo, enquanto anotava mentalmente que teria que arrumar a sala antes de deixar qualquer um entrar.
Antes de fazer o que lhe fora pedido, entretanto, foi ao banheiro lavar as mãos. No meio do processo, fitou o rosto avermelhado no espelho. Estava bobamente feliz. Provavelmente Shiroyama só saíra de lá para que eles não fossem pegos juntos. Devia ser só uma cisma sua... Além disso, sabia que o maior correspondia o que ele sentia. Talvez não fosse amor, mas pelo menos uma grande atração. Ele havia gostado daquilo, seu olhar deleitoso não negava. Sorriu internamente.
Passou a mão molhada no rosto e secou apenas as mãos antes de sair do toalete. O quarto de Akira era logo ao lado, então não se demorou no caminho.
Entrou sem bater e encontrou o baixista deitado, olhando o teto.
Como diria aquilo pra ele?
Foram eles que fizeram a banda, e logo depois veio Takanori. Acabaria assim?
Lembrou-se de como as coisas aconteceram. Ele e Reita estudavam juntos no colegial, porém Takanori era de outra escola, e Kouyou ainda não o conhecia. E a ideia surgiu bem espontânea quando Suzuki trocou a guitarra pelo baixo. O comentário de “eu tenho um amigo que toca bateria” fez a curiosidade do mais alto ser atiçada, e assim conheceu Ruki. Simpatizaram desde que se viram naquele dia e ficaram próximos rapidamente. Um dos principais elementos que os fizeram se aproximar foi a desaprovação dos pais dos dois quanto a ter filhos musicistas. Reita não dividia isso com eles. Fazia tantos anos... Era muito nostálgico lembrar.
– Akira, precisamos conversar. – Foi tudo o que conseguiu dizer.
Ao contrário do que pensou, o loiro apenas sentou-se e passou a fitá-lo ao invés de olhar feio e esbravejar. Era um olhar neutro. Prosseguiu:
– O Takanori... – A menção do nome do menor fez o olhar neutro transformar-se em outra coisa que Kouyou não teve tempo de distinguir, continuou a passar a informação. – Ele decidiu que vai deixar a banda e vai morar com Yamaguro-san.
– O QUÊ? O QUE AQUELE PROJETO DE GENTE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? ELE NÃO PODE...
– Pode sim. – Interrompeu o mais alto, com a sensação de que não deveria. Reita estava agora em pé, pois pulou da cama num ato instintivo, e cerrava os punhos com força. Respirando fundo, Takashima continuou. – Ele pode fazer o que quiser porque a vida é dele.
– A vida é dele, mas ele é um egoísta que não pensa nos outros.
– ... – O silêncio recaiu por uns instantes. – Eu também vou sentir falta dele, Reita.
– EU NÃO VOU SENTIR FALTA DAQUELE VIADO! – Gritou novamente. Ia continuar com algum discurso sem sentido quando teve seu rosto virado para o lado em consequência de um tapa que levara na face. Seu agressor o olhava sério agora.
– Por que você não assume logo que gosta “daquele viado”? – Falava firmemente.
– Há, olha quem fala!
– ...? – Kouyou o olhou, indagador, quando ele falou tais palavras em tom zombeteiro.
– Então me diz, Takashima... Quem é mais gostoso de foder... O Uke ou o Shiroyama? – Ostentava um olhar vencedor.
– Isso não é da sua conta. Você deveria fazer alguma coisa, Akira!
– E eu farei.
– Huh? Sério mesmo? – Esquadrinhou-o. Surpreendeu-se com a resposta aparentemente calma.
– É sim, é por isso que eu estou indo de volta para a casa de meus pais.
– Seus... Pais? – Agora estava boquiaberto, não conseguia esboçar sequer outra reação mais criativa.
– É, sim. Liguei para eles há alguns dias, mas eles estão viajando. Vou para lá assim que voltarem. Agora que minha irmã se casou, a casa anda vazia mesmo.
– Isso é... Realmente o fim do GazettE? Realmente o fim do que levamos tantos anos pra construir?
– Encare como quiser. – Sem mais delongas, o baixista saiu do quarto e foi direto para a varanda, deixando um Kouyou perplexo para trás.
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Os olhos inchados de Yutaka denunciavam que ele estava chorando, mas ele ainda assim saiu do quarto. Viu a porta do banheiro ser trancada quando passava e foi sorrateiramente até o quarto do vocalista. Ou ex-vocalista, como corrigiu-se mentalmente. As lágrimas já queriam encher seus olhos negros novamente.
Encaminhou-se o mais rápido possível para o quarto de Takanori e bateu na porta, mas ninguém respondeu. Como ela estava aberta, resolveu entrar mesmo assim, fechando-a atrás de si. Mas não havia ninguém no quarto. Provavelmente quem entrou no banheiro foi o dono do dormitório. Resolveu que iria esperar, precisava conversar com alguém. Ruki iria embora, mas eles não deixariam de ser amigos jamais; ou pelo menos o baterista esperava que não. Além do mais, não havia mais ninguém na casa com quem pudesse falar. Uruha e Aoi o fizeram... Aquilo, e Akira mais parecia uma estátua que poderia se mexer pra te socar a qualquer instante nos dias decorrentes.
Deitou-se na cama que estava vazia e começou a fitar aleatoriamente a parede quando viu algo diferente.
Letras que formavam palavras e frases que tinham uma musicalidade implícita entre os versos. Reila.
Como um profissional, não pôde deixar de pensar que aquilo daria uma boa música. Mas logo seus olhos começaram a arder de novo. Não haveria mais músicas... The GazettE acabou depois daquela tarde.
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