Reila
23 Adeus
:: CAPÍTULO 23 – Adeus ::
Às seis da manhã do dia seguinte, a casa estava mergulhada em silêncio profundo. Num sábado comum, não haveria ninguém acordado àquela hora, mas aquele era um sábado atípico. Algumas caixas jaziam para fora do quarto onde dormia um Ruki inquieto. Não conseguira ter uma noite tranquila no fim das contas.
O único movimento no resto da casa era o sutil caminhar de Akira, que não queria ser visto ou ouvido. Se Takanori ia embora, que fosse sem vê-lo. Causaria muita dor dizer adeus.
Demorou para admitir a si mesmo, mas sim; ia sentir falta de Takanori. E, além disso, a banda acabaria, não é? Não queria presenciar tal fato. O ex-vocalista partiria na tarde daquele dia e Reita estava indo passar o dia em qualquer outro lugar.
Adentrou cegamente o quarto que outrora lhe pertencia e deu uma última olhada no loiro desajeitadamente deitado na cama. Estava frio, e apesar disso, as cobertas estavam todas espalhadas pelo chão desordenadamente. Os lençóis da cama completamente fora do lugar e Matsumoto estava todo encolhido para afastar a friagem.
Suzuki até pensou em deixar essa passar, mas já deixara o mais novo doente uma vez. Não poderia fazê-lo de novo...
Aproximou-se sorrateiramente, recolhendo um edredom cuja cor não identificou no escuro e depois outro que parecia mais grosso. Juntou ambos com as mãos e esticou-os sobre a cama, assistindo o mais novo se mexer. Congelou por um momento, mas ele apenas se virou para o outro lado e agarrou o cobertor que lhe foi oferecido. O baixista respirou aliviado.
Ajeitou-o melhor na cama e tirou umas madeixas teimosas do rosto bonito de Ruki. Era muito adorável, de fato. Aquela cena lhe parecia tão familiar... Quando se deu por si, já sentia a respiração quente do loiro menor se chocando contra sua bochecha. E notando o que estava fazendo, afastou-se rapidamente, repreendendo-se mentalmente e abandonando a casa de uma vez.
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O titilar dos utensílios culinários ressoava pela casa. Takanori estava deitado em seu quarto admirando o teto agora que já era quase hora do almoço e ele não tinha mais nada pra fazer. A casa estava com um clima pesado demais.
Acordara cedo e decidiu conversar com os colegas todos juntos para se despedir decentemente, entretanto, Reita não estava em casa e nenhum dos outros queria passar mais tempo do que o necessário próximos. Teve que fazer a despedida por etapas, então.
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Trocou-se rapidamente pela manhã e arrumou a cama, terminou de juntar as caixas que deixara jogadas pelo caminho na noite anterior e saiu do dormitório, logo encontrando Kai na cozinha, como de costume.
Caminhou lentamente até lá e sentou-se numa banqueta, observando cautelosamente cada movimento do baterista. Não queria perder nada, queria que cada momento ficasse gravado em sua memória. Cara trejeito de cada um dos colegas, todos eles.
Entretanto, a observação não durou muito e Yutaka logo notou que havia mais uma pessoa ali.
– Bom dia, Ruki. – Falou, sem muito entusiasmo. – O que vai querer para o café?
– Hm, Yukkun... O que você estiver fazendo aí, não quero dar mais trabalho, por favor.
– Não é trabalho algum... Vamos, diga o que você quer.
– Eu quero... Conversar com você. – Respondeu o menor, manhoso. Levantou-se e foi até perto de onde estava Uke, abraçando-o forte por trás. – Kai... Eu... Vim dizer adeus.
– Não veja como um adeus, chibi... Só como... Até logo. – Os olhos do moreno estavam cheios de pequenas lágrimas quando virou-se de frente para retribuir o abraço do menor.
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Rolou para o lado da cama, as memórias recentes o perturbando. Não pensou que pudesse doer tanto.
Poucos eram os pássaros que cantavam do lado de fora, sentiria falta deles. O barulho das árvores arfando, o cheiro de grama molhada pela manhã permutando-se com o das panquecas suculentas de Kai...
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Yuu estava sentado lendo jornal na sala, mas não parecia realmente lê-lo. Estava fitando o papel que tinha em mãos com os lábios grossos entreabertos, a mente provavelmente bem longe das notícias matinais.
– Yuu... – Falou Takanori, quase num sussurro. Pensou que não fosse ser notado, entretanto o moreno largou o jornal de lado e o deu plena atenção.
– Fala.
– Eu só queria... – Sentou-se ao lado dele, procurando palavras enquanto algo em seu joelho o parecia extremamente interessante.
Para sua surpresa, Aoi o abraçou neste momento, sentiu o rosto esquentar e os olhos arderem levemente.
– Tudo bem, Ruki... Não precisa se despedir... A gente ainda vai se ver muitas vezes, não é? – A voz grossa agora falava em tom baixo e reconfortante que o mais novo nunca ouvira antes vindos do guitarrista.
– Nos veremos sim... – Apertou o abraço com necessidade.
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Agora as aves uniam-se num coro de despedida, os sons calmantes de uma música lenta embalada pelo vento. Tudo parecia mais lívido. Nunca notara tais pássaros, para ser sincero, só quando acordava com algum pardal cantando em sua janela e tinha pensamentos nada legais para com o bichinho.
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– Kou... – Entrou no quarto do maior sem permissão, os olhos já úmidos por conta das últimas despedidas que teve que prestar.
– Nunca ouviu falar em bater na porra da... – Virou-se para ver Matsumoto e notou as lágrimas lhe escorrendo os olhos. Havia acabado de acordar e ainda não havia processado, mas percebeu que o dia havia chegado. – Ah, Ruki... É você... Não faz essa carinha...
Takanori assistiu sem jeito o maior aproximar-se alguns passos e parar bem na sua frente.
– Eu te acordei...? Desculpa, eu...
– Não, eu já estava acordado.
Mais alguns embaraçosos segundos de silêncio se fizeram presentes, o que era incomum se tratando de Uruha. Eis que o maior deles repentinamente agarrou ao outro com força, sendo prontamente retribuído, as lágrimas abandonando facilmente ambos os pares de olhos.
– Eu vou sentir saudades de você, seu pervertido...
Kouyou apenas desceu a mão que mantinha nas costas de Ruki até alcançar suas nádegas bem formadas e apertá-las com vontade.
– Eu também vou, chibi... Vê se continua com essa bunda bem durinha, viu? – Risos simultâneos foram desferidos ao nada em meio às lágrimas.
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Os olhos já começavam a arder só de lembrar desses momentos... Não havia, entretanto, conseguido se despedir de Reita. Apesar de todas as desavenças, eles não se veriam mais por um bom tempo. Gostaria de conseguir dizer pelo menos adeus para o baixista... Em consideração pela amizade que um dia tiveram. Ou era isso o que tentava pensar quando na verdade só queria abraçar o amigo e ouvir dele que ficaria tudo bem.
Para afastar tais pensamentos, levantou-se e voltou a caminhar para a cozinha. No caminho, entretanto, foi parado por Yutaka com um meio sorriso forçado nos lábios. Yuu estava na sala ainda lendo algo enquanto Uruha fumava na porta da casa. O sorriso pouco sincero do baterista fazia completo sentido nesse contexto.
– Ne, Taka... O que você quer pro almoço de hoje?
– Eu... Você é quem sabe, Kai. Faça com algo que tiver aqui, pra ter menos trabalho. Faz pouco tempo que você foi ao mercado, deve ter algo...
– NÃO! Eu vou ao mercado agora e... – Estava levemente corado, e Matsumoto entendeu que ele queria sair de casa a qualquer custo. Ficar entre os dois guitarristas não o estava fazendo bem.
– Tudo bem, Kai. Então eu quero algo bem... Diferente. Mas deixo você me fazer essa surpresa...
– Ok, eu vou indo então! – E saiu como um raio, sem falar mais muita coisa. Uns momentos de silêncio se passaram até que Kouyou se mexesse, jogando a bituca de seu cigarro em um cinzeiro e se pronunciando com a voz grossa:
– Uke certamente não vai trazer bebidas... Tem como comemorar algo sem álcool? Hmph... Vou atrás de algo para beber, também. – Falou o loiro, levantando-se preguiçosamente do chão onde estava sentado e saindo pela porta, da qual já estava perto.
Ruki voltou a fazer seu caminho para o banheiro quando Yuu anunciou que também iria sair. Ninguém estava confortável.
– Vai aonde, Yuu? – Perguntou o menor, por curiosidade.
– Vou numa tabacaria comprar cigarros...
– Há, se não é um fumante compulsivo... Vai acabar morrendo desse jeito.
– Olha quem fala... Vai querer algo em especial de lá? – Sorriu de leve.
– O de sempre, por favor. Traz vários pra eu levar comigo...
– Tá bom. – Ia saindo e Takanori apenas teve tempo de o agradecer antes de ouvir a porta sendo fechada.
E novamente, sozinho. A única coisa que conseguiu imaginar para afastar pensamentos idiotas da mente foi sentar-se em frente a televisão e ligá-la com o controle remoto, passando pelos canais sem que nenhum realmente o atraísse.
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Já haviam se passado quarenta minutos segundo os cálculos de Ruki desde que todos deixaram-no sozinho para fazer suas tarefas inventadas em cima da hora. Estava mergulhado em tédio quando ouviu batidas insistentes na porta. Sem muito ânimo, foi atender. Afinal, por que se sentia tão mal? Estava indo viver com a pessoa que amava, o que estava errado ali?
Abriu a porta esperando encontrar um Kouyou carregado de bebidas, mas o que achou foi a morena pequena que ocupava tanto espaço em sua mente nos últimos dias. E nesse instante ele teve um vislumbre de tudo o que aconteceu desde que a conheceu... E foram poucas coisas. Porque fazia pouco tempo que a conhecia. Doze dias, precisamente. Em nenhum momento se deu conta disso, pareciam amigos de longo prazo.
– Bom dia, Ruki... – Falou Reila, colocando um molho de chaves no bolso enquanto adentrava a casa sem nem ao menos pedir licença, tirando a sandália que calçava apressadamente.
– Oi, Rei... – Aproximou-se da garota para beijar-lhe a face, mas essa nem ao menos notou a atitude do outro e saiu o atropelando, caminhando para a sala onde a TV estava ligada e falando em seu percurso:
– Eu consegui pegar a perua escolar de uma vizinha minha emprestada para levar as suas coisas, mas a gente tem que ir logo... Eu tenho que devolver ainda hoje e o barco que eu arrumei pra levar a gente sai daqui uma hora... Aquelas são as caixas que você vai levar? – Apontou para as caixas que estavam na porta do quarto do menor.
– São sim... – Tudo aconteceu muito rapidamente. Ele nem esperava que ela fosse vir buscá-lo; ela não mencionou nada quando Ruki a ligou. Se bem que não foi uma ligação muito produtiva; ambos pareciam indispostos a falar, e o vocalista evitava ao máximo fazê-lo para que não se emocionasse enquanto Yamaguro ainda o ouvia.
– Certo, vamos levar elas então... – Ela foi em direção a televisão para desligá-la, mas foi impedida pela voz de Matsumoto que se aproximou.
– Reila... Eu não quero ir agora... O Kai está fazendo um almoço, e...
– Eu também fiz um almoço bem especial para nós, está lá na perua... Vamos... – Respondeu novamente apressada, sem dar muita atenção.
– Mas Reila... Eu ainda quero me despedir do Akira. – O tom de sua voz saiu mais triste do que calculou, e olhou para o rosto da morena para ver o efeito que isso teria. Encontrou, porém, algo diferente do que pensou nos olhos negros da garota: a raiva.
– O que você ainda tem para falar com aquele tratante? – O uso da palavra tratante e o brilho malicioso no olhar de Reila o fizeram lembrar-se de uma pessoa. Hana. Inevitavelmente, acuou-se.
– Eu quero me despedir dele... Apenas.
– Ah claro... Apesar de tudo o que ele me fez, você ainda quer se despedir dele... – Por algum motivo, envolver Akira naquela pequena briga fizera com que Ruki revivesse mentalmente sua briga com Hana. Levou as mãos à cabeça, parecendo que tudo estava errado, que tudo ia explodir.
– Para com isso, Reila... – Sibilava.
– EU NÃO PARO NÃO, SEU GAY DE UMA FIGA! AGORA VAI OUVIR TUDO O QUE MERECE POR ME ENGANAR! – Já estava descabelada e havia perdido completamente o controle. E a única certeza do loiro era a de que aquela não era mais Reila.
Foi tirado de seu devaneio por uma almofada jogada contra si num ato violento. Aparou-a com a mão, mas foi pego desprevenido por um objeto de plástico não identificado que atingiu sua cabeça com força. Sentiu-se tonto por um momento, o que foi brecha o suficiente para o próximo item ser jogado contra si: um copo de vidro.
Urrou de dor quando o mesmo se chocou contra sua cabeça, quase que instantaneamente fazendo sua franja se tingir de vermelho e as coisas a sua volta ficarem sutilmente menos nítidas.
Yamaguro já erguia o braço segurando um vaso para jogar no loiro quando duas mãos a seguraram com força, retirando o artefato de suas mãos e desferindo-lhe um tapa forte no rosto.
– REILA! – Reconheceu a voz de Kouyou, e só conseguiu vê-lo arrastando a colega para o lado de fora da casa e batendo a porta com força atrás de si, deixando um loiro desesperado para trás.
Nem mesmo a imensa dor que sentia na testa o fazia parar de chorar, preocupando-se mais com a dor que analgésico algum amenizaria agora. O chão sumia de seus pés aos poucos junto com o ar de seus pulmões, e iniciou uma caminhada lenta até seu quarto. Logo mais os outros chegariam e ele não queria ser visto daquele jeito... Principalmente por Reita. Seria uma grande ferida para seu orgulho admitir que, de certa forma, Reila podia ser hostil a si.
Novamente fora enganado por uma mulher. Quando pensou que mulheres eram todas iguais há dias atrás, não estava errado. Por que ele era tão besta? Entretanto, fora tão repentino... Yamaguro sempre fora assim e ele nunca notou? Impossível.
As lágrimas saiam e ele já nem sabia o motivo: sua burrice, sua vergonha, a dor de ser deixado para trás, a verdade oculta nas palavras das ex-namoradas, o fato de ter destruído o GazettE por uma garota...
Passou a chave na porta do quarto e deixou-se cair no lugar onde havia parado, espalmando os membros contra o chão.
Apesar de tantos outros motivos para chorar naquele momento, só um lhe passava em mente: brigara com Akira. Ele não foi legal nos comentários e tratamentos, mas... Talvez ele só o estivesse tentando avisar que as coisas estavam acontecendo muito rápido, do jeito nada sutil dele. No fim, só queria ajudar... Como não viu isso antes? Se apenas o tivesse ouvido e conversado calmamente, as coisas podiam ter acontecido de forma diferente...
Quando brigara com Hana... Ainda pôde chorar no ombro de Reita e ver aquele seu sorriso radiante que tanto amava. Agora não mais. Passou a chorar mais intensamente, mas sem fazer muito barulho.
Virou a cabeça sutilmente de lado para ver se o interior parava de latejar, uma vez que só piorou desde que deitou no chão... Talvez por causa dos pensamentos que estava tendo.
Em todo caso, resolveu sentar-se e apoiar as costas no guarda-roupas, o que inicialmente lhe deu certa tontura, mas a medida que os segundos passavam, ficou menos desconfortável. E inevitavelmente, olhou para as paredes, outrora tão brancas, agora manchadas por letras profanas.
A palavra “Reila” escrita em tinta preta lhe girava na cabeça enquanto lia os demais versos. Como conseguiu escrever tudo aquilo? Eles nem haviam vivido tudo isso juntos... Mas de algum lugar, aquilo tinha que ter saído. Releu mais calmamente o primeiro verso.
Desde que eu te conheci, quantos machucados eu suportei? E quantos me suportaram?
Desde que conhecera Reila... Os únicos machucados que sofreu... Foram causados por ela própria. E também a desilusão com Hana. A pessoa que o suportou... Foi Reita. E desde que conheceu Akira, suportou tantos machucados, e fora suportado por tantos!
Queria que você contasse só pra mim quando estivesse deprimida, e não pra todo mundo.
E a primeira coisa que o veio em mente quando leu essa frase foi... Suzuki. Quando ele estava tristonho... Ele não sabia o motivo. Ele não sabia de nada. E continuou a reler, linha por linha, todas o levando à apenas uma conclusão.
Mesmo que nada tenha começado...
Mesmo que eu ainda não tenha dito essas palavras a você...
Em algum lugar...
No fundo, todo momento enquanto escrevia, pensava em Reita. Porque no fundo, ele estava lá, em todas as situações. Sempre esteve. E gostaria que sempre estivesse... Não ia deixá-lo. Não queria isso, mas será que o amigo ainda o aceitaria de volta depois de tudo? Reita fora chato, teimoso, cabeça-dura e infantil. Mas ele próprio também foi... Uma amizade de anos derrubada em menos de duas semanas. Deprimente.
Reila... Essas palavras que eu não pude dizer
Reila... Eu canto-as pra você aqui e agora
Reila... Eu te amo mais do que qualquer um
Reila... Eu te amo, eu te amo...
Reila, Reila... Os olhos ardiam. Parecia tão óbvio agora... Ele só estava com dificuldades de aceitar, mas a pessoa a quem ele realmente amava...
Amanhã você certamente voltará pra casa... Certo?
... Não era Reila. Com dificuldade, levantou-se lentamente do chão, outra tontura o acometendo. Praticamente arrastou-se até a cama de Akira, onde com custo subiu.
Lá em cima, o título da música dizia “Reila”... Parecia que ia desmaiar a qualquer instante, o sangue já pingando suavemente até sua camisa... Passou o dedo pela bochecha, manchando-o com o fluido vermelho. Em seguida, transformou o nome da morena no nome do baixista ao colocar um traço horizontal na letra “l”, transformando-a num “t”. Reita. Repetiu o processo em todas as vezes que tal nome se fazia presente, concentrando-se em segurar o último fio de consciência que o separava do torpor.
Entretanto, não conseguiu acabar a tarefa. As mãos não respondiam aos estímulos enviados e agora o único elo entre ele e a consciência eram as fortes batidas que alguém desferia contra a porta. E o horrível cheiro de sangue que tanto odiava, aquele odor férreo que o tirava a consciência segundo após segundo...
Lentamente foi fechando os olhos quando finalmente Kouyou adentrou o quarto, iluminando-o drasticamente, fazendo Ruki colocar a mão sobre a face por impulso.
– TAKANORI! – O guitarrista aproximou-se rapidamente, colocando a cabeça no peito do menor, passando as mãos por todos os cantos que alcançava, em desespero por vê-lo todo sujo de sangue.
– Kou... – Respondeu ao chamado em um fio de voz. – Eu tô vivo, seu dramático... Pára com isso... – E sorriu de leve diante da preocupação demasiada do loiro.
– Ai Taka... Desculpa... A Rei, não fica com raiva dela... Ela não faz por querer... Eu sei que ela fez coisas que não deveria, eu cheguei a ouvir umas coisinhas, e bem... Eu a conheço desde muito pequena. Nossos pais, ela diz que eles eram “sócios”. Eu digo que a empresa do senhor Yamaguro estava falindo e ele precisava dos fundos que meu pai oferecia, então... Eu e Reila iríamos nos casar. Era natural que passássemos muito tempo juntos, éramos amigos e nem sabíamos dos planos matrimoniais. Mas desde aquela época, a Rei tem um pequeno probleminha de personalidades múltiplas... E algumas delas tendem a ser muito agressivas. Eu pensei, entretanto, que depois de anos de tratamento, isso não fosse mais acontecer... E eu queria ver você e ela felizes, então... Me desculpa.
O mais novo demorou pra processar a informação... Mas agora o fato de deixar Yamaguro morando sozinha realmente parecia preocupante, e lentamente as coisas foram se encaixando. A raiva que adquirira pela garota foi se dissipando, dando lugar à compreensão. Agira por impulso, no fim. Reila não era má pessoa... Só precisava de alguém. Mas no fim, ele sempre agia por impulsos.
– Quer dizer que... Você queria que eu cuidasse da psicótica? – O sorriso fraco se intensificou lentamente.
– Quase isso... – Admitiu. – Mas não. Você estava tão triste desde a Hana... E quando te apresentei pra Rei-chan, bem... Mas no fim eu sabia que não ia dar certo... Porque você ama o Akira. Só tem dificuldades pra admitir, né?
O silêncio pairou no ar... Ruki ainda não havia se acostumado o suficiente com a ideia. Porque Akira era seu amigo, era homem, e provavelmente não o corresponderia... Ou será que...?
– Bem. – Continuou o mais alto. – Acho que não sou bem-vindo... E agora que deu tuuudo errado... Eu acho que vou pro meu quarto tentar forjar mais um plano genial pra todos acabarem bem, não é mesmo? Talvez viados enrustidos precisem de um empurrão maior que uma psicótica... Vou providenciar isso.
Ambos trocaram sorrisos e Uruha fechou a porta, deixando o vocalista para trás para que pudesse organizar os próprios pensamentos. Então a mente de Kouyou era, de fato, maquiavélica como todos supunham? Seus pensamentos foram cortados, pois todo o esforço que fez para manter aquela conversa foi demais, e ele desmaiou.
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