Reila
5 Fuga
:: Capítulo 05 — Fuga ::
Uruha ainda mantinha o sorriso nos lábios. Sua mente perversa imaginava o que iria acontecer: qual seria a reação das pessoas? Mais importante que isso: qual seria a reação de Yutaka?
O líder da banda, apesar de tudo, ficava meio tímido na frente das pessoas. Mesmo nos shows, ele sempre ficava todo encolhido atrás dos enormes tambores da bateria, mas na maioria das vezes, encontrava-se escondido atrás de sorrisos meigos.
Kouyou não queria judiar dele, longe disso. Só queria saber como reagiria. Gostava de estudar as pessoas, era seu modo favorito de entretenimento. Além disso, fazia descobertas muito úteis com seus “experimentos”.
Caminhou até o centro da sala sem muitas dificuldades, uma vez que todos os convidados estavam aglomerados em volta do bolo agora, se questionando quando alguém pegaria a maldita faca pra eles devorarem aquilo logo.
O loiro começou a gritar e bater palmas, com a finalidade de chamar a atenção de todos os presentes, e conseguiu. Quando ganhou a atenção que queria, o guitarrista começou a dizer num tom mais sereno:
– Pessoal... Estamos com alguns... Erm... “Problemas técnicos”, mas Aoi irá garantir-lhes o devido entretenimento enquanto o staff resolve tudo. Espero que apreciem. – E terminando isso sorriu, recebendo algumas palmas de amigas malucas. Miyavi também aplaudia freneticamente.
Após isso, nem ao menos esperou Yuu chegar, o que causou um burburinho incansável pelo cômodo. Caminhou calmamente até a porta do quarto de Ruki, e nem bateu: apenas adentrou o aposento. Ao entrar, viu que o pequeno dono do quarto assumira novamente uma posição fetal, e Kai estava ao seu lado.
– Bem, agora eu entendi... Mas não fique assim. Rei-chan deve ter acordado com o pé esquerdo, apenas. – Dizia Yutaka, ao acabar de ouvir os fatos.
– Mais cedo ele parecia muito bem. Não é de seu feitio ser rude assim. Não sei como ele pôde mudar assim tão rápido, e sem motivo aparente.
Até então, o vocalista não havia notado a presença do guitarrista loiro, não até ele interromper a conversa dos outros dois.
– Sem motivo aparente? Tem certeza, Takanori?
Matsumoto pôs-se a pensar. Sua inocência não permitiu que chegasse a qualquer conclusão plausível: ele e Reita eram ótimos amigos, e o maior provavelmente tinha algum problema. Aliás, decerto, havia algo errado com ele, mas não o contou. Isso era triste... Ele sempre estivera ao lado do baixista, e sempre gostava de lhe ajudar, não importava o preço. Uruha falava de uma maneira como se o problema de Akira fosse óbvio, o que o fez concluir que era o único que não sabia o que se passava na mente do melhor amigo, e isso o chateou profundamente.
– Tenho, Kou-chan. Rei estava muito bem mais cedo, e nem houve tempo para nada acontecer.
– Pense bem. O que aconteceu entre a hora que ele estava “bem” e agora?
Kai logo captou a mensagem. O menor não estava compreendendo muito, apesar disso.
– Bem, a festa, apenas... – Kouyou pensou que ele finalmente estivesse compreendendo, mas então continuou. – Talvez ele tenha brigado com alguém na festa! A Aka-chan está aí, não é? Eu a vi!
– Não acho que a Aka-chan tenha nada a ver com isso. Ela adora o irritar, mas nunca chegaria a este ponto. Você sabe, ele só enche a cara deste jeito quando algo realmente ruim acontece.
– Neste caso... – Concluiu o loirinho, atraindo a atenção para si. – O Rei está doido. Completamente doido, e eu não quero nem saber o que houve. Afinal, se ele fosse meu amigo e confiasse em mim, teria contado.
Uke apenas olhou com uma cara de decepção para o pobre inocente, e já ia dizer algo quando Takashima se aproximou do mesmo e colocou a mão discretamente sobre uma das pernas do baterista, ameaçando beliscá-lo. Desta forma, Yutaka notou que a melhor coisa era ficar quietinho, mas não por causa da ameaça, e sim pelo choque do momento em que Uruha passou a mão por sua coxa. Ficou simplesmente paralisado. Isso lá é lugar pra se por a mão?
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Quando Aoi finalmente achou tudo que precisava e arrumou tudo que Kouyou pedira, saiu do quarto munido da câmera e de uma faca consideravelmente grande que encontrara numa caixa logo ao lado da cama de Uruha. Ocorreu-lhe, novamente, que não era seguro deixar aquelas caixas com objetos perigosos exatamente no quarto de quem estava, e por céus: por que ele deixava justamente ao lado da cama? Aquilo já passava de perigoso para ameaçador.
Finalmente chegou ao centro da sala, onde dezenas de olhos curiosos o observavam atentamente. Em geral as observadoras eram mulheres, que já estavam pensando que tipo de entretenimento Yuu ofereceria. Suas mentes perversas já viajavam longe no umbigo do guitarrista moreno quando de seus fartos lábios saíram palavras:
– Gostaria que voltassem sua atenção ao televisor... – Dizendo isso, atraiu alguns olhares masculinos também, satisfeitos por não terem que assistir Shiroyama fazendo um strip-tease.
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Reita se perguntava por que fazia isso, e já ia desistir da busca quando vira uma mulher de estatura baixa em uma esquina, tentando atravessar a rua. Vestia trajes vermelhos um tanto curtos, e vários homens que passavam na rua de carro buzinavam para ela, que já estava a ponto de um ataque de nervos quando sentiu algo segurar fortemente seu pulso. Olhou para trás, e essa foi a gota d’água.
– O que foi agora? Esqueceu de me dizer mais algo, ou só queria ver minha cara de “meretriz”, seu sem nariz? – Estava realmente brava.
– Na esquina e com essas vestes, realmente lembra uma. Eu e os amigos que buzinam pensamos assim. Agora vamos embora. – Respondeu um frio Akira. Qualquer um que passasse diria que ele estava completamente sóbrio.
– Não vou a lugar algum com você, seja lá quem for.
– Takanori quer falar com você e... – As palavras que seguiram custaram a sair. – Eu sinto muito. Podemos voltar?
– Já disse que não arredo o pé daqui.
– Então vai ter que ser na força... Não queria que fosse assim... – E dizendo isso, o baixista abaixou-se levemente para pegá-la no colo, quando foi surpreendido pela moça. Tudo aconteceu muito rápido: ele só sentiu uma dor latejante em seu rosto, para depois ver uma furiosa Reila. Acabara de levar um tapa certeiro, o que deixara seu rosto de pele alva completamente vermelho, com a marca dos cinco dedos finos de sua agressora.
Aquilo realmente tirou Akira do sério. Ele chegou até a morena e começou a puxá-la pelo pulso, agressivamente. Ela não teve outra escolha senão segui-lo, quase correndo para não cair. Mesmo assim, não parava de gritar; gritos esses que o loiro ignorava completamente.
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Shiroyama conseguira a atenção de todos os presentes outra vez. Cautelosamente ligou o cabo do vídeo à televisão, então esta mostrou uma imagem ainda congelada, imagem esta que seus olhos conheciam bem.
Era Kai, segurando uma vassoura.
Assustou-se no momento; assustou-se de verdade. Como Uruha podia fazer uma coisa dessas com Yutaka? Era cruel... Começou a apertar os botões do controle remoto desordenadamente até que conseguiu, para seu alivio, fazer aquela imagem desaparecer. Sua preocupação e inquietação eram iminentes, o que atraiu os olhares do público desconfiado para si.
– Erm... Parece que eu peguei o vídeo errado... – E já estava pensando na desculpa que arranjaria quando Ruki, Uruha e Kai saiam do quarto. Novamente, os olhares dos convidados se desviaram, desta vez para o vocalista, que gritava animadamente:
– Vamos acabar com aquele bolo! – Nem parecia o mesmo baixinho de momentos atrás. Convencera-se de que não valia a pena ficar daquele jeito por um amigo, que nem mesmo confiava nele. Tirou essa conclusão, é claro, sozinho e erroneamente.
O moreno olhou furiosamente para o mais alto dos três que saia do dormitório. Uke e Matsumoto saíram correndo até a sala para pegar a faca que o mesmo trouxera. Antes que Kouyou pudesse retribuir o olhar afetivo, Takanori arrastou ambos pelo braço até a mesa que dava defronte para a porta de entrada, onde se encontrava o enorme bolo com aparência maravilhosa.
– Quero que vocês três também segurem a faca para cortarmos o bolo. – Dizia Ruki, com o sorriso e intenções de uma criança. No fim das contas, era isso que era: uma grande criançona de um metro e sessenta e dois de altura. Continuou. – Já que somos uma banda de amigos muito, muito unidos, faremos isso juntos.
Os três não puderam impedir um sorriso gostoso de invadir seus rostos. O aniversariante segurou a faca com firmeza. Sobre sua mão, a mão de Uruha, depois a de Kai e a de Aoi. Aquele momento adorável fora então interrompido por um baque estrondoso.
Era Reita, que abrira a porta e trazia Reila, arrastada pelo pulso.
O vocalista ficou pasmado com o que viu. Não, não era o amigo. Ele pôde, enfim, ver Reila novamente... Justamente quando pensava que ela nunca mais iria voltar. Na verdade, nem notou que o único motivo para ela estar de volta era Akira.
O baixista, por sua vez, ficou extremamente irritado. Eles estavam numa cena completamente comovente ali, algo que faziam em grupo... E nem ao menos o esperaram. Isso doía bem lá no fundo, mas já não sentia, pois seu coração estava inundado pelo whisky. Simplesmente entrou em seu quarto, batendo fortemente a porta. O pior de tudo, e que provavelmente o deixaria irritado se tivesse visto, é que ninguém se deu por sua falta pelo resto da noite.
Os outros continuaram a tarefa de cortar o bolo, e o aniversariante olhava sorridente para a morena pequena. Depois de cortar o primeiro pedaço e entregá-lo ao manhoso Kai, ele deixou a tarefa se servir as pessoas para Uruha e Aoi. Correu em direção à sua dama, que sorriu em vê-lo correndo até ela. Takanori não pôde evitar: uma onda de coisas lhe veio em mente, mas conseguia repetir apenas uma palavra:
– Desculpe...
– Tudo bem Taka. – Respondia ela, sorrindo. – Não foi nada... Eu já voltei... Só fiquei um pouco alterada. Não se preocupe...
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Os dois guitarristas sorriam para as pessoas enquanto trabalhavam em grupo para servi-las, mas foi Aoi quem começou a repreendê-lo, baixinho, sem que ninguém notasse.
– Sempre soube que você era baixo, Takashima, mas nunca pensei que fosse capaz de fazer uma coisa dessas com o Yutaka.
– Olha quem está falando... Vai dizer que você não estava babando também?
– Esse não é o caso. – Retrucou Yuu. – Não acredito que pôde me mandar fazer isso... – As pessoas em volta começavam a notar que havia algo errado, pois começaram a fitar os dois curiosamente. Notando isso, o loiro sugeriu:
– É melhor irmos à cozinha...
E foi o moreno quem então anunciou:
– Err, os garfinhos estão acabando, já voltamos! – E ambos saíram com sorrisos falsos até a cozinha. Nem notaram que a mesa estava entupida de garfos descartáveis.
Chegando no ambiente azulejado, Shiroyama logo continuou:
– Isso é ridículo, Uruha! RÍ-DÍ-CÚ-LÔ! – Dizia, dando ênfase a cada sílaba.
– Deixe de ser infantil, Shiroyama. Eu e você sabemos que se há alguém invadindo o espaço de Kai, esse alguém é você.
Aoi não se conteve, e derramou-lhe a mão na cara, causando um estalido alto. A vermelhidão veio logo em seguida, junto com os formigamentos. Em logo após, o mais velho saiu da cozinha e voltou a distribuir as fatias de bolo aos convidados, desta vez sozinho. Kouyou continuava em pé, o olhar opaco em direção ao além.
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– Kai. – Chamava Reila, puxando-o suavemente pela camisa – Você viu Takanori? Estava falando com ele, mas um monte de gente passou e eu me perdi...
– Não... Mas ele deve estar no quarto dele; segunda porta à esquerda.
– Obrigada! – Disse sorrindo e se dirigindo para a dita porta. Lá chegando, viu que a mesma estava apenas encostada. Pensou que mesmo que batesse não seria ouvida: o barulho das pessoas conversando era demasiado alto; então abriu a porta do quarto sem permissão prévia. Ela assustou-se quando viu não Ruki, mas Reita sozinho no quarto, devaneando tão longe que nem notara sua presença. Parecia imensamente triste, com os olhos carregados de algo que ela não sabia definir. Era orgulhoso demais para chorar na frente de si mesmo. Logo, ela fechou a porta cuidadosamente para que não fosse notada, e ao virar-se para continuar sua busca, trombou com Uke novamente.
– Achou o chibi, Rei-chan? – Perguntou à ela, mesmo que a resposta fosse óbvia.
– Não... Só vi Reita ali, sozinho... Parecia triste. Afinal, o que aquele homem tem, hein?
– Ah, minha cara... Apenas ciúmes, eu diria. Mas não ligue... Akira é assim quando se trata de Ruki. São muito próximos.
– Ciúmes? – Repetiu para si.
Então, como mágica, todas as peças pareciam se encaixar na cabeça de Reila: ela acabara de entrar em um covil de loucos. O fim das contas, Takanori tinha outros interesses então, né? O que ela continuava fazendo ali...? Seria mais uma pegadinha do Kouyou? Como fora idiota...
Saiu correndo até avistar uma pessoa de cabelos louros bem mais escuros que o do vocalista e do baixista, e reconheceu Kouyou na cozinha, meio paralisado ainda. Andou até ele.
– Olha Kou... Eu preciso ir embora.
Ele olhou-a vivamente, como se tivesse despertado de um transe.
– Kou, você tá bem? – Perguntou docemente.
– Sim, sim, Rei-chan... Mas não é cedo pra ir?
– Eu realmente preciso... Mas... – Tirou um papel da bolsa e entregou-o. – Fique com meu novo telefone. Me mudei para um lugar meio distante agora, mas se quiser falar comigo, é só ligar.
– Está certo então... Mande um beijo para sua irmã...
– Quando a vir eu passo o recado, apesar de saber que ela vai querer retribuir com um soco em você... Hehe... Até a próxima! – E dizendo isso, virou-se de costas. Ela notou, mas achou melhor não questionar sobre o tapa que Takashima levara. Seu rosto estava com as marcas bem fortes, ainda.
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– REILAAAAAAAAAA! – Gritava o vocalista em sua doce voz, quase desesperado. Depois de quase meia hora de busca, os convidados já estavam indo embora e ele resolveu desistir, indo até a mesa onde Aoi ainda servia bolos e pegando um pedaço.
– Tudo bem com você, Yuu? Parece estranho... – O moreno realmente estava com um olhar meio vazio, mas achou melhor não contar nada à Ruki, que já tinha problemas demais para cuidar.
– Só estou... Cansado... – E antes de voltar o olhar novamente para o bolo, pôde vislumbrar Kai se despedindo de algumas pessoas, com um sorriso encantador, que deixava à mostra suas covinhas.
“Como é que isso está acontecendo?”
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