Reila

20 Decisão


:: CAPÍTULO 20 – Decisão ::


Talvez aquela fosse a noite em que melhor conseguiu dormir nos últimos tempos. Não tinha nada para se preocupar, então apenas deitou e lá ficou.

Como não eram nem nove horas quando ele adormeceu, acordou razoavelmente cedo no outro dia, as nove da manhã. Doze horas de sono o deixaram sutilmente hiperativo.

Arrumou todo o quarto e abriu a janela antes de abandonar o mesmo. Já esperava ver um Kai sorridente na cozinha como de costume, mas ele não estava lá. Em seu lugar, o vazio. Será que todos estariam dormindo? Olhou vagamente no interior da casa e não achou ninguém. Ao olhar pela janela que dava para fora, entretanto, encontrou Aoi fumando no lugar de sempre. Fumando logo de manhã? Isso não era bom. Ele andava fumando muito ultimamente. E geralmente fazia isso quando havia algo errado. De fato, as coisas não estavam certas. Mas o que é certo, e o que é errado?

Para Takanori, a única certeza que tinha era que precisava fazer algo para comer. Mas nunca fora muito afeiçoado com a cozinha, então simplesmente pegou um pouco de granola e colocou numa tigela com leite. Sentou-se e começou a comer lentamente quando viu Yuu adentrando a casa.

– Hm, você já acordou... Tem algo pra você aqui. – Falou sem emoção, colocando um envelope em cima do balcão onde o menor estava. Sem mais palavras e sem esperar ouvir nada do outro, saiu de casa outra vez.

Isso era realmente estranho.

O loiro terminou de tomar seu café, lavou a louça que sujou e deixou a cozinha na perfeita ordem em que encontrou antes. Voltou a sentar-se na baqueta onde há alguns minutos estivera e pegou o envelope em mãos, pensando que podia ser uma carta da família, da gravadora ou uma proposta bancária que ele decerto não queria.

Mas não era nada disso.

Era a última coisa que esperava naquela manhã. Uma carta de Reila. Como chegara ali tão rápido?

Tão logo quanto começou a fitar o envelope, notou que se tratava de uma “entrega especial”. Eram geralmente um pouco mais caras, mas no caso de uma distância assim, não havia outro jeito: ou isso, ou esperar umas boas semanas. Se tivesse pensado nisso antes já teria mandado mais cartas para a garota.

Abriu com cuidado, como se o que tivesse dentro fosse deveras precioso para ser sequer amassado. E para ele, realmente era. Desdobrou o papel interno com cuidado, esperando algo que o confortasse. Mas as palavras ali eram poucas, mais parecia um bilhete. E não era algo confortante. Sua vista rapidamente embaçou.

“Olá. Já consertaram meu telefone, mas eu não tenho o número do seu celular. Me ligue para que eu possa saber qual é, e também preciso saber de algo. Você pensou no que eu disse?”

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Anata no tegami ni wa yome nai ji dake
(Sua carta contém nada além de traços ilegíveis)

Atte sono kuchi kara kikasete hoshii
(Quero te encontrar para ouvir as palavras vindo de você)

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Uruha ainda estava deitado, mas acordara há algum tempo, ao contrário de Yutaka que permanecia aninhado em seus braços, a pele quente tocando a do maior.

Estavam assim desde a noite passada.

“A noite passada...” – Os pensamentos não saiam da cabeça do loiro. Tudo era tão confuso...

-

Uke o atacara sem pudor quando teve oportunidade, despindo-o sem dar tempo para que um Kouyou chocado reagisse. Nem tinha o porquê reagir, não é mesmo?

Dentro de instantes o mais velho aceitou que Kai o queria, e sem mais pensar, entrou no jogo. Arrancou-lhe as roupas, com cuidado pra não parecer rude. Ele parecia do tipo sensível.

A medida que as carícias foram se aprofundando, entretanto, Takashima já nem sabia onde estava, o que fazia. Sua mente vagava por outro lugar... A cena com Yuu. E em sua mente, era ele quem estava ali agora. E ele seria um menino muito malvado com Shiroyama, porque ele merecia.

A partir dessa louca fantasia, deixou a delicadeza de lado e passou a agir de forma mais selvagem, mais apaixonada. E logo estava junto com Aoi, e a sensação era tão maravilhosa que não pode evitar.

– Yuuuuuuu! – Sussurou languidamente em meio à carícias apressadas.

Yutaka estava tão envolto no que faziam que não notou este pequeno detalhe.

-


Como aquilo foi acontecer? Por que Yuu? Aquele maldito... Para sua sorte, o baterista parecia não ter notado a gafe. Mas ele notou, e isso foi suficiente para fazê-lo ficar confuso.

Só não entendia como fez aquilo na última noite. Quando deitou-se ao lado de Kai, era a respiração oscilante de Yuu que ouvia. Foram os lábios grossos do moreno que ele beijou, foi o corpo esguio dele que abraçou. E só agora que tinha consciência de tudo. E queria esquecer que foi capaz de fazer isso com Yutaka. Queria esquecer Aoi... Queria esquecer tudo. Estava tudo tão absurdamente errado!

Mais do que esquecer Aoi... Queria entendê-lo¹.



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Narenai shiro wa nigate toiki sae hibiku
(Não aceitarei o branco, apenas um suspiro ecoa)

Sora no iro sae shiretara sukuwareru noni
(Se eu entender as cores do céu eu serei salvo)

Umaku dekinu kokyuu mo itsuka wasuretai
(Também quero esquecer a respiração oscilante algum dia)

Sou negaeru tsuyo sa mo hikanabi sou de
(Mas, apesar de desejar ter força, eu estou secando)

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Takanori não havia pensado. Pensara na proposta, mas não em sua própria resposta.

A luz incidia fracamente pela janela. O mundo parecia mais fácil há algumas horas. O céu estava limpo, e todo lugar onde a luz tocava parecia aquecido. Mas era tudo uma ilusão. A vida não era assim.

A noite tão longa de doze horas que teve não o deu tempo para pensar, mas em seus sonhos, tudo estava bem. Ele morava com Reila, ainda mantinha a banda de forma satisfatória... E seu maior desejo inconsciente: ainda era amigo de Reita. Os melhores amigos, como sempre deveria ter sido. Mas não podia ser assim, não é?

De certa forma, nada ia bem. Se ele saísse daquela casa... O que ia acontecer? Pior que isso... E se não saísse?

Lembrou-se brevemente do dia que ficara doente. Reila, segundo ele veio a saber depois, quase não saiu de seu lado. As pessoas não costumavam cuidar dele desta forma... Essa era a imagem que ele sempre tivera de uma esposa. Alguém que sempre pudesse cuidar dele, fazer tudo por ele. Será que finalmente encontrara na morena o que procurara em tantas outras? Ou será que mais uma vez só estava iludido?

Queria descobrir isso. Mas para descobrir, precisava estar perto dela. E para estar sempre por perto, precisaria ir para a casa dela. Não havia outra maneira de eles conviverem sob as atuais circunstâncias.

Resolveu pensar nisso um pouco mais tarde. Talvez devesse conversar com Uke, afinal, ele era o líder, e também a pessoa que andava mais certa das ideias ultimamente. Talvez tivesse algum bom conselho. Mas agora faria uma outra coisa que planejara.

Saiu da casa para falar com Shiroyama. O moreno não parecia muito bem desde o dia anterior, e isso o estava preocupando um bocado. Chegou e apoiou-se no muro ao lado do moreno.

Seus olhos estavam inchados e vermelhos, o que assustou ao vocalista. Estivera chorando? Era mais grave do que parecia...

– Tá tudo bem, Yuu? – Falou o menor com carinho.

– Ruki... Tudo... Parece que tudo vai se despedaçar... Ou sou só eu?

Uma pausa constrangedora se fez presente. Agora o loiro tinha seus próprios pensamentos.

– É... E eu serei a ferramenta que vai destruir tudo, Aoi. Sinto muito. – Essa frase só conseguiu fazer o guitarrista sobressaltar-se ainda mais, e Matsumoto adentrou a casa novamente.

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Utsu fuse no asu utaeba toge o tsutau suimin
(A manhã em que eu me afasto quando você canta essa canção, espinhos me acompanham enquanto durmo)

Karada ni karamaserareta Restraint
(Restrição se entrelaça em torno do meu corpo)

Even the mind seems to sleep
(Até a mente parece dormir)

Hoho ni fureta netsu wa totemo natsukashiku yasashii
(A febre que tocou minha face era nostalgicamente doce)

Mourou no hazama de mita kage danshoku no yume
(Quando olho para as sombras do vazio borrado, eu vejo as cores quentes de um sonho)

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Novamente em seu quarto, entediado. Ainda era cedo. Desta vez, entretanto, não pensou muito no que fazer. Pegou a caneta permanente e subiu na cama de Akira.

Akira...

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– Akiiii! Vem cá! – O garotinho moreno gritava para o outro que corria de si.

– Não, não vou não!

– Pra onde estamos indo? – O menor perguntou aos berros ainda seguindo o colega, a respiração já falhando sutilmente a cada passada longa que tentava dar.

– Eu vou... Pra um lugar. – Respondeu-o com simplicidade. Eram crianças, tudo para elas era simples. A inocência das palavras estava sempre com elas. Ainda não os haviam ensinado a serem falsos, hipócritas... A serem como o resto da humanidade. Por que eram crianças. Por hora, bastava-lhes saber o que era o “certo” e o “errado”, mesmo que fosse só ilusão. Mesmo que nunca viessem a saber o que era isso.

– Ue-chaaaaan, assim eu nunca vou conseguir te alcançar... Você está tão distante!

-

Tão distante... Reita estava agora tão distante de si! Tão, tão distante...

-


– Oras, você sabe, Takanori... Eu sempre estou ao seu alcance. – Disse Akira ao menor, momentos antes do grande show.

– Não, você tornou-se um baixista ótimo, Ue. Eu vou precisar aprender muito mais ainda.

– Todos sempre temos o que aprender.

– Eu não consigo te alcançar... – O loiro menor abaixou a face corada. Sentia-se inseguro no primeiro show que a banda faria. Eles dois eram os únicos no camarim, e Yune já os havia apressado algumas vezes.

– Taka, eu estou sempre ao alcance dos seus braços... – Falando isso, abraçou Matsumoto, que surpreendeu-se. – Mesmo com esses braços curtinhos de chibi-chan. – Ambos deram risadas mais descontraídas, e logo o mais novo sentia-se confortável de novo. Só o sorriso do outro o fazia confortar-se.

-

Reita. Desde sempre foram tão próximos que ele era uma peça fundamental em sua vida. Por mais que tentasse se esquecer, o baixista continuava bem diante de seus olhos todo instante. Deixá-lo-ia para trás, mas as memórias ficariam para sempre.

Os movimentos que as mãos faziam eram automáticos, e sem demora notou que havia escrito algo na parede enquanto pensava. Movimentos mecânicos.

Você sempre foi assim. Desde que eu me lembro, você estava indo pra algum lugar.
Mais uma vez me deixou pra trás e correu sozinha.
Não posso mais te alcançar, não posso mais te alcançar...
Mesmo já tendo te encontrado, tudo que eu guardei dentro de mim transbordou:
Tornou-se lágrimas e vazou.



Inicialmente, assustou-se. Mas logo a explicação mais idiota possível preencheu sua mente.

“Gosto tanto da Reila que mesmo quando estou pensando em outras coisas consigo pensar sobre ela”. –Em sua mente conturbada, tudo se distorcia. Reila corria para algum lugar; ela queria seguir com os estudos. Era por isso que ele precisava se mudar para lá e ela não poderia vir para onde ele estava. Por que ela queria chegar a um lugar. E pra isso o deixou para trás. Ele a encontrou uma vez, mas não foi o suficiente. Tudo se encaixava... Mas por que parecia haver algo errado com isso?

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Anata ni utsuru watashi no me ga
(Meus olhos refletem sua imagem)

Anata o miushinau hi ga kite mo
(Mesmo quando o dia em que eu perder você de vista chegar)

Kono me ni yakitsuite kureteiru
(Você estará sempre bem em frente aos meus olhos)

Komorebi no hibi to anata wa
(Em dias em que a luz do sol brilha por entre as copas das árvores)

Tsurete ikanaide
(Eu não estarei mais ao seu lado)

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Não, não havia nada errado. Era sua mente idiota lhe dizendo idiotices. Não havia como ter algo errado pelo que ele sentia por Reila.

“Mas foi tudo mesmo da Reila?” – Lhe questionava sua própria consciência, mas ele ignorava-a veemente. E para provar para si mesmo, as palavras que seguiram foram justamente as do nome dela. E com toda a certeza falava dela naquele exato instante, apesar dos momentos que sua mente mudava de rumo por cogitar ouvir a voizinha fina que dizia o contrário.

Reila... Essas palavras que eu não pude dizer
Reila... Eu canto-as pra você aqui e agora
Reila... Eu te amo mais do que qualquer um
Reila... Eu te amo, eu te amo...


E escreveu isso e afirmou incontáveis vezes para si. Porque era disso que precisava ter certeza. Porque “Reila” era como deveria ser, e ninguém mais. Ele a amava, e não poderia ser diferente disso. Qualquer coisa a mais seria tolice.

Tentava se convencer disso enquanto as lágrimas aparentemente sem propósito lhe escapavam pelos cantos dos olhos. Novamente, sua mente tomou o procedimento mais “racional”. Ele certamente estava chorando de saudades de sua amada. Não poderia ser diferente. Poderia?

Deitou-se na cama do ex-colega de quarto. Agora já escrevera tanto que poderia alcançar o local do próximo parágrafo sentado mesmo. E todo o branco da parede que mantinha em seu campo de visão estava manchado. Tudo parecia girar, tudo parecia tão absurdamente errado. E esqueceu-se de tudo com a dor lancinante que invadiu sua mente, os pensamentos já confusos. Reila, Reita, não havia mais diferença. Tudo explodia num mundaréu de cores, lembranças, sensações, toques, letras, frases desconexas. Um fluxo demasiado grande de informação. As coisas reconfortantes o impedindo de quebrar enquanto a dor de tomar uma decisão sob pressão o assolava. A vontade era de gritar para que parassem, mas a voz saia muda, os músculos não pareciam obedecer.

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Nijimu shiro ga yureru
(O branco borrado estremece)

Kotoba mo wasure sou
(E eu também esqueço suas palavras)

Namida wa nagare te doko e yuku no
(Para onde as lágrimas estão rolando?)

Watashi no namae o yonde
(Você está chamando meu nome)

Kudakeru kurai daite
(Por mais que eu esteja a ponto de quebrar, você está me abraçando)

Kore ijou ushinau no wa kowai
(Tenho medo de ir embora)

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Yutaka deu um sinal de vida em forma de bocejo, tirando Kouyou subitamente de seu devaneio.

– Bom dia, Shima! – Falou com a voz embargada de sono.

– Oi... – Respondeu, sem emoção. Seu coração começou a bater mais rápido. Reconheceu essa atitude involuntária pelo nome de culpa.

– Ah, já amanheceu... Sabe que horas são?

– Já passaram das dez.

– Nossa, eu preciso levantar pra fazer o café de vocês!

Quando o moreno foi levantar-se, entretanto, Uruha o segurou.

– Kai, você não precisa cozinhar sempre para nós. Eles são crescidinhos, se tiverem fome, vão se virar.

– ...

O silêncio tomou o ambiente. Talvez aquilo não fosse a coisa certa a se fazer. Mas qual seria a coisa certa?

A palavra “certa” rapidamente associou-se a “Yuu”. Nunca notou, mas o amigo sempre estava lá. Os momentos felizes, cantando, dançando, ajudando. Os momentos tristes, consolando, conversando. Eram breves e superficiais, sempre foram assim um com o outro. Mas cada uma dessas coisas agora lhe parecia ter uma profundidade muito grande.

Foi tirado outra vez dos pensamentos quando Uke bocejou e se espreguiçou, levantando lentamente.

– Desculpa, Kai. – Não sabia o motivo daquilo, só achava que tinha que pedir desculpas para ele, por qualquer motivo. Mesmo que isso só o fizesse parecer mais suspeito.

– Que isso, Kou! Não há motivos para pedir desculpas... É fato que eu preciso parar de cozinhar para vocês, seus mimados. – E sorriu.

Os olhos queriam encher-se de lágrimas, mas não permitiu que acontecesse. O rosto foi ficando quente, não sabia se de vergonha, raiva de si, raiva da vida. O calor lhe subia e ele era incapaz de raciocinar corretamente naquele momento. Só ouvia ao longe a voz grossa da pessoa em quem não deveria pensar.

Procurou acalmar-se fitando um canto qualquer. Não podia ser visto assim. Mas a realidade o acometeu: a noite acabara e agora ele precisava sair do quarto.

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Anata wa doko de watashi no koto utatteiru no
(Onde você está cantando sua canção pra mim?)

Mimi o sumashite mo hibiku no wa fuantei na kodou
(Mesmo que me esforce pra ouvir, o que ecoa são as batidas oscilantes do meu coração)

Even the mind seems to sleep
(Até a mente parece dormir)

Hoho ni nokotteta hazu no netsu ga omoidasenai
(É a febre remanescente que não me permite lembrar)

Mourou no hazama de mita no ha kanshoku no genjitsu
(Quando olho para as sombras do vazio borrado, eu vejo as cores frias da realidade)

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Ligeiramente melhor, conseguia separar de novo as coisas em sua mente. E foi lentamente colocando-as em seus devidos lugares, como quando o quarto está bagunçado e é preciso arrumar as coisas direito, e não simplesmente jogá-las de qualquer maneira no guarda-roupa. Pois se você fizer isso de novo, quando abrir a porta, tudo cai sobre você.

E eram tantas as coisas que precisavam de ordem em sua mente! Desde as coisas grandes às mínimas graças, todas precisavam de um lugar especial. Todas. Ou poderiam cair e quebrar.

Mas por que todas caíram dali inicialmente? Só pelo desejo de Yamaguro para que ele saísse de sua casa? Era tão difícil assim tomar uma decisão tão simplesmente óbvia?

A mente já vagueava novamente, apesar de estar sendo aos poucos reconstruída a muralha que a cercava. Os momentos com ela lhe vieram em mente. As palavras apaixonadas deixando os lábios levianamente no momento que o contato era necessário. Um contato mais profundo, como um elo mental. Precisava fazê-la sentir-se amada tanto quanto queria sentir-se. E sentia.

Então tá. E se ele se mudasse, como seria?

Imaginou a mão delicada lhe oferecendo ajuda com as malas numa manhã fria, a voz dizendo palavras que o encorajassem a ir. Por que na sua mente, Reila o compreendia, e sabia que era daquelas palavras que ele precisava.

Caneta em punho, não perdeu mais tempo. Eram as únicas coisas que ainda precisavam ser organizadas: as palavras que sobraram soltas em sua mente. Elas não faziam sentido algum ali jogadas, precisavam ser organizadas para esvaziar logo o templo de sanidade que era sua própria mente, o último refúgio.

O quarto em que nós dois estávamos está do mesmo jeito de antes...
Eu não tranquei a porta pra você poder voltar a qualquer hora.
Estarei sempre esperando por você, mesmo sabendo...
Ainda posso ver sua figura abrindo a porta.

Amanhã você certamente voltará pra casa... Certo?

Leu esta parte final. Não tinha mais nada para escrever, agora a mente estava vazia, organizada, clara. Parou então para absorver o significado daquilo tudo.

Outra vez, não teve dúvida quanto ao significado. Desta vez, mais que nunca. Desde que Reila o visitara para cuidar de si, tudo permanecia igual. Queria que ela voltasse para lá. Queria muito isso. Mas seria ele quem teria que voltar para a casa dela.

“Tem certeza de que foi sobre a Reila este parágrafo?” – A voz já esquecida em algum canto do guarda-roupa mental sussurrou.

Se fosse sobre ele... Não voltaria. Ele não voltaria para casa. Eles não deveriam ficar juntos. Aquilo só piorava as coisas. A oportunidade de acabar com isso estava em suas mãos, e foi pensando assim que decidiu que não só queria, como precisava viver com Yamaguro. Curaria sua loucura e viveria normalmente.

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Senba no totemo chiisana Anata no negai ni yorisotte
(Mil garças minúsculas. Por causa do seu desejo elas não me deixam em paz)

Egao mo kaesezu ni tada Toiki o kazoeteita kioku no saigo ni?
(Sem retornar o seu sorriso, apenas na última memória de contar meus suspiros)

Anata no koe ga kikoete Subete o nakushita asa
(Eu ouço sua voz no amanhecer quando tudo será nada)

Hitotsu ni narenu futari
(Nós dois não podemos ficar juntos)

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E foi assim que tomou a decisão talvez mais importante naquele momento de sua vida, e decidiu-se que não voltaria atrás na escolha, por mais difícil que fosse. Ele iria se mudar para a casa de Reila.

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¹
Aoi = azul. “Queria entender as cores do céu”. É, foi meio forçada essa.

Notas finais
N/A: Poxa, vocês não têm ideia de como foi difícil esse capítulo. Porque eu tinha duas situações delicadas em mãos: a do Ruki e a do Uruha. E eu tive que fazer um malabarismo pra deixar a música na ordem certa de forma que se encaixasse nas duas situações. Porque no plano inicial, essa música era “só do Ruki”. Mas a situação do pobre Kou precisava ser explicada também... E eu gosto mais do Kou do que do Ruki nessa história.bgs Aliás, porque todo capítulo com música vocês acham que vai ser Reila? HUSAHSUAHSAUHSAU Outra coisa diferente nesse capítulo. No outro capítulo que eu fiz com musiquinha (a zetsu), tudo que acontecia na letra da música era bem explícito na história. Não nesse caso. Aqui, as partes da música não aparecem claramente no texto. Ao contrário, isso meio que funcionou como a consciência dos personagens. Eles sabiam que era aquilo, em algum lugar dentro deles, eles sentiam aquilo. Mas não admitiam nem para si próprios. Aliás, olha só quem deu as caras? Por um breve instante, o Yune foi citado! Lindo isso, não? xD Meu sonho era fazer ele aparecer em uma fic minha. Sério. Tudo bem que foi um figurante, quem sabe não tem mais em outra ocasião, né?