Reign On Fire

3 Chapter 02: O lado sombrio dos mundos


Notas iniciais
''I'm gonna make it I will survive Keep on survivin'' — 2WEI (SURVIVOR)

BROOKE EVERN

O ruído crepitante ecoando em seus ouvidos do fogo nas tochas espalhadas pelo cômodo, foi o primeiro sinal que ela teve de que estava viva. Ou o mais próximo disso. O segundo, foi mais claro ainda assim que entreabriu as pálpebras e se deparou com a escuridão pincelada pelas faíscas das chamas e um teto desconhecido.

Brooke girou a cabeça para descobrir onde estava, se arrependendo prontamente. A dor lancinante irradiou por seu cérebro e corpo, a fazendo gemer e apertar os olhos enquanto se encolhia no colchão macio contra suas costas ; aumentando ainda mais sua curiosidade.

— Já estava na hora, Bruja Durmiente. Espero que não tenha babado em meus lençóis — A voz grave e carregada de sotaque reverberou pelo lugar desconhecido, fazendo a morena paralisar assim que a escutou.

A Evern se obrigou a reabrir os olhos e assim que o fez, se deparou com algo mais do que apenas a escuridão interrompida pelas chamas: a silhueta masculina imóvel aos pés da cama. Ela não precisou da claridade das tochas para saber quem era e muito menos para adivinhar a expressão cínica que ele continha. Talvez tenha sido por isso que o alerta na cabeça de Brooke disparou e ela agiu instintivamente. Mesmo sentindo toda sua estrutura doer, até mesmo seus ossos, ela moveu-se habilmente e tateou o corpo em busca das adagas que levava sempre consigo. O problema, no entanto, é que León era mais rápido ainda.

Um segundo depois e o vampiro já estava a empurrando contra o colchão, subindo em cima de seus quadris e prendendo seus braços acima da própria cabeça, a imobilizando com uma facilidade vergonhosa. Brooke grunhiu quando sentiu o peso dele a esmagando.

— A maioria das mulheres que trago aqui costumam me agradecer, não tentar me matar — Debochou León, intensificando o aperto nos pulsos dela.

— Eu faria o mesmo, se fosse uma das vadias com quem você está acostumado — Brooke cuspiu, tentando se desvencilhar e fracassando. Frustrada e furiosa, ela rangeu os dentes: — Me solta! Está me machucando!

A proximidade indesejada a fez observar o sorriso de lado que o vampiro espanhol carregava nos lábios enquanto a encarava com desdém. Brooke tentou morde-lo, porém ele se esquivou e escorregou uma das mãos para seu rosto, pressionando os dedos frios contra as maçãs do rosto pálido e fino com força e pelo tempo o suficiente para deixar uma marca.

Lentamente, León abaixou a própria face até a curvatura do pescoço da Evern, subindo até alcançar o ouvido. Ela tencionou o corpo, sentindo cada músculo dele sobre si mesma, ciente principalmente das presas escondidas e próximas de sua jugular. León riu amargamente.

— Sorte a minha você não ser uma das minhas vadias, Bruja. Elas costumam ser mais dóceis do que você jamais poderá ser — Cantarolou León, ao pé do ouvido de Brooke. Ela tentou se debater, o fazendo rir: — Está bien, vamos ao que interessa. Pare de tentar me golpear e talvez eu solte e explique tudo a você.

Instantaneamente, a morena ficou parada. O vampiro arqueou as sobrancelhas, ao mesmo tempo que a Evern estreitava os olhos.

— Irei soltar, mas cuidado com o que você irá fazer. Tem sorte de eu não tê-la deixado se engasgar em seu próprio sangue naquela cozinha — Advertiu León, começando a ceder o aperto. — A propósito, suas laminas estão bem guardadas, então não perca seu tempo tentando me perfurar.

Por mais furiosa que estivesse com a situação e com aquele idiota espanhol, Brooke não pode ignorar a parte em que ele havia a salvado da morte... O que a levou a lembrar dos últimos segundos consciente antes de mergulhar na escuridão e acordar ali. Ela lembrou da sensação do fogo dentro de suas veias que sentiu caída no chão da cozinha da arena e do quão desesperada havia ficado. Ela lembrou de cada segundo e foi tão realista a sensação das garras da morte arranhando sua pele em combustão, que mesmo quando León saiu de cima de seus quadris, a proporcionando uma melhor circulação de oxigênio novamente e libertando seus movimentos, ela permaneceu paralisada. Aterrorizada. Segurando a respiração. Como se qualquer reação — mínima que fosse —, pudesse leva-la de volta para aqueles segundos em que a morte sofrida a arrastou.

Mais uma vez.

— É melhor se acostumar com essa sensação que está preenchendo cada poro de seu corpo. Que está entranhada em seus ossos. É por ela que a maioria das criaturas desse lugar sobe na arena e arrebata aquelas almas; para não senti-la. É matar ou ser morto e não há meio termo, por mais que você tente.

A voz do vampiro soou tão cortante quanto uma de suas laminas, o que levou Brooke a sair da espiral de pensamentos agonizantes e se concentrar na figura dele, estática ao lado da cama. León tinha os braços cruzados sobre o peitoral e os olhos da cor de carmesim fixados nela, tão pétreo e austero que poderia muito bem ser apenas uma ilusão de sua mente perturbada.

No entanto, Brooke sabia que ele era real. Assim como todas suas lembranças.

— Matar ou ser morto — Repetiu ela, a garganta arranhando em cada palavra. Ainda assim, a morena se obrigou a endireitar-se no colchão até ficar sentada, as pernas para fora caso fosse necessário chutar alguma região do vampiro e as mãos fechadas em punhos cerrados caso socar também fosse necessário. A dor explodiu em sua cabeça quando ela confrontou o olhar dele e se deixou permanecer daquele jeito: — Foi por isso que você tentou me matar envenenada, León?

Os cantos da boca do vampiro espanhol se arquearam em um ínfimo sorriso mordaz.

— Pode soar muito decepcionante, mas não. Não fui eu.

— Eu vi você. Eu estava caída e você se aproximou...

— Para salvá-la da sua segunda morte, Bruja — Interrompeu-a León. — Mas não se sinta tão especial; você deu sorte por eu estar passando por lá naquele momento. E mais sorte ainda pela presença da magia negra não ser tão forte aqui no limbo. O antídoto da água envenenada não foi tão difícil de conseguir devido a isso.

Brooke piscou, confusa.

O ceticismo inundou todos seus pensamentos, a fazendo ponderar sobre as palavras que escutou. Ela repassou novamente a cena em sua mente, tentando recordar de cada detalhe e aspecto em relação ao vampiro diante de si.

Recordava do rosto desfocado de León se aproximando e então ele havia a segurado firme. Ele ficou apavorado, ela tinha quase certeza. Talvez surpreso por tê-la encontrado sufocando em seu próprio sangue. E naquele momento, enquanto ele estava paralisado ao seu lado, parecia totalmente franco sobre aquilo. Contudo, era ele. Seu maior inimigo dentro da arena. Alguém que a detestara desde o primeiro segundo e sempre fazia questão de deixar tal fato claro. Além do mais, a Evern não confiaria mais em ninguém: fosse no mundo dos vivos ou até mesmo no mundo dos mortos. Principalmente no mundo sombrio que ficava entre os dois — o limbo das almas.

Brooke engoliu em seco, sentindo os olhos carmesins acompanhando cada movimento seu.

— Se não foi você, então quem tentou me matar? — Perguntou, decidindo levar a conversa adiante e ver até onde o espanhol poderia ir, caso fosse um bom mentiroso.

— Não temos certeza ainda, mas em breve saberemos — León encolheu os ombros. Em seguida, soltou um riso sarcástico. — Talvez demore um pouco, levando em consideração que a lista é longa. — Ele descruzou os braços e apontou o dedo indicador na direção da morena: — Você é a ofensa pessoal de muitas criaturas aqui, Bruja. É surpreendente que não tenham tentado assassina-la antes.

A Evern grunhiu, ofendida. Suas mãos se moveram automaticamente pelo seu corpo, em busca das adagas, mas então ela lembrou que o vampiro havia apreendido todas.

— Não é como se você nunca tivesse tentado — Bradou, sentindo o rosto esquentar enquanto a irritação borbulhava dentro de si. — Aliás, Por que não está tentando me matar agora? Ou enquanto eu estive dormindo?

Brooke esperou pela reação do vampiro, embora não tenha recebido a que esperava.

León apenas a lançou um olhar desprovido de qualquer emoção, tão límpido que se ela olhasse com atenção, poderia ver o reflexo das chamas inundando as íris carmesins, e cortou a distancia que os separavam em menos de um segundo. Quando Brooke percebeu, ele já estava inclinado próximo demais dela, o nariz resvalando de leve em uma de suas bochechas coradas.

Ela viu o exato momento em que Léon passou a língua pelos lábios, os molhando antes de responder.

— Peter me pediu um favor e aqui estou eu o cumprindo, mas você não para de fazer as perguntas erradas, Bruja — Rosnou León, a fazendo se encolher no mesmo instante. Ele se afastou o suficiente para poder encara-la nos olhos, visivelmente frustrado: — De qualquer forma, não é problema meu. Agradeça ao Peter por eu não ter me juntado aos outros e acabado com você. Aproveite, e também peça para ele responder as perguntas que eu sei que logo mais você terá. E não menos importante, faça bom uso do meu quarto e permaneça escondida.

Tão logo se calou, o vampiro se afastou abruptamente, virando as costas para ela.

Sem entender nada do que escutara, Brooke se içou para longe do colchão, na intenção de alcançar León que já cruzava a metade do cômodo. Ela percebeu que havia sido uma péssima ideia quando a vertigem a golpeou e ela caiu como um peso morto de volta para as cobertas.

— Que promessa foi essa? Onde está Peter? Quem são os outros e por que eu tenho que me esconder? — Brooke atirou todas as perguntas que bombardeavam sua mente enquanto observava a figura do vampiro espanhol caminhando tranquila e indiferentemente até a porta. — Volte aqui, León! Eu não estou entendo! León! León! Idiota...

Brooke o observou passar pela porta e bate-la atrás de si, ignorando todas as perguntas que ecoaram pelo quarto até se perderem entre as paredes, sem respostas. Ela não precisou ir até lá para saber que a porta estava trancada e entender que estava presa ali, embora não soubesse o motivo. Assim como também não sabia muitas outras coisas, como as verdadeiras intenções de León, o que Peter estava planejando e o que realmente estava acontecendo na arena.

A única coisa que ela sabia, no entanto, é que ainda tinha sua alma. Por mais quebrada e sombria que estivesse naquele momento, ainda sim era tudo o que havia lhe restado. E não iria perde-la tão facilmente para ninguém.

***

O barulho das chaves na fechadura foi o sinal necessário. A madeira desgastada rangeu quando a porta foi empurrada cautelosamente e a silhueta altiva adentrou o quarto segurando uma bandeja com a mesma tigela de todos os dias. Levou apenas tres segundos para as tochas apagadas e a escuridão recaída no cômodo ser notada. Levou apenas mais dois para a morena posicionada atrás da porta se locomover e atacar.

Brooke desferiu um soco no rosto de León, girando o corpo em um ângulo de cento e oitenta graus e o dando uma rasteira logo em seguida. O vampiro caiu em um baque sonoro, levando a bandeja e a gororoba junto.

Bruja maldita! — Vociferou, a voz retumbando entre a escuridão. — Você precisa parar com isso!

Mas ela não parou. E assim como todas as outras vezes desde que fora trancafiada no dormitório do vampiro espanhol, a Evern tentou escapar.

Sem perder tempo, ela correu ás cegas pelo cômodo, na direção onde sabia que a porta estava, torcendo para dar certo daquela vez. Seus pés deslizaram pelo chão sujo da gororoba derrubada, no entanto, ela se obrigou a manter o ritmo até sentir seus dedos roçarem na maçaneta da porta. Seu coração pulou uma cambalhota dentro do peito, a esperança fervilhando em suas veias... até ser puxada violentamente para trás pelos ombros.

Brooke gemeu de dor quando sentiu suas costas colidirem contra a parede fria. Atônita, ela demorou alguns segundos para perceber o fato de León estar a segurando pelo colarinho, tão perto que mesmo na escuridão profunda, ela foi capaz de vislumbrar o brilho da fúria nos olhos do vampiro. Ela o encarou de frente, expirando lentamente contra o rosto dele.

— Você está passando dos limites, Bruja. — Grunhiu León, intensificando o aperto no colarinho da blusa da morena.

— Acredite, eu ainda não cheguei lá — retrucou Brooke, movendo as próprias mãos para a gola da camisa dele e retribuindo o gesto com toda a força que ainda tinha: — Então é melhor me tirar daqui. Até lá, pode pegar o seu limite e enfiar...

León a interrompeu com um rosnado que retumbou pelas paredes do quarto, a silenciando. Brooke engoliu a ofensa, porém manteve a postura e continuou encarando as íris furiosas, imóvel. O vampiro tão pouco moveu um músculo; seu aperto continuou intenso, o tecido fino da camisa sendo esmagado entre seus dedos frios, o que ocasionou um breve toque na pele descoberta.

A Evern sentiu os arrepios percorrendo seu corpo no mesmo instante em que León a soltou e recuou dois passos, como se tivesse sido eletrocutado. Ela respirou fundo, tentando distinguir a silhueta do vampiro espanhol em meio a escuridão, desejando com mais vontade do que gostaria de admitir, saber o que se passava na cabeça dele naquele exato segundo.

Mesmo que pudesse realizar aquele desejo, no entanto, o momento foi interrompido pelo barulho sonoro da porta sendo empurrada com violência. Uma fração de luz vinda do corredor irradiou para dentro do quarto e o rosto animalesco e compenetrado de Hildegard surgiu na entrada, banhado de sangue.

— Está acontecendo — Foi tudo o que o lobisomem disse, lançando um olhar significativo para León.

Completamente assustada e confusa, Brooke desviou os olhos para o vampiro espanhol, o observando assentir com a cabeça, como se tivesse entendido o recado.

— Foi mais cedo do que esperávamos. Quais são os números?

— Mais da metade em comparação aos nossos. Não será uma batalha justa — Grunhiu Hildegard.

León soltou um palavrão em seu idioma materno.

— Sabíamos que não seria. Peter já foi avisado?

Hildegard concordou com a cabeça.

— Vá para a linha de frente e os atrase o máximo possível. Estarei lá assim que possível — Ordenou León, ao passo que o lobisomem apenas acatou e desapareceu logo em seguida. Não demorou muito e o espanhol se virou para a morena que escutava tudo atentamente, atônita: — Agora, você, Bruja. Tome isto e use-as se precisar.

Brooke o observou se aproximar enquanto retirava algo dos bolsos espalhados pela calça que vestia. Assim que León a estendeu os objetos, ela reconheceu as familiares laminas que havia procurado em seu primeiro dia presa ali.

— Minhas adagas. Estavam com você esse tempo todo? — Perguntou, erguendo os olhos e fixando nos dele. — O que está acontecendo, León?

O vampiro bufou, olhando rapidamente em direção a porta escancarada do quarto. Gritos furiosos misturados com gritos agonizantes ecoaram até eles, provocando um calafrio na Evern.

Hijos de puta!

Foi a vez da morena bufar, impaciente.

— León, o que está acontecendo?

Qué diablos! — Bramiu León, estreitando os cantos dos olhos na direção da coisinha teimosa que ela era. A contra gosto, o espanhol a respondeu: — A insurreição contra o comando de Peter, Brooke Evern. É isso o que está acontecendo.

Foi como se as últimas palavras dele estivessem ecoando sem cessar pelas paredes do cômodo. Compreensão atravessou os olhos da Evern ao mesmo tempo em que uma sirene de alerta disparava dentro de sua cabeça.

— Todo mundo sabe da verdade agora, não é?

Um rugido brutal no corredor foi sua resposta. O rugido de Hildegard. A confirmação daquele pesadelo. Estremecendo, ela voltou a encarar León. Ele parecia mais implacável do que nunca.

— Colecionar almas da arena faz qualquer criatura forte. Mas, coletar a alma da Decente de Drácula... Isso faz qualquer um poderoso. O suficiente para ter o controle deste lugar e talvez mais.

— Ela se foi no momento em que morri, não consigo mais sentir o espírito da Descendente e não tenho mais os poderes dela — Sibilou Brooke, entre os dentes. Raiva e medo destoando em sua voz que começava a beirar a histeria. — Esta é a minha alma, não a dela.

— Eu sei. Eu vejo quem você é, mas as criaturas da arena, não — León empurrou as adagas na direção dela, completamente impaciente: — É por isso que vou levar você até Peter. Ele é o único que poderá te ajudar.

A Evern pestanejou. Ainda assim, aceitou as laminas oferecidas e as guardou dentro das roupas. Quando ficou pronta, lançou um olhar cético para o vampiro, tentando analisa-lo minuciosamente enquanto mil e um pensamentos disparavam em sua mente caótica.

— Por mais que as circunstancias exijam, não consigo parar de me questionar sobre o tipo de idiota que eu serei se confiar em você.

Rolando os olhos, León se colocou ao lado dela, a olhando por cima. O ar arrogante ainda estava presente, mesmo com toda a tensão retida em seu maxilar trincado e testa vincada; ele ainda era estupidamente racional. Estratégico. O soldado perfeito da arena. Sobretudo, ele era franco.

— O tipo que está tentando sobreviver. Por sorte, você parece ser boa nisso.

A morena não reagiu. Não porque não quis, mas porque o vampiro espanhol não a deu tempo ou escolha. Antes que Brooke pudesse ao menos piscar os olhos, León já estava cometendo o atrevimento de içá-la e joga-la por cima do ombro como uma boneca de pano, correndo para fora do quarto na velocidade sobrenatural que ela já conhecia muito bem.

Na posição que estava (totalmente desfavorável e nenhum pouco digna — de ponta cabeça, com seu traseiro a poucos centímetros do rosto de León, sentindo todo o sangue que fluía em seu corpo deslizando para seu cérebro )e na velocidade em que se moviam, tudo o que Brooke conseguia capturar do entorno se resumia a vislumbres borrados de formas corpóreas emboladas e manchas vívidas de sangue para tudo que era lado e sons guturais de dor e fúria que pareciam reverberar por entre as paredes do corredor como a trilha sonora de fundo.

A Evern tentou não se ater aqueles detalhes, mesmo sabendo que eles já haviam entrado para a lista interminável de desgraças que carregaria mesmo depois do fim. Por isso, ela se concentrou nos movimentos de León e no peso de suas mãos que a seguravam firmemente pelas coxas, como se não estivesse ciente da força que estava empregando no aperto. Certamente, ficaria uma imensa marca roxa posteriormente, mas a morena não estava nenhum pouco preocupada. Ao contrário, ela se aproveitou daquilo.

A dor era bem vinda naquele momento, no momento em que o medo crescia cada vez mais rápido, pronto para envolve-la até os ossos e estraçalhar todos eles. Medo de ser capturada e ter sua alma roubada. Não medo da morte, pois já havia a experimentado; mas sim de perder a única coisa que ainda podia chamar de sua e que a fazia ser quem era. Não aquela que foi portadora do espírito da Descendente de Drácula uma vez, muito menos a falsa bruxa que havia ido parar no limbo de criaturas sobrenaturais sem uma história para contar.

Mas sim, Brooke Evern. Filha de Marcy Evern e irmã de Penny Evern. A sobrevivente da maioria dos acontecimentos sobrenaturais de Forks. A amiga dos lobos Quileutes e da família Cullen. A amiga de Gaz Jullions. A garota que amou um Volturi, apesar de tudo. Aquela que se tornou campeã da arena das almas condenadas e nunca reivindicou sua vitória.

Era por aquela alma que a garota temia.

Quando seus olhos arderam, Brooke piscou rapidamente para afastar as lágrimas, pois sabia que não havia tempo para lamentos. Se concentrando no caminho borrado pela velocidade, ela reconheceu apenas a bifurcação deixada para trás que levava a divisão dos dormitórios, o que a levou a imaginar que estavam rumando em direção a zona oposta da arena, as áreas sagradas e deterioradas do limbo que eram intituladas como proibidas para qualquer um.

E o único lugar que Peter poderia estar.

Ela estava prestes a questionar León, quando escutou o rosnado animalesco provindo do mesmo e sentiu todos os músculos dele se retesarem debaixo de seu corpo. Não houve tempo para perguntas ou reação: quando se deu conta, Brooke já estava sentindo o impacto do golpe e sendo arremessada no ar. As mãos de León a agarraram pela cintura e ele a puxou para seus braços, quase quebrando seus ossos, mas já era tarde demais — ambos já estavam indo de encontro a uma coluna de pedras que explodiu com o impacto da queda.

O grito de dor ficou preso na garganta da Evern enquanto ela permanecia imóvel no chão, sentindo o corpo de León pressionar o seu. Não demorou muito e logo o vampiro rolou para o lado, a permitindo respirar novamente. O rosto retorcido em ódio do espanhol preencheu o campo de visão da morena, fora de foco e duplicado.

— Vamos lá, Bruja. Diga que está bem, pois temos companhia — A voz de León parecia muito distante para a garota enquanto ele a ajudava a levantar, a segurando pelos ombros de maneira brusca.

Os olhos do vampiro se cravaram no filete de sangue que escorria da testa dela e Brooke queria que ele se afastasse, mas sabia que a pancada havia sido forte e que poderia ter sido muito pior se León não tivesse amortecido a queda. Ainda assim, ela se esquivou dele, e só então foi capaz de entender suas palavras.

Parados no fim do corredor que delimitava a zona proibida, quatro criaturas aguardavam León e Brooke. Tres homens, vampiros e uma mulher, feiticeira. Os olhares sanguinários deixavam claro de qual lado da insurreição eles estavam, o que fez a Evern recuar um passo, trôpega.

Uma risada feminina ecoou.

— Opa, fim da linha — A familiar voz de Anisa chegou até os ouvidos de Brooke, revestida de deboche e raiva. A mesma abriu um largo sorriso torto, enviesado, fixando os olhos em sua presa da noite. — Você deveria ter ficado fora do meu caminho quando teve a chance, vadia. Não bebeu a água envenenada que preparei especialmente para você, mas agora me dará a oportunidade de mata-la com minhas próprias mãos e levar sua alma estúpida de descendente.

Antes mesmo que pudesse retrucar, Brooke vislumbrou a movimentação de León ao seu lado. Ele deu um passo em frente, se colocando na frente dela.

— Você não precisa fazer isso, Anisa. Podemos evitar o massacre e as baixas desnecessárias se vocês pararem agora.

A feiticeira desviou os olhos para o vampiro espanhol e genuína aversão tomou conta de seu semblante.

— Se nós pararmos agora, León? Nós só estamos começando. Tudo será como deveria ter sido desde o começo, antes de Peter e de seu comando insólito e tirano. Faremos deste limbo o verdadeiro império para criaturas como nós, enquanto vocês não serão nada além do que carne podre depois de serem retaliados pedaço por pedaço — Anisa inclinou a cabeça para o lado, um ar de pesar perpassando por suas feições por um breve momento: — O que é uma pena, visto que nos divertíamos muito. Infelizmente, você escolheu o lado errado para lutar.

Com o coração ribombando dentro do peito, Brooke observou León. A frieza calculada que ele expressava não a passava segurança, embora soubesse que ele já estava maquinando algo em sua mente. E, quando um sorriso sádico brotou nos lábios cheios do espanhol, a morena teve certeza daquilo.

Sutilmente, sob os olhares vorazes dos outros tres vampiros e da feiticeira, Brooke escorregou a mão para os bolsos da calça, puxando as adagas escondidas, se certificando que seus dedos estavam estáveis. Seus punhos se fecharam em volta dos cabos das laminas, e a garota apenas aguardou o sinal de León.

— Tanto Deus quanto o diabo sabem que eu estava tentando fazer o papel do mocinho ao menos uma vez, mas acho que não vai funcionar, de qualquer forma — Proferiu León, suspirando em seguida. Então, ele olhou por cima do ombro para a Evern e completou: — Ainda precisamos de um campeão esta noite, Bruja. Primeiro as damas.

Brooke revirou os olhos, mas acatou suas palavras. Assim, a luta foi iniciada.

Notas finais
Olá, amores! Com vocês estão? Eu senti tanta saudades de estar escrevendo neste site que vocês não fazem ideia. Mas o que posso dizer? A correria da vida é triste, mas necessária e mesmo que seja difícil manter a constância das postagens e mais difícil ainda escrever os capítulos, eu não pretendo abandonar esta história. Posso até demorar meses (ou anos?), mas ainda assim irei voltar. Sobre o enredo... tem muita coisa para acontecer e reviravoltas também! Espero que vocês possam acompanhar todas elas e que não tenham desistido ainda, apesar de tudo hahaha. É isso. Até o próximo capítulo... Bjs!