Reign On Fire
4 Chapter 03: Nova caçada
Notas iniciais
ALEC VOLTURI
— Precisamos conversar, irmão.
A voz melódica e com uma pontada de frustração ressoou até os ouvidos de Alec no exato segundo em que seu punho acertou o queixo de um dos novatos da guarda. O rapaz cambaleou para trás antes de ir de encontro ao chão do salão de treinamento.
— Você precisa melhorar sua defesa, James — Pontuou Alec, antes de dispensar o vampiro ruivo e desengonçado que continuou estatelado no carpete. Com cara de poucos amigos, ele virou-se para sua irmã gêmea: — Eu já disse tudo o que era necessário, Jane. Então, aconselho a me dar licença para que eu possa continuar o treinamento da nova guarda em paz.
Ela revirou os olhos carmesins, tão parecidos com os dele. E assim como era o esperado, a observou persistir no assunto que ele próprio já havia dado como encerrado — embora a vampira não tivesse a mesma opinião.
— Creio que a sua necessidade não seja o reflexo das necessidades das outras pessoas envolvidas na situação, principalmente as minhas — retrucou Jane, elevando o queixo da forma que sempre fazia quando queria desafia-lo sobre algo. E, levando em consideração que ela era sua irmã e era exatamente por isso que ainda existia, então ela realmente o fazia. A Volturi ignorou os olhares curiosos dos soldados novatos ao redor e emendou: — É um fardo grande demais para carregar sozinho, irmão.
E foi aí que os olhos sempre tão carregados de crueldade e frieza, se suavizaram. A irmã o encarou fixamente, como se o analisasse em busca de um grande segredo. Como se pudesse descobrir todos os demônios que haviam passado a habitar a mente dele e assim expurga-los de lá. Como se pudesse salva-lo do abismo crescente e sombrio que sua existência eterna se tornara.
Pobre irmã, Alec pensou enquanto abria um ínfimo sorriso cínico para ela. Amava Jane e a protegeria eternamente de tudo e todos daquele mundo e era exatamente por isso que estava sendo tão categórico desde a partida dos mestres da Guarda Volturi. Também era por isso que não havia deixado espaço para perguntas ou ideias após anunciar a nova ameaça que os espreitavam.
Então Alec fez o que vinha fazendo a séculos: ele comandou. Ele controlou a situação com punhos de ferro e instruiu toda a guarda residente do palácio sobre os dias que se sucederiam. Ele reforçou a defesa, movimentou seus melhores homens, acionou Demetri para o rastreamento de qualquer pista que os levassem para o rastro do alquimista, criou uma equipe de pesquisa sobre a origem do mesmo e restringiu todas as informações para as paredes do castelo. E desde então, não parou de pensar em formas para proteger cada um deles. No fim das contas, sua irmã não estava errada.
— É por isso que sou eu quem tem que carrega-lo, Janette. Espero que entenda e pare de opinar sobre a situação a menos que possa fazer melhor ou resolver de outra forma eficiente. Caso contrário, não conte com a minha paciência ou perdão. Como Volturi, não darei segundas chances, nem mesmo para minha irmã — Alec proferiu as palavras friamente, sentindo o amargor de cada uma preencher o céu de sua boca como veneno e se odiou ainda mais quando viu a expressão da vampira loura voltar a endurecer, os lábios se comprimindo em desgosto. Quebrando o contato visual, o Volturi anunciou para as inúmeras cabeças viradas na direção deles pelo salão de treinamento, mantendo o tom: — Continuem treinando até amanhã de manhã. Ataque e defesa. Sem pausas, sem hesitações. Quebrem ossos se necessário, mas não se matem. Voltarei para avaliar os progressos.
Sob continências respeitosas, Alec virou as costas e caminhou até a saída do salão, deixando todos os soldados e Jane para trás. Enquanto avançava pelos corredores do castelo, as palavras que havia atirado contra sua irmã pareciam ecoar pelos ares, o perseguindo a cada esquina de corredor virada, o fazendo se detestar ainda mais. Mas aquilo — odiar cada atitude tomada — já havia virado rotina, como se não pudesse oferecer mais nada positivo ou minimamente decente para aquele mundo. Não tinha mais nada, se ele fosse franco. Apenas caos e sombras, suas sombras. O caos era um bônus oferecido pelo mundo que se tornava problemas em suas mãos para resolver.
A nova ameaça contra os vampiros. Jane. Os mestres. Heidi. A guarda. O castelo. A lacuna em sua memória. De fato, era um grande fardo; do tipo que não havia como se livrar.
Contudo, acima de todos os problemas que Alec conseguia listar, havia aquela sensação. A mesma que ele evitava como o diabo evitava a cruz. A onda de sofrimento que ameaçava o arrebatar a qualquer instante. E foi quando estava indo em direção ao elevador que o levaria para o andar de seu quarto, que ela o visitou sem aviso prévio.
O Volturi travou no meio do caminho, se tornando imóvel enquanto sentia o já familiar aperto em seu peito se expandir. Ele cerrou os dentes, olhando rapidamente ao redor para se certificar que ninguém estaria observando enquanto ele era arrastado para aquele inferno particular que somente ele tinha conhecimento, procurando desesperadamente algo para se concentrar e desviar a atenção dos sentimentos dolorosos que o acometiam.
Dois segundos depois e o barulho das portas do elevador ecoou e o vampiro louro acastanhado ergueu os olhos, encarando a humana patética da recepção do castelo dentro da caixa metálica, algumas cartas em mãos. Alec não sabia o nome da humana, mas não tinha dúvidas de que ela sabia o seu — principalmente quando um sorriso simpático surgiu no rosto bonito assim que o reconheceu. Ela era muito nova, talvez tivesse acabado de entrar na casa dos vinte anos e receptiva demais para o seu próprio bem.
Uma presa fácil no lugar e na hora errada, o Volturi pensou naqueles segundos que transcorriam entre sua avaliação da recepcionista e da aflição que continuava a puxa-lo cada vez mais. Então, quando ela fez menção de se movimentar para fora do elevador, ele despertou do torpor de seu sofrimento, concluindo que não era uma decisão difícil.
Alec foi breve e silencioso. Avançou tão rápido na humana, a jogando de volta para dentro do elevador com tanta força que o crânio dela bateu contra o metal, a vida desaparecendo dos olhos arregalados em desespero e pavor. As portas se fecharam e ele apertou o botão para seu andar escolhido. As cartas deslizaram para o chão e alguns segundos depois já estavam manchadas pelo sangue quente e viscoso que espiralava pelo ar enquanto o vampiro retaliava a jugular de sua presa, sentindo o sabor metálico dançar em sua língua conforme a angústia que corria em suas veias secas ditavam o ritmo.
E foi ali, enquanto portava-se como um animal selvagem, um monstro sem controle, que Alec bloqueou a sensação que o consumia, que o sufocava, que o dilacerava. E mesmo que fosse efêmera, ele aproveitou cada instante. Quando sugou a última gota de sangue e deixou que o corpo inerte da recepcionista escorregasse para o chão sujo do próprio sangue dela, as portas do elevador se abriram.
As feições surpresas de Kian Archetti estavam do lado de fora. Os olhos de ônix do feiticeiro fitaram o estrago dentro do elevador e se detiveram na figura do vampiro, o analisando calmamente. As roupas, as mãos e o rosto banhados de sangue o fizeram elevar as sobrancelhas, ignorando o olhar sanguinário do Volturi.
— Devo me preocupar? — perguntou Kian, apontando para a recepcionista morta. Não havia repreensão em seu tom, mas apenas uma incerteza velada que ele fez questão de deixar nítida.
— Já basta a Jane me perseguindo com reclamações sobre minha conduta, não irei tolerar você também, Kian — respondeu Alec, saindo do elevador e passando reto pelo feiticeiro, sem o encarar: — Mas caso esteja procurando algo para se entreter, pode se preocupar com a limpeza do elevador. Logo mais o cadáver irá apodrecer.
O Volturi continuou caminhando em frente, da forma elegante e imponente de sempre e não demorou muito para escutar os passos do amigo em seu encalço.
— Não tenho intenção de recriminar sua conduta ou qualquer outra circunstancia que venha de você, velho amigo. Mas há algo errado e não posso ignorar isso — O tom de Kian diminuiu, se tornando um murmúrio quase inaudível entre o ruído dos passos dos dois: — Você mudou.
Alec interrompeu os passos, parando no arco da entrada que levava apenas para a ala de seu quarto, o que dispensava a presença do feiticeiro. Os astutos olhos vermelhos encararam o rosto do amigo com uma serenidade perturbadora para quem havia protagonizado um assassinato outrora.
— Tolice sua, Kian. Mas, mesmo que fosse o caso, você também não mudaria diante os últimos acontecimentos na Guarda? — Refutou ele, uma das sobrancelhas se erguendo despretensiosamente. Antes que o feiticeiro respondesse, ele emendou:— Nada mais será como antes. Desde da reunião no salão principal, estamos em mais uma missão e se não formos inteligentes o suficiente e estivermos preparados, iremos falhar. E dessa vez, nós seremos as baixas.
— É nessas desculpas que você está se agarrando para ignorar o verdadeiro problema que está diante dos seus olhos, Alecssandro? — Kian balançou a cabeça, o chapéu fedora balançando junto. Soltando um longo suspiro, o Archetti estendeu o braço e descansou a mão no ombro do vampiro. Uma centelha do que pareceu ser desespero, cintilou em seu semblante: — Se você não parar de enterrar qualquer mísero sentimento que apareça em seu caminho e que o deixe desconfortável, em algum momento será tarde demais. E quando esse momento chegar, então você perderá tudo o que mais amou.
Kian calou-se, os nós nos dedos se esbranquiçando conforme a força de seu aperto no ombro de Alec ia aumentando. Em reposta, o vampiro arqueou uma sobrancelha perfeita, o encarando de forma intrigada.
— Antes que você me explique o sentido de suas palavras e quais seus objetivos com elas, Kian, poderia me responder algo primeiro? — O Volturi não o deu tempo de responder e completou: — O que diabos foi que eu mais amei e irei perder?
O feiticeiro não respondeu. Em silencio, ele permaneceu imóvel, os olhos fitando o vampiro diante de si, resoluto. Aos poucos, a centelha de desespero foi sendo substituída pelas sombras da decepção e ele deixou que o aperto que ainda mantinha no ombro do amigo, cedesse.
— Nenhuma resposta? Talvez seja porque não tenha uma, porque nunca houve nada para amar ou perder. E jamais haverá, Kian. Então pare de gastar meu tempo com tolices e procure outra pessoa para preencher o seu — Cuspiu Alec, se desvencilhando da mão do amigo.
O Volturi o deu as costas, começando a caminhar em direção a porta no final do corredor de iluminação mínima. Quando já estava na metade, a voz grave do Archetti ressoou em alto e bom som:
— Você descobrirá a verdade na hora certa, velho amigo. Espero que não seja tarde demais quando isso acontecer e que até lá, a dor e a aflição do luto não o consumam inteiramente.
Alec deteve os passos, virando-se instantaneamente. E talvez tenha sido a postura convicta do feiticeiro, o olhar misterioso ou o fantasma do sorriso melancólico que ele portava, qualquer um daqueles três motivos foram o suficiente para despertar a cólera contida que o Volturi nem sabia que mantinha. E, quando se deu conta, já estava segurando o Archetti pelo colarinho da camisa branca de linho, o batendo contra a parede mais próxima. E estava fazendo algo muito pior: perdendo o controle.
— Estou farto de suas meias palavras, Kian. Seja lá o que estiver escondendo, fale agora.
O Archetti riu alto.
— Raiva também é um dos sintomas das pessoas que passam pelo que você está passando, meu amigo.
— Você não faz ideia do que estou passando ou da forma como me sinto, então é melhor calar a boca e prestar atenção — rosnou Alec. — Há muitas coisas com as quais devo me preocupar no momento e a maioria delas são problemas, o que está fazendo o meu humor se degradar. Acho que nos conhecemos a tempo suficiente para você saber a forma como resolvo meus problemas, então, Kian, não queira se tornar um — Ele intensificou o aperto no colarinho, fazendo o feiticeiro engasgar: — Se eu parar para pensar sobre a forma como nos reencontramos, tres meses atrás e o quão aceitável é a sua história até aqui, talvez eu devesse desconfiar de suas intenções, porém não tenho tempo para isso agora. Tenho um reinado para proteger e uma guarda para orientar, então apenas se mantenha fora de cena até eu me decidir sobre os seus propósitos. Até lá, é melhor não me atrapalhar com suas tolices, ou o enxergarei como mais um problema, velho amigo.
Alec o soltou, o fazendo cair aos seus pés como um boneco de pano no assoalho do corredor. Tossindo, Kian ergueu a cabeça e olhou para o vampiro com o semblante límpido de qualquer ressentimento ou raiva; havia apenas a mais profunda das tristezas.
— Se é isso que deseja... Apenas saiba que você está indo pelo caminho mais difícil e que em algum momento enquanto caminha por ele, você talvez se arrependa da forma como está lidando com tudo agora.
— Não seria a primeira vez.
Alec lhe deu as costas e por fim rumou para o quarto, deixando o Archetti imóvel no chão, afundado em seu fracasso de tentar abrir os olhos do amigo para algo que não era visual e muito menos palpável, mas que os acompanhavam dia e noite, de leste a oeste, norte e sul: as lembranças de uma vida não tão distante.
***
As dezenas de livros abertos preenchiam todo o espaço sobre a antiga mesa de mogno escuro, como um mar de informações importantes, contudo, sem utilidade para o vampiro louro acastanhado submerso entre elas.
Alec exalou, afundando na cadeira atrás da mesa, sentindo que poderia enlouquecer se lesse mais alguma linha dos registros das vidas de seus mestres.
Os inúmeros diários de Aro, Caius e Marcus continham histórias importantes sobre a evolução do mundo humano e do mundo sobrenatural, principalmente sobre sua espécie. Mas nada que fizesse referência a atual ameaça que os espreitava. Não haviam registros do Alquimista de Almas, tal qual o Senhor das Sombras — apenas uma lenda desconhecida que ameaçava se tornar real.
De qualquer forma, Alec se recusava a esperar para ver. Ele preferia agir enquanto buscava coletar informações e fortificava sua guarda, embora seguir com aquele plano não estivesse o satisfazendo por completo. A sensação de impotência era péssima, assim como seu humor naqueles últimos dias.
Talvez até o próprio diabo o evitasse.
Soltando um rosnado irritado, Alec fechou o último diário e o empurrou para junto dos outros que ocupavam a mesa de seu escritório. Em seguida, buscou o copo de whisky puro pousado ao lado e o levou aos lábios, sorvendo todo o líquido restante em um gole só. A bebida nem fez cócegas em sua garganta, o que o irritou ainda mais e o fez atirar o copo contra a parede oposta, o estilhaçado em dezenas de pedaços.
O Volturi suspirou, se dando por vencido sobre aquele dia. Sentia-se exausto e sua mente parecia o núcleo caótico das coisas que deram errado. Então, ele jogou a cabeça para trás contra o encosto da cadeira e fechou as pálpebras, na tentativa de relaxar.
A taxa de sucesso era pequena, ele sabia. Os pensamentos obsessivos sobre o fardo depositado em seus ombros povoavam sua mente em tempo integral e, embora fosse difícil de admitir, o vampiro gostaria de ter naquele momento o privilégio do sono que os humanos tinham.
Já que era algo impossível, ele apenas se deixou afundar no silêncio profundo do seu escritório, tentando com afinco bloquear qualquer pensamento sobre guerra, planos, inimigos ou execuções. Alec deixou que sua mente vagasse para águas mais fundas, em direção a névoa sombria que envolvia a lacuna em sua memória e para onde ele havia aprendido a recorrer quando precisava de descanso.
Era lá — no mesmo lugar que o causava constantes aflições e ansiedade — que ele encontrava refúgio do caos do dia a dia. A parte em sua mente que estava vazia de lembranças o trazia algum conforto em momentos como aquele, embora fosse uma confissão deprimente.
Mas, naquela noite, aconteceu algo além do habitual daqueles momentos; algo que pegou o vampiro louro-acastanhado de surpresa.
Em meio ao silêncio confortável, uma voz feminina e estranhamente familiar ecoou em sua mente, em um sussurro carregado de emoção: "Não quero suas promessas. Eu quero você. Sempre quis. Sempre vou querer."
O Volturi abriu os olhos, se endireitando na cadeira abruptamente. Ele trincou o maxilar, fechando as mãos em punhos enquanto algo estranho se remexia em seu peito, se transformando em um aperto sufocante.
Imóvel, ele continuou escutando a serena voz ressoar dentro de sua cabeça como uma melodia melancólica que o embalava em direção à ruína da fortaleza que cobria seus sentimentos reprimidos, o deixando a mercê daquela maldita sensação devastadora que sempre o assolava.
E então, em questão de segundos, ela estava de volta, o tragando para o cerne da agonia e do sofrimento, para o vazio de algo que não sabia do que se tratava.
Sempre vou querer.
A imagem da garota da maldita foto encontrada por Felix, preencheu a mente de Alec, o fazendo estremecer na cadeira. E ele soube, naquele exato momento, a quem a voz dentro de sua cabeça pertencia.
Uma batida na porta o trouxe de volta a realidade no escritório, interrompendo o princípio de mais uma crise. O vampiro puxou o ar que não precisava para seus pulmões e o soltou, se empertigando logo em seguida.
— Entre. — Comandou Alec, já retomando a expressão estoica de sempre.
Ele observou a figura loura de Jane adentrar o escritório e aquilo foi o suficiente para faze-lo franzir o cenho, estranhando o comportamento da irmã. Ela nunca batia antes de entrar, independente da situação que fosse e dos atritos que tinham. Mas, quando a vampira parou diante da mesa e o olhou sombriamente, ele soube que o assunto era sério.
— O Clã Denali acaba de ser dizimado em um ataque feito pelo Alquimista de Almas. Fogo e cinzas foi tudo o que sobrou de todos eles — disse Jane, cuspindo cada palavra com evidente preocupação e cinismo mesclados. Ela ergueu uma sobrancelha perfeita e rosnou brevemente antes de completar: — Pergunto-me se até a vez do nosso clã chegar, você terá um plano eficiente, irmão.
E assim, tão repentina quanto chegou, Jane se inclinou debochadamente em uma reverência zombeteira e bateu em retirada do escritório, antes de presenciar a explosão do irmão.
Alec socou a mesa, partindo a madeira antiga em pedaços, espalhando pelo chão toda a enciclopédia dos diários de seus mestres. Vociferando uma sucessão de xingamentos, ele se ergueu da cadeira e começou a caminhar por todo o espaço do escritório, na tentativa falha de dissipar a cólera e a frustração que inundava seu organismo, o puxando cada vez mais fundo.
O vampiro levou as mãos até a cabeça, tentando pensar e medir os danos. Eles não sabiam quem o Alquimista de Almas era, mas ele conhecia um por um — ao que tudo indicava. Ele provavelmente sabia sobre cada clã. Sabia sobre cada fraqueza. E agora estava atacando, eliminando clã por clã, como em um efeito dominó, derrubando peça por peça continuamente, sem clemência, assim como seus mestres haviam alertado.
Alec paralisou no centro da sala. Lentamente, ele sentiu a onda de pânico se erguendo sobre ele, ameaçando engolfa-lo para além da borda rasa que o controle significava em sua existência. E, em questão de segundos, os vislumbres do reinado de seu clã sendo destruído em fragmentos, bombardeou a mente do vampiro. Entre eles, o rosto de Jane e todas as coisas terríveis que poderiam fazer novamente com ela, a forma como a quebrariam outra vez, a dor ela sentiria.
Ou então sua guarda. Seus mais fiéis soldados sendo subjugados e massacrados. Seu exército sendo dizimado como se fosse gado para o abate, perdendo toda a honra que o manto que trajavam carregava.
Era muito para se perder.
Alec se enfureceu ainda mais. Só não sabia se era pelos pensamentos ou consigo mesmo, já que não sabia o que fazer para evitar que eles se concretizassem. A estratégia que havia desenvolvido não seria suficiente para deter o Alquimista e seus esforços para rastrea-lo não tiveram resultados até aquele momento, o que os deixava em desvantagem e vulneráveis.
E isso poderia custar seu império.
O Volturi rangeu os dentes, se dando conta naquele momento que não existia outra opção. Não se tratava mais apenas de um inimigo em comum ou uma simples ameaça ao segredo do mundo sobrenatural. Muito menos de rivalidades entre os clãs. Não. Aquilo era muito maior do que quaisquer outros motivos anteriores.
Os Volturi não tinham probabilidade de vencer sozinhos aquela batalha. Ninguém tinha, francamente. No entanto, por mais que odiasse admitir, Alec sabia que eles não estavam sozinhos — necessariamente.
Daquele modo, o Volturi buscou o celular no bolso da calça. Desbloqueando-o, procurou na lista de contatos até encontrar o nome desejado. Ele se preparou para fazer a ligação, mas, antes que deslizasse o dedo sobre a tela, o aparelho vibrou em sua mão.
O código telefônico de Forks brilhou na tela e no segundo toque, Alec atendeu, secretamente aliviado por não ter discado primeiro.
— Alec, precisamos conversar. Eleazar e sua família estão mortos — A voz de Carlisle Cullen guinchou do outro lado da linha, totalmente desesperada. A comoção ao redor era notável, assim como os soluços abafados e os passos ao redor. Alguns segundos depois, Carlisle emendou: — O Alquimista de Almas. Precisamos descobrir quem ele é e o que quer.
Alec soltou um pesado suspiro, revirando os olhos no mesmo instante. Virando-se para a bagunça que fizera outrora, o Volturi fitou os destroços da mesa e os diários espalhados pelo chão, dando-se conta naquele momento que não havia mais volta para aquela aliança.
— É exatamente o que faremos quando vocês desembarcarem no próximo vôo. Procure os passaportes, Cullen. — disse Alec. — A temporada de caça vai começar novamente.
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