Rei dos reis
6 Chapter 5
Durante a dança no grande salão, o ritmo da música mudara e os casais se entreolharam sabendo que trocariam de pares em meio a dança.
Lucas segurou a mão da dama a sua frente e se inclinou.
— Conceda-me a honra?
A menina olhou para Hector que também a olhava e assentiu, mostrando confiança em Lucas.
— Sim. — Respondeu a moça.
Enquanto Lucas caminhava com Izabel, Alexsandro no outro lado do salão atentava para a moça.
— Lucas voltou da guerra compromissado...? Nunca vi essa moça em lugar nenhum de Guiscard... Quem será?
Suas indagações pausaram, quando viu que o rei havia anunciado algo, mas com o barulho da festa, não deu a entender o que era ao certo. Um guarda passou apressado em sua frente, quase esbarrando em Alexsandro.
— Ora! — Virou-se em fúria e viu que o mesmo guarda foi de encontro a Lucas — Mas o que está acontecendo...? — Perguntou para si mesmo e continuou sua caminhada para mais próximo do rei para obter a sua resposta.
O guarda, então, se aproximou de Lucas e falou-lhe ao pé da orelha, fazendo o rapaz parar de caminhar e soltar a mão de Izabel.
— O que houve? — Perguntou a menina ao ver o semblante do moço ao seu lado.
— Isso são mesmo ordens do rei? — Lucas perguntou ao guarda, não respondendo a preocupação de Izabel.
— Sim, senhor. E a sua tropa está no aguardo de seu comando.
— Então permaneçam até a segunda ordem.
O guarda assentiu, bateu continência e se retirou. Lucas olhou diretamente para Hector, que já não estava mais olhando para eles, mas conversava com a princesa de Tresapter.
— Sr. Millicent? — Izabel percorreu o olhar de Lucas e ficou apreensiva ao ver Hector e outra menina juntos em uma conversa que aos olhos de Izabel parecia íntima. — Eu não sei o que está acontecendo, mas eu acho melhor não permanecer nesta festa.
— Fique. — Lucas retornou a segurar a mão de Izabel — Temos uma dança aceita por você; solicitada por mim, que precisamos iniciar.
A moça olhou para Lucas e abaixou a cabeça.
— Ajuda-me, Senhor, pois meus olhos estão vendados neste lugar, e minha alma está aflita. — Izabel orou em sussurro.
***
— Beatriz...
— Príncipe! Eu só te peço, não permita esse casamento, não ceda a esta imposição! Não podes governar meu reino, muito menos unir as duas alianças!
— Por que está dizendo isso? Está me deixando confuso!
— Não temos muito tempo, Hector, mas você não pode confiar em ninguém do meu reino e é capaz do seu também estar correndo este risco. Unir as duas coroas trará revolta para o povo. Há muita coisa envolvida. O que o meu pai quer e o seu também é apenas o poder bélico e militar. Não pode deixar isso acontecer.
— Você está sendo insana, Beatriz, deveria parar de ler livros. Onde tirou que unir os dois reinos acarretará problemas?
— Não! Você não está entendendo... Unir duas coroas vai além dos benefícios, entrará o poder em jogo. Ou você acha que meu pai e seu pai vão ficar sentados assistindo a dois jovens governar dois reinos que será tão forte quanto aos reinos do norte!
— Não se exalte, Beatriz! — Hector apertou a mão da menina, fazendo-a parar de dançar.
— Se não quer evitar esse casamento por não acreditar no que eu digo, então impeça-o por não me amar e saber que eu também não o amo.
— Não posso decidir meu futuro e nem o seu apenas nessa conversa durante uma dança.
— Então comece a decidir a vida de dois reinos que estarão em suas mãos.
Beatriz se afastou e Lucas aproveitou para puxa-la contra seu corpo e entregou Izabel para Hector.
***
A rainha atentou-se para o pedido do rei, olhou para o seu filho e sua feição mudara ao ver o príncipe, a princesa de Tresapter, Lucas e mais uma linda moça num alvoroço durante a dança.
— Sinto que algo acontecerá... Algo que não será bom... — Balbuciou Mira.
— Perdão, alteza? — Indagou o ministro do baile.
— Nada. — Negou com a cabeça — Apenas faça o pronunciamento do rei, conforme o mesmo anunciou.
O ministro assentiu positivamente e caminhou a passos largos até a banda que animava a festa.
***
— Olá. — Disse Lucas num tom humorada e Beatriz o olhava surpreso — Atrapalhei a conversa?
— Claro que sim, insolente!
— Não precisa ofender, princesa. — Enfatizou Lucas.
— Preciso voltar a dançar com o príncipe Hector!
— A dança não permite ficar só com um par.
— Desde que os anfitriões da festa decidam trocar de par, é sim permitido, é uma regra!
— Sim, é uma regra, que lhe caberia muito bem se fosse a rainha e Hector o rei, mas como ainda estão na segunda parte genealógica da hierarquia, ou seja, não são os anfitriões, logo... tenho permissão de trocar de par com o príncipe.
— Ora, solte-me!
— Não. — Lucas sorriu e bailou de forma que eles se afastassem de Hector e de Izabel.
***
— Ibb...
A moça sorriu ao segurar a mão de Hector.
— Eu estou sonhando...?
Izabel abaixou o rosto e corou.
— Trouxeste-me paz, Ibb. — Hector levantou o rosto da moça pelo seu queixo — É como se tudo estivesse desmoronando ao meu redor e você me faz permanecer firme na rocha, em segurança...
— É a paz que excede todo o entendimento, você sabe disso, só precisa crer.
Hector riu.
— Mal pude esperar para reencontra-lo. — Izabel passou a mão no rosto do príncipe — Mas creio que tenha chegado num momento turbulento em seu reino. — E quando tentou tirar sua mão de Hector, o rapaz segurou por cima e arrastou a mão de Izabel até seus lábios, beijando-a.
— Estou tão feliz que esteja aqui... Só isso me importa agora.
— Não parece ser a única coisa importante. Hector... Creio que seja melhor eu ir embora.
— Não! — Hector exaltou-se num tom de discordância, respirou profundamente e deu continuidade — Confesso que desde que cheguei em Guiscard não tenho vivido meus melhores momentos, mas chega uma hora em que precisamos decidir nossos futuros, nem que seja durante uma dança. — Hector olhou para Beatriz, que parecia brigar com Lucas.
— O que fará de tão importante que decidirá seu futuro?
— Você confia em mim?
Izabel assentiu positivamente.
— Isso é o suficiente.
***
— Solte-me, ordeno! — Exclamou a princesa.
— Não imaginei que eu dançasse tão mal, princesa, ao ponto de querer que eu te solte. — Lucas riu.
— Preciso resolver um assunto com o príncipe, de urgência!
— O que é mais urgente que preciso pausar a dança se os músicos ainda tocam alegremente?
— Pare de ser debochado e obedeça-me!
Lucas olhou sério para a menina.
— Não sei se percebeu, mas o príncipe já está resolvendo outros assuntos em particular e a sua presença só iria atrapalhar. Então, aproveite a dança, princesa.
— Achas que estou brincando!? — Beatriz puxou sua mão, mas Lucas foi atrevido o bastante para puxar a menina para mais perto de si pela cintura.
— Ora!
Lucas sorriu.
— Largue-me!
— A dança não permite, princesa. Ficaria sem par se eu a soltasse.
Beatriz se deu por vencida e olhava para Hector na esperança de que ele mesmo intervisse naquela situação. Porém, quanto mais se distanciava dele, mais lamentava em seu olhar. Lucas percebeu a intensidade dos acontecimentos daquele baile e suspirou, a ponto de fechar os olhos. A princesa de Tresapter o admirou.
***
— Tia...?
A rainha olhou para Alexsandro, que se aproximava dela.
— O que houve para o guarda da tropa sair esbaforido ao encontro de Lucas e o rei anunciar algo para o ministro da festa?
O arcebispo também se aproximou da rainha, curioso com a conversa.
— Também me atentei a um certo alvoroço interno. Os guardas não param de se movimentar e o rei não para de conversar para me dar a graça de sua atenção. O que há de tão importante acontecendo?
— Admiro dois homens procurando saber o que se acontece em uma conversa entre reis! Aguardem e hão de ver o que se sucederá como todos no salão. — Anunciou a rainha, impaciente com os dois.
Não precisou muito até que a banda cessasse a música que animava as pessoas no salão e o ministro do baile chamasse a atenção de todos.
— Nobres cavalheiros e damas, quero-vos anunciar uma mensagem da vossa alteza, o rei Dalibor II, acompanhado do rei de Tresapter, o rei Dimitri.
Ambos os reis estavam de pé em frente aos tronos. Aos poucos o silêncio foi se instalando no grande salão e os olhares voltados aos reis se tornaram unânimes.
— Meu nobre povo! — O rei Dalibor ergueu o braço em cumprimento — Hoje tomo a maior decisão para o reino de Guiscard. Deus tem me abençoado nesta terra, feito meu reino próspero e amigável com outros Estados. Ajudamos o Papa de Roma e Deus tem sido benigno por isso. — Dalibor olhou para o arcebispo com um sorriso e o mesmo retribuiu a atenção que esperava à noite toda — Nossas terras produzem bons frutos e nossos soldados têm vencido guerras. Mas isso ainda é pouco. Marquem esta data como um marco para Guiscard e seu povo. Com a união de uma aliança não somente de palavras, mas em matrimônio entre dois reinos.
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