Rei dos reis
4 Chapter 3
O rei desceu as escadas e toda a atenção do salão foi para ele. Seu filho, Hector, aguardou no primeiro degrau ainda no andar de cima. De longe, conseguiu avistar Lucas, que acenou para ele esboçando um sorriso.
Soldados se prontificaram ao lado da escada um ao lado do outro.
— Anuncio-lhes o rei de Guiscard, Dalibor II! — Disse em alta voz o ministro do baile.
Dalibor II acenou com a mão e sorriu de encontro aos olhares dos convidados. Sua feição mudou ao olhar para o portão de entrada e ver o rei de Tresapter adentrar ao salão.
O rei olhou para trás a encontrar seu filho, que ainda permanecia imóvel. Hector entendeu que a família que estava adiante de ti era o futuro que seu pai aguardava para os dois reinos, mas que estava fora de suas expectativas.
Hector começou a descer as escadas e parou ao lado do pai.
— Não me diga que essa é a princesa ao lado do rei...
— Assim como você me surpreendeu ao dizer que sua amada virá, eu o surpreendo informando-lhe que o rei e a princesa de Tresapter também estão aqui.
— Isso não é hora de sarcasmo, pai.
— E quem disse que estou sendo sarcástico? Estou sendo rei.
Hector se calou. O rei Dalibor II continuou a descer as escadas, indo diretamente ao encontro do rei de Tresapter.
— Rei Dimitri! — O rei de Guiscard exaltou a voz ao anunciar o rei que adentrara o grande salão — É uma honra tê-lo conosco.
O rei Dimitri assentiu sorrindo.
— Meus soldados vieram comigo, espero que não se importe. — Informou ao se aproximar do rei de Guiscard.
— Claro que não! Mande-os entrar e aproveitar a festa, afinal... — o rei Dalibor II olhou para o seu filho — Hoje é dia de celebração.
— Agora ele está sendo irônico... — Hector balbuciou tais palavras para si.
— Espero não ter chegado tão tarde, pegamos uma estrada com neve no caminho para cá, dois dias de viagem intensa. — Comentou o rei Dimitri aproximando-se mais do rei Dalibor II.
— Imagino... Peço que fique à vontade em meu reino como se fosse a sua casa.
O rei Dimitri sorriu ambiciosamente. Hector tossiu de leve e se aproximou tanto de seu pai como do outro rei.
— É uma honra tê-lo conosco em Guiscard, Lorde. — Hector se curvou.
Dimitri estreitou os olhos, segurou pelo queixo de Hector e levantou seu rosto.
— Tens as feições de seu pai, mas... — o rei Dimitri desvencilhou o olhar para Dalibor II e depois voltou para Hector — Seu olhar é mais soberano. Deve ser por isso — o rei soltou o queixo do rapaz e o olhou para seu pai — que a sucessão Dalibor encerrou em seu pai, você será um rei diferente, Hector, um rei de chamado.
Hector ficou sem expressão, apenas assentia à fala do rei Dimitri. Seu pai, no entanto, ficara pensativo. Mas em seu íntimo, concordava e queria dizer o mesmo, mas preferiu calar-se. Havia uma disputa em seu interior entre se aliar seu filho ou ser seu adversário.
— Creio que os olhares estão muito em nossa conversa, poderíamos nos assentar no trono para uma conversa mais reservada? — Interpelou o rei Dimitri — É melhor deixar que seu filho e minha filha roubem a cena, se é que me entende.
— Pai... — Hector chamou o rei sem sucesso.
A filha do rei Dimitri estava reservada ainda perto da porta da entrada, observava tudo com certo receio. Seu pai foi até ela, buscando-a para ser apresentada ao rei de Guiscard e seu filho.
A menina andava de cabeça baixa e a atenção sobre ela era maior ainda pelos convidados que queriam ver seu rosto. A rainha Mira descia as escadas nessa ocasião e também focou sua atenção na princesa.
— Que Deus ajude meu filho. — Sussurrou em oração.
Enquanto o rei de Tresapter e sua filha se aproximavam, o rei falava com seu filho num tom preocupado:
— Hector, se essa for a última coisa que eu te peço, por favor, acate. Não aja conforme seus sentimentos, aja como o futuro herdeiro do trono de Guiscard e possivelmente de Tresapter.
— Pai...
O rei Dimitri parou novamente de frente para o príncipe e para o rei Dalibor II com sua filha ao lado, silenciando o príncipe.
— Seja bem-vinda a Guiscard, princesa Beatriz. — O rei Dalibor II segurou a mão da jovem e a beijou.
A menina apenas assentiu, juntando apressadamente seu braço ao corpo. Os dois reis olharam para Hector, o mesmo só tinha olhos para a menina, porém não era ela quem ele via, ele estava perdido em seus pensamentos depois dos ditos de seu pai.
Agir como o futuro herdeiro do trono de Guiscard.
— Se permanecer com o rosto abaixado, a coroa da princesa estará fadada a cair no chão. — Hector segurou pelo queixo da menina, assim como o rei Dimitri fizera com ele, e reergueu a face dela — Não esconda seu rosto a ninguém. — Sussurrou para ela — Nem mesmo para reis.
A menina, ainda calada, assentiu. O rei Dalibor II suspirou aliviado e o rei Dimitri sorria.
— Que os príncipes dessa noite bailem em união ao reino de Guiscard e Tresapter! — Anunciou o rei Dimitri, para alvoroço dos convidados — Enquanto isso, eu e o senhor iremos conversar. — E apontou para os tronos com a cabeça.
O rei Dalibor II assentiu.
Hector pegou a mão da princesa e a guiou para o meio do salão. A música havia cessado e o som que se escutava no salão era de conversas paralelas sobre o que foi dito e o que estava acontecendo.
A rainha havia se posicionado perto das cadeiras reais e cumprimentou o rei de Tresapter, logo depois afastou-se de ambos, pois percebera que eles queriam privacidade. No entanto, não ficou distante.
— Rei! Rei Dalibor II!
O rei atentamente olhou para trás e arqueou uma sobrancelha. O rei Dimitri olhou para o rei de Guiscard não entendendo tal interrupção. Ao ver quem chamava o rei, a rainha retornou a se aproximar deles.
— Ao que parece, eu fui o único que não foi anunciado ao rei. — Disse o arcebispo, degustando-se de um doce.
— Eu não...
— Deixe que eu informe o ocorrido. — Disse a rainha, não deixando o rei concluir sua dúvida — Este é o arcebispo Willian Baryon, que veio diretamente de Roma para prestigiar o rei Dalibor II.
O rei assentiu.
— Suas doações são bem recebidas e estão sendo direcionadas para a reconstrução da Basílica de São Pedro. — Disse o arcebispo com devoção.
— Minhas doações são sem interesses, apenas uma forma de agradecer a Deus pelos benefícios que tem agraciado meu reino. E claro... — o rei Dalibor II olhou fixamente para o arcebispo — Que o corpo sacerdotal do papa esteja em oração por mim e pelo meu reino para que meu corpo não vá a nenhum purgatório, antes, se encontre nos seios de Abraão, como vocês tanto pregam.
— Sim... Sim! Rei, é claro que temos clamado a Deus por isso, mas... — o arcebispo hesitou por um tempo, porém concluiu seu pensamento — Sua honras financeiras também contribuem muito para que sua alma descanse no paraíso.
A rainha interviu na conversa.
— Creio que esta não seja a hora adequada para tratarmos de assuntos eclesiásticos, afinal, hoje é dia de celebração. Deus ficará mais satisfeito se falarmos dEle em momentos que sejam só dEle.
— Sim! — Concordou o arcebispo.
A rainha o convidou para se retirar e aproveitar o grande buffet da festa, o mesmo saiu sem hesitar.
***
Lucas, amigo de Hector, observava Alexsandro, que se mostrava atencioso ao encontro dos reis, da princesa e do príncipe. Lucas caminhou pelas laterais do salão, pegou duas taças de vinho e foi de encontro com Alexsandro.
— Anda muito observador, Alex.
— Digo o mesmo, Lucas. — E tomou a taça da mão do rapaz, brindando sem que Lucas retribuísse. — Sendo que eu sei quem observo, e você?
***
— Deveria parar de fechar a mão e me dar a chance de segura-la.
A menina riu do que Hector disse.
— Aliás, meu nome é Hector. Príncipe Hector Lyubor, de Guiscard. — A princesa nada disse. A música deu-se início — E o seu é Beatriz, certo?
A princesa novamente assentiu. Hector a segurou pela cintura e a puxou para dar início a música ministrada pela orquestra.
— Se ficarmos parados, irão comentar mais do que já estão comentando sobre nós dois. — Justificou Hector sua ação.
— Não precisa tomar a dianteira por mim.
— Você não tem reagido.
— Eu só... — a princesa não concluiu.
— Eu sei que isso tudo é inesperado, mas... Tente deixar fluir.
— Isso é o que eu venho fazendo a minha vida toda... Eu não escolhi nascer no reino, ser filha do rei, princesa de Tresapter. E também não escolhi estar aqui hoje para esse noivado.
Hector parou. Não pelo que a moça disse, mas por quem adentrava o salão.
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