Rei dos reis
3 Chapter 2
Notas iniciais
Assim que a rainha desceu as escadas, procurou por Alexsandro, para pedir ajuda a ele para acalmar os ânimos no andar de cima.
— Rainha!
Mira se assustou com a breve chamada, era o guarda acompanhado de um senhor com vestes eclesiásticas. O guarda se aproximou da rainha e falou ao pé de seu ouvido:
— O arcebispo Willian Bayron veio diretamente de Roma prestigiar o rei pela oferta dada a Basílica de São Pedro.
— Justamente hoje... — Balbuciou a rainha com um sorriso no rosto.
Ao concluir o último degrau, apresentou-se para o arcebispo. O guarda se retirou.
— É uma honra tê-lo conosco, sr. Baryon.
O arcebispo pigarreou.
— É BAYRON, Milady.
A rainha não conteve a risada, mas colocou a mão no rosto e virou sua face para o lado, a fim de se recompor.
— Peço desculpas, o sotaque me fez confundir, peço desculpas, novamente.
O arcebispo sorriu, ainda que inconformado e deu continuidade.
— É com grande prazer que venho prestigiar o rei Dalibor II pelas doações que tem feito à Roma desde que seu reinado foi estabelecido. Creio também que hoje é um dia propício para realizarmos negociações em meio a esta celebração.
A rainha assentiu.
— Soube que o príncipe retornara de uma viagem que fez à Inglaterra.
— E também da Alemanha... — Completou a rainha Mira — Soube que está ocorrendo uma revolução de doutrina cristã por lá há um tempo, até temi que Hector fosse para lá, mas ele foi focado nos estudos, então...
— Alemanha? — o arcebispo pareceu um tanto desnorteado — Creio que ele não foi infectado pelo mover que está acontecendo lá, não é?
A Rainha inclinou o rosto, não entendendo o alarde do arcebispo.
— Mira!
A rainha desvencilhou seu olhar do arcebispo para quem a chamara.
— Lucas! — Seu semblante saltou para uma alegria outrora não vista — Estou maravilhada em vê-lo aqui! Já retornou da guerra em Woston?
Lucas assentiu e abraçou a rainha. Ao retornar, desculpou-se por interromper a conversa. O arcebispo nada comentou.
— Estou a procura de Hector, ainda não o vi.
A rainha Mira achou a oportunidade perfeita para se retirar da conversa com o arcebispo.
— Onde estava com a cabeça? — Encenou a rainha — Falei com meu filho que o chamaria do seu repouso, a viagem fora muito cansativa e ele ainda não conseguiu descansar. Acabou dormindo. Mas já está mais que na hora de ele se apresentar à festa e aos convidados, não é?
Apesar do sorriso no rosto, Lucas percebera que o que estava sendo dito pela rainha era mentira. Mesmo assim, assentiu e se retirou no aguardo de que Hector descesse logo.
— Peço licença, Arcebispo Baryon.
O arcebispo respirou fundo.
— É BAYRON, rainha, mas tudo bem, mais tarde conversamos... De maneira privativa.
A rainha assentiu com um sorriso no rosto, pois errara novamente o nome do arcebispo e retornou a subir as escadas. O arcebispo Willian Bayron se dirigiu a mesa de comida.
***
Alexsandro estava parado no corredor, havia subido para informar ao rei que o arcebispo de Roma estava no salão. Hector, seu primo, passou por ele sem trocar palavras.
— O que faz aqui, Alex?
O rapaz mudou seu semblante ao olhar para quem se dirigia a ele.
— Tia, eu... — Pigarreou.
— Se quer ouvir a conversa, isso não me importa, apesar de ser uma falta de educação em um palácio real. — A rainha se aproximou de Alexsandro e tomou a dianteira — Contudo, ter um sorriso malicioso no rosto, incomoda-me muito.
Alexsandro desviou seu olhar da rainha.
— Eu só vim avisar o rei da chegada do arcebispo de Roma e acabei vendo Hector saindo em fúria da sala do rei. Minha feição não era de malícia, mas... — Alexsandro procurou as palavras sem encontra-las — De nervoso pela situação.
— Então complete sua intenção de vir avisar ao rei da presença do arcebispo na festa.
A rainha se retirou indo em direção ao quarto de Hector.
***
O rei pegou a coroa de cima da mesa e a encarou por poucos segundos, logo olhou para um quadro que estava atrás de sua mesa, era de seu pai, rei Dalibor I.
— Eu nunca soube governar... — Dalibor II cerrou o punho — Mesmo assim, o senhor confiou a mim esta coroa. Ensinou-me a ser frio e administrativo — Deu uma pausa e colocou o objeto sobre sua cabeça — Errei em pensar que ao me tornar rei era única coisa que me importasse. Até que... Até que a vida me permitiu ser pai e parecia que a coroa não era tão importante assim. Hector me passava confiança através de seus olhos e eu via que ele seria melhor do que eu!
Alexsandro estava segurando a maçaneta e ouvia atentamente as palavras do rei através da porta.
— O senhor sequer mostrou seus sentimentos por mim e eu jurei a mim mesmo nunca agir assim com o Hector... Mas... Vê-lo crescer tão rápido me fez perceber que ser rei e ser pai são características totalmente diferentes. Eu via no senhor apenas o lado do rei exemplar, mas agora o Hector quer ver em mim o pai exemplar... E eu não sei se conseguirei mostrar isso a ele... Não agora.
— Tio? — Alexsandro bateu na porta e abriu uma brecha.
O rei suspirou e olhou para trás por cima do ombro.
— O que quer, Alexsandro? — Indagou o rei.
— Vi Hector saindo esbaforido daqui e...
— Não diga mais nada! Hector... — o rei respirava com força, com raiva — Hector está me desonrando!
— Tio, não acha que os dois estão a flor da pele e...
— Saia! Não quero ouvir mais nada. Todos acham que têm o direito de se dirigir ao rei da forma que quer!? Que conseguem decifrar o que sinto!?
— Tio, eu só...
— Saia, Alex! — Dalibor II apontou para a porta — Eu quero ficar sozinho antes de descer.
Alexsandro abriu a porta, mas antes de sair, respirou fundo e anunciou:
— Saiba que estou a sua disposição para manter o reino, o seu reino, independente do que tenha ocorrido entre o senhor e Hector. Eu estou do seu lado.
— Alex...
— Sim? — O rapaz sorriu ainda de costas para o rei.
— Agradeço por sua fidelidade, lembra-me de teu pai. Foi a melhor coisa que ouvi até agora.
Alexsandro saiu sem dizer palavras.
***
— Hector? — a rainha adentrou ao quarto do filho — Como você está?
O rapaz olhava pela janela.
— É impossível falar com o rei.
— É só saber como falar.
— Saber como falar?! — Hector se virou — Ele só quer ouvir o que interessa para o reino dele! Qualquer contrariedade o faz ficar uma fera e ele não escuta nada além do que ele mesmo fala!
— E você está sendo igualzinho a ele.
— Não faça tal comparação, mãe... Eu jamais serei como ele.
— E o que fará?
— Com certeza não me casarei com a princesa de Tresapter.
— Filho...
— Eu já tomei essa decisão. — Hector olhou novamente para a janela — Farei o meu pedido de casamento hoje. Para a pessoa que eu amo.
— Hector, não cause uma guerra aqui dentro deste palácio!
— Alguém precisa dizer ao rei que a coroa não será eternamente dele.
— Hector!
— Mãe, eu já tomei a minha decisão, queira a senhora estar ao meu lado ou não.
— Eu sempre estarei ao seu lado. Só... Tome a melhor decisão.
Hector assentiu.
— E não esqueça que antes de Dalibor ser seu rei, ele é seu pai.
O rapaz olhou para o chão e suspirou.
— Hoje ele é só o meu rei.
***
Alexsandro passava pela porta do quarto de Hector e ouviu quando a rainha aumentou a voz como se o tivesse interpelando e isso causou curiosidade no rapaz, que ouviu o restante da conversa.
Ao descer as escadas, sua face era de satisfação.
***
— Lucas está a sua espera no salão. — Anunciou a rainha, mudando de assunto.
— Não acredito que aquele maluco já voltou da guerra! — Hector, por um momento, afastou seus pensamentos do rei.
Mira sorriu. O rapaz passou por ela, saindo do quarto eufórico. Ao sair do quarto, seu pai estava passando pelo corredor, os dois desviaram seus olhares. Mira foi para a janela e viu que uma jovem saía da carruagem e logo em seguida o rei de Tresapter.
— Isso não é bom... — A rainha engoliu a seco num suspiro pesado.
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