Rei dos reis
2 Chapter 1
Notas iniciais
Ao cair da noite, carruagens já se aproximavam do castelo do rei Dalibor II, no grande palácio do Reino de Guiscard, próximo às regiões da Inglaterra. A noite gélida mostrava, ainda assim, a beleza do outono naquele lugar. As folhas no chão se misturavam com pequenos flocos de neve.
As mulheres, em seus vestidos longos, não poupavam beleza mesmo com os casacos de pele que ostentavam cor em tons claros e escuros, dando um contraste e um mistério nos vestidos que por baixo vestiam.
As portas do primeiro salão foram abertas e os guardas parados ficavam com sorrisos em seus rostos cumprimentando a todos que por ali passavam. Cada nome nobre era pronunciado em alta voz, anunciando que aquela família se fazia presente diante do rei de Guiscard.
A música dançante ecoava em todo o salão, casais já se formavam para danças. Em cada ritmo, pares trocavam de pares e novos casais eram formados para bailar pelo grande salão. Os mais velhos, assentados, fartavam-se de comer e gargalhar ao reencontrar velhos companheiros de guerra e de reinado.
Muitos ali não sabiam que a grande festa era para anunciar o noivado do príncipe de Guiscard com a princesa do reino vizinho, Tresapter. Os mais próximos do rei também não comentavam sobre a festa, pois era mais um assunto político do que de celebração.
— Apresento-lhes a chegada da família Millicent! — Anunciou o guarda na porta, estendendo a mão para dentro do salão.
Um jovem, que acompanhava sua família, sorria e seus olhos percorriam todo o salão a procura de alguém.
— Conde Millicent, é uma honra tê-lo conosco. — Apresentou-se um jovem de feição real, estendendo a mão para um cumprimento ao patriarca da família Millicent.
— Faço minhas, as suas palavras, sr. Milan.
— Sem muita cordialidade, somos praticamente uma família — o jovem rapaz sorriu -, pode me chamar de Alexsandro, afinal, eu e o seu filho nos damos muito bem para termos tanta restrição nos nomes.
O jovem que adentrara ao salão com a família Millicent desviou os olhares de Alexsandro, como se não concordasse com o que estava sendo dito ao seu pai.
— Aliás, é uma honra tê-lo conosco também, Lucas. Um grande guerreiro.
Os pais de Lucas sorriram de orgulho pelo reconhecimento de Alexsandro.
— Um elogio desses vindo do sobrinho do rei é, para nós, um grande prestígio. — A mãe de Lucas colocou a mão no rosto envergonhada.
— Sra. Millicent, o prestígio é meu em estar ao lado de uma família tão nobre e importante para Guiscard.
Lucas pigarreou e pediu licença da pequena reunião. Alexsandro acompanhou a saída do rapaz com os olhos, não demorando muito para o mesmo pedir licença e se retirar também. Alexsandro cumprimentou mais alguns convidados, mas atentava para onde Lucas estava indo. Quando conseguiu alcança-lo, pegou duas taças da bandeja que estava sendo servida e parou em frente a Lucas.
— O príncipe ainda está na sala do rei. — estendeu o braço para entregar a outra taça.
— Eu não lhe perguntei nada. — Lucas olhou para a taça, mas não a pegou.
— Sua inquietação e constante olhar pelo salão é de fácil entendimento quando se trata de ser o melhor amigo do príncipe.
— Alex...
O primo do príncipe terminou de tomar o vinho em sua taça e começou a saborear a outra que estava em sua mão e que fora recusada por Lucas.
— Se o conheço bem, deve estar encrencado. Possivelmente, contrariando os desejos de meu tio. Então... Não creio que deva espera-lo. Aproveite a festa.
— Do que está falando?
— Não sabe o que estamos celebrando hoje, Lucas?
O rapaz permaneceu em silêncio.
— Ah... Pobre, Lucas, tão chegado, mas tão distante...
Lucas estreitou os olhos e virou o rosto num suspiro.
— Se não é da minha conta, por que me instiga a saber?
— Pensei que por ser amigo de...
— Pensou errado. Hector chegou há poucos dias da Inglaterra, só queria vê-lo depois de muito tempo, não de saber sobre a situação do reino.
Alexsandro riu.
— Você me encanta com a sua lealdade.
Lucas preferiu não continuar a conversa, virando-se e indo em direção aos seus pais. Alexsandro deu o último gole com um olhar de pugna em sua face.
— Mais vinho, senhor? — perguntou o garçom, estendendo-lhe a bandeja.
Alexsandro nada disse, apenas colocou as duas taças vazias sobre a bandeja e retirou-se.
***
— Eu não vou me casar com quem o senhor escolheu para mim!
— Filho! — Interviu a rainha.
O rei se virou para seu filho com seus olhos em fúria.
— Tornar-se-á uma desonra para a minha descendência! Envergonhará meu reinado! Não seja um insolente! Não paguei estudos caros na Inglaterra para retornar para casa com tamanho desrespeito a mim! O que lhe ensinaram? Desonrar um reino?!
— Dalibor, está exagerando!
— Cala-te, Mira, seu filho enlouqueceu e quer que eu haja calmamente!?
— Não é isso... Mas perceba o que está dizendo. Ele é seu filho antes de ser príncipe!
O rei encarou sua esposa.
— Saia...
— O quê...?
— Saia! — Ele bateu com as mãos sobre a mesa — Minha conversa é com o Hector. Não quero intervenções. — O rei Dalibor II suspirou — Saia... Não me faça gritar, Mira...
A rainha encarou o chão e depois seu filho e assentiu sem dizer mais palavras. Ergueu seu vestido e se retirou da sala.
— Mira.
A mulher parou na porta.
— Se algum convidado vier a perguntar, diga que já estou descendo. Não me demorarei.
A rainha nada respondeu e continuou sua caminhada, fechando a porta ao sair.
— Hector...
— Pai. — O príncipe tentou recomeçar o assunto.
— Não me obrigue a te obrigar.
Hector respirou fundo e prosseguiu em sua negativa sobre o assunto:
— Eu não vou.
— Como ousa!? — Gritou o rei — Por que não!?
Hector hesitou a contar.
— Por que não!? Responda-me!
— Porque eu amo outra pessoa. — O príncipe falava ofegante — E ela virá hoje para a festa.
— Como?
— A princípio achei que a festa fosse para celebrar meu retorno, por isso a convidei.
O rei não se conteve, empurrou tudo o que estava em cima da mesa para a direita, deixando apenas a coroa a sua esquerda. O príncipe abaixou o rosto, fitando o chão.
— Eu sou seu filho antes de ser príncipe, pensei que pensaria o mesmo e não que tomasse decisões políticas sem mim, mas que me recebesse com celebração.
Houve um silêncio, quebrado apenas pelas faíscas que saíam do fogo da lareira.
— Eu não... — O rei olhou para o filho decisivo — Eu não vou permitir isso. Você não tomará as decisões do rei.
Hector olhou para seu pai, dessa vez sem timidez.
— O quê...? — Pronunciou sem que saísse som de sua boca.
— Você disse que não quer se casar por amar outra pessoa. Mas eu não pedi seu amor pela princesa de Tresapter. — o rei Dalibor II pegou sua coroa de cima da mesa e a olhou em suas mãos — Amor não conquista trono. — olhou para seu filho — O amor tira o trono.
Hector não teve reação. Apenas balançava a cabeça negativamente.
— Filho, você precisa entender... — seu pai deu continuidade — Casando-se com a princesa de Tresapter, governará dois reinos e isso não exige amor, — o rei soltou um breve riso — isso exige boa administração do poder que terá para vencer qualquer inimigo.
— Podemos fazer negócios com o rei de Tresapter, eu não...
— Hector! Eu não estou pedindo! Agora eu o ordeno a fazer isso. É um dito do rei!
Hector cerrou o punho e entreabriu os lábios.
— E o que acontece se o filho do rei se recusar a essa ordem?
— Você não faria isso.
— Eu aceito a punição.
— Hector!
— Pois me recuso a casar-me por interesse político!
— Hector!
O príncipe pegou seu casaco que estava sobre a poltrona da sala, abriu a porta daquele aposento e se retirou ao som de seu nome gritado por seu pai.
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