Rei dos Mares
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordo de supetão, como se um canhão explodisse ao meu lado. Estou suando, e por incrível que pareça, meu coração está batendo a mil. Sento-me na cama e ponho as mãos no rosto. Dou um longo suspiro, passo as mãos em meus curtos cabelos castanhos e por fim calço meus chinelos. Desço as escadas da estalagem, e vagarosamente me sento próximo ao balcão, olhando diretamente para o chão.
- Quem diria, hein? — A voz de Many quebra o silêncio da pousada quase vazia. O barman alto, com uma feição quadrada e uma barba que considero estranha, me olha com um sorriso torto, enquanto seca um copo de vidro. – Já faz oito anos.
Eu o fito com desprezo, afinal, essa não é uma data comemorativa. Ele se cala no mesmo instante. Aqueles gritos e gemidos. Pesadelos. A triste memória de uma noite nefasta que não se cansa de se fincar em minha cabeça.
Tiro alguns berries do bolso e deixo-os violentamente em cima do balcão e caminho em direção a porta do pequeno estabelecimento, cansado como de costume. A porta velha e rústica da estalagem emite um rangido alto e nostálgico, que acordaria todos na estalagem, se houvesse alguém além de mim, obviamente. Dou um bocejo longo e me espreguiço.
Os raios de sol da manhã logo me chegam ao rosto, trazendo de volta o sorriso. Risos e vozes suaves me enchem o ouvido, e calma e tranquilamente saio da pousada, passando por pessoas alegres e risonhas. Um alto som de metal desfaz a harmonia de repente. Olho a minha esquerda e vejo uma multidão se formando ao redor de dois homens.
Aproximo-me, tentando abrir caminho entre as pessoas eufóricas, até que chego ao limite da multidão. O da direita é um homem alto, segura um punhal numa postura de ataque, raivoso, com seus dentes a mostra, tendo o golpe bloqueado. O outro já não é tão alto, na verdade deve ter uns 18 anos, porém olha calmamente para o outro, bloqueando a facada com uma soqueira na mão esquerda. Seus olhos são pretos, assim como os cabelos longos, presos por uma faixa.
Num movimento incrivelmente ágil, ele desliza a arma de seu oponente para o lado, desferindo um soco considerável com a mão direita no rosto inimigo. Sou obrigado a recuar alguns metros, quando o homem abatido cai aos meus pés. Com o sangue escorrendo pelo nariz e metade de sua face desfigurada, o homem parece estar em choque:
- C- como?! – grita ainda no chão.
A multidão vai à loucura, gritos escândalos de estourar os ouvidos. Todos exclamando loucamente, apenas eu observo a cena com calma.
- Isso... isso não vai ficar assim! – gagueja o homem, se levantando. – Ollio não vai deixar barato!
Suas palavras ecoam pelos arredores da cidade. Todos agora estão calados. Mudos. Murmúrios enchem o ar por alguns segundos. Surpresos, boquiabertos, todos parecem estar em choque. Olho para todos com cara de interrogação, não entendo. O ser machucado corre cambaleando em direção sul da cidade, choramingando.
- Ollio... Aquele era um dos capangas de Ollio?– sussurra um dos cidadãos da multidão. Quase não consigo ouvi-lo, porém suas próximas palavras são extremamente altas — Ollio está vindo para a cidade!
Tumulto. É o que penso de início. Vejo todos correndo, desesperados, sem tempo até para gritar, soltando apenas gemidos de medo. Pois é, com certeza não é um simples desespero, pois após alguns rápidos segundos não há ninguém nas ruas, exceto eu e o cara de cabelos longos com uma expressão de quem não entendeu nada.
Num ato contraditório a todos as outras pessoas, ele ri. Suas gargalhadas penetram em meus tímpanos, desfazendo esse silêncio perturbador. Das janelas das casas posso ver os olhos dos cidadãos espantados entre as persianas velhas, mais confusos e assustados do que eu.
- Psss... — Ouço um som baixinho, que me chama a atenção. Viro-me de todos os lados, mas não vejo nada além de casas mudas. – Você, pequenininho! – Giro minha cabeça para trás, de onde o som veio. Demoro a perceber, porém entre a mínima brecha da porta de uma das casas, consigo ver um velho que aparenta ter sessenta anos.
– Saia daí! Não é seguro ficar ai fora, saia antes que seja tarde de mais, moleque! – finalmente grita.
Não consigo responder, pois quando vou abrir a boca, o velho fica pasmo. O de cabelos longos para de rir e também me olha com espanto. Vejo a sombra de um homem grande vindo de trás de mim, sobrepondo a minha totalmente, enquanto outras duas menores a seguem atrás. Uma mão cobre minha cabeça por inteiro. Uma mão grande, do tamanho de um crânio adulto. Sem tempo nem para me virar, os braços longos e fortes do homem, melhor, da criatura empurram minha cabeça para o lado, me levando aos ares.
Os destroços são imensos, assim como o som de pedras rachando e caindo aos pedaços. Acabo atingindo uma casa como um míssel, que por azar fora a do velho. Tento me levantar, mas é inútil. Minha perna dói muito, há sangue escorrendo e não sinto os músculos. Quando minha visão volta à estabilidade, vejo o velho cambaleando para fora da cidade e homem de estimados dois metros portando um sorriso maligno caminhando em direção a mim, com um desejo assassino de alguém que ferira seu parceiro.
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