Rei do Baile 2017
1 Festa Magnífica
Notas iniciais
O som estava estupidamente alto, como deveria ser.
Yuuri Katsuki se espremia entre as pessoas para alcançar o bar novamente. Ele estava em outro estado, numa famosa boate do Rio de Janeiro, sozinho na lotada pista de dança. Minako havia insistido que essa seria uma boa forma de comemorar a formatura de Yuuri na faculdade, e insistiu mais ainda para levá-lo ao Barra Music. O evento era open bar e eles não haviam planos para um sábado à noite, então por que não?
Agora se perguntava se valia a pena. Minako o havia deixado para supostamente “ir ao banheiro”, porém Yuuri havia visto o jeito que um rapaz trocava olhares com a amiga e sabia que ela ia demorar um pouco para voltar.
Finalmente chegando ao bar, ele pediu por mais uma Skol Beats. Já tinha perdido a conta de quantas latinhas já havia consumido até aquele ponto.
— Agora, com vocês, a segunda atração da noite: o palco é todo seu, MC Dois L!
Vivas e gritos se espalharam pela pista. MC Dois L era a nova sensação do funk carioca e também o nome artístico do homem chamado Victor Nikiforov. Ou Vitão Nikifarofa, como os cariocas costumavam brincar. 01:30 da madrugada Yuuri questionava se a Minako ainda levaria muito tempo pra voltar.
02:10 ele estava na pista, muito próximo ao palco, dançando como nunca antes e completamente bêbado.
Yuuri demorava para se soltar, mas quando finalmente conseguia, ninguém o segurava. A casa de show estava muito cheia aquela noite, porém de alguma forma Yuuri encontrava um espaço para dançar. Com a batida do funk quase estourando os tímpanos, ele rebolava, requebrava, ia até o chão, punha as mãos no cabelo jogando a franja pra trás enquanto mordia o canto da boca.
Cara, ele era bom. Como se seu corpo tivesse vida própria.
As pessoas em volta pareciam não ligar. Estavam todos muito bêbados e o ambiente muito escuro para processar qualquer coisa que estivesse acontecendo a duas palmas de distância.
Porém uma pessoa estava completamente hipnotizada por esse paulista: nosso querido Vitão Nikifarofa.
Do palco, Yuuri se destacava no meio da multidão. Victor simplesmente não conseguia parar de olhar: o jeito que ele jogava a bunda pra frente e pra trás, como seu corpo era solto o suficiente pra fazer diversos body rolls e principalmente como ele estava tremendamente sexy com o cabelo suado jogado pra trás.
Provavelmente o garoto sentiu que estavam olhando pra ele e virou o rosto para encarar Victor. Seus olhos se encontraram mesmo a metros de distância. Yuuri deu um sorriso pervertido pro artista e voltou a dançar como antes, dessa vez de costas pro palco. Victor não conseguia disfarçar o sorriso no seu rosto e de repente o ambiente ficou quente até demais. Ele precisava daquele rapaz o quanto antes. Aquilo havia sido um convite?
No meio do show, Yuuri saiu da frente do palco e sumiu da visão de Victor. “Provavelmente cansou ou foi pegar uma bebida” Nikiforov pensou. Só que o show acabou e Yuuri não havia voltado…
02:30 Victor estava no backstage arrumando seu equipamento tentando se convencer que ir atrás daquele homem era loucura. Ele não parecia estar convencido, na verdade. Um outro MC já havia começado seu show e ele tinha quase certeza que o misterioso dançarino ainda estava por lá.
Dane-se, Victor não conseguia mais ficar esperando.
Sorrateiramente conseguiu escapar da zona dos artistas para a pista. As pessoas esbarravam toda hora nele enquanto rondava com os olhos os rostos procurando um em específico. O Barra Music era grande, mas naquela noite ele parecia gigantesco. Victor já estava desistindo, concluindo que Yuuri deveria ter ido para casa ou sumido em algum canto com alguma pessoa. Sim, ele devia estar com outro ou outra a essa altura do campeonato. É claro que ele não havia sido o único a notá-lo dançando daquele jeito, não é?
Até que, no começo de uma música bem famosa, enquanto o público vibrava de aprovação, um copo de cerveja surgiu no meio de todas aquelas cabeças.
Então ele o achou. E pra sua alegria, ele estava sozinho. Não estava dançando provocadoramente como antes: apenas pequenos passinhos de um lado pro outro enquanto apreciava sua cerveja.
— Ok, Vitya, essa é sua chance. Vai lá, vai lá.
Seu coração martelava quase que no ritmo da batida. Ele estava muito nervoso, mesmo já tendo por situações iguais muitas vezes. Aquilo era diferente. Aquele era diferente.
Yuuri não percebeu a presença de Victor se aproximando até que este pôs uma das mãos no seu ombro:
— Posso dançar com você? — Victor falou próximo ao seu ouvido.
Os olhos de Yuuri, confusos por conta do álcool, demoraram até focar na pessoa a sua frente. Virar a cabeça fazia tudo girar por um tempo.
Yuuri concordou com a cabeça enquanto dava mais um gole na sua bebida.
Victor começou a acompanhar o movimento de Yuuri de um lado pro outro sem quebrar contato visual. Yuuri reconhecia aquele homem de algum lugar… O rosto era familiar. Muito familiar.
Enquanto Yuuri observava confuso aqueles olhos azuis, Victor pegou o copo de cerveja da mão de Yuuri, já quase vazio, e virou. Yuuri achou inusitadamente provocante o jeito que ele bebia. Victor havia feito isso de propósito para instiga-lo. O MC jogou o copo vazio no chão, perto de um casal que se pegava ao som da música. Ninguém tinha tempo e cabeça pra se preocupar com lixo naquele momento.
Os corpos dos dois estavam praticamente colados um no outro. Victor posicionou a cabeça ao pé do ouvido de Yuuri:
— Você ainda não me disse seu nome.
— Yuuri. Eu me chamo Yuuri. E você é…
Finalmente a mente de Yuuri deu um estalo. ELE ERA O MC DOIS L! Ele não podia acreditar que 1) não o havia reconhecido antes e 2) eles estavam dançando juntos.
— VOCÊ É O DOI-
Victor impediu que Yuuri terminasse a frase selando os lábios dele com o dedo indicador, fazendo sinal de silêncio.
— Essa noite eu sou apenas Victor.
Victor trouxe Yuuri ainda mais perto de si, fazendo com que os dois realmente se colassem, segurando-o pela curva da lombar.
— Será que… Você poderia me mostrar aquela dança de antes?
Yuuri deu uma leve risadinha de canto de boca.
— Se você conseguir me acompanhar.
Com uma das pernas do Victor praticamente entre as suas, Yuuri começou a rebolar e a descer lentamente. Victor seguia seus movimentos e os dois desceram até o chão juntos. Depois subiram, também sincronizados. Yuuri deu um giro, jogando a perna pro alto e empinando a bunda exatamente a frente do quadril de Victor. Ele começou a quebrar o rebolado quase se roçando contra Victor. Victor, por sua vez, estava embasbacado mordendo a boca com tanta força que podia sentir um leve gosto de sangue. Yuuri sabia de fato provocar.
Victor pôs as mãos nos quadris de Yuuri para lembrá-lo que estavam dançando juntos. Yuuri mudou sua postura, escorando as costas no torso de Victor e os dois se mexiam no mesmo ritmo.
— Em São Paulo as pessoas não dançam tão bem — Yuuri disse praticamente gritando para que Victor conseguisse ouvi-lo.
— Você não é daqui?
— Não!
— Espero que esteja gostando do Rio.
— Eu tô amando esse lugar!
Yuuri dançava ainda mais animado. Victor também estava perdido no momento.
— Eu já estive em muitos estados. Fazendo show, sabe? – Victor falava em seu ouvido — Mas nunca fiquei com um paulista antes.
E deu uma leve mordidinha na ponta da orelha de Yuuri.
O moreno virou o rosto para encontrar o de Victor e eles se beijaram. Quebrando o beijo por um momento, Yuuri se virou de frente pra Victor novamente, entrelaçando suas mãos nos cabelos platinados do funkeiro. Victor pressionava o quadril de Yuuri junto ao seu, passando as mãos pela parte inferior das suas costas e gradativamente descendo o toque. O beijo deles era intenso, rápido e repleto de libido.
Yuuri de repente empurrou Victor com uma mão e com a outra tapou a boca. Ele não parecia bem.
— Banheiro. Preciso de um banheiro.
Victor passou um dos braços de Yuuri pelos seus ombros para carregá-lo até o banheiro. A mistura de diferentes tipos de álcool finalmente apresentava seus efeitos colaterais e Yuuri estava prestes a dar PT no meio da pista.
No meio do caminho, Minako reapareceu com um semblante preocupado, que ficou ainda pior ao reconhecer Yuuri sendo carregado por um estranho.
— Yuuri, eu estava te procurando por todo lugar! É por isso que não posso te deixar sozinho, tá vendo? Você não sabe beber!
— Ele é seu amigo? — Victor perguntou enquanto os três continuavam a andar em direção ao banheiro masculino.
— Sim, a gente veio junto. Pode deixar ele comigo, eu cuido dele.
Minako pegou o braço que estava apoiado em Victor e apoiou no seu próprio ombro.
Logo Victor estava sozinho no final da pista do Barra Music, tentando processar aquela noite.
Ele havia se apaixonado naquele instante. Eles dançaram juntos. Eles tinham uma sinergia muito boa. E infelizmente a única coisa que ele sabia sobre Yuuri era o seu nome.
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Dois meses se passaram e Victor ainda não havia esquecido aquela noite. Vira e mexe pegava-se perguntando onde estaria o rapaz do Barra Music. Por que ele não havia entrado em contato? Victor era uma figura pública, não era tão difícil encontrá-lo.
Ele estava deitado no sofá de sua casa, procurando inspiração para uma nova música e coreografia. O papel de rascunho estava repleto de rabiscos com o nome de Yuuri e desenhos do garoto.
Então, o celular tocou.
— Victor, você já viu o vídeo que viralizou?
— Ainda não. Que vídeo é esse?
— Vou te mandar o link e você vai entender.
O MC achou que iria enfartar quando abriu um vídeo do youtube chamado "Yuuri Katsuki dança '7 da Manhã' "
"Yuuri?" Não acreditava no que estava vendo em seu celular. Ao dar play no vídeo, não teve dúvidas: era ele. Yuuri estava dançando a sua própria música, sua própria coreografia, até melhor que o próprio Mc Dois L, ele ousava dizer.
Agora que sabia o seu sobrenome, poderia encontrá-lo. E ainda teria uma desculpa muito convincente, caso o episódio daquela noite não fosse o suficiente.
Ao mesmo tempo, a TV ligada na sala passava o comercial da famosa competição nacional de dança: o Rei do Baile 2017, sua 4ª edição. Tratava-se de um torneio amador de funk, este ano sediado no próprio Rio de Janeiro, com transmissão nacional e patrocínio de grandes empresas. O vencedor, além de prêmio em dinheiro, recebia uma faixa, uma coroa e poderia até mesmo se tornar dançarino profissional, caso despertasse interesse de algum artista.
Victor, ainda incrédulo, assistiu ao vídeo novamente.
As inscrições para o campeonato ainda estavam abertas.
E ele teve uma ideia.
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