Rei do Baile 2017
2 Deixa se envolver
Notas iniciais
Dia complicado.
Yuuri havia acordado atrasado, pego o metro lotado no rush de São Paulo e tinha certeza que havia mandado mal na entrevista de emprego — a quarta desde que se formara — devido a sua ansiedade. Pelo menos dessa vez não o haviam reconhecido como “o garoto daquele video do Youtube”. Ou se reconheceram, não falaram nada.
Já passara um pouco da hora do almoço quando resolveu pelo menos tomar um café pra animar e acabou queimando a língua com a bebida tão quente. Foi quando também recebeu uma mensagem da Minako dizendo para ele se dirigir o mais rápido possível até a loja. A lanchonete dos seus pais, no caso.
O dia estava longe de terminar.
Quando chegou ao Mercado Municipal, não estranhou o grande fluxo de pessoas por ali. Era comum ter bastante movimento no começo da tarde. O que chamou sua atenção foi chegar ao segundo andar e avistar já ao longe um certo bafafá, pessoas fazendo comentários animadas, tirando foto da lanchonete.
A princípio pensou que se tratasse de uma equipe de TV. Eles sempre faziam reportagens no Mercadão nessa época do ano.
Minako avistou um Yuuri receoso se aproximando devagar da área dos clientes, tentando entender o que estava acontecendo. Trocaram um aceno e a mulher foi em sua direção.
— Ele quer falar com você.
Ele? Ele quem?
Yuuri espiava por cima do ombro de Minako procurando quem quer que fosse, enquanto ela ajeitava o seu colarinho.
Então Yuuri viu uma figura de cabelos platinados, de óculos escuros, lendo atentamente o cardápio da lanchonete. Gelou.
— Anda, vai lá, o Victor tá te esperando — E o empurrou em direção às mesas.
O garoto relutantemente caminhava entre as mesas, querendo que a de Victor nunca chegasse. Ele realmente não queria conversar, muito menos com uma pessoa famosa.
Victor percebeu Yuuri se aproximando e sorriu. Fechou o cardápio e preparou para seu anúncio triunfante:
— Yuuri! — Ele levantou e tirou os óculos — A partir de hoje, eu serei seu coreógrafo. Eu vou te fazer o novo Rei do Baile!
E piscou.
Yuuri parou no meio do caminho, atordoado e boquiaberto.
— O QUEEEEEE?!?!
Victor puxou a cadeira que estava a sua frente do outro lado da mesa.
— Senta aí, temos que conversar.
Os dois se sentaram à mesa. Yuuri claramente desconfortável, Victor super empolgado.
— Você veio porque viu aquele vídeo, não é?
— Sim, eu vi o seu vídeo. Eu vi potencial em você e estou disposto a investir nisso.
Yuuri suspirou:
— Olha, eu não sei bem se quero fazer isso… Eu tenho uma profissão e esse vídeo já me causou problemas o suficiente.
— Tem, é? É por isso que você estava procurando emprego hoje de manhã?
— Como você… Ah, a Minako — Yuuri a fuzilou com os olhos — Foi ela quem te trouxe aqui?
— Na verdade foi você quem me trouxe aqui, mas sim, ela me ajudou a encontrá-lo.
Yuuri considerou a situação por um momento, enquanto fitava Dois L. Estava tentando ler o que Victor estava pensando, sem sucesso. O clima na mesa era de expectativa.
— Tudo bem, vou ouvir o que você tem a dizer. É o mínimo que eu posso fazer depois de ter vindo até aqui.
Os olhos de Victor brilharam.
— Excelente! Mas antes, Yuuri… Você poderia me ajudar a escolher algo pra comer? Qual sua comida favorita daqui?
“Que pergunta inusitada”, Yuuri pensou.
— Eu recomendo esse — respondeu apontando para um nome no cardápio.
— Sanduíche de mortadela? Isso é bom?
— É maravilhoso, você vai ver.
Victor foi até o balcão fazer o pedido. Enquanto isso, Minako tentava se comunicar por mímica com Yuuri.
Ela apontava pra Victor e gesticulava pra cima com a cabeça, dando de ombros. “O que ele quer?”
Yuuri apontou pra si mesmo, depois pra Victor. Fez um gesto de dança na cadeira. “Ele quer que eu dance”
Minako repetiu o gesto, numa ordem diferente: Yuuri, mímica de dança, Victor. “Dançar com ele?”
Yuuri negou com a cabeça e fez um sinal de “Depois a gente conversa”
Victor retornou ao seu lugar com uma plaquinha de número 42.
— Como eu estava dizendo, eu quero ser o seu coreógrafo pro Rei do Baile esse ano. Eu acredito que você consegue ganhar.
— Tá, mas eu não tenho nenhum lugar próprio pra ensaiar. Tenho até uns amigos que são donos de uma academia e eu costumava dançar lá quando queria, mas… O horário da academia é bem restrito e é um local muito público também. Como a gente faria isso?
— Eu já pensei em tudo: você viria pro Rio comigo e ensaiaríamos no meu estúdio! O que você acha?
— S-Seu estúdio? – Yuuri falou levantando as sobrancelhas.
— Exato. Sem precisar agendar horário, pagar aluguel. Comida e roupa lavada…
— Como assim comida e roupa lavada? É sua casa, por acaso?
Victor coçou a cabeça.
— Aqui está seu pedido, senhor.
Victor agradeceu sorrindo. A garçonete voltou toda sem graça para o balcão. Yuuri se sentiu um pouco balançado também.
— Como se come isso? É enorme!
— Você põe na boca o máximo que conseguir.
Victor deixou escapar uma risadinha. Yuuri ficou completamente envergonhado depois que percebeu o que tinha acabado de dizer.
— Ai, Yuuri, você é um cara engraçado mesmo.
E mordeu um pedaço do pão. Todo o sabor e gordura dos 300g de mortadela se fundia com a textura do queijo derretido, finalizando com o toque do pão quentinho.
— Vkusno! Isso é maravilhoso mesmo!
Victor devorava o lanche enquanto Yuuri aguardava engessado no lugar. Não conseguia ficar relaxado na presença dele.
O MC limpou a boca no guardanapo e continuou:
— Sobre o meu estúdio… Bem, o meu estúdio particular fica na minha casa. Então você ficaria por lá também.
Yuuri ponderou. Se mudar pro Rio de Janeiro assim, da noite pro dia? Loucura! E ainda mais morando com o Dois L? O que esse homem estava pensando?
— Eu preciso pensar sobre isso com calma. É bem repentino.
— Sem problemas, eu entendo. Estarei esperando sua resposta até amanhã à noite.
Victor deslizou pela mesa um cartão com o seu número.
Yuuri agradeceu e guardou o cartão no bolso da calça. Educadamente se levantou e se despediu.
— Yuuri, só me promete que vai pensar com carinho nessa oportunidade.
O garoto fez que sim com a cabeça e se dirigiu até a saída onde Minako o aguardava.
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Yuuri havia passado o resto do dia indo de um lado pro outro da casa tentando processar tudo. Sentava-se no sofá, trocava de posição umas três vezes antes de voltar a andar em círculos pela sala. Tentava ler o jornal pra se distrair e não conseguia focar nas palavras. Ligava a TV e as vozes simplesmente não entravam em seu ouvido. Não havia como escapar dos seus pensamentos.
O telefone vibrou.
“E aí, já decidiu?”
Minako, esse não era exatamente um bom momento pra cobrar respostas do Yuuri.
Ele resolveu ligar o modo avião e deixar o telefone longe de seu alcance.
Foi para o seu quarto e sentou-se na cama. De repente o cômodo parecia maior que o normal. Sentia que as paredes poderiam engoli-lo a qualquer momento. Só havia um lugar para ele ir: o salão da academia.
Trocou de roupa e saiu disparado pela porta do apartamento.
Na academia encontrou Yuko e perguntou se poderia usar o salão.
Sim, ele estava livre.
Na sala espelhada, Yuuri pôs uma seleção das suas músicas favoritas. Hip hop. Valsa. Latina. Pop. Ele sabia dançar uma variedade bem grande de estilos.
O fato é que o único lugar que ele se sentia tranquilo era na pista de dança. Sua mente se esvaziava por completo e seu corpo tornava-se mais leve. Yuuri não sabia, mas Yuko costumava observá-lo pela porta de vidro. Não era todo dia que se podia ver um dançarino daquele nível bem na sua frente.
— Yuuri, já vai dar 19h. Vamos ter aula coletiva agora.
Hmm? Já era noite? Por quanto tempo ele havia estado no salão?
Yuko o acompanhou até a saída da academia.
— Antes de você ir embora, quero conversar contigo.
Os dois pararam de frente para a academia, na calçada. Yuuri ofegante e um tanto suado da dança, Yuko com uma aparência séria.
— Aconteceu algo? Quando você chega assim de repente, muito quieto…
Eles se conheciam bem. Afinal, eram amigos de infância. Os dois haviam frequentado a mesma escola de dança por um tempo, mas depois pararam de ir às aulas para focar nos estudos.
— Eu tenho que fazer uma decisão importante, mas não consigo chegar numa resposta. Eu não sei o que fazer.
— Acho que, na verdade, no fundo, você sabe. Você sempre sabe. Só está assustado em admitir.
Yuuri absorveu aquele conselho.
— Muito obrigado por tudo.
Eles se abraçaram e Yuuri voltou pra casa.
Tarde da noite, deitado na cama, aquelas palavras martelavam na sua cabeça.
“Eu vi potencial em você e estou disposto a investir nisso”
“Só me promete que vai pensar com carinho nessa oportunidade”
“No fundo você sabe. Você sempre sabe”
Ele não conseguia dormir porque seu coração batia muito forte de felicidade. Yuko estava certa, ele sabia o que tinha que fazer.
Levantou, acendeu o abajur ao lado da cama e saiu procurando a calça que tinha usado na entrevista pela bagunça do quarto. Achou o cartão no bolso e digitou o número no celular. Fitou a tela por um instante, com as mãos tremendo. Reuniu toda sua coragem para apertar o botão de discar.
…PI…
…PI…
…PI…
— Alô, Victor? É o Yuuri. Eu me decidi.
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A casa de Victor era um baita casarão, pra ser sincero. Localizado no bairro de Laranjeiras, Zona Sul do Rio, contava com 2 andares, piscina, 3 quartos, uma suíte, além do estúdio nos fundos e a garagem ao lado. Yuuri nunca havia visitado uma residência tão grande e bonita.
Victor ajudava Yuuri com as malas enquanto mostrava a casa. Do portão de madeira estendia-se uma trilha de pedras de São Tomé até a entrada da casa: uma porta dupla de vidro. À direita da trilha ficava a piscina.
Enquanto faziam o trajeto pela trilha, um enorme poodle marrom veio correndo na direção deles e pulou em cima de Victor, quase o derrubando no chão.
— É bom ver você de novo também, Makkachin.
— Seu Victor, você já voltou! Bem que o senhor disse que seria rápido.
Uma mulher baixinha, com o cabelo firmemente preso em um rabo de cavalo, veio depressa atrás de Makkachin.
— E quem é esse aí?
— Esse é Yuuri, meu novo aluno. Yuuri, essa é a Neide. Ela me ajuda a cuidar da casa.
Eles se cumprimentaram educadamente.
— Bem-vindo, meu filho! Se esse daí te incomodar com algo me avisa que dou uma sarabanda nele. E olha, Seu Victor, vou ajudar a levar as malas lá pra dentro e já tô indo. Deixei a casa do jeitinho que você pediu.
Ao passar pela porta de vidro, chegava-se até a sala. Do lado da elegante escada em caracol de madeira ficava um sofá de 4 lugares, juntamente a uma televisão de 50". A cozinha americana ficava no extremo esquerdo do cômodo e a mesa de jantar com uma espaçosa estante, no extremo direito. Yuuri percebeu que havia uns móveis fora do lugar, no canto. Pareciam puffs.
Os três deixaram as malas ao pé da escada e Neide se despediu, reforçando que voltaria na semana que vem.
Da sala, chegava-se em mais quatro cômodos: o banheiro, o quarto de mixagem com acabamento acústico e o quarto de empregada. Um portal de madeira conectava a cozinha com a área de serviço. Subindo as escadas, a porta da direita era a suíte onde Victor dormia. A suíte dava pra uma arejada varanda com vista para o quintal, de onde se observava a piscina e a rua. Havia uma pilha de roupas bem dobradas no canto do quarto, o que Yuuri também estranhou.
— Agora, esse quarto do outro lado do corredor eu usava como closet. Precisei dar uma improvisada…
Ah, então os puffs eram dali.
O quarto-closet contava com uma cama queensize, duas cabeceiras e um armário de portas espelhadas embutido em L.
Eles se sentaram na cama.
— Seu closet já é maior que meu quarto inteiro.
Victor riu.
— Ele havia sido planejado pra ser um quarto mesmo. Esse aqui é o seu, aliás. E se você não se sentir confortável com todos esses espelhos…
Victor chegou mais perto de Yuuri, pondo uma de suas mãos em cima da do paulista e levantando ligeiramente seu queixo com a outra:
— Você pode dormir comigo também. Pra gente se conhecer melhor, quem sabe.
Yuuri, no susto, se afastou até o outro lado do quarto. Victor parecia confuso.
“Talvez ele realmente não queira lembrar daquela noite. Vamos fazer isso do seu jeito, então. Eu aguento”
— Pode deixar, eu fico com esse quarto.
Yuuri passou os olhos pelo quarto, ainda admirado e um tanto envergonhado com o que tinha acabado de acontecer.
— Minhas coisas vão ficar aqui também?
— Sim, eu abri espaço nos armários justamente pra você. Fique à vontade.
E isso explicava a estranha pilha de roupas.
— Agora — Victor levantou da cama — deixe te mostrar o principal: o estúdio.
Saindo pela porta de vidro, à esquerda encontrava-se outra trilha de pedras de São Tomé, que se dirigia até os fundos do terreno. O estúdio também possuía uma porta dupla de vidro, parede espelhada, um imenso janelão e caixas de som embutidas. O chão era de tábua corrida e de certa forma lembrava o espaço da academia de Yuko.
Só que muito maior.
— É aqui que vamos passar a maior parte do dia. Gostou?
— Gostei, gostei. É impressionante.
— Por hoje é isso. Descansa, arruma seu espaço, liga pro seus pais pra avisar que tá bem. Depois me procura pra fazermos sua inscrição e amanhã a gente começa pra valer.
Makkachin entrou no estúdio e começou a cheirar Yuuri. O garoto afagou a cabeça do cachorro, que gostou do carinho.
— Posso brincar com ele também?
— É claro!
~~~~~~~~
Manhã do dia seguinte, inscrição feita, café-da-manhã na barriga, os dois estavam sentados no chão do estúdio.
— O que você sabe dançar?
— Um pouco de tudo. Quer dizer, não tudo, tudo. Você entendeu.
— Bem?
— É… De certa forma.
— Hmm… Você fez aula antes?
— Um pouco. Precisei parar pra faculdade.
— Entendo. Se importa em me mostrar?
— Agora?
— É.
Yuuri se levantou do chão.
— O que você quer que eu dance, exatamente?
— Vejamos…
Victor pegou o pequeno controle remoto do rádio e começou a passar pelas músicas.
— Hip Hop.
Yuuri reconheceu a música, era uma bem famosa. Marcada por passos bem rápidos, flexibilidade do tronco e jogadas de cabelo, a coreografia improvisada de Yuuri era boa. Muito boa. Excelente.
— Samba.
Yuuri ria enquanto dançava:
— Como você adivinhou que sou horrível em samba?
Ele dançava de um jeito meio desengonçado. Victor começou a rir:
— Não é horrível, o problema é que você tá mexendo os pés rápido demais. Se você for mais devagar, vai conseguir também. Próxima… Pop. Essa eu quero ver.
Uma voz feminina harmonizada com um arranjo-chiclete tomou conta do estúdio.
Yuuri agora parecia ter incorporado uma diva pop, dançando de um jeito bem feminino. Victor estava gostando do talento de seu aluno.
— Funk.
Quando o batidão do funk começou, Yuuri mudou os passos. Fazia um ótimo trabalho com as pernas, gingado de corpo e fantásticas encaixadas de quadril. Mas estava faltando algo essencial.
Victor aguardou uns instantes antes de desligar a música. Então se levantou e foi até Yuuri.
— O que houve? Cadê aquele rebolado todo? Aquela empinada?
— Eu não consigo fazer isso.
Agora Victor não entendia mais nada.
— Como assim não consegue?
— É, não consigo, eu travo! Não sei jogar a bunda daquele jeito todo.
Ele não acreditava no que estava ouvindo. Aquilo no Barra Music havia sido o quê então?! Victor cruzou os braços.
— Tenho certeza que você consegue sim. E você nem tentou aqui! É só imaginar algo que seja provocante pra você. Que te faça perder a razão só de pensar… Esse tipo de coisa.
Yuuri ficou pensativo por um momento antes de exclamar:
— JÁ SEI! SANDUÍCHE DE MORTADELA! É O QUE ME PROVOCA MAIS QUE TUDO!
Victor estava sem reação.
— Não sei se era exatamente disso que eu estava falando, mas se vai te ajudar por hora, tudo bem. Acha que consegue?
— Sim, agora tô confiante. Por favor, fique olhando. Eu serei o sanduíche de mortadela mais suculento que você já viu.
Victor não sabia onde isso ia o levar nem o que esperar. Achou melhor não comentar nada para não tirar o dançarino da recém-criada zona de conforto.
— É claro que ficarei olhando. Afinal, eu amo sanduíche de mortadela.
Victor deu espaço a Yuuri e voltou a colocar a música. Dessa vez Yuuri conseguiu dançar, porém meio rígido e com metade da sensualidade havia mostrado naquela noite. Conseguiu até fazer um quadradinho.
“Não sabe, né… Conta outra”
Eles teriam que trabalhar um tanto nisso.
Satisfeito com o que tinha visto até aquele ponto, Victor pausou a música novamente.
— A tarefa agora é pensar numa música que queira dançar na competição. Uma que você sinta que consegue vencer se dançá-la. Tem alguma em mente?
— Mas e a segunda música? Se eu chegar na final, vou precisar de duas coreografias, não é? Uma pra eliminatória e outra pra final.
— Eu já escolhi a música da final. E agora que vi mais movimentos seus, posso começar a pensar na coreografia. Por enquanto pense na música que você quer usar.
Yuuri concordou com a cabeça.
Havia uma música que ele gostaria de dançar. Sabia até a coreografia de cabeça. Ele precisava tentar.
— Tenho uma música em mente. Menina Má. Foi uma das primeiras que aprendi.
— Oh… É um pouco antiga, mas se você se sente confiante, tudo bem. Dança pra mim.
Yuuri pegou o celular e o conectou via bluetooth com o sistema de som do estúdio. No Youtube, carregou a música. Se posicionou de costas ao espelho.
A coreografia já começava com um semi-giro e jogada de bumbum, que depois quebrava em 3 tempos. O movimento de corpo em seguida era bem feminino, que emendava num gingado de corpo inteiro. O restante da dança seguia mais ou menos esse padrão. Victor constatou de fato que a flexibilidade do tronco e do quadril era a maior qualidade de Yuuri. Aquela coreografia tinha bastante potencial nas mãos dele.
Quando Yuuri terminou, Victor aplaudiu e começou com os comentários:
— Sua jogada de bumbum ainda precisa melhorar. Seus body rolls são ótimos. É uma dança um tanto feminina, mas de certa forma encaixa em você. A gente precisa tacar uma graxa nesse quadril aí.
— É, eu sei…
— Faz aquele movimento do início de novo. Devagar.
— Eu faço o giro, então jogo o quadril e…
— É aí que você tá errando. Olha, vou fazer pra você ver.
Victor fez o giro e então empinou a bunda, num movimento natural e leve. Depois emendou no requebrado de 3 tempos.
— Pra você empinar, você não usa o quadril. Você usa os músculos do abdômen. Pra requebrar, aí você usa o quadril. Tenta de novo.
Yuuri tentou, sem sucesso.
— É muito difícil.
— Eu te ajudo, vai lá.
Yuuri girou. Então Victor o segurou pela cintura, de lado pra ele, uma das mãos na barriga e outra na lombar.
— Aqui, mexe aqui — Victor disse fazendo movimentos circulares na parte inferior da barriga — Contrai mandando pra dentro e depois solta jogando o peso de trás.
E aí Yuuri finalmente conseguiu.
— É isso aí, pegou o jeito. Agora é treinar.
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O paulista ainda encontrava dificuldades para realizar a coreografia perfeitamente. O “fracasso”, como assim enxergava, estava deixando-o triste. Ele queria ser capaz se corresponder às expectativas de Victor, mas se via incapaz de tal feito.
Alguns dias depois, Yuuri passou a evitar seu coreógrafo.
— Yuuri, vamos almoçar juntos!
— Não tô com fome agora.
— Yuuri, vamos tomar um banho de piscina!
— Eu acabei de sair do banho, deixa pra outro dia.
— Yuuri, vai passar um filme de terror de madrugada, vamos assistir!
— Hoje não, tô cansado. Quero minha cama.
Victor já estava perdendo a paciência. No final da tarde, invadiu o quarto-closet para tirá-lo lá de dentro.
— Yuuri, vamos levar Makkachin pra passear.
E agora não tinha como recusar o convite.
Os 2 passeavam quietos pelas ruas arborizadas de Laranjeiras. Pelo menos Makkachin parecia estar se divertindo. Victor resolveu quebrar o silêncio:
— Sabe, olhar para essas árvores me faz pensar no meu tempo de adolescente. O lugar onde aprendi a dançar, no Grajaú, também tinha árvores grandes assim e na época achava que jamais sairia de lá.
Yuuri se encolheu entre os ombros.
— Por que você tem me evitado tanto?
Ele demorou um pouco para responder.
— Porque… Eu não queria que você visse o meu lado ruim.
— Como assim?
— Um tempo atrás, um amigo nosso foi internado com dengue, ele estava muito mal e eu estava com muito medo de perdê-lo. Uma amiga tentou me confortar e eu acabei a afastando com um tapa. Isso me deixou péssimo. Eu só não queria que ela me visse como um cara fraco. Com você é a mesma coisa. Não queria que me visse nesse meu estado de agora.
De certa forma, abrir seus sentimentos pra ele não havia sido tão difícil.
— Você não é fraco. Ninguém acha isso. Eu também não acho.
Fez-se silêncio por um momento.
— Escuta, que tipo de intimidade você quer que eu tenha contigo?
— Intimidade?
— É, se você quer que eu seja um pai pra você. Ou um irmão. Amigo. Quem sabe até namorado.
Yuuri sentiu um arrepio percorrer a espinha.
— Não, não, não precisa fingir nada disso! Eu só quero que você seja o Victor mesmo. Só Victor.
O mais velho assentiu.
— Então eu não vou pegar leve nos treinos. Essa é a forma de demonstrar o meu amor.
Yuuri deixou aquela frase assentar por um momento em sua mente. Eles deram um aperto de mão pra selar o acordo.
"O Victor me respeita. Ele só invade o tanto que se deixou invadir”, concluiu.
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Depois de uma semana, Victor já havia terminado de coreografar a música de sua escolha e já estava ensinando-a para Yuuri. Mais uma vez eles estavam no estúdio. Era uma dança mais ousada que a primeira, propositalmente.
— 2, 3, 4, virou, jogou, desceu, 1, 2…
Yuuri estava tendo dificuldades pra acompanhar os movimentos. Victor deu uma pausa no treino.
— Por que você consegue fazer os passos em separado, mas não consegue juntá-los na coreografia?
De repente o chão pareceu muito interessante na visão de Yuuri.
— Me falta confiança — disse baixinho.
— Isso. E o meu papel aqui é fazer você confiar em si mesmo. É o único elemento que tá faltando.
— Mas de todas as músicas precisava mesmo ser “Você Foi Diferente”?
— Já te expliquei a situação. O grande vencedor e seu principal inimigo no Rei do Baile é o Chris. Você viu os vídeos dele comigo e sabe o estilo de dança que ele tem. Se você quiser vencê-lo vai precisar de uma apresentação daquele nível.
Yuuri sabia que era verdade. Ele levantou o rosto para encarar o MC.
— Como você pode ter tanta certeza que eu consigo dançar desse jeito?
Victor se aproximou do seu aluno.
— Ninguém no mundo conhece o seu verdadeiro poder ainda, Yuuri — Agora estavam com os rostos quase colados — Eu espero que você consiga me mostrá-lo de novo em breve.
Yuuri sentiu o rosto ferver. Depois, atentou a um detalhe.
— O que você quer dizer com “de novo”? Tá falando do vídeo?
Victor se afastou, surpreso.
— Você não lembra?
— Do quê?
— Daquele dia… No Barra Music.
Yuuri ficou mais surpreso ainda.
— Como você sabe que eu fui no Barra Music? Você me viu lá?
— Era impossível não te ver, você estava lá na frente do palco! No meu show!
Victor desabou no chão, incrédulo. Ele devia ter imaginado que isso pudesse acontecer.
— Eu só lembro de estar no bar, bebendo… E depois de estar no banheiro vomitando com a Minako.
Victor riu de nervoso. Estava perplexo demais pra falar alguma coisa.
— Peraí, eu tava dançando no seu show?
— Se estava…
Yuuri nunca havia estado tão vermelho antes. Era por isso que ele estava exigindo tanto. Por isso tinha tanta certeza que ele poderia ganhar. Dessa vez foi a vez dele sentar no chão pra assimilar a nova informação.
— Sempre que eu bebo acabo perdendo o controle e fazendo o que não devia. É de família. Céus, isso sempre acontece.
— Mas você sabe que o álcool não te obriga a nada, né? Tudo o que você faz bêbado é vontade sua. A diferença é que você perde o “filtro”. E acaba fazendo ou falando coisas que antes estavam reprimidas pelo seu consciente.
Yuuri franziu a testa.
— Você está me dizendo que em algum lugar dentro de mim há uma integrante da Gaiola das Popozudas oculta? E que eu tô prendendo ela?
Victor riu ainda mais.
— É, é bem isso que quero dizer. Entende agora? Você consegue. Só precisa se deixar levar.
— Como vou conseguir fazer isso sem estar bêbado?
Victor pôs a ponta do dedo indicador no coração de Yuuri.
— Com confiança.
Seus olhos se encontraram e o estúdio ganhou um clima diferente.
— Ok, vamos tentar de novo — o moreno disse levantando, ajudando Victor a se erguer do chão também.
Yuuri estava determinado a mostrar todo o seu Eros na competição. Naquela noite, os dois dançaram até tarde. Primeiro era apenas coreografia e treino. Depois Victor resolveu passar pelas músicas da playlist pra deixar de fundo durante um breve intervalo. Acontece que a próxima música era justamente uma da Shakira que ele adorava e não conseguiu ficar parado. Começou a dançar pra descontrair e logo Yuuri também estava dançando. Quem consegue se segurar com uma boa música latina?
Quando deram por si, estavam dançando juntos pelo salão de dança, se divertindo como nunca antes.
Victor pode sentir de novo aquela sinergia da noite na boate. Ele tinha certeza que Yuuri era a pessoa certa.
Yuuri também sentiu a harmonia que havia entre eles. Percebeu que formavam um belo par. E ele estava feliz e orgulhoso de ser o par de Victor naquele espaço. Não queria que ninguém tomasse o seu lugar, agora ou no futuro.
Chegou até mesmo a tocar música clássica.
— Me concede a honra da dança, Sr Katsuki? — Victor disse pegando a mão direita de Yuuri.
— Toda, Sr Nikiforov. Só aviso que nunca dancei na posição de conduzido antes.
— Tudo bem, eu sou um condutor cuidadoso.
Enquanto a mão direita de Yuuri era segurada pela esquerda de Victor, sua outra apoiava-se no ombro do MC. Já a direita de Victor segurava delicadamente a parte de trás dos ombros de Yuuri.
E juntos dançaram uma valsa. Ou tentaram pelo menos:
— Ai, você pisou no meu pé! De novo! — Victor reclamava pela quinta vez, em tom de brincadeira.
Faltavam apenas 2 semanas para o grande dia.
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EXTRA:
No café-da-manhã, Yuuri estava sentado na bancada da cozinha americana tomando café enquanto se atualizava nas redes sociais pelo celular. Victor estava no fogão preparando um omelete. Ele começou a abrir os gabinetes de cima procurando o orégano. Em uma das portas, Yuuri avistou algo que chamou sua atenção:
— Ô, Victor, tem como passar a bolacha pra mim, por favor?
Ele se virou.
— O que você disse?
— Eu pedi pra você pegar aquela bolacha de morango ali.
— Não é bolacha, é biscoito!
— Bolacha! É recheada!
— Biscoito! Tá escrito no pacote, ó: B-I-S-C-O-I-T-O. Biscoito.
— Claro que não, vocês falam tudo errado.
— Neide, fala pra ele: isso aqui é biscoito ou bolacha?
Neide, que estava tirando o pó da estante lá do outro lado da sala se aproximou pra ver do que estavam falando.
— Ah, menino, isso daí é biscoito. Bolacha é o que tu leva da tua mãe quando faz malcriação.
— VIU, EU DISSE! — Victor se gabou todo orgulhoso.
Yuuri bufou.
— Tá, tanto faz. Me passa o bixcoitu então — Disse na sua melhor imitação de sotaque carioca.
Victor pôs o pacote na frente da caneca de café.
— Pronto, tá na mão sua bolacha.
Yuuri realmente não entendia os cariocas.
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