Regress
3 Capítulo Três
Esta aí uma coisa que nunca saberei nem compreenderei — do que os humanos são capazes.
— Markus Zusak, "A menina que roubava livros"
O silêncio na sala era pesado como Nod disse mais cedo. O único ruído ouvido era o da movimentação das talheres levando os pequenos cubos de frutas aos lábios. Nod realmente não sabia porque Ece se dava ao trabalho de fazer aquilo todas as noites insistentemente. Quer dizer jantar com sua mãe tudo bem, mas não entendia porque desejava a presença de Ronin, Mandrake e principalmente a dele à mesa. Provavelmente era pelo fato de o general o tratar como um filho, mas era em momentos como aqueles que Nod gostaria que ela esquecesse tal consideração e o mandasse se retirar dali; porque não conseguia mais aguentar o general e o rei, que para o desprazer dele estavam sentados frente a frente.
— O que acha de uma comemoração general? — Ece perguntou de repente, Nod olhou para os outros a mesa se perguntando o que exatamente ele perdeu. Mas aparentemente não foi só ele.
— Perdão, o que disse? — Ronin perguntou tão perdido quanto ele, e Mandrake não parecia diferente.
— Bom eu estive conversando com minha mãe mais cedo. — Ece olhou para a mãe e sorriu, a mulher lhe sorriu de volta. — E pensamos que talvez seja uma boa ideia termos uma comemoração, a floresta finalmente está em total equilíbrio e em paz, e um motivo de celebração.
— Me parece uma ideia excelente majestade. — O general disse. — E quando seria tal comemoração?
— Amanhã a noite. — Ece disse com um sorriso feliz.
— Ótima escolha filha, amo noites de lua cheia. — a mãe da jovem rainha disse.
— Eu também. — Nod concordou pouco entendendo o porque da comemoração tão repentinamente.
— Vou me retirar. — Ronin se levantou. — Tenho muito a fazer amanhã.
— Eu posso ajuda-lo se quiser. — Mandrake disse. Ronin olhou para o rei, embora estivesse surpreso e o coração acelerando seu rosto não demonstrava nada. Nod prendeu a respiração sem perceber. Seria agora a briga em cima da mesa que imaginou mais cedo? Mas não houve briga nenhuma Ronin apenas respondeu com seu tom duro como pedra de sempre.
— Toda ajuda é bem vinda. — e afastou-se da mesa. — Tenham uma boa noite. — disse e se foi.
Não demorou muito para que Nod e a mãe de Ece se retirassem também. Mandrake continuava a olhar de forma insistente e discreta, pensava ele, para o lugar onde Ronin esteve sentado durante o jantar.
— Quer conversar sobre isso? — Mandrake se assustou com a voz de Ece, não esperava que a jovem rainha ainda estivesse ali.
— Eu não... sei se é uma boa idéia majestade. — Mandrake disse olhando para a madeira escura de que a mesa foi feita. Provavelmente de uma árvore há muito morta.
— Eu sei que eu sou muito jovem, e também não sou a imagem da maturidade. — a garota sorriu. — Mas Nim Galuu disse que sou uma das mais sábias rainhas que já existiu nessa floresta. Talvez eu possa te ajudar.
Os olhos negros do rei do apodrecimento descansaram sobre a rainha. Era uma garota de quatorze anos era verdade, Mandrake achava pouco provável que ela pudesse ajuda-lo, mas também ele não achava que qualquer um naquela floresta pudesse ajuda-lo. De qualquer forma os pensamentos sobre o general o estavam enlouquecendo, e mesmo que a jovem e pequena Ece não pudesse ajuda-lo, ela certamente estava disposta a ouvi-lo. Suspirou e olhou para a cadeira em que Ronin esteve.
— Ronin e eu fomos amigos quando crianças. — Mandrake disse para surpresa da jovem rainha. — Éramos melhores amigos; Ronin, Dara e eu.
— O que aconteceu com vocês? — Ece perguntou. — Quer dizer, não me entenda mal, e só que é difícil imaginar que você sejam ex amigos.
— Eu compreendo. — Mandrake deu um sorriso pequeno e olhou para a mesa arranhando a madeira distraidamente. — É difícil imaginar que nós podessemos ter sido qualquer coisa que não inimigos. A nossa história é um pouco complicada. Ronin e Dara se conheciam desde o nascimento, eles me conheceram um pouco mais tarde, ainda assim antes que Dara se tornasse rainha.
×××
O pequeno Mandrake andava pela floresta, bem longe da ilha habitada pelos Boggans. Ele era um garoto curioso, e gostava de observar todos os encantos de uma floresta viva longe dos olhares severos e repreendedores de seu pai, e dos olhares críticos dos suditos dele. Saltitava pela grama observando os pássaros voando no alto, as flores se abrindo e novas plantas crescendo. Estava perto do lago, longe demais de casa, quando ouviu sorrisos infantis vindos de uma clareira próxima. O menino se aproximou lentamente entre as folhas de uma de uma planta e viu uma menina de pele morena e belos cabelos castanhos presos num rabo de cavalo alto e um menino de cabelos e olhos claros. Os dois estavam brincando com as pétalas de dentes de leão que se soltavam, tentando agarra-las. Em algum momento Mandrake deve ter feito algum ruído porque o garoto parou a brincadeira e logo a menina parou também.
— O que foi? — A garota perguntou para o garoto ao seu lado sem entender porque ele parou a brincadeira.
— Quem está aí? — o garoto disse sem responder a amiga. — Saia. — Mandrake não se moveu. — Saia, não vamos machucar você. Só queremos brincar. — o pequeno príncipe sombrio observou o menino. Ele realmente não parecia querer feri-lo. Ele saiu lentamente de dentre as folhas, os olhos do menino se arregalaram minimamente e o moreninho viu algo como fascínio neles.
— Um boggan! — A garota exclamou surpresa e um tanto trêmula ao ve-lo, mas um olhar do menino pareceu bastar para acalma-la.
— Olá, eu sou o Ronin, e está é a Dara. — o pequeno homem folha disse. — Qual é o seu nome?
— Mandrake. — o pequeno príncipe disse timidamente.
— Você quer brincar com a gente Mandrake? — dessa vez que perguntou foi Dara. O moreninho balançou a cabeça em positiva de uma forma adorável, os outros dois sorriram e seguraram um em cada mão do novo amigo e o levaram pela floresta para novas brincadeiras.
×××
— Depois daquele dia eu nunca mais fiquei sozinho, eu fugia todos os dias da ilha e brincava com eles pela floresta. Sem que nenhum de nós se preocupasse com quem éramos ou a que lugar pertenciamos, para nós pertenciamos a floresta e uns aos outros. Para nós não importava o que acontecesse sempre acabaríamos juntos. Dara, Ronin e eu.
— É um pensamento bonito. — Ece disse.
— É, mas não muito real. Olha só pra nós agora. — Mandrake disse, é suspirou antes de voltar a sua história. — Quando tínhamos doze anos Dara foi coroada rainha, eu me senti feliz por saber que no futuro eu poderia trabalhar em conjunto com ela para manter a floresta em equilíbrio. Ronin também ficou feliz por ela. Depois daquilo Dara estava cada vez mais ocupada, mas sempre tinha tempo para nós. Sempre tinha tempo para se deitar ao nosso lado e admirar as estrelas distantes. Aos treze anos Ronin se juntou ao exército dos homens folha para treinar e um dia substituir o pai dele como general e defensor da rainha. Naquele tempo ainda parecia que sempre acabaríamos juntos. Mas exatamente quando Ronin se juntou ao exército meu pai descobriu que eu fugia para passar meus dias com eles. Descobriu que eu era amigo dos homens folha.
×××
— Onde você estava Mandrake? — Perguntou o rei.
— Passeando pela floresta pai. — o garoto disse.
— Se encontrando com homens folhas você quer dizer não é? — o rei tornou. — Traindo o seu povo!
— Eu não estava traindo pai! Porque é errado eu estar com eles? Eles são meus amigos.
— Amigos. Amigos? — o rei gargalhou, sua gargalhada ecoou pelas paredes de pedra do salão onde estavam. — Os homens folha não são nossos amigos Mandrake! Para eles nós somos monstros e nada mais que isso.
— Ronin e Dara não são assim. — o garoto disse fraco. — Eles gostam de mim.
— A rainha? — um sorriso malvado se desenhou no rosto do pai de Mandrake. — Ela é a pior de todos eles. Ao lado deles não é o seu lugar garoto.
— É o meu lugar pai. — disse. — Você não vai me afastar deles, vai?
— Não. Não vou. — o pai disse. — você precisa aprender sozinho o quanto eles são cruéis.
×××
— Alguns de nós realmente são assim, mas nem todos somos. — Ece disse um pouco triste pelo pensamento horrível que alguns tinham. Se tinha algo que a jovem rainha sabia desde sempre é que toda vida é preciosa e a guerra fez com que essa lição fosse aprendida com mais facilidade.
— Eu sei disso. — Mandrake sorriu pequeno para a jovem rainha. — Você mudou muito essa floresta, para melhor.
— Eu fico feliz com isso. Gostaria de tornar as coisas ainda melhores. — Ece sorriu adoravelmente.
— Espero que consiga. — Mandrake disse e sorriu também, mas o sorriso morreu quando ele voltou a sua história. — Meu pai não me impediu de ir ver Ronin e Dara, não me impediu de passar meus dias com eles. Ronin sempre foi mais gentil comigo, sempre mais disposto a estar comigo, sempre me colocava antes dos deveres dele como general. Ele valorizava a nossa amizade, e eu admirava isso nele. Mas não era a única coisa que eu admirava nele. Eu admirava a força de vontade dele em superar o pai. Admirava o sonho dele de um mundo onde as vidas de todos fossem valorizadas, admirava o brilho que os olhos dele ganhavam quando ele admirava a floresta. Ou como a expressão dele endurecia quando ele me defendia dos olhares ou palavras ofensivas do outros, e seu rosto quadrado parecia mais perfeito. — Mandrake abriu um sorriso pequeno e triste. Ece ouvia em silêncio já sabendo o rumo que aquela história iria tomar. Então a garota se preparou psicológicamente para ouvir o quanto o seu general, ou pior a rainha a quem sucedeu podiam ser cruéis. — Eu percebi que estava apaixonado por Ronin apenas quando fiz dezesseis anos e entendi meus sentimentos para com ele. Na época eu fiquei tão feliz, para mim não havia um quadro onde aquilo acabasse com lágrimas. Para mim Ronin era totalmente digno de meu amor.
— E... ele não era? — Ece perguntou um tanto triste.
— Eu não posso dizer se era ou não digno. Acho que não cabe a mim decidir. — Mandrake disse. — O ponto é que eu queria contar para ele, mas eu não sabia como. Então eu pedi ajuda para a Dara. Ela ficou tão surpresa quando eu contei a ela e pedi sua ajuda, mas depois ela simplesmente sorriu e disse que me ajudaria. Minha felicidade ficou muito maior.
— Ela ajudou? — Ece perguntou com o estômago se revirando, mas o rei sombrio não parecia ouvi-la, ele estava mergulhado nas próprias e dolorosas lembranças.
— Os dias passaram, e Dara me dizia que a gente tinha que esperar um pouco. E a espera durou muito, ela estava sempre ocupada demais pra falar comigo, e eu compreendia afinal ela era a rainha e tinha muito a fazer. Então eu decidi que teria que fazer aquilo sozinho, afinal Ronin tinha que ouvir de mim. Mas quando fui me encontrar com ele na clareira naquele fim de tarde eu os vi. Dara e ele, os dois estavam deitados na grama, e se beijavam com tanta paixão e vontade que a dor dentro de mim parecia que iria me matar, doeu tanto. Mais que qualquer flecha ou espada que me atingiu no decorrer dos anos. Nada doeu como aquilo. — disse o moreno tristemente com os olhos fixos nas proprias mãos pálidas de unhas cumpridas. — Parecia que eles queriam que eu os visse, que eu vivesse com aquela imagem queimando na minha mente para o resto da minha vida.
×××
Dara beijara Ronin, o rapaz ainda estava um pouco surpreso com a situação, mas retribuiu o beijo. Deixando que Dara, acima dele, o abraçasse e tocasse como quisesse passivamente. Mas então os dois ouviram ruídos entre as folhas Ronin afastou Dara de sobre si, os dois viram o rosto com uma expressão de choque de Mandrake e os olhos dele tinham uma dor tão grande. O moreno não disse nada apenas se virou e correu na direção que viera.
— Mandrake! — Ronin se pôs de pé, queria correr atrás do amigo se explicar, fazer qualquer coisa que tirasse aquele olhar de dor dos olhos dele, mas a mão firme de Dara em seu pulso não permitiu.
— Eu falo com ele. — Ela disse e correu atrás do moreno enquanto Ronin se deixou cair sentado na grama com seu coração se partindo com uma dor inexplicável. Ele não queria que Mandrake sofresse.
***
Dara conseguiu alcançar Mandrake a uma boa distância de onde esteve com Ronin.
— Mandrake espera! — o rapaz se virou para ela. — Você está chorando? — Dara perguntou e havia uma nota de deboche em sua voz. Mandrake limpou as lágrimas com tanta raiva que uma marca vermelha se desenhou em sua pele pálida.
— Porque você fez isso Dara?
— Fiz o que? — perguntou a morena em um fingindo tom de dúvida.
— Porque você o estava beijando? Você sabe que eu o amo, eu disse para você! — o rapaz disse alto o suficiente para se fazer ouvir, mas não para soar como um grito. — Você pelo menos contou pra ele como eu me sinto?
— Porque eu diria isso pra ele? — Dara riu. — Seria perda de tempo. Eu não beijei Ronin, ele me beijou. — Mandrake recuou um passo e a morena pareceu se divertir com a dor nos olhos dele. — olhe para você, que patético. Acha mesmo que Ronin poderia retribuir seus sentimentos sujos e anormais? Ele jamais amaria alguém como você! Porque ele ama a mim! Um homem que se diz apaixonado por outro, isso é nojento, repulsivo e inadmissível até mesmo entre nós! E você, você é apenas um tolo, uma fera que acha que pode ter o amor de um deus como Ronin. — ela sorriu. — Um monstro insignificante que acha que pode ser como os homens folha.
— Achei que você valorizasse todas as vidas igualmente. — o príncipe sombrio disse com a voz trêmula.
— Valorizo a vida do meu povo Mandrake, e você não é um de nós. Você nunca deveria ter aparecido aqui. — disse ela. — Vá embora e volte para os seus semelhantes. Procure alguém tão sujo quanto você para oferecer seu sentimentos imundos! Não volte mais aqui. — Dara disse e se foi. Mandrake correu em direção à sua ilha, lágrimas escorrendo de seus seus olhos, por suas bochechas em abundância, soluços escapavam se seus lábios. "Meu pai tem razão, os homens folhas são cruéis, eles não se importam conosco. Não passamos de monstros para eles! De inimigos!" Mandrake parou de repente a ilha surgindo a sua frente, uma mancha negra de morte no verde vivo da floresta.
— Se é um monstro e um inimigo que vocês querem Dara... e Ronin — acrescentou com o coração aos pedaços. — é isso que vocês terão.
×××
— Eu sinto muito Mandrake. — Ece disse, tamanha sua tristeza pelo outro que se esqueceu de chama-lo de rei. Ele permanecia em silêncio olhando para os próprios dedos. — Já tentou conversar com o general Ronin a respeito disso.
— Não é como se fizesse diferença a essa altura. — o de pele pálida disse.
— Acho que faz diferença sim. — Ece disse. — o general nunca soube do que você sentia e se me permite a ousadia ainda sente, por ele. — Mandrake suspirou e levou seu olhar para longe da jovem e perspicaz rainha. — Eu sou muito jovem, não sei de muita coisa sobre Ronin. Mas o que eu ouvi dos outros e que ele deixou um pouco de ser ele mesmo depois de determinada idade, o sorriso se foi, a frieza se tornou uma máscara continua, pensando agora acho que isso foi depois que você se foi. — os olhos negros do rei sombrio se voltaram para Ece.
— O que quer dizer?
— Acho que Ronin sente por você, o mesmo que você sente por ele . — A menina disse e Mandrake sorriu triste para a animação dela.
— Ronin jamais poderia me amar da mesma maneira que eu o amo. — Falou.
— Você tem que parar de viver na sombra do fantasma de Dara. — Ece disse e Mandrake se surpreendeu. — Você não percebe que tudo o que ela queria era afastar você de Ronin porque ela também o amava. Você não é nenhum monstro Mandrake, ela estava com medo de perder Ronin, estava com medo de dar uma escolha para ele porque sabia quem ele escolheria. Seria sempre você.
— Não. — Mandrake sorriu e se levantou. — É muito adorável a forma como tenta me animar, mas Dara estava certa, pelo menos em parte. E não faz diferença falar com seu general sobre isso agora.
— Se não faz diferença, então porque guardar algo que está te machucando? — Mandrake não teve resposta para aquela pergunta. — Fale com ele, como você mesmo disse não faz diferença. Se não melhorar, piorar também as coisas não vão. — o rei sombrio suspirou.
— Tudo bem. Eu vou falar com ele amanhã.
— Promete?
— Eu prometo. — Mandrake disse e sorriu para a alegria da garota. — Agora com licença majestade, amanhã irei auxiliar o general e preciso descansar. Boa noite.
— Boa noite. — Ece respondeu feliz enquanto observava Mandrake deixar a sala. Sabia que Ronin o amava depois de ouvir aquela história e as tantas outras de Nod, Finn e de outros homens folha com mais idade. Mandrake fazia diferença para Ronin, e esperava que depois de tanto tempo separados e se "odiando" os dois pudessem finalmente dizer o que sentiam e quem sabe ficarem juntos.
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