Regress

4 Capítulo Quatro


Por mais que lhe dissessem que a amavam, não havia nenhum reconhecimento de que a prova disso fosse o abandono.

— Markus Zusak, "A menina que roubava livros"

Por mais que estivesse preparado para lidar com coisas que não saiam de acordo com o planejado, Mandrake não poderia deixar de se sentir frustrado depois de Ronin lhe designar uma ronda em uma área no extremo oposto a dele em companhia de Nod. Queria que a ronda fosse com o general, assim poderia cumprir sua promessa o mais rápido possível e dizer de uma vez a Ronin como se sentia. O que certamente Dara não fez no decorrer daqueles anos. Olhou para o céu acima das copas das árvores, poderia dizer que não estava nervoso com a conversa que prometera a Ece, mas seria mentira, pois em seu coração apesar de tudo ele ainda sentia medo de como Ronin iria reagir. O tempo, a guerra e ele próprio transformaram o doce e meigo Ronin do passado em um homem duro e estóico. Suspirou profundamente.

— Não se preocupe.

— Hum? — Mandrake voltou seus olhos para Nod. Por um instante se esqueceu que o mais novo o acompanhava.

— Não se preocupe com Ronin. — o rapaz esclareceu. — Eu sei que parece que ele te odeia, mas não é isso. Ele jamais te odiaria, na verdade ele só está magoado e confuso.

— Eu sei disso. — Mandrake disse sem olhar para o garoto.

— Ronin é um homem duro por fora, mas ele é muito bom, amigável e acolhedor, ele gosta de todos nós; do jeito dele é claro. Ele gosta de você também, só não é bom em demostrar. — Nod disse.

— Ronin nunca foi bom em demonstrar seus sentimentos. — Mandrake murmurou.

— O que disse?

— Disse que você tem razão garoto. — respondeu Mandrake olhando para o céu. — seu general é duro, mas ele também é suave do jeito dele.

***

Rondas pela floresta foi só uma questão de formalidade naquele dia, já a maioria dos moradores do palácio de Ece estavam concentrados na tarefa de organizar um grande salão para a comemoração naquela noite pela paz e o equilíbrio finalmente alcançados. Ronin tentava mergulhar seja na arrumação ou em qualquer outra atividade que não era sua obrigação, isso até a rainha Ece o chutar de volta a seu quarto para descansar. Talvez o "fim" do trabalho tenha sido apenas uma desculpa para se livrar dele, mesmo com a proximidade do horário do baile organizado pela rainha. Ronin sorriu consigo mesmo ao pensar na jovem soberana; Ece tinha uma luz própria, como Dara, não precisava dos outros para brilhar. Mas diferente de Dara, ela sempre colocava os outros a frente de si mesma. Não é como se Dara não se importasse, afinal ela se sacrificou pelo seu povo. Mas Ece, Ece enxergava mais que apenas um povo. Ela via individuos, via cada habitante da floresta como único e precioso e necessário para que a vida pudesse continuar. Ela era como ele quando mais novo, antes daquilo. Antes de Mandrake começar a odia-lo, antes de ele ir embora e a amizade deles morrer. Não podia pensar sobre aquilo logo agora. Balançou a cabeça de um lado para o outro antes de entrar em seu quarto.

Resquícios de luz do fim da tarde entravam pela janela, deixando o quarto com um estranho tom de dourado. A primeira coisa que Ronin notou foi a armadura em um tom de verde mais escuro que a que trajava agora, provavelmente feita de uma folha mais densa que sua atual. A segunda foi Nod sentado na rosa branca que era sua cama.

— A rainha queria da-la a você há um tempo, e ela achou que essa poderia ser uma ocasião adequada. — o rapaz disse com desinteresse se levantando da cama. — seu presente foi entregue, se não se importa vou indo. — O jovem disse já se retirando do quarto, Nod podia até ter dito mais cedo para Mandrake que Ronin era um homem bom, mas não esqueceu a distância que o general impôs no dia anterior e naquela manhã, e respeitaria isso.

— Nod espere. — o rapaz se deteve e olhou para o grisalho. — Me desculpe por ontem.

— Não há necessidade de se desculpar Ronin. — o rapaz respondeu. — É a sua vida, tem o direito de não querer falar sobre.

— Mas eu não precisava agir daquela forma com você. — Ronin olhou para as janelas. — Por mais que me machucasse eu não tinha o direito de descontar a minha dor em você. Me desculpe por isso. — o jovem homem folha se surpreendeu com as palavras do mais velho, mas apenas se obrigou a ignorar a própria surpresa.

— Esta tudo bem. — respondeu. Silêncio se fez presente por longos minutos, e Nod começou a pensar que talvez fosse o momento de se retirar.

— Mandrake foi o meu melhor amigo. — o general disse de repente, e dessa vez Nod ficou totalmente surpreso. Como assim eles foram amigos? Se soubesse disse não teria usado aquelas palavras para tentar animar o rei sombrio pela manhã. Mandrake parecia abatido com a forma como Ronin o tratou, as palavras de Nod pareceram ter animado o rei. Mas até que ponto elas eram verdade? Devia te-las dito? Afinal o que aconteceu com eles, se eram amigos como acabaram em lados opostos de um campo de batalha.- Eu o conheço desde que éramos crianças. Crescemos juntos brincando pela floresta. Ele, Dara e eu. E eu gostava tanto dele, de Dara também; mas Mandrake, ele era diferente. Era frágil, gentil, suave como uma flor. E Mandrake era uma flor que desabrochou em meio às rochas, ele sofria por ser diferente do povo dele e tudo o que eu queria era tirar essa dor dele. Ele era importante para mim, mais importante que carregar uma espada na batalha antes perpétua entre os Homens folha e os Boggans. Eu estava sempre disposto a fazer tudo pela nossa amizade. Ele me conhecia melhor que qualquer um, e eu a ele. Eu achei que as coisas sempre acabariam com nos dois juntos. Até aquilo acontecer. — Ronin fechou os olhos com força. — A Dara disse que me amava. E ela me beijou, Mandrake nos viu. Ele amava a Dara, e ver ela comigo acabou com ele. Acabou comigo ver os olhos dele tão tristes, o rosto transfigurado pela dor. Eu queria ir atrás dele, dizer, fazer qualquer coisa que pudesse tirar aquela dor do rosto dele. Mas quem foi atrás dele foi Dara, ela me contou que Mandrake confessou que a amava e disse coisas terríveis a ela. Eu não perguntei o que, me pareceu cruel demais. Depois daquilo as coisas ficaram muito mais estranhas, Dara continuava doce e amável, ela tentava compensar a falta que Mandrake fazia, mas ele não era substituível. Não falamos sobre o que Dara sentia por mim, ela sabia que apesar de ama-la eu jamais poderia retribuir os sentimentos dela porque não a amava daquele jeito. Nos suportamos a falta dele bem, mas quando Mandrake voltou, ele voltou como general do exército do pai dele quando declararam guerra contra os Homens folha. A guerra foi difícil, todos os homens folha sabem, mas nada foi tão difícil para mim que cruzar espadas com Mandrake no campo de batalha e ver ele agir como se não me conhecesse, como se nunca tivéssemos sido amigos. Como se tudo o que passamos juntos, todas as noites conversando sobre o equilíbrio perfeito para a floresta que teríamos quando ele se tornasse rei não fosse nada. Como se todas as palavras bonitas que ele me disse, do quanto gostava de mim, do quanto a nossa amizade era importante para ele eram só palavras vazias. Eu achei que Mandrake e eu fossemos pra sempre, mas apenas eu pensei isso. E a gentil e suave flor que ele era se transformou na rosa de pedra que você conheceu. — Ronin silenciou finalmente com uma expressão de tristeza no rosto.

— Mas você nunca falou com ele sobre isso? — Nod disse baixo depois de ouvir aquela história tão triste. — Talvez devesse dar uma oportunidade para ele se explicar.

— Nunca conversamos sobre nada que não fosse guerra e morte desde aquele dia. — Ronin disse. — Não vejo ele querendo ter essa conversa agora.

— Então talvez seja hora de você usar toda a sua teimosia e ter uma conversa com ele mesmo que ele não queira. — Nod disse e Ronin sorriu para a fala do garoto.

— Tem razão. — disse.

— É claro que tenho. — Nod sorriu.

***

Ronin entrou no grande salão oval onde a comemoração acontecia. Ele trajava a nova e pesada armadura com que fora presenteado pela rainha, rainha essa que trajava um novo e belíssimo vestido branco.

— A nova armadura lhe cai muito bem general. — A rainha disse com um pequeno sorriso. — Não acha rei Mandrake? — Ronin se virou para ver Mandrake atrás dele. Como não o percebeu ali antes.

Mandrake estava muito bem, dentro de uma armadura marrom escura, quase preta, que Ronin não sabia de que material era feita mas que ficava incrível contra a brancura da pele do rei do apodrecimento. A pele de morcego estava presa aos ombros de Mandrake se estendendo atrás dele como uma capa e pela primeira vez em muitos tempo Ronin podia ver os cabelos negros dele, livres do capuz da pele.

— Esta perfeito. — Mandrake respondeu.

— Você também está perfeito. — Ronin disse antes que pudesse se controlar, mas logo se virou para a rainha antes que Mandrake, tão observador, percebece o leve corar em seu rosto. — e a senhorita está magnífica majestade.

— Muito obrigado general. — Ece agradeceu com um sorriso, e saiu dali sendo levada por uma garota mais ou menos da mesma idade que ela.

— Ela é uma menina encantadora. — Mandrake disse olhando para a rainha.

— Ela é. — o general concordou distraidamente.

— Ela lembra você.

— Sério? — Ronin sorriu se recuperando da distração, se esquecendo de com quem exatamente falava. — eu era encantador.

— Sim. — Mandrake respondeu, e só então o general se deu conta do que disse. — E era sonhador também. — Ronin desviou o olhar para o piso evitando olhar para o outro. — Ronin não podemos continuar assim pra sempre. Todos estão em paz, não podemos perpetuar a nossa guerra. Temos que conversar.

— Tem razão. — disse Ronin. Ambos realmente precisavam conversar, desanuviar os acontecimentos do passado se realmente quisessem seguir em frente. Não podiam mais manter aquela guerra fria ou fingir que a amizade deles nunca aconteceu. Que tudo entre eles nunca aconteceu. — Venha comigo.