Neste mesmo tempo, o robô já tentara falar com o senhor Frene, mas descobriu que ele não se encontrava na sala.

— O senhor Frene não está — negou Regis Primeiro. — Mas em segundos ele estará!

— Como você sabia que a nave desceria na Terra, no momento em que saímos para o quintal? — Questionei-o, colocando tal aparelho em meu pescoço.

O outro menino levantou o braço direito e me mostrando seu lindo relógio, alegou apertando uma tecla:

— Assim!

Uma luzinha amarela se ascendeu no painel da nave, enquanto um apito forte ecoou dentro da cabine.

— Assim também você tentou localizar o senhor Frene em Suster?

— Exato! Você é esperto!

Me lembrando de brigas saudáveis com o robô, insinuei irônico:

— Mais esperto do que um tal... Mark Três!

— Não existe algo mais esperto do que um robô susteriano em todo o Universo — negou Luecy.

— Regis! — Interrompeu-nos uma voz forte pelo monitor da nave — Quanto tempo!

Era o susteriano senhor Frene, que acabava de entrar na sala de computação, a oitenta e sete anos luz de distância da Terra.

— Olá senhor Frene! — Cumprimentei-o sério, me sentando na poltrona à direita da cabine — Como vai?

— Com muitas saudades de você! Como tens passado?

— Cada vez mais sozinho! — Aleguei triste, girando a confortável poltrona.

— Como assim?

— Arranjo novos amigos, mas eles se vão em poucos anos e eu vou ficando. Meus irmãos já se casaram. Meus sobrinhos são maiores do que eu. Meu primeiro amor tem filhos maiores do que eu. Meus pais estão ficando velhos...

— Quer nos fazer uma visita? — Brincou ele, falando sério.

— Pra perder ainda mais? Não, obrigado!

— Acho que você seria feliz por aqui.

— Estou me adaptando aqui!

— Se adaptando? — O estranhou. — Já fazem trinta e um anos que você está aí! Não se adaptou ainda?

— Quando penso que sim, as crianças que brincam comigo, começam a falar em garotas. Aí eu percebo que o tempo delas já passou...

— Passou como?

— Elas começam a trabalhar e namorar e eu tenho que arranjar outras. Ainda bem que faço amizade fácil.

— Sei o que quer dizer — se entristeceu ele.

— E depois, não faz trinta e um anos. Faz vinte anos e cinco meses, desde que voltei daí.

— Realmente, na Terra — corrigiu ele. — Quase trinta e dois anos em Suster. Lembra a diferença?

Era isso mesmo: em Suster, apesar do planeta estar mais distante de suas duas estrelas, Brina e Kristal, seu movimento de translação é bem diferente ao da Terra, fazendo o ano ser de noventa e nove dias dos seus, que também é diferente da Terra, portanto, sendo igual a duzentos e trinta e cinco dias terráqueos; por isto este cálculo maluco, de vinte anos na Terra serem equivalente a trinta e um anos por lá. E este período computar noventa e nove dias susterianos, vem do fato do movimento de rotação, que faz seu dia ser formado por trinta e duas horas com oitenta minutos cada e cada minuto, oitenta segundos; ou seja: um dia em Suster corresponde a quase cinquenta e sete horas na Terra.

— Senhor Frene, o senhor prometeu me ajudar. Quanto tempo ainda ficarei assim?

— Desculpe Regis — se embaraçou ele. — Eu imaginava que em menos de dois anos, seu organismo voltaria ao normal e você começaria a envelhecer naturalmente.

— E então? O que será de mim?

— Serás eternamente criança em um paraíso na Terra — gracejou o robô.

— Que paraíso é esse? — Protestei com lágrimas. — Assistir a meus entes queridos morrerem!

— Venha nos fazer uma visita — pediu o senhor Frene.

— Não! Não pretendo sofrer mais consequências!

— Será apenas um passeio e eu lhe devolverei em poucos dias.

— Não quero! Vou aproveitar o pouco que tenho com meus pais. Eles estão velhos!

Como eu continuava girando a poltrona de acrílico para os dois lados, acabei me deparando com a chegada de Erick, junto aos demais, na cabine.

— O que está acontecendo? — Gritei, me levantando assustado.

— O que há Regis? — Se espantou o recém-chegado.

Sai praticamente correndo da cabine, seguindo para a saída da nave, descendo rapidamente os degraus da escada, permanecendo seguro no quintal de minha casa.

Em poucos segundos, os dois visitantes humanos estavam junto comigo.

— O que houve? — Questionou Erick. — O que o assustou?

— Não vou à Suster com vocês! — Neguei nervoso.

— Não viemos para buscá-lo! — Negou meu sósia.

— Por que o Erick entrou na nave? Não havíamos combinado d’ele ficar no solo?

— Achei que você já tivesse confiando em nossa intenção de passeio e resolvi entrar — justificou Erick, segurando minha mão direita. — Venha comigo.

Como eu recusava, ele ainda insistiu:

— Pode vir! Não vê que se nossa intenção fosse realmente te raptar, já estaríamos longe!

— Não confio em susterianos!

— Seu maninho ficará aqui fora, pra lhe dar confiança!

Entrei novamente na nave, seguindo com ele até a cabine, onde pressionou uma pequena placa de pressão, fazendo-a se soltar e me entregando dizendo:

— Fique com ela pra se tornar mais confiante.

Era uma peça retangular, de aproximadamente dois centímetros de altura, por cinco de largura e dez de comprimento, na cor esverdeada.

— O que é isto? — Perguntei-lhe surpreso.

— O sistema computadorizado da nave — riu Erick. — Sem ele, ninguém tira esta nave do chão. Pode tentar! Você já pilotou este troço. Eu sei.

Tentei ligar a nave, mas ela realmente não obedeceu ao comando. Mesmo assim tive dúvidas:

— Luecy pilota este treco sem controle! Ele me trouxe à Terra sem usar o tal controle.

— Não é possível! — Negou Erick. — Essa pequena caixinha é o coração da nave!

— E eu sou o coração artificial — ironizou o robô, com sua voz metálica. — Não há nada que um robô susteriano não seja capaz de realizar.

Ainda segurando o tal controle, tornei a descer para o quintal, onde meu sósia me disse:

— Não viemos lhe buscar para ir com a gente até Suster! Faz muitos anos que planejávamos vir lhe visitar, mas o senhor Frene não permitia. Agora que conseguimos, não temos plano de voltar tão logo pra lá. Me sinto como marionete naquele lugar e aqui me sinto livre.

— Pretendem ficar na Terra? — Admirei.

— Não! Queremos viajar pelo cosmos, sem muito compromisso.

— Não tem medo de se perder? — Questionei ansioso.

— Não há perigo! — Negou meu sósia, com jeitinho de criança arteira. — O computador da nave possui um mapa completo e complexo de toda nossa galáxia. Caso aconteça alguma coisa a ele, o cérebro eletrônico de Luecy, o substituirá perfeitamente.

— Quanto tempo pretendem ficar aqui na Terra?

— Não pretendemos! — Negou ele sério. — Queremos leva-lo conosco!

— Nunca! — Neguei convicto. — Já lhe disse!

— Veja bem — insistiu ele com seu jeitinho maroto. — É apenas um pequeno passeio. Vamos até a órbita da estrela conhecida por vocês por Próxima Centauro. Ela é a terceira estrela mais brilhante pra vocês e é conhecida como anã vermelha. Nossa curiosidade em visitá-la, é porque, alem de ser a mais próxima da Terra, fica quase junto a outras duas, que vocês denominaram Alpha Centauri A e B e dizem ter um planeta inabitado que fica muito próximo delas. Em dois dias lhe traremos de volta. Tem minha palavra!

— Não vou! — Neguei convicto. — Depois, como você sabe tanto de meu mundo, se nunca esteve aqui?

— Você se acha um ser inteligente? — Riu ele.

— Creio que sim! — Dei de ombros.

— Sou cópia sua!

Parou por um instante.

Poderia ser cópia minha, mas que tinha um ar mais sapeca, nem mesmo eu poderia duvidar.

— Vamos conosco? Quero ver de perto como pode ser a tal órbita de um planeta, próximo a três estrelas!

— Deve ser a mesma de Suster, ao centro de duas grandes! Uma verdadeira barata tonta!

— Vamos à caça do seu cometa Halley!

— Ele esteve por aqui em mil novecentos e oitenta e seis, mas eu não pude vê-lo, pois estava em seu mundo. Agora ele só voltará em julho de dois mil e sessenta e um. Acho que ainda estarei aqui!

— Vamos caçá-lo pelo espaço?

— Como pode saber sobre ele, se ele é um cometa viajante, apenas do sistema solar.

— Vamos encontrá-lo! Vamos conhecê-lo de verdade!

— Não saio da Terra! — Neguei convicto. — Além do mais, já disse que tenho um aniversário pra ir agora à noite.

— Que aniversário? — Agiu com sarcasmo o menino — Baile de debutantes? Até parece que você gosta disso!

— Gosto! — Afirmei sério. — Quem lhe disse que não?

— Maninho, você é só uma criança. Seu organismo todo é de criança. Você gosta mesmo é de brincar de carrinho ou futebol. Detesta bailes! O máximo que você vai gostar lá é do bolo.

— Não vou com vocês a nenhum lugar no espaço!

— Deixe de ser bobinho! Você precisa se divertir um pouco. Dois dias e lhe trarei de volta.

— Diga isso pra minha mãe! — Ironizei.

— Com certeza! — Riu meu sósia — Vamos lá.

Seguimos juntos até a sala de minha casa, entrando pela porta da cozinha. Mamãe estava sentada sozinha no sofá, assistindo sem interesse a programação de televisão. Meu visitante se aproximou e se abaixando junto a ela, disse firme:

— Mamãe, Regis irá fazer um passeio conosco. Ele voltará em dois ou três dias.

— Está bem meu filho — concordou ela.

Espantei-me, me aproximando dela, abaixando-me ao lado do outro menino:

— O que você disse mamãe? — Especulei admirado.

— Você pode ir com eles — confirmou ela.

— Mamãe, não é na praça da cidade! — Alertei-a — É uma longa viagem através do famoso espaço sideral. O espaço o qual a senhora sempre se preocupou.

— Vá passear com eles meu filhinho — confirmou-a, acariciando meus cabelos curtos — Depois você volta!

Forcei o outro menino pela gola da camisa, para que se levantasse comigo e cobrei:

— O que fez com ela?

— Eu? — Riu ele — Nada! Viajaremos pela manhã. Precisamos reabastecer nossa cozinha. Tem um local para dormirmos em sua casa?

— Isso é o que mais temos! Há alguns anos, morávamos em oito nesta casa, hoje somos apenas três.

— Posso tomar um banho?

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Notas finais
Será que Regis deixará mesmo a Terra? Isso poderá trazer-lhe novas consequências.