Luecy voltou a esconder a nave acima da atmosfera terrestre, enquanto meu sósia e Erick, depois de mais de setenta dias, tomaram um banho, no único e de pobre chuveiro de minha casa, depois, sem comer nada e eu ter abandonado a ideia do baile de Letícia, fomos dormir. Erick, sozinho no quarto menor, enquanto meu sósia, fôra dormir no mesmo quarto em que eu dormia, em uma cama de solteiro, se cobrindo com uma manta leve.

Depois de longo tempo, rolando na cama, tentando encontrar o sono que não queria chegar, pensando no baile, o qual eu deveria ter ido e na viagem que faríamos na manhã seguinte; em como mamãe poderia ter autorizado, chamei em voz baixa:

— Regis!

Ele se virou na cama.

— Está acordado? — Perguntei-lhe.

— Agora estou! — Alegou ele, com voz de cansado.

— Estava realmente dormindo?

— Mais ou menos. Estou com frio.

Levantei-me e mesmo sem ascender a luz, apanhei um cobertor mais grosso no guarda-roupas, estendendo-o sobre ele. Estávamos em pleno e rigoroso verão do sudeste brasileiro, onde, para quem está acostumado, a tal manta que já o cobria, era mais do que suficiente para proteger o corpo, mas se considerarmos que meu visitante, vinha de um planeta, de um clima ainda mais quente e onde não havia noites, as quais costumam esfriar um pouco, mesmo no verão, dava para compreender o motivo d’ele sentir frio.

— O que está achando de nossas trevas? — Perguntei-lhe com ironia.

— É muito legal! Em Suster, herdei o quarto escurecido artificialmente pra você.

— Como assim? — Admirei.

— Cortina negra na janela e porta.

— É verdade — me lembrei de quando isso aconteceu.

Pensei um pouco e lhe perguntei:

— O que você fez pra que minha mãe concordasse com nosso passeio?

— Eu?! — Fingiu indiferença meu sósia — Nada!

— Mamãe, em sã consciência, jamais concordaria com essa viagem! — Retruquei.

— Você me mandou pedir a ela e eu obedeci! Só isso!

— Quando o senhor Tony me buscou na Terra pela primeira vez, lhe questionei como ele sabia que eu estaria em determinado local, em determinada hora, ele me disse que me atraiu pra lá, como uma cobra naja faz com sua presa.

— E o que isso tem a ver comigo? — Riu o outro Regis — Nem sei o que é cobra naja!

— Você é susteriano. Com certeza hipnotizou minha mãe.

— Que isso maninho?! — Retrucou ele sério. — Sou tão terráqueo quanto você! Não consigo hipnotizar ninguém!

— E eu só pareço um menininho tolo! — Ironizei. — Uma viagem fora da Terra, sempre foi o terror de minha mãe. Como ela permitiria que eu fosse assim, de livre e espontânea vontade, a uma viagem sem saber quando voltar?

— Ela sabe que é só um passeio de dois ou três dias.

— Você falou em irmos até a órbita estelar de Próxima Centauri. Pelo que sei, mesmo em sua nave, esta viagem demoraria pelo menos três dias e meio, só de ida!

— Realmente isso — concordou ele. — Eu teria dito dois ou três dias susterianos. Em sete dias da Terra estaremos de volta.

— Eu não vou! — Neguei convicto.

— Como não? Sua mãe concordou!

— De alguma forma, ela foi hipnotizada. Eu não irei!

— Se eu tivesse o dom da hipnose e tivesse feito isto com sua mãe, por que não faria contigo?

— Boa pergunta! — Concordei — Mesmo assim, não irei com vocês!

— Está bem! Também não irei!

— Como assim? — Me surpreendi. — Não irá?

Ele sentou-se na cama e disse:

— Luecy e Erick irão embora pela manhã. Eu ficarei com você!

— Como assim? — Me sentei também.

— Vou ficar morando na Terra. Com você... Sua mãe... Seu pai...

— Você está brincando! — Me espantei.

— Por quê? Você não quer? Sua mãe não gostará de mim?

— Minha mãe vai te adorar! — Insinuei. — Eu e meu pai também! Mas você sofrerá aqui.

— Por que acha isso?

— Você é de outro mundo. Não tem nada aqui conosco.

— Não sou de outro mundo! Sou seu sangue. Somos irmãos legítimos.

— O senhor Frene não permitirá isso.

— Vai ter que permitir. Estou cansado de viver como uma marionete ou boneco, sendo controlado por muitos, como se não tivesse sentimento próprio.

— Como assim, Regis? — Fiquei realmente preocupado.

— Regis... vai tomar banho! — Insinuou ele, fingindo ser outra pessoa — Regis, onde você estava? Troque de roupa menino! Não mexa aí!... Blá, blá, blá, blá...

— ...acho que eles não sabem que sou humano — continuou ele com sua própria voz, emocionada. — e que também, como você disse: apesar da aparência, não sou tão criança assim!... Vou morar com você!

— Você já veio com esse plano?

— A muito que planejo isto — afirmou ele ainda emocionado. — Faz tempo que tento viajar pra cá! Só agora, confiando um pouco em mim... Ou melhor: que Luecy e Erick cuidarão de mim foi que o senhor Frene concordou.

— E você vai trair essa confiança?

— Que se dane! Eu quero tentar ser um pouco feliz! Depois, ele tem milhares de cópias minha por lá!

— E essas cópias, são felizes?

— Não sei! — Deu de ombros — Acho que não! Praticamente não tenho contato com ninguém!

— Como não? Nunca?

— Às vezes a gente se esbarra em raros eventos. Nada mais do que um simples oi, ou alguma risada no parque de diversões. Nada que traga realmente felicidade.

— Por que você acha que será feliz aqui na Terra?

— Você não me quer? — Se entristeceu ele.

— Embora nunca tivesse esperado essa visita, é o que mais quero. Imagine um amigo que realmente eu possa dizer: amigo pra sempre! Seremos sempre do mesmo tamanho! Teremos a mesma idade! Eu serei feliz com você, com certeza.

— Ficarei aqui — reafirmou, se deitando e se cobrindo quase todo. — Boa noite!

Deitei-me também, me cobrindo apenas com a pequena manta.

— Durma com Deus.

Foi aí que a insônia se apoderou de vez.

Por mais que rolasse na cama, o sono não aparecia e fiquei durante algumas horas, pensando naquele visitante e em sua decisão. Comecei a imaginar, como era então sua vida na grande mansão do senhor Frene, comparando com minha própria permanência por lá durante oito anos. E depois, comecei a imaginar como seria sua vida aqui na Terra, correndo e brincando comigo por toda parte.

Pouco depois das seis horas da manhã, após a primeira refeição matinal, regado a biscoitos, leite, Nescau, pão caseiro, o qual, os dois visitantes comeram extravagantemente, preparamos um bom estoque alimentar, abastecendo completamente a cozinha da nave espacial, para tal viagem de setenta dias pelo espaço.

Quando tudo estava pronto, já na entrada da nave, Erick insinuou:

— Podemos partir?

— Não irei com vocês — negou meu sósia.

— O quê? — Se admirou Erick.

— Você e Luecy, estarão voltando agora pra Suster. Eu ficarei na Terra com Regis — afirmou, me abraçando.

— Você pirou de vez? — Insistiu Erick.

— Não voltarei jamais à Suster!

— Que isso Regis! — Se espantou Erick — Seu mundo é lá!

— Sou sangue da Terra! — Se emocionou meu, digamos: irmão.

— O senhor Frene ficará furioso.

— E daí? — Deu de ombros o menino — Eu não estarei lá!

— Ele me culpará — insistiu Erick.

— Põe a culpa em Luecy — ironizei rindo.

— Robô não interfere em burrice humana! — Negou o robô.

Meu sósia abraçou o rapazinho maior, dizendo:

— Boa viagem! Diga ao senhor Frene que eu também o amo, mas pretendo ser feliz.

— Você não será feliz aqui! — Negou Erick — Você nasceu em Suster. Seu brother não era feliz lá, porque nasceu e tinha uma vida aqui na Terra! Você é ao contrário. Seu povo é de Suster.

— Espero que a família de meu irmão seja a minha família — insinuou o menino suspirando. — Serei feliz com eles.

— Já que é pra fazer birra, eu também não vou! — Negou convicto Erick.

— Negativo! — Reprovou o robô. — Alguém tem que devolver a nave do senhor Frene.

— Você devolve a nave, Luecy — disse com sarcasmo meu sósia.

— Preciso de seu pulmão, para levar esse treco — agiu também com sarcasmo, o robô.

Realmente, a inteligência avançada dos susterianos, construiu uma nave espacial, cujo combustível era criado pela expiração do gás carbônico humano e que, por isso, Luecy jamais conseguiria levar a nave de volta à seu planeta, sem a ajuda de pelo menos um dos meninos.

— Ou vamos todos! Ou ficamos todos! — Insinuou Erick.

— Você não gosta daqui, Erick — negou meu sósia. — E eu não gosto de lá. Simples assim: Você vai e eu fico.

— Simples assim — ironizou Erick, subindo os degraus brilhantes da nave. — Fiquem com Deus! Vou me haver com o senhor Frene! Sei que serei punido, mas fazer o quê? Amarrado é que não vou levar ninguém!

— Meninos traidores — afirmou o robô, adentrando à cabine da nave.

Os degraus da escada subiram de repente, fazendo daquele estranho veículo espacial, algo lacrado. Em poucos segundos, o motor foi acionado. Trinta segundos depois, aquele monstro começava a se movimentar, saindo de sua posição suspensa no ar e menos de outros trinta segundos, já desaparecia no espaço acima de nós, sabe-se lá por quanto tempo. Talvez para sempre.

A nave partiu antes que meus pais se levantassem e com isto, sem se despedirem de ilustres visitantes.

Quando meu sósia entrou na cozinha, em retorno do quintal, ouvimos as palavras de mamãe, que acabando de se levantar insinuou:

— Regis, ouvi barulho! Os meninos já se foram?

Escondi-me do lado externo da cozinha e pude ouvir mamãe, que segundos depois, reconhecendo qual Regis estava à sua frente, gritou desesperada:

— Regis! Cadê o meu Regis?

— Ele se foi em meu lugar — gracejou meu sósia. — A senhora permitiu! Lembra?

— Só se eu estivesse dopada! — Gritou ela muito nervosa — Quero meu filho de volta!

— Calma mamãe! — Insinuei aparecendo na porta, antes que ela tivesse um infarto — Não irei a nenhum lugar!

— Mas... — se atrapalhou ela. — Me pareceu ter ouvido vozes, como se os meninos tivessem partido.

— Erick e o robô se foram — confirmei sério, envolvendo meus braços ao ombro do outro menino. — Ele vai ficar conosco!

— Como assim? — Não compreendeu mamãe — Pra sempre?

— Sim mamãe! Pra sempre!

— Mas... E seu mundo?

— Meu mundo é aqui! — Alegou o outro menino, com jeitinho meigo — Quero ter uma família de verdade!

— Mamãe! Ele pode lhe chamar de mãe? — Pedi de certa forma emocionado.

Ela começou a chorar e nos abraçou juntos. Depois me deixou, acariciando com ambas as mãos o rosto do menino susteriano e ainda entre lágrimas, disse:

— É tudo o que mais quero neste mundo! Meus filhos pequenos junto de mim! Jura que você veio pra ficar conosco?

— Quero ter alguém que me ame de verdade — confirmou o menino.

Papai entrou na cozinha e ficou assistindo a uma cena emocionante e feliz. Então, entre lágrimas, abraçou a todos nós ao mesmo tempo e alegou:

— Parece que Deus vai devolver nossa felicidade, esquecida no tempo.

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Notas finais
Um comentário deixará o autor feliz.