Refém da Paixão
27 Nosso Grãozinho
Notas iniciais
Eu já deveria estar acostumada com as reviravoltas daquele caso. Cada dia que chegava trazia consigo uma revelação que me fazia questionar tudo, porém, nada havia me preparado para aquilo.
Jacob e Victória? Eles tinham um caso? Victória não era apaixonada pelo marido?
Minha mente fervilhava com as tantas perguntas e chegava a ser sufocante não ter nenhuma resposta.
O sinal abriu e pude perceber que Edward estava preso no mesmo transe que eu, já que só se deu conta quando os veículos começaram a buzinar. Engatou o carro e pisou no acelerador, sua face estava contorcida pela perplexidade.
—Você fazia ideia de que isso estava acontecendo? – perguntei com cautela. Aquilo tinha me deixado tão surpresa que até mesmo o enjoo que eu sentia havia passado.
—Nenhuma. – cerrou o maxilar mantendo os olhos fixos no trânsito. —Agora tudo faz sentido para mim.
—Como assim? – encarei-o fixamente sem entender seu ponto.
—Jacob está usando Victória para me atingir. Ele está manipulando-a.
Prendi o lábio inferior entre os dentes e respirei fundo. Não sabia se concordava com ele, até porque Victória não parecia nem um pouco usável, mas era cedo demais para tirar qualquer conclusão de tudo aquilo.
Precisava pensar com calma, ligar todos os pontos e tentar chegar em uma conclusão. No entanto, não era hora de focar naquilo. Minha prioridade naquela manhã era saber sobre o bebê e se estava tudo bem.
Edward parou o carro em frente ao prédio da clinica Hilton e na mesma hora o manobrista se aproximou com um segurança. Eles foram extremamente educados, o segurança que se apresentou como Walter, fez questão de me cobrir com um guarda-chuva para que eu não tomasse o chuvisco que caía.
Já havia ouvido falar sobre a clínica Hilton alguma vezes e sua fama não rondava apenas em cima dos excelentes médicos que ali trabalhavam, mas também no valor exorbitante que era preciso desembolsar para ser atendido lá.
Fomos recebidos com o maior cuidado do mundo. A recepcionista pediu que um jovem nos acompanhasse até o nono andar e avisou que a doutora Sun-Hee já estava a nossa espera.
Todo aquele ambiente luxuoso e cheio de regalias só fortalecia meus temores pelo valor daquela consulta. Tentava não me apegar aquilo, mas era impossível não me incomodar com o fato de que uma visita ao médico custava metade do meu salário mensal.
—Olá, sejam bem-vindos! – a doutora nos recebeu na porta do seu consultório. Ela tinha fortes traços orientais, era alta e sorria com simpatia.
Seu consultório era enorme, o pé direito alto só realçava as janelas que iam do chão ao teto. Tudo era muito claro e limpo, e havia um aroma de lavanda circulando pelo ar.
Edward puxou a poltrona para que eu me sentasse e logo se colocou ao meu lado.
—Então temos uma suspeita de gravidez no ar? – Sun-Hee se sentou a nossa frente e me encarou sorrindo, rapidamente maneei a cabeça em concordância. —Fez algum exame?
—Somente o de farmácia.
—Entendi. – proferiu enquanto anotava algumas coisas no MacBook. —Está sentindo alguma coisa? Enjoo? Sono constante?
—Muitos enjoos. – desabafei soltando o ar pela boca. Ela ergueu seus olhos e manteve sua atenção fixa em mim enquanto narrava tudo o que havia sentido nos últimos dias.
Era difícil saber o que fazia parte da gravidez e o que fazia parte do esforço repetitivo do trabalho, como o sono, por exemplo. Estava bastante sonolenta ultimamente, mas não podia dizer o que estava motivando aquilo.
—Estudando o seu caso, vi que você faz uso do DIU, certo? – concordei com a cabeça. —Há quanto tempo não faz a revisão?
Prendi o ar nos pulmões enquanto sentia minhas bochechas esquentarem. Não conseguia lembrar a ultima vez que havia ido ao ginecologista. Provavelmente tinha sido há mais de um ano.
—Já tem um tempo considerável... – falei um pouco sem jeito. Edward bufou alto ao meu lado.
—Ela é a pessoa mais negligente com a saúde que eu conheço. – rolei os olhos diante seu comentário, Sun-Hee soltou uma risada breve, mas pude ver a advertência em sua face.
—Ia pedir que fizesse um exame de sangue, mas prefiro partir direto para o transvaginal. Preciso ver como está seu DIU, porque é raro ocorrer gravidez quando se faz uso dele. – ela fez uma pausa para respirar fundo. —Há quanto tempo faz o uso do dispositivo?
—Cinco, seis anos. – não tinha certeza, mas girava em torno daquilo.
—É o de cobre, prata ou o hormonal?
—Cobre. – foi bom poder responder alguma coisa com convicção. Já podia sentir a represália na postura de Edward.
—Ok. Pode ser que ele tenha perdido a validade, mas acho pouco provável. O que eu acho, é que o DIU se deslocou e você acabou engravidando por isso.
Ela narrou tudo com calma, com paciência e cuidado, mas consegui ver a rusga de preocupação em sua testa.
—Isso é perigoso? Digo, para o bebê. – mordi o lábio inferior quando ela se mexeu na cadeira, um tanto quanto pensativa.
—Geralmente, quando há o uso do DIU e ocorre a gravidez, as chances de o óvulo ter sido fertilizado em um lugar incomum é muito grande. – sua voz manteve um tom calmo. —É o que chamamos de gravidez ectópica.
—Mas existe algum risco nisso? – Edward perguntou e percebi que ele estava tão preocupado quanto eu.
—Para a mulher os riscos são muito baixos, somente se tiver um sangramento vaginal e este não for tratado. – aquilo não me deixou nem um pouco mais calma. —Mas o feto fertilizado fora do útero não se desenvolve, não consegue sobreviver.
Seu complemento me deixou completamente desestabilizada. Não estava nem um pouco preparada para ouvir aquilo e principalmente para lidar com aquela situação. Não tinha planejado engravidar, mas não queria perder o bebê.
—Não se preocupe antes do tempo, vamos fazer o ultrassom antes de chegar a qualquer conclusão, ok? – Sun-Hee tentou me passar algum conforto, e mesmo concordando não consegui deixar a preocupação de lado. —Vou pedir para arrumarem a sala e já venho buscar vocês. Com licença.
Sun-Hee deixou o cômodo e deixou toda a tensão ali. Meu coração batia forte dentro do meu peito que estava bastante contraído.
Estava me sentindo absurdamente culpada. Se aquilo estava acontecendo era por culpa minha. Minha negligência perante o uso do DIU, juntamente a falta do uso da camisinha tinham resultado naquilo.
—Tenho certeza que vai dar tudo certo. – Edward atraiu minha atenção ao pegar minha mão e entrelaçar seus dedos aos meus.
—Será? – olhei-o na busca de encontrar aquela certeza. Edward sorriu com o canto dos lábios e se esticou para beijar minha testa.
—Tenho certeza que sim. – seus dedos afagaram minha bochecha. —Não consigo imaginar um bebê mais forte e teimoso do que o nosso. Duvido que ele vai ceder as estatísticas.
Suas palavras me fizeram sorrir e conseguiram aliviar um pouco a tensão que sentia. Tentei me agarrar a elas enquanto tirava minha roupa e vestia a camisola branca. Nem mesmo a vergonha de deitar na maca e ficar um tanto quanto exposta para a médica, era maior do que a preocupação que eu sentia.
Edward segurou minha mão enquanto ela introduzia o aparelho de ultrassom em mim.
—Tente relaxar, ok? – concordei com seu pedido, mas como podia relaxar diante aquela possibilidade aterrorizante? —É, ao que tudo indica o DIU deslocou mesmo. – proferiu de olhos fixos no monitor.
Engoli a seco com o coração batente rápido. Olhei rapidamente para Edward, ele tentou não demonstrar preocupação, mas seus olhos peculiares não mentiam mais para mim. Então ele se inclinou e beijou minha testa.
—E sim, você está grávida! – ela nos olhou sorrindo, contudo, não consegui retribuir. —Pode respirar aliviada, querida, seu bebê está bem. Está forte e dentro do útero!
Soltei o ar pela boca enquanto o alívio percorria todo o meu corpo. Nunca tinha me sentido tão aliviada quanto naquele momento. A sensação de ir do inferno ao céu era muito real.
Edward sorria grande o orgulhoso, voltou a beijar minha testa e logo encarou o monitor. Majoritariamente preto, havia algumas sombras acinzentadas e outras esbranquiçadas, mas para mim era a pintura mais linda do mundo.
—Está de sete semanas e dois dias. – a doutora observou. —Olhem só. – pediu abrindo um quadrado verde na tela. —Esse é o bebê de vocês.
Quase não se via nada, além de um minúsculo grão e sua vesícula vitelínica. Ali estava meu bebê, um projeto de gente que nem bem havia chegado e eu já amava com tanta intensidade!
—Meu Deus, que pequenininho! – sussurrei com os olhos fixos na tela. Não tinha nada mais lindo para mim do que aquele grãozinho em formato de feijão.
—Tem seis milímetros. – Sun-Hee informou após medi-lo. E meu coração voltou a transbordar de amor.
Era realmente um grãozinho. O meu grãozinho!
—Acho que já vamos conseguir ouvir o coraçãozinho... – ela murmurou enquanto teclava rapidamente mandando comandos para o monitor.
Quando o som alto dos batimentos acelerados começou a ecoar pela sala, foi impossível conter a emoção. Nada tinha me preparado para aquele momento, e nunca tinha se quer imaginado que sentiria um amor tão grande como aquele.
Era um misto de sensação, aliás. Muito amor e muito alívio. Saber que tudo estava bem, que o bebê estava se desenvolvendo no lugar certo, e que seu coração pulsava com vigor dentro de mim, me levaram a um estado de paz indescritível.
—Aqui está a primeira fotografia do bebê de vocês. – Sun-Hee nos entregou as imagens assim que voltamos para a sala.
Era difícil saber quem estava mais encantado com as fotos do nosso grãozinho. Ao mesmo tempo que não conseguia tirar os olhos da imagem da ultra, não queria deixar de observar Edward. O sorriso em sua boca era grande, seus olhos não escondiam a emoção, ele estava vidrado, apaixonado!
—Isabella, eu quero que faça esses exames para que possamos dar início ao pré-natal. – Sun-Hee me entregou os papéis preenchidos. —Já te prescrevi algumas vitaminas e um remédio para conter os enjoos.
—Certo. – fiz questão de decorar cada palavra que ela dizia.
—E quanto ao DIU? – Edward perguntou e de repente partilhávamos da mesma dúvida. —Não é bom tirar?
—Não, não quero correr o risco de deslocar a placenta. O próprio corpo da Isabella vai expulsá-lo na hora certa. – ela demonstrou tanta certeza que nem cogitei a ideia de contestar. Confiava totalmente em suas decisões.
—Você acha que eu engravidei por causa do DIU estar deslocado? – aquela duvida rondava minha mente.
—Acho provável, mas é difícil falar. Nenhum contraceptivo é cem por cento eficaz. – encolheu os olhos ao me estender os últimos papéis. —A única forma de não engravidar é evitar relações sexuais! – soltou um riso se divertindo com o rubor em minha face.
Estava tão plena e feliz que nem consegui me manter envergonhada por muito tempo. Edward e eu a agradecemos muito por todo o cuidado e atenção que ela teve conosco durante a consulta, e saímos da clínica muito mais felizes do que entramos.
Por mais que aquela gravidez não tivesse sido nem um pouco planejada, aquele bebê era a nossa luz em meio a tanta escuridão.
—E então, está feliz? – Edward me perguntou assim que entramos no carro.
—Muito. – suspirei prendendo o cinto de segurança. —E você?
—Também. – o sorriso em sua face e o brilho em seus olhos peculiares não escondiam. —Ainda não consigo acreditar que vou ser pai mais uma vez.
Recostei a cabeça no banco de couro enquanto idealizava um mini Edward, ou uma mini Mel.
—Será que a Melissa vai gostar de ter um irmão? – de repente aquela questão me veio a mente.
De olhos no trânsito, Edward abriu ainda mais o sorriso, enquanto concordava com a cabeça.
—Ela vai amar, tenho certeza! – sua resposta me deixou ainda mais feliz. —Só é uma pensa não poder contar agora.
Meus ombros caíram assim que ele completou seu raciocínio. Queria sair gritando por aí, contagiando a todos com aquela felicidade que trasbordava dentro de mim, contudo, não podia fazer aquilo.
Já era um alvo visado, se soubessem da minha gravidez iria correr mais riscos ainda.
—Não vejo a hora de tudo isso acabar. Quero você e nossos filhos em segurança o mais rápido possível...
—Você também precisa estar em segurança. – o interrompi encarando-o fixamente. —Só eu sei o quanto sofri quando meu pai morreu. Não quero que a Mel ou o grãozinho passem por isso.
—Grãozinho? – me olhou rapidamente com os olhos cerrados.
—É. – dei de ombros. —Ele é só um grãozinho. Parece um grãozinho de feijão.
—Verdade. – concordou rindo. —É o nosso grãozinho!
Seus olhos vieram para os meus e vi o amor refletido em seus orbes raros. Sabia que meu filho teria tudo o que eu não tive: uma família estável e cheia de amor. Aquilo me reconfortava demais!
O sol começou a aparecer por entre as nuvens carregadas de chuva. E era exatamente como me sentia em relação ao bebê!
Voltamos para a casa e precisei deixar de lado a emoção que sentia para focar no problema que nos rodeava, já que Emmet estava a nossa espera e sua cara não era nada animadora.
—Faz tempo que está esperando? – Edward perguntou pegando Melissa no colo.
Ela estava tão linda vestida de bailaria, com um tutu rosado armado e o cabelo preso em um coque perfeito!
—Não muito. – deu de ombros se levantando da poltrona. —Mel me fez companhia! – sorriu de olhos na afilhada. —Onde vocês foram?
Edward e eu nos entreolhamos, a dúvida nos corroendo da mesma forma. Deveríamos ou não, contar para ele? A suspeita sobre Emmet ainda me rondava, apesar de ter se dissolvido um pouco.
—Vamos conversar no meu escritório. – Edward quebrou o silêncio e colocou Melissa no chão. —Princesa, vai tomar um banho e se arrumar para o almoço, ok?
—Mais eu queria brincar de conto de fadas com você e com a tia Bella! – curvou os lábios em um biquinho fofo apesar de desapontado.
—Depois do almoço nós brincamos. – afaguei seu rosto tentando animá-la. —Vamos brincar a tarde toda!
—Você jura de dedinho? – me fitou com os olhos cerrados.
—Eu juro de dedinho! – confirmei esticando o dedo mindinho em sua direção. Melissa sorriu grande e enlaçou seu dedo ao meu. —Coloque a fantasia de fada mais linda que tiver, hein?
—Vou colocar a fantasia mais linda! – repetiu segurando a mão de Sarah antes de sair da sala.
A ausência de Melissa deixou o ambiente mais pesado e sério. Sentia que Emmet tinha coisas para nos contar e não sabia se ia gostar do que ouviria.
Edward trancou a porta do escritório assim que entramos. Nós nos sentamos nas poltronas e Emmet puxou tirou o macbook da bolsa.
—A justiça autorizou a quebra do sigilo telefônico de James e Victória ontem a noite. – contou enquanto esperava o computador ligar. —Até o momento James não disse nada comprometedor, mas Victória... – tomou fôlego pela boca enquanto intercalava os olhos entre Edward e eu. —Ela marcou um encontro com Jacob hoje de manhã.
Mordi meu lábio inferior olhando para Edward de soslaio. Ele cerrou o maxilar e se mexeu na poltrona.
—Nós já sabemos. – pontuou limpando a voz em um pigarro. —Nós os vimos. Aos beijos, aliás. – correu a mão pelo cabelo sem esconder a tensão que sentia.
—Vocês os viram? – Emmet não escondeu a surpresa que sentia. —Como assim vocês os viram?
—Estávamos indo a clínica Hilton e eles estavam sentados em um bistrô. – Edward explicou rapidamente.
—E do lado externo, aparentemente não tinham a menor preocupação de serem vistos. – completei colocando o cabelo atrás da orelha.
—Meu Deus, que coincidência. – Emmet correu a mão pelo rosto. —Mas o que foram fazer na clínica Hilton?
Edward e eu voltamos a nos encarar. A dúvida ainda existia, mas confiar em Emmet era melhor do que não confiar. Claro que toda falta de sucesso da equipe era estranha, mas com todo o encaminhamento do caso levando a Victória, James e talvez, Jacob, sentia que podia acreditar na inocência de Emmet.
—Estou grávida. – proferi em um único fôlego.
Emmet piscou algumas vezes antes de recuar o corpo. Pude ver a incredulidade em sua face enquanto intercalava os olhos entre Edward e eu.
—Grávida? – perguntou perplexo. —Do Edward? – rolei os olhos assentindo com a cabeça.
—Claro que é de mim, de quem mais seria? – Edward bufou alto.
—Não sei, eu... – maneou a cabeça e então sorriu. —Meus parabéns! – se levantou para nos cumprimentar. Pude sentir veracidade em seu abraço, aquilo me deixou mais relaxada. —Fico feliz por vocês. Sabia que iam acabar se acertando!
—Obrigada, Emmet! – agradeci com um mero sorriso.
—Quem diria, Edward? – olhou para o amigo sorrindo largo. —Quem diria que aquela espiada rápida que deu em Bella na minha festa resultaria em filho? – Emmet soltou uma risada satisfeita. —Já vou dizendo que quero ser padrinho do casamento, porque obviamente eu fui o cúpido...
—Como assim? – o interrompi sem entender o que havia dito. —Que espiada rápida Edward deu em mim na sua festa? – Emmet empalideceu no mesmo momento e quando olhei para Edward soube que ele havia dito demais. —Alguém pode me explicar o que eu estou perdendo?
Os dois se encararam, mas os sentimentos que trocaram não foram igualitários. Emmet tentava se desculpar, enquanto Edward o fuzilava.
—Vamos focar no assunto Victória e Jacob. – Emmet pediu soltando um pigarro alto. —Depois vocês conversam. – sorriu amarelo e um tanto quanto sem graça.
Quem diria que aquela espiada rápida que deu em Bella na minha festa resultaria em filho.
Por mais que tentasse manter a concentração na ligação de Victória para Jacob, não conseguia parar de repassar as palavras de Emmet. Contudo, quanto mais as revisava, mais elas pareciam desconexas para mim.
—Eles estão sendo monitorados de perto. Estou aguardando a justiça liberar a quebra de sigilo do celular do Jacob. Tenho certeza que ele está envolvido até o pescoço. – Emmet fechou o computador e precisei chacoalhar a cabeça para focar em suas palavras.
—Já que tem tanta certeza porque não os prende? – Edward demonstrou certa impaciência, mas ainda parecia incomodado pelo que Emmet soltara.
—Preciso de uma prova concreta, Edward. – respondeu ao se por de pé. —Tenho certeza que ela virá agora que estou tendo acesso aos celulares deles. – sua voz soou um tanto quanto positiva. —Bom, enquanto isso não acontece, tentem se manter em segurança. Vou pedir que outro agente venha fazer a ronda noturna, já que Bella está um pouco mais vulnerável.
—Certo. – concordei brevemente.
—Qualquer notícia entro em contato. – Emmet encarou Edward e vi um pedido de desculpas silencioso aparecer em seu olhar, diante a face fechada de Edward ficou claro a resposta negativa.
Emmet se despediu e saiu do escritório, Edward se levantou da poltrona e fez menção de afastar, mas fui mais rápida.
—Vamos ver como Mel está...
—Nada disso. – o interrompi parando diante a porta. —Não vamos sair daqui até que me explique o que Emmet disse.
—Ele não disse nada...
—Edward. – bati o pé vendo-o rolar os olhos e bufar. —O que ele quis dizer com ter dado uma “espiada rápida que deu em mim em uma festa”?
Edward contraiu o maxilar e se afastou em silêncio indo até o bar. Encheu um copo com whisky e tomou o líquido em dois goles. Aquele era um sinal claro de que ele estava nervoso. Era muito bom conseguir ler seus movimentos.
—Estou esperando. – quebrei o silêncio fazendo-o bufar mais uma vez.
—Eu te vi na casa dele uns dias antes disso tudo começar. – soltou em um só fôlego, seus olhos fitavam um ponto qualquer da paisagem que a janela oferecia. —Na festa de aniversário dele, para ser mais exato.
Endireitei a postura enquanto assimilava sua resposta. Minha mente vagou rapidamente para aquela noite quente e estressante. Tinha chego atrasada a festa, minha vida estava um verdadeiro caos, Mike e eu havíamos dado um fim definitivo no nosso relacionamento e não conseguia um apartamento que estivesse dentro do meu orçamento para alugar.
—Eu não...
—Não me viu. – completou me olhando por um rápido segundo. —Eu sei, mas eu te vi. – deu de ombros voltando a encher o copo com a bebida âmbar. —Tinha ido para uma sala mais reservada falar ao telefone sobre minha ida a Melbourne, quando você entrou. Estava muito estressada, xingando seu ex e se perguntando por que tudo estava dando tão errado na sua vida. – um mero sorriso apareceu no canto dos seus lábios. —Não quis te constranger, então me escondi no banheiro. – levou o copo a boca enchendo-a com o whisky.
Pisquei algumas vezes antes de mergulhar nas lembranças daquele momento. Estava realmente revoltada. Mal havia chegado à festa e já tinha dado de cara com Mike. Meu ódio por ele estava latente naquela noite, então preferi me afastar para não fazer algo que fosse me arrepender depois.
Nunca imaginei que tivesse mais alguém dentro daquela sala de cinema. Não havia se quer percebido que havia um banheiro lá.
—Eu nem precisei te olhar muito para te achar incrivelmente linda...
—Linda? – aquilo me pareceu um tanto quanto absurdo. —Estava de jeans e camiseta, meu cabelo estava húmido e não me lembro de estar maquiada...
—Para mim estava linda. – deu de ombros ao me interromper. —Eu nunca tinha visto uma mulher tão brava como você estava naquela noite, e achei aquilo muito sexy. – soltou um risinho ao se lembrar. —Comecei a odiar seu ex ali, com você.
Corri a mão pelo rosto ainda surpresa com tudo aquilo. Era difícil de acreditar que Edward havia se interessado por mim.
—Isso não faz sentido. – proferi com toda sinceridade. —Você costumava se relacionar com as mulheres mais lindas do país. Atrizes, modelos... Porque iria se interessar por mim?
—Porque você era diferente de todas elas. Você é diferente. – corrigiu me olhando por um breve instante. —Pode parecer absurdo para você, porque você não percebe o quanto é maravilhosa, o quanto é única..., Mas é a mais pura verdade.
Olhei-o fixamente por vários segundos. Por mais que ele me garantisse a veracidade do acontecido, ainda não conseguia acreditar, porque simplesmente não fazia sentido aquele homem maravilhoso que vivia cercado das mulheres mais lindas do mundo, ter se interessado pela minha versão desarrumada e sem graça.
—Porque não veio falar comigo então? – questionei diante a dúvida.
—Se eu tivesse saído daquele banheiro teria levado uns tapas de você. – abri a boca para contestá-lo, no entanto, Edward fora mais rápido. —Teria sim, não adianta desmentir. Te conheço o suficiente para saber que você ficaria ainda mais irada por saber que eu estava ouvindo seu desabafo!
Curvei os lábios em um biquinho contrariado. Era estranho admitir que ele tinha razão.
—Mas aí surgiu a oportunidade de te conhecer melhor por causa da missão, e resolvi aceitar aos apelos de Emmet. – continuou. —Com a condição de que fosse você a minha “namorada”. – seus dedos longos fizeram aspas no ar.
—Você pediu para o Emmet me escolher, então?
—Na verdade eu exigi que fosse você. – deu de ombros.
—E você nunca pensou em me contar isso? – cruzei os braços sem conseguir deixar de me sentir irritada.
Tinha acreditado desde o início que Emmet havia me escolhido para acompanhar Edward por conta da minha competência, não para saciar um tesão do melhor amigo!
—Não. – deu de ombros visivelmente convicto de sua escolha. —Não queria que soubesse, até porque isso é coisa de homem frouxo...
A risada irônica escapou por minha garganta.
—Fazia tempo que você não dizia uma coisa tão absurda quanto essa! – fiz questão de deixar aquilo claro. —Tinha até me esquecido das babaquices machistas que você costuma falar...
—Não disse nenhuma...
—Eu odeio que mintam para mim. – não deixei que ele continuasse sua justificativa. —Principalmente quando está relacionado ao meu trabalho. Você não tinha o direito de me usar, eu não sou uma peça no seu jogo para você movimentar como quer...
—Eu não te usei! – rebateu olhando nos meus olhos. —Só queria me aproximar de você, e esse foi o jeito que encontrei.
—Um jeito muito babaca! Pensei que Emmet tivesse me escolhido pela minha competência, não para satisfazer suas vontades.
Edward rolou os olhos e bufou alto antes de se aproximar uns passos.
—Ele já ia escolher você. Seria você ou Alice. Eu quis você. – aquilo não melhorava nem um pouco as coisas. —Ninguém te usou, pelo amor de Deus, não seja cabeça dura...
Entreabri os lábios para rebatê-lo e repetir o quão errado fora tudo aquilo, mas as batidas na porta me interromperam. Nós respiramos fundos e tentamos baixar o clima antes de abrir a porta.
—O que foi? – Edward fora seco com Emmet e eu logo notei a tensão em seus olhos.
—Aconteceu alguma coisa? – me aproximei já sendo abraçada pela preocupação. Ele disse que iria embora, mas algo o fez mudar de ideia.
—Victória está lá em baixo, e quer falar com vocês.
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