Reflexo
5 Capítulo 5 - Sua vida é vazia
Notas iniciais
Durante meus dezessete anos, nunca tive que me preocupar com nada. Eu tinha tudo, o que uma adolescente pudesse desejar. Mesmo sendo adotada, sei que tive muita sorte, pois pelo que sei, nem todas as crianças adotadas têm esses privilégios.
— Você quer mesmo ir embora? – perguntou Gale, me assustando.
Passamos algumas horas no quarto, na verdade, muitas horas. Pelo menos por um tempo, consegui esquecer, todos aqueles problemas. Meu pai não ligou nenhuma vez. Não que eu quisesse, que ele nos interrompesse, como costuma fazer. Mas devo admitir que, é estranho ele não dar sinal de vida.
Sem dúvida, passou o dia se divertindo com o bastardo.
Não descobri onde eles foram, mas provavelmente ele arranjou um jeito de levar o filho para os pontos turísticos da cidade.
O que é uma chatice sem tamanho. Que graça tem, visitar algum ponto turístico se é, impossível vê-lo?
Meu dia não foi muito divertido. Passei boa parte do tempo no quarto com Gale, enquanto uma festa rolava solta na sala.
— Querer eu não quero, mas preciso. Se eu der sorte, não vou ter problemas para entrar – explico, verificando o relógio do celular. Gale levanta bufando, recolhe uma roupa do chão vestindo-a e se posiciona atrás de meu corpo puxando o zíper do vestido para cima. Haviam noites em que eu não voltava para casa. Duas vezes por semana no mês eu ficava aqui, por falta de programas interessantes, ou porque de um jeito meio torto, ele me dá atenção. Uma atenção que poucas pessoas me direcionam.
— Por que o bastardo veio? Você nunca me contou. Qual é mesmo o nome dele?
— Peeta.
— Por que ele veio?
— Não sei, o jeito que meu pai falava dessa situação antes, era sério. Parecia que ele tinha um problema grave para resolver. A única coisa que me vem na cabeça, é chantagem. Alguma desculpa esfarrapada para se aproximar. Você sabe como é essa gente – aponto para a porta, me referindo as pessoas que ainda estão lá fora. Comendo e bebendo à vontade. — Eu ainda tenho a cópia das chaves. Caso ele me irrite de novo, venho aqui nem que seja de madrugada.
— Relaxa, gatinha. O seu pai é meio... chato as vezes. Mas ele sempre acaba fazendo tudo que você quer, quando quer. Não é a visita de um bastardo cego, que vai mudar isso. A filha dele, é você.
Essa parte é mentira. Eu não sou filha do Alex, Peeta é. Não sou a filha biológica. Se ele quiser me devolver para um orfanato algum dia, pode fazer isso.
— Você não entende.
— O que?
— Esse cara ameaça toda a minha vida. É melhor eu ir pra casa. – Viro-me decidida, e acabo parando na porta. — Dinheiro para o táxi?
— Quer que eu te leve?
— Não, sem mais problemas por hoje.
Ele jogou a carteira permitindo que eu retirasse algumas notas. Lembro do mês passado, quando eu gastava o quanto queria em um shopping. E agora, aqui estou eu, em um quarto sem nenhum dólar para pegar um táxi.
Droga de vida!
§§§
Entrei em casa com cuidado. Temendo ser vista por alguém. Ele já tirou tudo que me diverte, ainda falta o celular.
Respiro com alívio ao constatar que está tudo vazio. Todos já devem estar dormindo. A cozinha está vazia, nenhum movimento, quando sem querer, acabo batendo a porta com força. Meus passos são inaudíveis. Por sorte lembrei de calçar uma sapatilha ao invés de saltos. Caminho às cegas até a sala de jantar, acendo as luzes, só então percebendo a TV ligada.
O que me espanta, não é só o bastardo, sentado no sofá, achando que vê televisão. É também, o cachorro espalhando um bolo de pelos no estofado.
Quando chego em casa meio aérea e acabo caindo nesse mesmo sofá, Alex não espera nenhum segundo para me tirar dele, quase sempre rola um banho frio depois.
— O que pensa que está fazendo? – pergunto, com incredulidade soltando a bolsa no chão.
— Alex disse que posso usar a TV se quiser.
— Não é só isso não, apesar de você não conseguir ver o filme...
— Mas ainda tenho dois ouvidos – responde, me cortando. — Ouvidos muito bons.
— Olha não importa, só tire o cachorro do meu sofá. – Escuto ele suspirar, enquanto acaricia o pelo brilhante.
— Sai, Thor – pronuncia baixo, o animal parece escutar e obedece.
Onde ele arrumou um cachorro treinado? Pelo que sei, ele mora em uma casa simples de madeira com a mãe. O que não o impede de ter um cachorro caro.
— Quando eu era pequena, pedi um cachorro para o meu pai, ele não me deu sabia? – Solto querendo me bater.
— Por que não?
— Até hoje, eu não sei, mas para você ele deu.
— O que? Não, não foi ele...
—- Você não me deve explicações, Peeta.
— Eu não entendo. Por que você tem essa imagem a meu respeito? Não trocamos nem duas palavras até ontem à noite. – disse ele, com dúvida, e eu soltei uma gargalhada irônica. Por um momento eu achei que o teatro havia acabado.
— Então comece a entender. A minha vida era perfeita, até o maldito dia em que meu pai me olhou e disse "o Peeta chega na semana que vem". Sem preparação nenhuma, ele cortou a minha mesada, meu carro e minha liberdade. E pode cortar mais coisas, se eu não for no mínimo "simpática " com você. Ele te convida para vir desde sempre. Eu cresci vendo-o te convidar. É muito estranho do nada, você aceitar – insinuo, vendo-o se remexer desconfortável.
— Como você disse, eu não te devo explicações. Não é fácil para uma pessoa normal, encarar um cego em casa. Eu não quero ser um problema para ninguém.
— Então vai embora.
— Eu não posso. – Ficamos em silêncio por um tempo, ele ouvindo o som da TV e eu o analisando. — Por que você se preocupa tanto com essas coisas?
— Que coisas?
— Carro, mesada, sair... Por que isso é tão importante?
— É a minha vida.
— Sua vida é vazia – pronuncia Peeta do nada, tirando qualquer expectativa minha em desmascará-lo agora.
Estranhamente, realmente não sei porquê, aquilo me afetou, afetou muito.
— E a sua não?
— Minha vida é incompleta, não vazia. – Mais um tempo em silêncio, não gosto quando me tiram as palavras.
— Onde ele está?
—Trabalhando. Ele mandou avisar que vai passar a noite no escritório. – Ele não está no escritório até agora trabalhando, deve ter acontecido alguma coisa que, o fez lembrar da minha mãe. Ele não vem nessas noites, passa um bom tempo se lamentando naquela sala.
— E você acreditou?
— Foi o que ele disse.
Balanço a cabeça incrédula. Então tenho uma ideia interessante. Não é todo dia que tenho chances como essa. Algo me diz que não vai ser sempre assim pelos próximos meses.
Quando me dei conta o telefone já estava chamando.
— Gale? Chame o pessoal e traga bebidas, vou dar uma festa.
§§§
Talvez Peeta tenha escutado minha curta conversa ao telefone, por "coincidência" ele desligou a TV e subiu com o cachorro que antes brincava no tapete.
Pouco tempo depois, Gale chegou trazendo o mesmo pessoal do apartamento, até as garotas quase nuas. Esqueci de mandá-lo cortar essa parte. Logo alguém ligou os aparelhos de som e a festa começou do lado de fora, na área da piscina.
Amanhã bem cedo, vou ter que limpar tudo, se eu tiver sorte meu pai não percebe a bagunça.
— Onde ficam os quartos? — Uma garota pergunta sorrindo maliciosa, estranho ela não ter ninguém a acompanhando.
— Lá em cima — aponto para as escadas. — Fique longe do meu, é o primeiro a direita – digo ameaçando-a. Ela concordou correndo para o segundo andar. Gale sumiu com as caixas de cerveja e eu não conheço nenhuma dessas pessoas. Todo o pessoal do último ano foi curtir as férias viajando. Meu pai tirava férias quando eu era menor, agora ele se mostra mais interessado no trabalho do que em mim. Esse é o motivo pelo qual quase nunca saímos. E também uns dos porquês da minha pressa para completar dezoito anos.
— Ei, tire os pés do meu sofá – ordeno irritada, para um grupo de garotos que riram entre as doses de cerveja. Há várias latinhas jogadas em todos os cantos, até nos vasos das flores, vai ser impossível limpar isso tudo sozinha amanhã.
Ouço um barulho de coisas quebrando na cozinha. É uma péssima ideia dar festas aqui. No apartamento do Gale ninguém nunca quebra nada.
— Onde você se meteu?
— As cervejas estavam acabando, dei um jeito de conseguir mais. Tudo bem?
— Não, nada está bem. Eu mudei de ideia, tire essas pessoas daqui.
— Gatinha...
— Tira logo. – Meu celular começa a tocar e eu penso em não atender, mas ele tem o poder de sacar as coisas rápido. Pode perceber que tem algo errado. — Vou falar com meu pai, quando eu voltar quero todo mundo pra fora.
Ando para um canto afastado do barulho, abafando o som ao telefone com a ajuda da mão.
— Filha? Eu não vou poder voltar hoje, já é de madrugada e eu liberei o motorista.
— Tudo certo, eu já estava indo dormir.
— Então amanhã conversamos. Não apronte nada. – Desliga depois de dar uma ênfase nas últimas palavras.
Quando eu voltei para a sala todo mundo já tinha ido, já posso respirar com liberdade. Embora a bagunça tenha continuado aqui.
— Todo mundo foi? Ninguém levou nada?
— Eu verifiquei, calma. – Revira os olhos despreocupado. — Falta a Miranda.
— Quem? Que nome é esse?
— Miranda, é a garota que eu paguei para dar um trato no bastardo.
Problemas, problemas, e mais problemas!
— Como assim trato?
— Achei que cerveja e uma garota gostosa ajudaria com o problema – explica acariciando meus cabelos, eu o afasto contrariada.
— Merda, Gale! Quando você teve essa ideia?
— Há uma hora atrás, quando você ligou, achei que fingir ser amigo dele, seria um começo pro cara vazar. Ela só ganhou dinheiro para tirar a roupa e fazer todo o resto já que ele...
— Por que não me disse, que o garoto é cego? Paguei o maior mico lá em cima – disse a tal garota, descendo as escadas, enquanto ajeitava a pouca roupa que tinha no corpo.
— Então, como foi?
— Não foi. Levei o maior fora e ele ainda é tímido. Arrume uma garota que tenha experiências com esse tipo de serviço.
— Você não tem o direito de ir "contratando" gente pra isso. Na verdade, não gaste dinheiro com ele, vai ser fácil mandá-lo embora – falo para Gale.
— Se é tão fácil, então resolva sozinha. Você só sabe falar disso e reclamar. Se quer mesmo dar um jeito nele me fala, eu faço isso em dois tempos. Só não me procure para encher a paciência e ir embora. – Ele saiu pisando duro sem me deixar revidar.
Eu quem deveria estar nervosa.
Olhei em volta, avaliando a bagunça. Eu podia estar dormindo agora.
Sem muitas opções me sento no estofado sujo, encontro algumas garrafas de bebida no chão, ainda intactas.
São elas que me ajudam a esfriar a cabeça.
No outro dia estou um bagaço. Após eu ajeitar a bagunça acabei indo dormir com a roupa que estava em meu corpo. Assim que tomei um banho desci rapidamente os lances de escada, torcendo para eu não encontrar meu pai na cozinha. Para o meu azar, ele estava tomando café e Peeta o acompanhava.
— Bom dia, Katniss. Sente-se e tome café conosco. – Acabei engolindo a seco ao perceber que meu pai estava normal. Sento à mesa e sirvo um copo de suco e como uma torrada. — Quer carona, filha? Darius levará a Effie e o Peeta até o hospital. Podemos ir todos juntos e peço para te deixar no colégio.
O encarei achando que, era um truque para me dar bronca, mas percebi que a paranoia estava tomando conta da minha mente.
— Pode ser – respondi continuando a comer.
— Bem, tenho que pegar uns documentos na biblioteca e já, já saímos.
Meu pai se levantou saindo da cozinha e encarei Peeta por um instante antes de agradece-lo.
— Obrigada.
— Pelo o quê?
— Você não contou... se meu pai descobrisse sobre a festa de ontem, sei que estaria ferrada. – Nunca foi do meu feitio agradecer, mas devo admitir que Peeta me livrou de mais uma bronca e um possível castigo.
— Esquece. – Ele se levantou apoiando a fina vareta metálica no chão e se retirou.
Talvez Gale esteja certo. Ele mencionou ontem a noite sobre fingir, ser amigo de Peeta, para fazer com que vá embora de uma vez. Esse pensamento me ocorre e preciso colocá-lo em prática.
Fale com o autor