Reflexo
6 Capítulo 6 - Flerte
Notas iniciais
A ideia de Gale ecoava na minha cabeça enquanto eu observava Peeta se afastar. Aquele garoto, com sua gentileza quase irritante, estava se tornando um incômodo. Mas Gale tinha razão, fingir amizade era a melhor forma de se livrar dele. Afinal, quem aguentaria conviver com um cego dependente por muito tempo?
No carro, o silêncio era pesado. Meu pai, absorto em seus documentos, Darius, o motorista, concentrado na estrada, e Peeta, quieto ao lado de Effie, que tagarelava sem parar sobre um novo tratamento experimental. Aproveitei a oportunidade para colocar meu plano em ação.
— Peeta, você sabe que o colégio tem um programa incrível de voluntariado, né? — Comecei, forçando um sorriso amigável. — Você poderia ajudar os alunos mais novos com leitura em braile, ou algo assim. Seria ótimo para você e para eles.
Ele respondeu com um simples "hum” sem demonstrar muito entusiasmo. Continuei, falando sobre as vantagens do programa, sobre a possibilidade de conhecer novas pessoas, sobre a satisfação de ajudar os outros. Falei tanto, tão entusiasticamente, que até mesmo meu pai pareceu interessado.
No colégio, me despedi de todos com um sorriso falso e um aceno rápido. Assim que entrei, procurei Gale, que estava encostado em um armário, conversando com alguns amigos. Ele me olhou com um sorriso malicioso.
— Funcionou? — perguntou, sem rodeios.
— Sim, mas ele não pareceu muito animado — respondi, mordendo o lábio inferior. — Talvez eu precise de mais alguns dias...
— Não se preocupe, Katniss. Com a sua atuação, ele vai estar fora daqui em breve. — Ele piscou e eu senti um frio na espinha. Aquele plano, tão bem elaborado, começava a me parecer um pouco... cruel. Aquele olhar de Peeta, tão vazio, tão dependente, me incomodava. Será que eu estava fazendo a coisa certa? A dúvida me corroía por dentro. Mas a ideia de Peeta indo embora me dava um certo alívio. Era uma mistura de culpa e alívio que me deixava confusa e perturbada. Precisava me livrar dele, mas... me sentia estranhamente mal por isso.
O dia passou em um turbilhão de aulas e conversas superficiais com minhas amigas. A imagem de Peeta, sentado no banco de trás do carro, com os olhos fechados, não saía da minha cabeça. Aquele olhar vazio...
A culpa?
Ignorei. A atenção do meu pai é tudo o que importa, e Peeta? Um obstáculo. A ideia de Gale era apenas uma forma prática de me livrar dele, mas agora... uma nova estratégia se forma: usá-lo para reconquistar meu pai.
Nos dias seguintes, minha — amizade — com Peeta se tornou uma atuação. Conversas longas, cheias de detalhes fúteis sobre minha vida, fingindo interesse genuíno pelas dificuldades dele. Toquei seu braço, sem querer, deixei cair livros perto dele, criando contato físico.
Aprendi a descrever as coisas para ele, pintando cenários vibrantes com palavras, explorando as sensações que ele não via. Falei das cores das flores, da textura das folhas, do sabor dos doces, criando um mundo para ele que eu, na minha superficialidade, raramente apreciava. Era uma performance impecável, uma manipulação fria.
Em casa, observei meu pai. A cada gesto de gentileza com Peeta, notei uma mudança nele. Um olhar mais atento, uma palavra de aprovação, um sorriso mais caloroso. Estava funcionando. Ele estava notando minha mudança, minha aparente preocupação com os outros. E isso era tudo.
Peeta parecia cada vez mais apegado. Sua gentileza constante e sua gratidão sincera. Ele não percebeu a manipulação, afogado na admiração por mim, que, na sua cabeça, o tratava com compaixão. Eu, no entanto, sentia nojo. Mas a satisfação de ver meu pai me olhando com orgulho compensava a hipocrisia.
Um dia, enquanto “ajudava” Peeta em um trabalho, o beijei. Um beijo calculado, frio, sem paixão. Mas foi suficiente.
Meu pai me observa, e seu olhar de orgulho misturado com preocupação. A atenção voltou e eu venci.
Peeta era apenas uma peça descartável, uma ferramenta para alcançar o meu verdadeiro desejo: o amor e a aprovação do meu pai. A frieza nos meus olhos refletia a crueldade do meu coração. Conquistei a atenção dele, mas a um custo que eu, na minha superficialidade, ainda não conseguia mensurar.
A vitória, porém, tinha um gosto amargo. A atenção do meu pai era efêmera, uma chama que podia se apagar tão facilmente quanto havia se acendido. E Peeta... Peeta era uma incógnita. Sua gentileza constante, sua gratidão sincera, começavam a me incomodar. Não era o desconforto da culpa, esse sentimento ainda me era estranho, mas uma sensação de... vazio. Como se eu tivesse esvaziado algo dentro dele e a falta que isso fazia ecoasse em mim, um eco estranho e perturbador.
Ele continuava a me procurar, a me agradecer por cada pequena coisa, a me encarar com uma admiração que me deixava cada vez mais desconfortável. Seus toques leves, que antes eu provocava com maestria, agora me pareciam invasivos, uma intrusão na minha cuidadosamente construída fachada de bondade. Eu o evitava, mas ele persistia, com uma teimosia que me irritava e, ao mesmo tempo, me intrigava.
Meu pai, satisfeito com minha suposta transformação, começou a me dar mais atenção, a me envolver em suas atividades. Jantar com ele se tornou um ritual e eu me esforçava para manter a minha performance, mas o vazio dentro de mim se tornava cada vez mais profundo. A atenção dele era uma ilusão, uma recompensa vazia.
O sol da tarde pintava o jardim em tons dourados. Peeta estava sentado no banco de madeira, seus dedos traçando os desenhos na textura áspera da madeira. Eu me aproximei, sentindo a necessidade de manter a farsa, mas o peso da minha manipulação me esmagava.
— Peeta... — Comecei, minha voz soando estranhamente rouca.
— Katniss — ele respondeu, um sorriso fraco em seus lábios. — Você está bem? Parece... diferente.
Diferente? Ele percebeu? Meu coração acelerou.
— Estou bem — menti, forçando um sorriso. — Só... cansada.
Um silêncio se instalou entre nós, o som dos pássaros cantando parecendo alto demais. Ele se mexeu, e eu senti o meu corpo tenso.
— Obrigado por tudo — ele disse, quebrando o silêncio. — Por sua ajuda, por sua paciência...
— Não foi nada — respondi, minha voz seca. — Qualquer um faria o mesmo. — A mentira escorria pela minha garganta como veneno.
Ele ficou em silêncio por um momento, seus dedos parando de traçar os desenhos na madeira.
— Você... você realmente gosta de me ajudar? — A pergunta saiu como um sussurro, cheia de uma vulnerabilidade que me cortou.
Meu corpo inteiro se arrepiou. A verdade, escondida sob camadas de mentiras, ameaçava escapar. Eu queria dizer sim, queria dizer que sentia algo por ele, que a minha manipulação havia se tornado algo mais, algo que eu não conseguia controlar. Mas as palavras não saíam.
— Claro — eu disse, minha voz fria e distante. — Você é meu amigo, Peeta. É natural ajudar um amigo. — A mentira era tão perfeita, tão convincente, que até eu quase acreditei nela.
Ele suspirou, um som baixo e quase imperceptível.
— Eu sei — ele disse, e um longo silêncio se instalou novamente entre nós, um silêncio pesado, cheio de segredos não ditos e verdades não reveladas. O sol da tarde parecia menos dourado, mais opaco, refletindo a escuridão que se instalava em meu coração.
— Peeta, que tal comermos uma pizza?
A pergunta escapou antes que eu pudesse pensar muito. Uma tentativa de quebrar o clima pesado que pairava entre nós. A ideia de uma pizza, simples e despretensiosa, parecia uma fuga da complexidade dos nossos sentimentos ocultos.
Ele sorriu, um sorriso lento e hesitante, como um botão se abrindo com cautela.
— Pizza? Eu adoraria.
A resposta foi simples, mas carregava um tom de gratidão que me incomodava. Ele estava tão acostumado à minha atenção forçada que qualquer gesto de normalidade, qualquer convite espontâneo, parecia ser um presente.
A culpa me apertava o peito. Eu estava usando-o, manipulando-o, e a cada ato de bondade forçada, a minha própria imagem se tornava mais distorcida. Mas a ideia de perder a atenção do meu pai, aquele prêmio tão difícil de conquistar, me impulsionava para frente.
Enquanto caminhávamos em direção à pizzaria, o silêncio voltou a pairar entre nós, mas agora era diferente. Era um silêncio mais leve, menos carregado de segredos não ditos. Talvez a simplicidade do nosso plano – comer pizza – tivesse quebrado, ainda que temporariamente, a tensão que nos prendia.
Na pizzaria, o ambiente ruidoso e animado contrastava com a quietude que eu carregava dentro de mim. Pedi uma pizza de pepperoni, a favorita dele, um gesto calculado para reforçar a minha farsa de amizade. Enquanto esperávamos, observei-o discretamente. Seus olhos fechados, seus dedos traçando padrões invisíveis na mesa. Ele parecia tão tranquilo, tão despreocupado, e a minha culpa se intensificava.
A pizza chegou e o aroma delicioso invadiu nossas narinas. Aquele momento, simples e ordinário, parecia tão distante da complexidade dos nossos jogos de manipulação. Por um instante, eu quase me permiti sentir algo verdadeiro, algo além da minha própria ambição. Mas o instante passou e a minha máscara de amizade voltou ao lugar. A pizza era deliciosa, mas o gosto amargo da minha mentira permanecia.
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