Reflexo
4 Capítulo 4 - Amigos?
Notas iniciais
Eu mal comecei a chorar. Jogada no colchão, as primeiras lágrimas caíam, me esforcei muito para que os soluços não saíssem tão altos. Não quero que eles me escutem.
O que pensando bem, é bobagem.
Nenhum deles se importa comigo. O que automaticamente descarta a frase que meu pai sempre usa "tudo que eu faço, é para o seu bem”.
Ele não quer o meu bem, só eu quero.
Essa foi a primeira vez que alguém levantou a mão para mim, mas não tenho raiva, não raiva dele. Tenho raiva do bastardo e dessa mãe dele também. É claro como água, eles querem dinheiro. Provavelmente é chantagem. Ela quer dinheiro ou então dá com a língua nos dentes, mas se fosse isso, ele não teria ficado tão nervoso.
Eles podem estar preparando as vítimas, antes de iniciar as chantagens. Embora eu esteja muito magoada, não vou deixar que levem nenhuma nota do meu pai, não posso deixar.
Sufoco meus soluços, agora escandalosos, com travesseiros. As lágrimas aumentam, meu rosto já não arde mais. Eu sei que amanhã vai ter uma marca enorme ali.
Escuto batidas suaves na porta, já sei quem é, arrependido querendo se desculpar.
— Vai embora — pronuncio baixo, secando o rosto.
Ele não obedece e a porta vai se abrindo com cuidado. Sento no colchão esperando as desculpas, e não vem nada além de silêncio e susto.
Peeta segurou na porta, não na maçaneta, foi na madeira, seus dedos escorregavam por ela. ele incerto, colocou os pés para dentro, agora sem o cachorro. Ele segura uma bengala longa, esfregando-a no chão como forma de precaução. Meu quarto estava uma bagunça na semana passada. Isso seria divertido, se ele tivesse chegado há alguns dias atrás.
Ele empurra a porta com uma das mãos e caminha para frente, sem rumo.
— Katniss? — chama andando em velocidade lenta.
— Pare! — digo fria. — Se você cair, vai sobrar para mim.
— Eu não quero brigar. Não sei bem o que aconteceu...
— Claro que não sabe. Você é só um cara cego, que chegou aqui menos de quatro horas e já acha que está em casa – debocho.
— Tem razão. Eu não quero problemas com você. Tem um motivo para eu ter vindo. São só dois meses. Podemos pelo menos tentar ser amigos.
— Amigos? Minha vida virou um inferno, desde que eu soube que viria. Meu pai acabou de me bater naquela sala, por sua culpa. E agora vem até aqui se fazer de vítima? Já pode ir embora. Não quero nenhum contato com você.
— Não é nada disso. Eu não sabia que seriam tantos problemas. Se eu soubesse não teria vindo.
— Pare de se explicar! Só sai do meu quarto. Quero ficar sozinha. – Felizmente ele não pestaneja, e faz todo aquele percurso mais uma vez. — Peeta? Aproveite bem a banheira, o quarto enorme e cada segundo. Isso é o mais perto que vai chegar de algum luxo.
Joguei o travesseiro na porta quando ele saiu, que estourou e as penas se desfizeram no chão.
A bagunça que aquele "simples" movimento fez, se compara a minha vida agora.
§§§
No dia seguinte, resolvi sair bem cedo, pouco tempo antes de Peeta e meu pai. Tentei cobrir a marca do tapa com maquiagem, mas só deu certo nas olheiras. Não tomei café da manhã. Eu queria sumir mais uma vez. O máximo que já consegui passar fora de casa foi dois dias, causou um desespero básico no Alex, e só.
Ele não chegou a colocar a polícia atrás.
Passei pela sala em passos silenciosos, cuidando para que ninguém me ouvisse.
Os dois estão na sala conversando com expressões sérias. A princípio eu não iria parar e ouvir tudo, mas eles falavam sobre ontem a noite.
Eu queria ouvir meu pai dizendo que se arrepende, mesmo que não seja diretamente pra mim.
— Isso não vai dar certo. Eu não quero atrapalhar a sua vida. Não quero ser motivo de discussões.
— Você não atrapalha em nada. Já falamos sobre isso. Você fica, considere essa casa como sua também.
— Mas a Katniss...
— A Katniss vai ter que entender, que você faz parte da família. Ela está com ciúmes, é normal. Ela tem esse jeito, mas é uma boa menina, a sua presença aqui pode fazer bem a ela.
— Eu não sei.
— Pelo menos tente.
Eu saí pela porta antes de ouvir o fim da conversa.
Essa falsa ingenuidade que ele demonstra me irrita.
O lugar que mais vou quando preciso de distração é o apartamento do Gale. Os pais dele moram fora do país, sendo assim, ele faz o que quer, quando quer, sem dar explicações a ninguém.
Tenho inveja dele algumas vezes.
Peguei um táxi gastando o pouco dinheiro que levei. Sem mesada pelos próximos meses.
— Chegou cedo hoje, gatinha. – Não é novidade ele vir atender a porta sem camisa. O apartamento tá' cheio de bêbados e garotas quase nuas. Ele considera essa gente como amigos. No fundo são só pessoas sem um tostão no bolso, buscando popularidade penduradas em um cara rico. — O que é isso no seu rosto?
— Meu pai me deu uma bofetada — respondo direta.
— Ele te bateu? Por que?
— Adivinha.
— O bastardo.
— Ele trouxe a mãe junto. Os dois jantaram lá em casa. Eu disse umas verdades e o resultado foi esse. – Ele toca o queixo pensando e vem com uma daquelas ideias que detesto.
Gale tem muitas qualidades, mas é um otário quando se trata de inteligência.
— Posso dar um jeito nele, hoje mesmo se quiser.
— Gale, eu não apoio o "jeito" que você dá nas coisas. O garoto é cego.
— Por que não me contou? — inquere surpreso.
— Eu soube ontem. Tem alguma coisa nele que me incomoda.
— Katniss, isso vai ser muito fácil! – exclama, com os olhos brilhando. — Quanto mais "frágil" ele for, melhor pra você.
— Eu não sei Gale, preciso pensar.
— Pensa bem.
— Escuta, só faça alguma coisa se eu pedir e eu não vou pedir, Gale.
Ele ergue as mãos se rendendo, e pronuncia um "Ok".
— Agora vamos para o quarto, mudei a decoração hoje de manhã. Você precisa relaxar.
Era a única coisa interessante que me restou para hoje.
Gale.
Eu não me imaginava injusta. Não passava pela minha cabeça estar cometendo um erro. Na verdade, aos dezessete anos, a única coisa que passava pela minha cabeça era a mim mesma. Pouco me importava o que pensavam as pessoas. Pouco me importava os outros me apontando como uma menina mimada.
Eu havia colocado na cabeça, o que pra mim era o melhor e o melhor era mandá-lo de volta para o interior.
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