Reflexo

3 Capítulo 3 - Por que eu?


Notas iniciais
Boa noite galerinha... Voltei com mais um capítulo. Agradeço a cada uma que está comentando e acompanhando. Por favor continuem me dizendo o que estão achando. Enjoy!

Soltei um suspiro frustrado, me virando a contragosto. Não precisei de muito esforço para entender que estava encrencada. A expressão de meu pai denunciava tudo. Algum castigo viria por aí.

Eu não entendo, já fiz coisas piores e o máximo que aconteceu foi uma daquelas conversas chatas entre pai e filha. Agora ele me olha como se eu tivesse matado alguém.

— Peeta, essa é a Katniss, minha filha. – Ele nos apresenta, ainda me encarando com raiva e se esforça para que o bastardo não perceba seu tom de voz.

É claro! Ele quer causar uma boa impressão.

— Prazer Peeta, e me desculpe por...

— Tudo bem, esquece. Pai podemos conversar lá dentro?

— Devemos. Laura acompanhe o Peeta até o quarto e o ajude com as malas. – Laura trabalha aqui em casa há anos, eu até me dou bem com ela. Gosto do seu jeito. Fala pouco, não pergunta, muito menos se intromete nas nossas conversas.

Eu espirro mais uma vez e sorrindo amigável ela segura em um dos braços de Peeta, o guiando até as escadas. Felizmente ele leva o cachorro pulguento junto.

— Pai! Ficou maluco? — Explodo ao notar que eles já se afastaram. — Eu tenho alergia a cachorros.

— Mais respeito, mocinha. É o guia dele, só vai ser usado nos primeiros dias, até ele se acostumar com a casa. Nada que você não possa aguentar.

— Não temos experiência com deficientes. Ainda mais um desse tipo. Eu não tenho, não vou saber como agir.

— Sem desculpas, Katniss. O Peeta fica. Não pense que eu esqueci o que andou aprontando. Como castigo, eu não quero mais que você saia de casa. Está de férias, não tem porque sair. Se me desobedecer, o castigo fica maior.

— Você nunca falou assim comigo. Tem me tratado diferente nesses dias – comento, dessa vez realmente magoada.

— Eu percebi que errei com você. Com a morte da Hannah, precisei ocupar todos os espaços vagos na sua vida. Nem sempre foi possível. Por isso eu não chamava atenção. Você já tinha problemas demais crescendo sem uma presença feminina. Talvez eu tenha usado isso como desculpa para ser menos pai.

— Onde quer chegar?

— O Peeta tem milhões de problemas. Problemas muito maiores que os seus e nem por isso, ele se transformou em um adolescente rebelde. Você precisa mudar Katniss. um pouco de responsabilidade não faz mal a ninguém. – Ele já ia saindo quando eu perguntei.

— Quanto tempo ele vai ficar aqui?

— Até o fim das férias.

Dois meses.

— A mãe dele veio junto. Ele não é acostumado a sair sozinho.

— Ela vai ficar também?

— Não, eu insisti, mas ela preferiu ficar na casa de uma amiga por um tempo. Espero que a trate bem. Não quero saber de você dando problemas. Seja com o Peeta ou com a mãe dele. As chaves do carro – ele pede, as jogo com raiva e subo as escadas apressadamente. Meu quarto é logo o primeiro, no início do corredor. A porta ao lado está aberta e a única mala média bem na frente, o que significa que ele escolheu um dos maiores quartos.

É tão óbvio.

Tá’ na cara que ele só veio interessado. Teve várias oportunidades de ter se aproximado antes. Quantos convites meu pai já fez por telefone e ele recusou?

Eu tenho certeza, esse Peeta não presta, só preciso de uma prova.

Só uma.

§§§§

Mesmo praticamente de madrugada, meu pai resolveu dar as boas-vindas, forçando um jantar em família. Laura serviu à mesa quase as onze horas da noite, depois de Effie, a mãe de Peeta chegar. Ela é baixinha, pouco parecida com ele, cabelos loiros e presos, usa umas roupas estranhas e simples, parece acanhada a mesa.

Deve ser porque não sabe comer usando os talheres, ou algo do tipo. Eu me pergunto como meu pai pôde se envolver com alguém assim um dia. Só conheço minha mãe por fotos, e devo admitir, ela era linda.

Quando eu era pequena dizia que quando crescesse seria igual a ela, falei isso até os oito anos, quando ele me contou da adoção.

Meu pai e Effie iniciaram uma conversa aleatória. Observo Peeta, que está sentado ao meu lado por um instante. Ele não tem dificuldades para comer, segurar o garfo e levar até a boca, e distingue perfeitamente os talheres, usando-os corretamente na hora certa.

Ele é até bonitinho prestando atenção.

O celular toca me assustando, quase dou um pulo da cadeira, estava concentrada demais olhando pra ele.

É uma mensagem do Gale perguntando se podemos sair amanhã. Lembro do tal castigo, incluindo a parte sem sair de casa, e respondo que talvez.

Posso dar um jeito de sair em silêncio, e voltar antes de amanhecer, fácil.

— Guarde o celular – ordena meu pai, rudemente.

Obedeço imaginando como seria uma vida sem celular.

— Continuando, amanhã cedo vou sair com o Peeta, antes de ir para o trabalho.

— Sair? Onde vão? – questiono.

— É um assunto complicado, depois conversamos. – Ele é sucinto e me ignorando, volta a falar com a mulher. — Durante a tarde, você pode ficar com ele aqui, Effie. Não é aconselhável deixá-lo sozinho.

Cerro os olhos, irritada. Como ele pode considerar a possibilidade de deixar estranhos com liberdade na nossa casa?

— Aqui? Não vai dar, Alex. Amanhã vou tentar conseguir um emprego.

Respiro aliviada.

— Então resolvido, a Katniss fará companhia ao Peeta.

— Por que eu? – pergunto sobressaltada.

— Algum problema?

— Não precisam se incomodar, sei me virar sozinho – justifica em tom baixo.

— Está vendo? Ele sabe se virar sozinho – insisto, perdendo a paciência.

Esse teatrinho todo já estava me cansando. Essa semana foi cansativa e logo na sexta-feira, quando eu devia estar relaxando, não estou. E tudo, é culpa do bastardo.

Desde o dia em que fiquei sabendo que ele viria, as coisas mudaram. Naquela semana eu não tinha apresentado um bom comportamento, como disse meu pai.

Ele cortou um dos meus cartões de crédito. Eu havia esquecido os outros em casa e só percebi quando fui efetuar o pagamento de um par de óculos escuros. Dei uma desculpa a vendedora, fingindo devolver os óculos, quando na verdade os guardei na bolsa e levei embora.

Naquela mesma noite a polícia bateu aqui em casa. Foi mais uma ficha na delegacia para a coleção. Torci para que ninguém descobrisse, não seria legal sair nos noticiários que, a filha de um empresário rico foi pega roubando em uma loja cara.

A questão é que, isso não é motivo suficiente para ele me punir, trazendo o bastardo caipira. Tenho certeza que é esse motivo. A culpa é minha, se eu não tivesse roubado os óculos, ele não traria o Peeta, e Peeta não o enganaria se fingindo de bom moço.

Parabéns, Katniss!

— Katniss, já conversamos.

— Não! Você conversou. Esse teatrinho todo, é por causa dos óculos escuros? Tenho dinheiro guardado, pago a porcaria dos óculos! Mas mande eles embora...

— Katniss!

— Você não tem o direito de me castigar trazendo pra casa um bando de caipiras.

— É melhor eu ir embora. – Effie se pronuncia já levantando.

— Também acho. – Cruzo os braços explodindo.

— O mundo não gira em torno de você.

— Não é o que parece, o que está pensando pai? Quer me comover trazendo um cego pra casa? Não está comovendo. Eu não ligo, é só olhar pra ele e perceber o tamanho do golpe. – Então ele faz uma coisa que eu nunca pensei que faria, muito menos na frente de estranhos. Quando termino a frase sua mão voa fortemente contra meu rosto, disparando um tapa ardido. Meus olhos se enchem de lágrimas, não permito que elas se libertem agora.

Ele se mostra arrependido ao perceber o que fez, só não me pede desculpas, nem demonstra uma reação assustada.

— Para o quarto, agora mesmo, Katniss. E só saia quando eu mandar.

Senti vontade de responder que sairia a hora que eu quisesse, mas não disse.

Corro até as escadas e antes de sair eu escuto duas frases.

— Você vai ter que entender. Agora essa casa, é do Peeta também.

Peeta responde um com licença, mas não espero ele me seguir. Corro o mais rápido que posso, entrando no quarto primeiro.

É tudo culpa dele, tudo.

Naquela hora eu não sabia como, nem quando, só sabia que faria a vida de Peeta um inferno nesses dois meses. Faria ele querer ir embora no primeiro ônibus.

Eu jurei que faria.

Notas finais
E aí, estão gostando? Comentem, por favor. Até breve.