Reflexo
2 Capítulo 2 - Bastardo dramático
Notas iniciais
LOS ANGELES, 13 DE JULHO DE 2010
Tudo começou em uma típica noite comum de sexta-feira. Eu tinha dezessete anos, e cursava o último ano do colegial. Era o começo de julho, e minhas férias de verão mal tinham se iniciado, mas eu já tratava de aproveitar.
Naquela noite eu e meus amigos – pelo menos naquela época eu os considerava assim – estávamos em uma boate no centro da cidade. As identidades falsas que consegui com meu namorado Gale, me ajudam, e muito. Pouco antes de sair de casa batendo a porta com raiva, briguei feio com o meu pai.
É o que sempre acontece quando percebo que algo meu, está sendo ameaçado, acabo explodindo com a primeira pessoa que estiver na frente. Naturalmente essa pessoa é também a responsável por tudo. Fui adotada por uma família rica quando tinha poucos meses de vida. Minha mãe adotiva morreu de câncer meses depois, sendo assim, fui criada pelo meu pai conseguindo absolutamente tudo. A minha vida sempre foi perfeita, ou pelo menos era até eu receber aquela notícia na semana passada. Antes de conhecer Hannah, meu pai teve um caso com a filha mais nova da empregada da família, e desse caso acabou saindo um filho. Eu nunca tive contato com ele, só ouvia falar por cima. Sei que se chama Peeta e, é um ano mais velho.
O problema é que, do nada meu pai resolveu trazê-lo para morar conosco. Resumindo, uma merda de notícia logo de manhã. A semana passou rápido depois que meu pai disse sobre o filho, o que pra ele, era uma ótima notícia. Eu, é claro, tentei protestar no começo, afinal a casa também é minha. Mas quando se é menor de idade, você nunca tem direito a opinar em nada.
São poucas as vezes que ele me trata assim, com dureza. Costuma pedir desculpas a noite. Surpreendentemente deixei a porta aberta, e não, ele não veio.
Não fiz questão de saber a data certa em que o maldito bastardo chegaria do interior, mas se bem conhecendo meu pai, não demoraria muito.
Gale se afastou para buscar uma bebida e demorado como sempre, ainda não voltou.
Rodeada por luzes e o som de uma música alta, eu me concentrava em equilibrar a ponta dos meus saltos na pista de dança, atraindo atenção dos garotos ali presentes. A maioria deles estudava comigo, e talvez eu já tenha tido alguma coisa com algum deles. Namoro sério mesmo, só com o Gale, o capitão do time de futebol.
— Só um drink, Gale? — perguntei emburrada, quando ele me entregou o copo.
— Você tá’ com o carro. Não quero que se meta em encrenca, mais uma vez – disse ele, me lembrando infelizmente, o episódio do começo do ano. Meu pai jurou naquela ocasião que nunca mais me daria um carro, no entanto, ele comprou um novo há poucos dias atrás.
— Preciso beber para esfriar a cabeça. Minha vida tá’ uma bagunça. — Virei o copo em um único gole, sentindo o líquido queimar, se desfazendo em meu estômago.
— Ainda o assunto do bastardinho? Relaxa, logo ele vai embora. Quer dizer, ele ainda nem chegou. Mas... — Ele me puxou pela cintura e sorrindo malicioso encaixou os lábios em meu ouvido. — Se quer esfriar a cabeça, podemos achar um lugar mais vazio.
— Não, não... você vai ter que se conformar em passar a noite sozinho hoje, sem sexo.
— Adoro quando se faz de difícil. — Ele iniciou os costumeiros toques ousados, distribuindo fortes beijos em meu ombro e clavícula, ambos desnudos. Muito bem guardado na bolsa presa em meu braço, o celular começou a tocar. Toques insistentes sem pausa.
Não afastei Gale, que agora sussurrava palavras sujas, tentando me convencer de que acabar a noite em sua cama. É a opção mais interessante para hoje.
— Alô?
— Katniss, onde você está?! Pensei que tinha dito para não sair de casa hoje.
— Droga!— Soltei baixo.
— Que barulho é esse? Venha pra casa agora! O Peeta ligou dizendo que chega em quinze minutos. E quero você aqui o atendendo com bons modos.
É só o que faltava, virar empregada particular do bastardinho.
— Claro pai, eu não demoro... — Ele desligou não me deixando terminar a frase.
Não era legal desobedecê-lo duas vezes em uma noite. Isso daria problemas mais tarde. Resolvi ir embora antes que o telefone voltasse a tocar.
Gale protestou no começo, e até se ofereceu para me levar, levando um não como resposta. Meu pai não apoiava nem um pouco o nosso namoro, na verdade, muitos diziam que somos um casal estranho.
§§§§
Pisei forte no acelerador, guiando o volante entre os carros na pista, essa madrugada não tinha como piorar. Uma vez ou outra, escutei conversas ao telefone de meu pai com a tal filha da empregada. Sempre elogiando o Peeta, e se gabando do menino de ouro que ele se transformou. Como ele podia pensar assim de um garoto que mal conhece? Pelo que sei eles só se viam nas datas comemorativas, quando meu pai passava uma semana, ou duas no interior, bajulando o bastardo.
Pingos de chuva embaçavam minha visão pelos vidros e mais uma vez o telefone tocou. Acelerei na velocidade que consegui, percebendo que já estava perto de casa.
Essa casa é pequena demais para dois adolescentes. Recordo-me bem da primeira vez que usei essa desculpa. Uma desculpa mentirosa, aqueles quartos todos estão vazios. Não que isso me incomode. Não posso dizer o mesmo de Alex. Ele passa a maior parte do tempo trancado no escritório. As vezes o pegava perdido, vagando pela casa. Talvez eu não seja uma boa companhia, ou uma boa filha.
Deixei o carro estacionado na garagem. Retirei os saltos, os prendendo entre os dedos, e entrei tropeçando nos próprios pés. O único copo de bebida começou a fazer efeito. A chuva aumentou me ensopando. Subo os lisos degraus e abro a grande porta destrancada.
Tudo está vazio e silencioso. Imaginei que ele quisesse fazer uma festa em comemoração à chegada do bastardo dramático, mas não, as coisas estão mortas como em todas as madrugadas.
Solto os saltos molhados no chão e um impacto forte vem contra meu corpo, praticamente derrubando-me no chão. Por sorte, seguro na parede e encaro o responsável com raiva.
Seus cabelos são pouco compridos, loiros e brilhantes. Ele usa uma blusa de moletom simples, daquelas 100% algodão e calça jeans. Suas mãos seguram forte a corrente que prende na coleira de um cachorro, grande e amarelo.
Imediatamente começo a espirrar.
Eu tenho alergia a cachorros.
O que se passa na cabeça desse cara? Nada pelo visto. Óculos escuros grossos cobrem seus olhos e o percebo sorrindo sem graça. Óculos escuros a noite? Me pergunto se o povo do interior cultiva essa mania.
— Droga garoto! Você não olha por onde anda? — pergunto grossa, entre um espirro e outro. — E leve esse bicho pra longe. Tenho alergia a cachorros.
— Desculpe... Eu não senti a presença de mais ninguém na sala. Você deveria ser mais educada com as visitas.
— Educada? Você praticamente me derruba e a mal-educada sou eu?
— Eu sou deficiente visual. Não é sempre que sei, quando divido o espaço com outra pessoa.
Me calo arregalando os olhos e uma mão toca meu ombro. Ser pega de surpresa não é algo que aprecio. Deficiente visual? Bom, acabo de fazer uma descoberta. Meu pai consegue ser pior que eu, quando o assunto é fazer besteiras.
— Achei que teria que pôr a cidade abaixo, atrás de você. E pelo jeito, já conheceu o Peeta...
Aquela não estava sendo uma das minhas melhores noites, e poderia piorar.
Fale com o autor