Reencontrar
6 Capítulo 6
No dia seguinte, acordei com Tom passando a mão em meu colar, olhando fixamente para ele.
- O que foi?- levantei depressa e segurei no meu colar.
- Nada. Colar bonito o seu.- ele disse.
Eu não pedi mais explicações, afinal, era um colar masculino, era normal que um menino gostasse do mesmo.
- Yuuki, me desculpe te deixar sozinha, mas preciso ir trabalhar, eu começo hoje. – ele sorriu empolgado.
- Tudo bem. Bom trabalho para você! – sorri de volta.
O dia era muito quieto naquela casa quando estava vazia. Fiquei o dia todo assistindo televisão, vestida com um moletom surrado que eu amava. Quando ia anoitecendo eu tomei um banho e fui até o parque. Cheguei lá e me sente de baixo daquela árvore perto do lago, abri meu caderno de desenhos e comecei pensar em um desenho bom para fazer.
- Você não voltou para sua terra, novata? – uma voz me chamou a atenção.
Procurei por alguém e não vi ninguém. De repente uma pessoa brota do meu lado.
- Quem é você? –perguntei.
- Meu nome é Camila. – ela disse.
- Ah sim, você deve ser uma das amiguinhas da Caroline, não? Por favor, eu não quero ninguém especulando sobre minha vida nas férias. – falei com desdém.
- Eu não quero especular sobre sua vida, eu apenas estava curiosa sobre você. Caroline fala muito mal de você sempre. Ela diz que você a odeia por ela ter surtado por ficar alguns meses sem namorado. – ela disse – isso é verdade?
- Sim, é verdade. Essa menina é muito egoísta e nem no cunhado que estava sofrendo ela pensou. — falei, tentando voltar minha atenção para o desenho.
- Bonito desenho. – ela falou sem jeito.
- Obrigada! Eu sempre desenho. – falei, sorrindo. – Você cursa o que?
- Eu curso faculdade de música – ela respondeu – inútil eu sei, mas eu gosto, sei lá, é inspirador.
- Eu entendo. Também gosto de música. – falei, tentando animá-la. – você é de onde?
- Sou daqui mesmo. Mas moro no campus porque meus pais foram contra minha escolha de faculdade. — Ela falou, lamentando.
- Yuuki, eu estava procurando por você... – Tom apareceu, me procurando, desesperado.
- Bom, nos vemos outro dia, então, Yuuki, até logo. – Camila disse, saindo para que eu pudesse ir de encontro a Tom.
- Eu estava aqui desenhando. – falei, olhando para Tom.
- Estava preocupado com você. – ele disse.
- Não precisava se preocupar. –respondi. – Tom, eu estava pensando, Georg não foi trabalhar e não veio mais aqui em casa, onde ele está?
- Ah, ele foi para o Japão com uma amiga, ele disse. – Tom respondeu.
Uma amiga? Me perguntei. Tudo se encaixava, Caroline fingia ignorar Georg perto das pessoas, ficara desesperada por ficar sozinha por um tempo e agora isso. Eu sabia o que estava acontecendo, mas não ia ficar contando para todos sem ter certeza. E também, Tom já estava abalado demais.
Estava ficando tarde e fomos para casa. Tom foi para o banho, pois estava todo fendendo a gordura e eu fui assistir televisão.
O meu celular tocou, era um numero deferente de todos que eu conhecia, não havia nem identificação.
- Alô! –atendi.
- Alô, Yuuki, sou eu, Simone. Desculpe te ligar essa hora, mas o Tom está? – ela perguntou.
- Sim, mas está no banho. Posso anotar o recado? – perguntei.
- Claro. Graças a sua ideia, eu sei que demorou um pouco, mas Bill acordou. Não falava coisas conclusivas, mas acordou e está bem. – ela disse.
Eu sorri e comecei chorar de alegria.
- Oh, meu Deus, que bom que ele acordou! Assim que Tom sair do banho, eu peço para ele ligar e falar mais um pouco ao ouvido de Bill. – falei.
Assim, desliguei o telefone e fui correndo ao quarto de Tom. Abri a porta que estava destrancada, Tom estava apenas de toalha, todo molhado.
- Tom! – gritei e pulei nos braços dele, derrubando-o na cama – Seu irmão acordou!
- Como? Yuuki... – ele não entendera muito bem.
Eu ergui meu tronco e olhei nos olhos deles. Eu estava em cima dele, sua toalha havia caído.
- Seu irmão acordou, Tom. Ele está bem agora, tudo está bem. Você já pode falar com ele. — respondi.
- Graças a Deus! – Tom gritou e começou chorar de alegria. – Graças a você, Yuuki.
Ele me deu um beijo. Aquele beijo, eu parecia estar esperando por ele há algum tempo, mas não exatamente dele. Um beijo suave, molhado pelas lágrimas que escorriam de nossos olhos. Um beijo longo e caloroso. Tom começou tentar tirar minha camisa.
- Tom, tente ligar para ele agora. – falei, interrompendo o beijo e o fogo que ele sentia.
- Tem razão, vou me vestir e já desço. – ele falou, sem graça.
- Ai, meu deus, você estava só de toalha. – falei envergonhada.
Saí do quarto sem saber onde colocar meu rosto. Que vergonha.
Tom desceu as escadas correndo e empolgado. Ele pegou o telefone e ligou para sua mãe. A conversa foi tão animada que eu me senti renovada. Enquanto Tom falava com sua mãe, a campainha tocou.
- Olá, Newton! Entre. — falei, surpresa em receber meu mentor nas férias.
- Como está aqui Yuuki? Algumas pessoas disseram que você não estava se adaptando. Se você quiser eu posso te mudar de casa. – ele sugeriu.
- Mas estou me adaptando muito bem. Por favor, me deixe aqui. — falei.
- Claro! Você teve a melhor nota, eu soube. Parabéns! – ele disse – Bom, eu só vim aqui para ver se tudo estava bem. Até logo, nos vemos no começo do próximo semestre. Até logo, Yuuki. Até logo Tom.
- Até logo! – gritou Tom, todo feliz.
Tom ficou horas conversando com sua mãe sobre a situação de Bill. Ele acordara, mas ainda não tinha tanta força para ficar conversando. A partir daquele momento, Bill tentaria melhorar e depois passaria por uma terapia intensiva. Eu me empolguei com Tom me dizendo tudo aquilo. Eu estava feliz. Aquele colar parecia conectar-se ao meu coração naquele momento.
Eu não sabia o que seria dali para frente. Tudo parecia incerto.
No resto daquela noite, fiquei pensando no beijo que eu dera em Tom, ou que Tom me dera, eu não sabia. Eu estava me desviando do meu objetivo, estava ficando com um menino depois de anos. Mas eu não podia, eu prometera a mim mesma que nunca ficaria com alguém que não fosse o menino do passado, aquele Bill que me dera aquele colar. Mas eu sabia que nunca mais o veria, eu nem sabia onde ele estava.
O outro dia chegou, e eu não tinha dormido ainda. Tom acordara para ir trabalhar e me viu acordada, no sofá, sentada olhando para o nada.
- Yuuki, o que houve? – ele perguntou.
- Eu não consegui dormir essa noite. – falei.
- Entendo. Bom, eu preciso trabalhar, mais tarde nos vemos. – ele disse.
Acenei que sim com a cabeça, ele se abaixou para me dar um abraço e me beijou. Mais um beijo, isso estava virando rotina. Fiquei sem reação novamente, mas retribui o beijo, este foi mais suave e sem lágrimas, foi mais breve também.
Tom saiu para o trabalho e eu deitei no sofá para tentar dormir, estava muito sonolenta, sem ter dormido a noite toda. Minha cabeça doía. Deitei, liguei a televisão e dormi. Acordei com Tom chegando do trabalho, já era noite.
- Nossa! Você estava dormindo até agora? – ele perguntou.
- Sim. Eu estava com muito sono, e peguei no sono, só acordei porque você fez barulho. – respondi.
Eu nunca dormira tanto. Ainda estava com sono, mas tentei ficar acordada.
- Eu trouxe comida. A mãe do Gustav mandou que eu trouxesse para nós comermos hoje. Ela diz ter gostado muito de você. Sanduiches, Yuuki! – ele disse, levando as coisas para a cozinha.
Levantei, eu estava de moletom. Eu sempre usei moletom surrado para dormir. É muito confortável.
Sentei-me à mesa para comer com Tom. Ele ficou me encarando enquanto eu comia.
- Hey, Tom, como foi seu dia? E o trabalho? – perguntei, mesmo de boca cheia, eu não queria dar uma brecha para Tom falar sobre os beijos.
- Foi bom, cansativo também. O trabalho é um pouco pesado, ficar servindo pessoas o dia inteiro, mas pelo menos tenho um emprego. – ele respondeu, abocanhando um pedaço do sanduiche.
Continuei meu jantar em silencio. Após comer, fui para o banho, eu ficara o dia todo sem tomar banho, sem nada, apenas dormindo.
Tom, por sorte, passava o maior tempo no trabalho, e o tempo que tinha livre, ele ficava conversando com sua mãe ao telefone para saber sobre Bill. Não estávamos conversando muito ultimamente. O que melhoraria meu dia seria se Gustav aparecesse lá para conversar com Tom. Eu sabia que uma hora ou outra ele iria conversar comigo, mas preferia fingir que não sabia de nada e agir naturalmente.
- Yuuki! – Tom gritou – Gustav vai dormir aqui por alguns dias. Tudo bem para você?
- Claro! Sem problemas. – gritei em resposta.
A noite estava muito fria. Após o banho, peguei meu cobertor na sala e fui para minha cama, ela era confortável. Liguei a televisão do quarto, meu notebook e fiquei lá. Gustav chegaria logo e ele e Tom ficariam a noite toda conversando e fazendo brincadeiras entre eles.
Estava assistindo televisão e a porta do meu quarto se abriu. Eram Tom e Gustav, eles estavam com suas cobertas e seus travesseiros em uma das mãos, Gustav trazia consigo uma garrafa de vodka e Tom com uma garrafa vazia.
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