Redrum

4 Capítulo 03 - Segredos


No dia seguinte ao funeral, Sarah estava novamente sentada no chão frio da sala de brinquedos do orfanato Overlook, conversando com as crianças, que a cada dia pareciam piores.

– Vocês não têm nada a mais para contar? – Perguntou ela, esperando que alguma criança levantasse sua pequena mão e a informasse sobre o que Harry queria dizer no dia anterior.

Elas ficaram caladas.

– Vocês podem se abrir comigo, eu sou amiga de vocês.

– Não é que não queremos falar, nós não podemos – Uma garota ali na frente sussurrou para ela, olhando para os lados.

– Por quê está sussurrando, Jennifer?

– Eles estão nos ouvindo agora.

– Quem?

– Você não acredita, você é adulta.

Neste exato momento, Lana entrou na sala vestindo um longo vestido florido.

– Vamos crianças, é hora do lanche – Disse ela, com um leve sorriso no canto da boca. Ela e todos as outros moradores do local estavam começando a superar a grande tragédia.

Os garotos e garotas levantaram-se do chão e seguiram a mulher. Jennifer, a garotinha, ficou. Olhava para uma pilha de brinquedos com bonecos e bonecas. Estava amedrontada.

– O que houve, Jen? – Perguntou Sarah, segurando sua mão – Eu posso te chamar de Jen, não posso?

– Não foi nada, eu só estou... – Ela não terminou a frase, apenas soltou-se das mãos da psicóloga e saiu apressada para acompanhar as outras crianças. Estava visivelmente assustada.

Sarah olhou para os bonecos, observou-os de longe, pensando no porquê de tanta estranheza com eles. Já era a segunda criança a ficar intimidada pelos brinquedos.

Ela levantou do chão e caminhou até a pilha de bonecos. Ajoelhada no tapete emborrachado de letras do alfabeto, pegou o primeiro deles. Tinha negros fios sintéticos de cabelo e um sorriso angelical. Seus olhos eram vazios, encarando o nada e refletindo a imagem do rosto de Sarah.

– O que vocês têm de especial? – Perguntou ela a si mesma, pensando mil coisas.

– Srta. Ives, você aceita um chá? – Ela foi surpreendida por uma jovem mulher de cabelos loiros, que estava na porta, com metade do corpo dentro da sala.

– Oh sim, obrigada – Sarah respondeu, colocando o boneco sobre a pilha novamente.

Levantou-se do chão e acompanhou a mulher até o local onde os jovens tomavam um lanche. Era amplo e tinha um teto altíssimo. As crianças estavam sentadas em cadeiras dispostas ao longo de grandes mesas de madeira, sem fazer barulho, apenas comendo seus sanduíches de queijo. Não havia a algazarra que era comum em jovens daquela idade.

Sarah caminhou pela extensão do local até uma pequena mesa onde Lana e outras mulheres estavam sentadas. Era um pouco afastada das outras mesas.

Ao sentar em uma das cadeiras na mesa, virada de costas para as crianças, ela foi servida com uma xícara de chá pela mesma mulher que havia lhe convidado. Também havia bolachas e pãezinhos.

Sarah olhou para trás, observando o comportamento estranho das crianças. A maioria estava com a cabeça baixa, em silêncio, perturbadas por algo do qual ela ainda não tinha conhecimento.

***

Ela estava caminhando pelo corredor principal, em direção à saída. O trabalho daquele dia havia terminado. Agora estava indo para casa.

Sentiu uma algo segurar seu braço, uma pequenina mão gelada.

– Srta. Ives, eu tenho que contar uma coisa – Disse uma garotinha de cabelos ruivos. Era Laura.

– O que houve, querida? – Ela perguntou, vendo que a garotinha estava visivelmente abalada. Em seguida ajoelhou-se, para que ficasse à altura da criança.

– Eu tô com muito medo.

– Medo de que?

Ela olhou pros lados, não havia ninguém por ali.

– Dos bonecos.

– Dos bonecos?

– É, dos bonecos, eles são maus, eles que mataram o Peter – Ela queria chorar.

– Não diga uma coisa dessas, como um boneco poderia ter feito aquela barbaridade. Não tenha medo, eles são inofensivos.

– O que é inofensivos? – Laura perguntou e Sarah quase riu de sua ingenuidade e doçura. Tinha apenas 5 anos.

– Eles não podem fazer nada com você.

– Mas eles disseram que a gente vai morrer se contar o segredo deles.

– Que segredo? – Ela ficou curiosa, obviamente, mesmo sem acreditar, precisava escutar, pois aquele medo poderia estar relacionado ao acidente de outra forma.

– Eles são muito maus.

– Como assim maus?

– Eles fazem coisas más e fazem a gente prometer que não vai contar nada pra Srta. Fowler.

– Que tipo de coisas?

– Eles quebram os outros brinquedos e... E...

– E o que? – Sarah começava a achar aquilo curioso. Era normal uma criança culpar a si mesmo pela morte de um ente querido, mas nunca bonecos.

– Eles machucam a gente.

– Como assim?

Ela levantou a alça de seu vestido e revelou uma marca vermelha no braço esquerdo. Por um momento Sarah desconfiou de que as mulheres que cuidavam do lugar estavam fazendo aquilo, mas sua ideia foi por água abaixo quando ela percebeu que as mãos eram muito pequenas para uma pessoa adulta. Parecia a de um boneco mesmo, mas na verdade poderia até ser a marca de sua própria mão, ou de algum amigo.

– Você acha que um boneco fez isso?

– Eu tenho certeza!

– Então tá, olha... – Ela não sabia o que dizer.

– É a Srta. Fowler, não conte nada a ela, por favor, ela pensa que eu estou mentindo, mas você acredita em mim, não acredita?

Sarah pensou um pouco e decidiu levar a história adiante. O caso daqueles garotos era mais grave do que o que ela pensava.

– Sim, eu acredito.

Laura deu um sorriso e saiu correndo para algum lugar do casarão.

– Era a história dos bonecos? – Perguntou Lana, sorrindo.

– Não, era outra coisa – Sarah respondeu, devolvendo o sorriso. Nem sabia porque havia mentido.

O silêncio permanece por três segundos quando o assunto acabou.

– Err... Enfim, eu já estou indo – Disse Sarah, limpando os seus joelhos que na verdade nem estavam sujos, já que o chão era tão bem encerado que ela poderia beijá-lo.

– Até amanhã, então.

– Até.

Ela saiu caminhando até o seu carro, carregando sua inseparável bolsa pendurada no antebraço esquerdo. A chave do carro ia na mão direita.

Harry estava certo. As crianças estavam com medo dos bonecos e não perturbadas pelo acidente com Peter, mas o motivo nada mais era do que a culpa que as crianças normalmente sentiam ao perder pessoas próximas. Ela sabia que esse era o motivo certo, ou pelo menos achava que sabia.