Redrum
3 Capítulo 02 - Funeral
Já era noite, Sarah estava em seu apartamento, sentada sobre o sofá de tecido macio, segurando uma xícara café com leite. Pensava naquelas crianças e no choque haviam sofrido, enfrentando a morte tão cedo, e de uma forma tão violenta.
Deu um gole em seu café e lembrou-se do pior de dia de sua vida. Quando perdera sua única irmã.
Ela tinha sete anos e estava na praia. Brincava de construir castelos de areia com Sue.
Sua irmã pegou um pequeno balde e disse que recolheria mais água para deixar a areia mais firme. Sarah esperou, olhando ela entrar na praia quase deserta. Segundos depois, estava submersa, com os braços para fora da água, acenando. Pedia socorro.
Sarah gritou por ajuda, e correu para ajudar a irmã. Foi quando os pais viram o que estava acontecendo e correram para ajudar a garota.
Quando tiraram Sue da água ela já estava sem vida. Os pais tentaram esconder a verdade, mas ela sabia. Sabia que sua irmã não tinha viajado, sabia que ela não voltaria. Estava morta. Já sabia da verdade, tinha visto naquele terrível dia.
Quando sua mente voltou à realidade, ela percebeu que seus olhos lacrimejavam. Enxugou-os e colocou a xícara de café sobre a mesinha de centro. Depois se deitou no sofá, cobriu-se com uma coberta e ligou a TV com o objetivo de encontrar um filme para distraí-la.
***
No dia seguinte, depois de fechar o consultório mais cedo, ela estava novamente dirigindo em direção ao Overlook. Passou novamente pela ponte e chegou ao orfanato. Lana veio recebê-la desta vez.
Era o dia do funeral do garoto. Seu túmulo seria no próprio quintal, como forma de ser lembrado para sempre.
Ela vestia uma saia preta com uma blusa de mesma cor, assim como Lana, que também estava preto, entretanto, com um vestido.
***
Minutos depois, Sarah estava na sala de brinquedos, conversando com as crianças. Ainda estavam abaladas. Na verdade pareciam até mais do que antes. Como se estivessem com medo de algo.
– Como vocês estão? – Ela perguntou, sorrindo. Sabia que eles não estavam bem.
Eles não responderam.
– O que aconteceu, vocês estão tristes?
Desta vez, uma garotinha respondeu. Alicia, a menina encantadora do outro dia. Não estava tão alegre agora.
– Sim, estamos.
– O que aconteceu? Vocês podem me contar, eu sou amiga de vocês.
Uma das crianças olhou para o lado esquerdo, respirou fundo e depois falou:
– Nós estamos bem, é sério.
Ele olhava para alguns brinquedos amontoados em uma pilha. Bonecos dos mais variados tipos e tamanhos.
– É que... – Disse um dos garotos, obviamente tentando inventar algo – Nós estamos tristes pelo Peter.
– Eu entendo – Disse Sarah, de olho nos bonecos. O outro garoto parecia ter medo deles, estava os fitando, assustado – Mas nós já conversamos sobre isso ontem, ele está em um lugar melhor agora, e vocês poderão se despedir deles em poucos minutos.
***
Meia hora depois, todas as crianças e adolescentes do orfanato, junto com as pessoas que ali trabalhavam, estavam no quintal, vestidos de preto, em frente ao um buraco no chão, onde um pequeno caixão branco estava colocado.
– Que a alma de Peter Dinkle descanse em paz – Disse um homem de roupa preta com uma faixa branca sobre os ombros. Um padre. Havia terminado seu discurso e a maioria das pessoas estavam emocionadas, chorando. Foi formada uma fila de crianças segurando flores brancas para lançar sobre o caixão.
Sarah resolveu se afastar um pouco, caminhou pela grande extensão de grama até a parte da frente da escola, onde havia um grande muro de grades, com vista para o mar.
Ficou observando a praia, pensando na tristeza de todas aquelas pessoas e lembrando do funeral de sua irmã. Foi do mesmo jeito. Olhar aquelas crianças lançarem flores ao túmulo como ela fez no de Sue era simplesmente difícil. Trazia muitas memórias, principalmente sobre o que dissera ao jogar a flor. Perguntou à irmã se um dia iria vê-la novamente. A pergunta se foi com o vento daquele dia de outono e nunca foi respondida.
– É linda, não é? – Perguntou uma voz masculina atrás dela, tirando sua concentração – A praia.
Ela se virou e deparou-se com um garoto de mais ou menos 18 anos de idade, dando um leve sorriso. Ele estava com as mãos no bolso de seu terno preto.
– Muito – Ela respondeu, voltando a olhar a bela praia, que em alguns quilômetros dava lugar a uma civilização.
Ele se aproximou e ficou em pé ao lado dela.
– E você é... – Disse Sarah, esperando que ele se apresentasse.
– Harry Dinkle.
– Oh, ele era seu irmão – Ela lembrou de Lana ter mencionado o irmão do garoto – Eu sinto muito.
– Obrigado.
– Você não está chorando – Ela estranhou, olhando para o rosto do garoto, seus olhos sequer estavam vermelhos.
– Digamos que eu já presenciei a morte muitas vezes nesta vida – Ele não tirava os olhos do mar. Sarah sabia que por dentro o garoto estava sofrendo.
– Eu sei como é.
– Provavelmente sim.
– Eu perdi uma irmã aos sete anos de idade.
– Eu sinto muito, deve ter sido horrível.
– E foi, até hoje eu me culpo.
– Mas você é uma psicóloga, não deveria esquecer seus sentimentos e se preocupar apenas com os outros? – Ele brincou.
– Todos nós temos emoções sombrias, não se vive apenas de alegrias.
Eles se entreolharam e, por um momento, ela se flagrou sorrindo. Havia algo naqueles olhos castanhos claros, um grande sofrimento disfarçado por um leve sorriso. Ela desejava ser forte daquela maneira.
– Acho que alegria é uma palavra que eu desconheço há muito tempo – Ele disse, tornando a olhar o mar novamente.
– Não diga isso, você é jovem, ainda pode construir seu futuro.
– Esta é a Sarah ou a Dra. Ives falando?
– Você sabe meu nome? – Ela ficou surpresa.
– As pessoas falam sobre você... Está fazendo um ótimo trabalho com as crianças.
– Obrigado.
– Entretanto, eu preciso dizer que não adiantará de nada.
– Por que acha isso?
– Porque está indo pelo caminho errado.
– O que? – Ela perguntou, confusa, e eles se olharam.
– A preocupação deles não é a morte do Peter.
– Como assim?
– O pavor vem de muito antes do acidente.
– Eu não entendo.
– Deveria conversar mais com seus pacientes, doutora – Disse Harry, dando um sorriso, em seguida, saiu caminhando pelo gramado, deixando Sarah confusa sobre o que ele queria dizer.
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